terça-feira, 8 de agosto de 2017

O novo socialismo dos tolos (Bradford DeLong, Project syndicate, Valor Econômico)

Valor Econômico - 8/8/2017


De acordo com a teoria econômica tradicional, a globalização tende a beneficiar as empresas e pessoas físicas em todos os níveis e tem pouco efeito sobre a distribuição de renda como um todo. Mas "globalização" não é sinônimo de eliminação de tarifas e de outras barreiras sobre as importações que proporcionam vantagens a produtores domésticos politicamente influentes em busca de rentabilidade. Como costuma destacar o economista Dani Rodrik, da Universidade de Harvard, a teoria econômica prevê que a eliminação das barreiras tarifárias e não tarifárias produz, efetivamente, ganhos líquidos, mas também resulta em grandes redistribuições, motivo pelo qual eliminar barreiras menores rende redistribuições maiores em relação aos ganhos líquidos.
A globalização, para os nossos fins, é diferente. Deve ser entendida como um processo pelo qual o mundo se torna cada vez mais interconectado por meio de avanços tecnológicos que reduzem os custos com transporte e telecomunicações.
Essa forma de globalização, com certeza, permite que os produtores externos exportem produtos e serviços para mercados distantes a um custo mais baixo. Mas também abre os mercados de exportação e reduz os custos para o outro lado. E, no final, os consumidores obtêm mais por menos.
De acordo com a teoria econômica clássica, a redistribuição só ocorre quando as exportações do país exigem fatores de produção amplamente diferentes que os dos produtos que ele importa. Mas não há diferenças desse tipo na economia mundial atual.
Nos Estados Unidos, um superávit do balanço de pagamentos financeiro significa que um número maior de americanos será empregado como trabalhadores de construção, produtores de bens de capital, enfermeiras e auxiliares domésticos da área de saúde. No mesmo sentido, um superávit em serviços implica que um número maior de americanos vai trabalhar não apenas como consultores de alto grau de instrução (e bem-remunerados) em torres de vidro e aço, mas também como zeladores e governantas em hotéis próximos ao Parque Nacional de Yellowstone.
Ao mesmo tempo, um Déficit da indústria de transformação poderá criar mais vagas na indústria de transformação no exterior, em países em que os custos da mão de obra são baixos em relação ao capital; mas isso acaba com relativamente poucas vagas nos EUA, onde a indústria de transformação já é um setor altamente capital intensivo. Como vem apontando há 30 anos o economista Robert Hall, da Universidade de Stanford, há mais americanos empregados na venda de carros do que na sua produção. As commodities que os EUA importam do exterior incorporam uma quantidade significativa de trabalho relativamente pouco qualificado, mas não desbancam muita mão de obra pouco qualificada nos EUA.
Em vista disso, pelo menos em teoria, a mudança ocorrida nos empregos dos EUA, do trabalho industrial na linha de montagem até a construção, os serviços e o trabalho de vigilância e inspeção, pode ter tido um impacto sobre a distribuição geral de renda em termos de gênero, mas não em termos de classe. Por que, então, tem havido resistência política tão forte à globalização no século XXI? Vejo quatro motivos.
Já se passaram dez anos desde a crise financeira e o início da "Grande Recessão" no norte do planeta. Os governos ainda não repararam os danos causados por esses acontecimentos. Se não o fizerem, "ismos" dos tolos continuarão a semear a destruição nas próximas décadas
Em primeiro lugar, e mais importante, é fácil para os políticos atribuir a culpa dos problemas de um país aos estrangeiros e imigrantes que não votam. Em 1890, quando os políticos do Império Austro-Húngaro costumavam responsabilizar os judeus por diversos males socioeconômicos, o dissidente austríaco Ferdinand Kronawetter observou, celebremente, que "Der Antisemitismus ist der Sozialismos der dummen Kerle" (o antissemitismo é o socialismo dos tolos). O mesmo pode ser dito hoje da antiglobalização.
Em segundo lugar, mais de uma geração de crescimento econômico desigual e mais lento que o previsto no norte do planeta criou uma forte necessidade política e psicológica de bodes expiatórios. As pessoas querem um discurso simples para explicar por que não estão alcançando a prosperidade que lhes foi prometida no passado e por que existe um fosso tão grande e crescente entre uma classe alta cada vez mais rica e todo o resto da população.
Em terceiro lugar, a ascensão econômica da China coincidiu com um período no qual o norte do planeta enfrentava dificuldades para alcançar o pleno emprego. Ao contrário do que os seguidores de Friedrich von Hayek e Andrew Mellon sempre afirmaram, as readaptações econômicas não ocorrem quando as falências expulsam a mão de obra e o capital de setores de baixa produtividade e baixa demanda, e sim quando os surtos de crescimento atraem a mão de obra e o capital para setores de alta produtividade e alta demanda.
Portanto, o neoliberalismo não requer apenas mercados abertos e competitivos, mudança mundial e estabilidade dos preços. Depende também do pleno emprego e de surtos de crescimento quase permanentes, exatamente como advertiu o economista John Maynard Keynes nas décadas de 1920 e de 1930. Nas últimas décadas, a ordem neoliberal não gerou nenhuma das duas condições, mais provavelmente porque teria sido impossível gerá-las mesmo com a adoção das melhores políticas econômicas.
Em quarto lugar, os formuladores de políticas públicas não fazem o suficiente para compensar por esse fracasso com políticas sociais mais agressivas e com a redistribuição econômica e geográfica. Quando o presidente dos EUA, Donald Trump, disse recentemente aos habitantes do norte do Estado de Nova York que eles deveriam sair da região e procurar empregos em outros Estados, ele estava simplesmente repetindo o que dizia a geração passada de políticos de centro-direita do norte do planeta.
Os atuais dilemas políticos e econômicos do norte do planeta não são tão diferentes dos da década de 1920 e de 1930. Como observou Keynes na época, o fundamental é produzir e manter pleno emprego, situação em que a maioria dos demais problemas desaparecerá.
E, como argumentou o economista austro-húngaro Karl Polanyi, é papel do governo garantir os direitos socioeconômicos. As pessoas acreditam que têm o direito de viver em comunidades saudáveis, manter empregos estáveis e receber uma renda satisfatória que aumenta com o passar do tempo. Mas esses direitos presumidos não derivam naturalmente dos direitos de propriedade e das pretensões a recursos naturais escassos - as moedas da esfera neoliberal.
Já se passaram dez anos desde a crise financeira mundial e o início da "Grande Recessão" no norte do planeta. Os governos ainda não repararam os danos causados por esses acontecimentos. Se não o fizerem logo, os "ismos" dos tolos continuarão a semear a destruição nas próximas décadas. (Tradução de Rachel Warszawski)
J. Bradford DeLong, ex-vice-secretário assistente do Tesouro dos EUA, é professor de Economia da Universidade da Califórnia, campus de Berkeley, e pesquisador adjunto da Agência Nacional de Pesquisa Econômica. Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Hackeando as urnas digitais (Ronaldo Lemos, FSP)



