sexta-feira, 9 de junho de 2017

Cinema e política: A anatomia dos acontecimentos



A anatomia dos acontecimentos

VLADIMIR SAFATLE (09/06/2017 02h50)

"Na minha opinião, eles querem se libertar de toda a velharia e tornar-se disponíveis para algo de novo que ainda não sabem bem o que será. Não querem ser pegos de surpresa. Meu fotógrafo, por exemplo, recusa-se a se engajar, mas não é um amoral, um insensível, e eu o olho com simpatia; recusa-se a se engajar porque quer se manter disponível para algo que virá, que ainda não existe". Este é o cineasta italiano Michelangelo Antonioni falando sobre Thomas, o fotógrafo de moda personagem de "Blow-up: Depois Daquele Beijo" (1966), um de seus mais conhecidos filmes e, certamente, um dos mais importantes filmes da história do cinema.

Este depoimento encontra-se em um entrevista dada por Antonioni a Alberto Moravia à época do lançamento do filme. Ela faz parte do recém-lançado "Aventura Antonioni" (ed. Voa!, 720 págs.).

O livro é uma extensa compilação de textos escritos por Antonioni, além de entrevistas e críticas feitas à época (principalmente na imprensa italiana) sobre cada um dos seus 15 filmes. Dentre tal material, há textos preciosos de Roland Barthes, Italo Calvino, Alberto Moravia, Pier Paolo Pasolini, Wim Wenders, Giulio Carlo Argan. Há ainda uma entrevista realizada por Jean-Luc Godard.

Diante desta verdadeira reconstrução do horizonte de debates em torno da obra de Antonioni emerge os eixos principais de suas questões e sensibilidade.

Muito já se falou sobre uma espécie de "retorno à interioridade" que seria característica dos filmes de Antonioni com seus personagens em fuga, seus casais em crises mudas e em desabamentos imperceptíveis, sujeitos tocados em "suas relações epidérmicas com o mundo".

Assim, contra o ímpeto documental do neorrealismo italiano, Antonioni seria aquele que teria dito: "Porque hoje, num clima normalizado –bem ou mal, pouco importa– o que conta não é tanto a relação do indivíduo com o meio ambiente, mas o indivíduo em si, em toda sua complexa e inquietante verdade".

Mas a leitura de "Aventura Antonioni" demonstra como esta dicotomia não se sustenta. Pois a verdadeira questão de Antonioni é: o que é, de fato, um acontecimento, como ele é vivenciado pelos sujeitos, como ele opera? Ou seja, o que de fato nos revoluciona? Thomas (David Hemmings) recusa-se a se engajar não porque ele seja alguém perdido na frivolidade do mundo glamorizado das imagens, mas porque ele espera por um acontecimento. Sua câmera fotográfica procura alguma forma de choque, seja vindo da sexualidade, seja vindo do tempo incontado dos gestos fortuitos que se captam no exterior. E em um destes gestos ele encontra algo. Ele vê uma jovem mulher (Vanessa Redgrave) em um flerte aparente com um homem mais velho em um parque. Esta é a primeira mulher que se recusará a ser fotografada por ele, que exigirá os filmes das fotos que ele tirou sem permissão, que lhe seduzirá para desaparecer de seu sistema de imagens.

O resto da história, todos os cinéfilos conhecem. Thomas descobrirá as marcas de um assassinato ao ampliar as fotos, ele verá o corpo morto a noite, mas este corpo desaparecerá, sem deixar rastos. Pois, como dirá Antonioni: "não se penetra nos fatos com a reportagem". Não se descreve acontecimentos como se estivéssemos diante de uma linguagem descritiva de jornal. Por isto, aquele acontecimento continuará para ele impenetrável, como se fosse um jogo jogado com uma bola que, para ele, é inexistente. Até que ele aprenda, ao final, a pegar a bola que parecia inexistente.

É assim que os personagens de Antonioni se movem. Para quem os vê, eles parecem se mover lentamente. Mas, para eles próprios, eles estão em linhas de fuga, em desaparecimento e em outras estratégias que visam quebrar os círculos de alienação por meio de uma recomposição de suas sensibilidades.

Eles estão em irreversível afastamento da ordem da reprodução material da vida social, como Giuliana (Monica Vitti), a mulher do industrial de "Deserto Rosso" que vaga diante de paisagens de um mundo do trabalho desolado, mas com uma certa beleza melancólica. Vaga como quem diz que irá abandonar este mundo mesmo que, para isto, ela tenha que flertar com a neurose. Foi assim que Antonioni construiu as imagens de um outro engajamento, uma engajamento com o caráter disruptivo dos acontecimentos.

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Governo fortalece BC para delação de Palocci

GABRIELA VALENTE valente@bsb.oglobo.com.br

Banco Central terá mais instrumentos para combater irregularidades e poderá fazer acordo de leniência