FSP 7/8/17
Foi realizada há poucos dias a maior conferência "hacker" do planeta, a Defcon, que acontece anualmente em Las Vegas, nos EUA.
Nesta edição, a novidade foi que hackers investigaram pela primeira vez a segurança das urnas eletrônicas. A conclusão não é animadora. Todos os modelos testados, invariavelmente, foram facilmente invadidos em menos de duas horas.
Esse experimento acende uma luz amarela para o Brasil, grande usuário de urnas digitais, especialmente em face das eleições vindouras.
A Defcon acontece desde 1993. Neste ano, atraiu mais de 20 mil pessoas, incluindo profissionais de segurança, advogados, jornalistas, agentes governamentais e, obviamente, hackers.
A decisão de se debruçar sobre as urnas eletrônicas decorre de um contexto em que ciberataques internacionais estão se tornando cada vez mais comuns nos processos eleitorais das democracias do Ocidente. Nesse cenário, qualquer sistema digital pode ser vítima de manipulação, e as urnas não são exceção.
Mais de 30 máquinas foram testadas, de várias marcas e modelos, incluindo Winvote, Diebold (que fabrica as urnas brasileiras), Sequoia ou Accuvote.
Algumas foram hackeadas sem sequer a necessidade de contato físico, utilizando-se apenas de uma conexão wi-fi insegura. Outras foram reconfiguradas por meio de portas USB. Houve casos de aparelhos com sistema operacional desatualizado, cheio de buracos, invadidos facilmente. O fato é que todas as urnas testadas sucumbiram.
Nas palavras de Jeff Moss, especialista em segurança da internet e organizador da conferência, o objetivo do experimento foi o de "chamar a atenção e encontrar, nós mesmos, quais são os problemas das urnas. Cansei de ler informações erradas sobre a segurança dos sistemas de votação".
Um problema é que a manipulação de uma urna digital pode não deixar nenhum tipo de rastro, sendo imperceptível tanto para o eleitor quanto para funcionários da justiça eleitoral.
Uma máquina adulterada pode funcionar de forma aparentemente normal, inclusive confirmando na tela os candidatos selecionados pelo eleitor. No entanto, no pano de fundo, o voto vai para outro candidato, sem nenhum registro da alteração.
Há medidas para se evitar esse tipo de situação. Por exemplo, permitir que as urnas brasileiras possam ser amplamente testadas pela comunidade científica do país, em busca de vulnerabilidades. Quanto mais gente testar e apontar falhas em uma máquina, mais segura ela será. Outra medida é fornecer mais informações públicas sobre as urnas. No site do TSE, o único documento sobre segurança é um gráfico que não serve para qualquer tipo de análise.
Nenhuma dessas soluções está em prática hoje no Brasil. Com isso, ou acreditamos que as urnas brasileiras são máquinas singulares, muito superiores àquelas utilizadas em outros lugares do planeta, ou constatamos que elas são computadores como quaisquer outros, que se beneficiariam e muito de processos de transparência e auditabilidade.
JÁ ERA- Tirar fotos do casamento
JÁ É - Filmar o casamento com um drone
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Temer é um governante fraco (Monica de Bolle, Correio Braziliense)

Na opinião da economista, o presidente não aprovará as reformas prometidas e sangrará até sair do cargo, deixando uma bruta crise fiscal
Autor: ROSANA HESSEL VICENTE NUNES - 7/8/17

A economista Monica de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics, em Washington (EUA), não tem medo de demonstrar opiniões e de criticar o atual governo e os equívocos cometidos pelo presidente Michel Temer e a equipe econômica liderada pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que serão sacramentados com a mudança das metas fiscais deste ano e do próximo até o fim deste mês. Os 263 votos na Câmara dos Deputados que arquivaram a denúncia de corrupção passiva contra Temer feita pela Procuradoria-Geral da República (PGR) não indicam um recomeço, avalia. Para ela, as prometidas reformas ficarão a cargo do próximo presidente. 'A margem estreita de 36 votos que lhe deu vitória, combinada com as rachaduras do PSDB, revela que a batalha pela Reforma da Previdência será sangrenta, caso o governo deseje mesmo peitá-la. Temer gastou imenso capital político para manter-se no poder, por meio de concessões diretas e de compra de apoio de 'aliados''. Monica, em alguns momentos, compara os erros cometidos pelo atual governo aos praticados pelas equipes da ex-presidente Dilma Rousseff e se surpreende com a calmaria do mercado, porque nada mudará até 2018 do ponto de vista fiscal. 'O quadro externo tem ajudado, mas, em alguma hora, os temores de descontrole fiscal que vimos em 2015 retornarão com força expressiva', alerta. 'Está tudo montado para que a bomba fiscal exploda no colo do próximo governo. Essa bomba não pode ser colocada apenas na conta da Dilma, uma parte é do vice dela que assumiu o poder e não está cumprindo o que prometeu fazer, deixou as promessas de lado para continuar no poder', afirma a economista, que acredita que o Brasil ainda tem jeito. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Correio:

Como o governo vai conduzir as reformas após o resultado da votação da denúncia da PGR contra Temer?