Segundo fonte, o BC precisa estar preparado porque 'ninguém sabe o que está por vir' O governo deu mais poderes ao Banco Central (BC) e à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para fiscalizar e punir infrações no mercado financeiro. As novas regras foram criadas por medida provisória e têm por objetivo proteger o sistema financeiro dos efeitos das denúncias que devem vir à tona na iminente delação do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, que pode envolver o BTG. A CVM e o Banco Central poderão, a partir de agora, fazer acordos de leniência. E as multas máximas aplicadas foram elevadas para até R$ 2 bilhões. -BRASÍLIA- Em meio ao desgaste da delação da JBS e buscando se preparar para o que pode vir nos relatos do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, o governo editou ontem uma medida provisória (MP) que aumenta os poderes do Banco Central (BC) e da Comissão de Valores Mobiliários (CVM, o órgão que regula o mercado de capitais). O governo elevou as multas máximas para bancos que cometerem infração de R$ 250 mil para R$ 2 bilhões, como havia antecipado O GLOBO em abril. Mas as mudanças vão além: a MP cria acordo de leniência para instituições financeiras e ainda permite que o BC possa firmar negociações como o Termo de Ajustamento de Conduta, que já é usado pelo Tribunal de Contas da União.
Os últimos detalhes foram acertados, na terça-feira, em reunião entre o presidente Michel Temer e o chefe do BC, Ilan Goldfajn. Foram discutidas, ainda, estratégias para a aprovação da matéria no Congresso Nacional.
A iminência da delação de Palocci também está no radar do BC, que quer proteger o sistema financeiro dos impactos que, teme-se, esta poderá causar nos bancos. A equipe econômica ainda se prepara para fatos novos que podem surgir sobre a relação entre o governo e o banco BTG Pactual, de André Esteves, nos últimos anos.
- Ninguém sabe ao certo o que está por vir. O Banco Central tem de estar preparado para tudo - falou uma alta fonte da equipe econômica.
Apesar das mudanças, as multas só valem para delitos cometidos a partir da edição da MP, ou seja, a partir de ontem. No entanto, dá mais poderes para as autoridades investigarem fatos ocorridos no passado, como os possíveis ganhos obtidos pela JBS no mercado financeiro dias antes da divulgação da gravação feita pelo dono da JBS, Joesley Batista, de sua conversa com o presidente Temer. FISCALIZAÇÃO MAIS ÁGIL Com a medida, o BC ganha alguns instrumentos para apertar a fiscalização. Passa a dispor do Termo de Compromisso, que representa um canal para a solução de controvérsias, nos mesmos moldes já adotados no exterior. A expectativa é que a fiscalização fique mais ágil. Isso deve acelerar a adoção de medidas corretivas, inclusive a indenização de prejuízos.
Já o acordo de leniência poderá ser celebrado com pessoas físicas ou jurídicas. Ele abre espaço para os colaboradores conseguirem a redução ou até mesmo a extinção da pena.
A MP também prevê medidas coercitivas e preventivas, inclusive multa diária de até R$ 100 mil nos casos de não cumprimento das determinações do órgão supervisor. Os parâmetros e a gradação das penalidades serão objeto de regulamentação do BC, a ser divulgada nas próximas semanas.
Em 2010, o Banco Central percebeu que precisava reformular a lei para adequar-se a padrões internacionais. Dois anos depois, deu início às discussões. O projeto, no entanto, só ganhou corpo no ano passado, depois de Ilan assumir o comando do BC.
As novas regras processuais, o termo de compromisso, o acordo de leniência e as medidas coercitivas e acautelatórias passaram a valer a partir de ontem. Com a MP, o BC pode punir não apenas empresas independentes que prestam serviços para instituições financeiras, mas os próprios auditores. RECURSOS IRÃO PARA FUNDO Na Operação Greenfield, da Polícia Federal, que investigou o tráfico de influência em fundos de pensão, observou-se que muitos auditores haviam dado pareceres considerados temerários pela Justiça. Joesley Batista também foi alvo dessa operação.
O poder do BC também aumentou em relação a quem opõe embaraço à fiscalização. "Antes, só era considerado embaraço à fiscalização a negativa de atendimento às solicitações do BC. Pela MP, essa tipificação foi ampliada, passando a abranger, além da negativa de acesso a documentos e a dados, o descumprimento de prazos, forma e condições estabelecidas pelo BC", explicou a autarquia.
Além disso, o BC tipificou o que é infração grave. Entre elas, está causar dano à liquidez ou assumir risco incompatível com a estrutura patrimonial de uma instituição financeira. Outra é contribuir para gerar indisciplina no mercado ou afetar a estabilidade do sistema. E, ainda, provocar perda da confiança da população no uso de instrumentos financeiros.
As penalidades poderão ser cumulativas. O BC ainda poderá publicar a decisão de punir as instituições. Pela lei anterior, os detalhes não podiam ser dados.
O governo criou ainda o Fundo de Desenvolvimento do Sistema Financeiro Nacional e Inclusão Financeira. Os recursos eventualmente arrecadados com a celebração de termos de compromisso e em reparação a danos serão usados em projetos e atividades voltadas à manutenção da estabilidade do sistema financeiro.
ENTENDA AS PRINCIPAIS MUDANÇAS
MULTAS NO BANCO CENTRAL: O governo elevou o valor máximo para as multas a bancos que cometerem infração de R$ 250 mil para R$ 2 bilhões. 
MULTAS NA CVM: O montante máximo, que antes era de R$ 500 mil, agora poderá chegar a R$ 500 milhões, ou o dobro do valor da operação irregular, ou até 20% do faturamento da empresa, o que for maior. 
MULTA COMINATÓRIA: Éa penalidade aplicada pela CVM em caso de descumprimentos de ordens, como prestação de informações financeiras. Antes, era de R$ 1 mil por dia. Agora será de R$ 100 mil diários. 
ACORDO DE LENIÊNCIA: Tanto BC como CVM poderão fazer acordos de leniência com bancos e empresas infratoras, pelos quais os colaboradores gozam de redução das penas. No caso do Banco Central, isso também poderá ser feito com pessoas físicas. Na CVM, ainda falta regulamentação. 
TERMO DE AJUSTE: A exemplo do que já ocorre hoje no Tribunal de Contas da União, o BC poderá fazer termos de compromissos com os infratores, um canal para solução de controvérsias que agiliza punições e soluções. 
AUDITORES: A partir de agora, o Banco Central poderá punir não apenas auditorias independentes que prestam serviços a instituições financeiras, mas também os auditores.
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