O governo saiu da votação da denúncia anunciando que, agora, o Brasil terá a chance de um 'recomeço'. Contudo, a retórica não tem sustentação política ou econômica. A margem estreita de 36 votos que lhe deu a vitória, combinada com as rachaduras do PSDB, revelam que a batalha pela Reforma da Previdência será sangrenta, caso o governo deseje mesmo peitá-la. Temer gastou imenso capital político para se manter no poder, além das concessões diretas e compra de apoio de 'aliados'. Em razão do altíssimo custo pago para evitar a remoção, as metas fiscais de 2017 estão comprometidas, como Meirelles já deu a entender. Portanto, o Brasil provavelmente ficará sem as reformas na forma que foram prometidas, e sem ajuste fiscal, ainda que tenha elevado impostos - algo que dissera que não faria.

Qual é o custo da operação orquestrada pelo governo para não deixar o poder? A mudança da meta fiscal é inevitável?

Aumentou sobremaneira o risco de descumprimento da meta. Pelo visto, ficará para o próximo governo, após 2018, a dura tarefa da consolidação fiscal, além da agenda de reformas. Como não temos ideia do que sairá das urnas no ano que vem, surpreende-me a calmaria dos mercados. O quadro externo tem ajudado, mas, em alguma hora os temores de descontrole fiscal que vimos em 2015 retornarão com força expressiva.

Há um embate dentro do governo por mudanças na meta deste ano e do próximo. Como os investidores reagirão a isso?

Por ora, dizem que 'está no preço'. Contudo, acho difícil acreditar que mudanças na meta, somadas à incerteza política relativa ao ano que vem, ajudarão a sustentar a fleuma que hoje caracteriza o comportamento dos mercados.

A crise política não dá trégua, mas, a economia indica que está saindo do atoleiro. Dá para esperar crescimento econômico consistente este ano?

A retomada sem reformas ou ajuste fiscal não tem sustentação. É até possível algum crescimento este ano - bem abaixo de 1% - e no ano que vem, mas se trata de voo de galinha sem o respaldo de tudo o que o governo Temer havia prometido antes da realidade solapá-lo no porão do Palácio do Jaburu. O resultado da Câmara muda um pouco, pois acentuou a deterioração fiscal. Pergunto-me o que acontecerá com o teto dos gastos em futuro não tão distante. Como ficarão as coisas para o próximo governo? Está parecendo que herdarão de Temer uma brutal crise fiscal.

A equipe econômica assumiu com o selo de excelência do mercado, mas tem repetido erros das equipes de Dilma Rousseff. Não está conseguindo entregar o ajuste fiscal que prometeu e recorre ao caminho mais fácil, o aumento de impostos. Como a senhora avalia isso?

A equipe econômica não é dona de seu destino é está sujeita às vicissitudes da política. Tenho dito isso há meses, desde a discussão e aprovação afoitas do teto de gastos. Não me surpreende que as semelhanças com o fim do governo Dilma tenham começado a surgir. Afinal, quem determina a viabilidade política das reformas e do ajuste é o ocupante do Planalto. A ele interessa proteger-se de acusações mantendo-se no poder. Não é prioridade melhorar de fato as perspectivas do país.

A máquina pública está a ponto de entrar em colapso, mas o governo deu aumentos generosos a servidores públicos. A situação pode sair do controle?

Pode, sem dúvida alguma. Temer é um governante fraco, que sangrará até sair do cargo. Temo que, se ele ficar até 2018, o estrago fiscal será considerável. E, já não adianta querer pôr tudo na conta de Dilma. A conta será dele e daqueles que a ele se associaram.

O governo fala em austeridade fiscal, mas, em busca de apoio, liberou mais de R$ 4 bilhões em emendas parlamentares desde o início de junho. Dá para acreditar no compromisso com o ajuste fiscal?

Estamos no vale tudo e no salve-se quem puder. Nesse contexto, não há ajuste fiscal possível.

Há divergências entre os integrantes da equipe econômica. Até que ponto a guerra entre Meirelles, de um lado, e Dyogo Oliveira e Romero Jucá, de outro, pode minar a confiança na política econômica?

As rachaduras refletem as pressões políticas que tendem a prevalecer. A aparente ingenuidade dos que não querem enxergar isso é espantosa.

Os cortes de gastos são suficientes para o cumprimento das metas fiscais ou os brasileiros terão de conviver com mais aumentos de impostos?

Os cortes de gastos sem uma profunda e cuidadosa Reforma da Previdência não serão suficientes para reverter o desmazelo das contas públicas. Desde o início do governo Temer, já havia dito que o foco nas reformas de médio prazo não era suficiente, que era também necessário o ajuste de curto prazo. Não houve ajuste de curto prazo - ao contrário, os gastos aumentaram antes e depois do episódio no porão do Jaburu. Portanto, com o aumento das despesas e a deterioração da arrecadação agravada pela crise econômica, o único jeito de fazer um ajuste de curto prazo é via aumento de impostos. Na verdade, o governo deveria estar discutindo a reversão completa das desonerações da era Dilma - mas isso levaria atuais 'aliados' a abandonarem Temer.

Com tanto deficit primário consecutivo desde 2014, para onde vai a dívida pública? Existe risco real de o país ficar insolvente?

O próximo governo haverá de herdar situação fiscal para lá de indigesta. A dívida pública deve alcançar patamar próximo aos 80% do PIB até o fim do ano que vem, sem qualquer perspectiva de reversão. Ou seja, do jeito que estamos hoje, caminhamos para algum tipo de crise fiscal no pós-Temer. Evitar que isso aconteça exigiria do governo tudo o que ele não está disposto a fazer: reverter os aumentos de salário do funcionalismo público, congelar emendas parlamentares, acabar com as desonerações da era Dilma. Além, é claro, de conseguir a proeza de passar uma Reforma da Previdência abrangente no Congresso.

O governo considera fatiar a reforma. Quais os riscos desse fatiamento para o equilíbrio fiscal?

Não sei se haverá reforma alguma, mas supondo que seja fatiada, é quase o mesmo que não fazer nada. Claro que aprovar uma idade mínima para a aposentadoria é importante, mas os problemas fiscais são tão grandes que isso trará pouco alívio.

Quais os riscos de a dominância fiscal retornar? Aliás, ela foi dissipada?

A dominância fiscal está dormente, sobretudo, por causa da recessão brutal pela qual ainda atravessa o país. Alguma hora, entretanto, ela tornará a aparecer quando ficar mais visível a insustentabilidade fiscal brasileira. Temer nada fez para mudar o quadro que assombrava o Brasil em 2015, mas os mercados se acalmaram acreditando que a equipe econômica seria capaz de controlar aquilo que, no fundo, era incontrolável: o instinto de autoproteção e sobrevivência dos políticos.

O Banco Central cortou os Juros em mais um ponto percentual, para 9,25% ao ano. A taxa básica pode cair mais um ponto na próxima reunião do Copom. Diante do forte recuo da inflação, o BC atrasou demais o alívio monetário? O BC está sendo conservador em excesso?

Sim, o Banco Central ficou demasiado atrasado. Contudo, o papel do BC hoje é bem menos relevante do que já foi. Diante da gravidade da recessão e dos imensos desajustes fiscais brasileiros, a política monetária é mera coadjuvante. Ainda que o BC decidisse abandonar o excesso de conservadorismo, não seria ele o salvador da Pátria, não mudaria em quase nada o quadro que enfrentaremos pela frente. Essa irrelevância me parece única na história econômica recente brasileira. Não deixa de ser uma faceta da dominância fiscal.

A senhora acredita em outras denúncias contra Temer? Trabalha com alguma mudança no comando do país? O que significaria para a economia a substituição de Michel Temer por Rodrigo Maia?

Por ora, acho mais plausível o cenário em que Temer só sai depois das eleições, o que significa que entregará para o próximo governo não só parte da herança maldita da antecessora de quem foi vice, mas a sua própria, resultante das articulações para permanecer no cargo.

O mercado financeiro tem mostrado certa tranquilidade em relação à crise política. Por que não vemos sinais de pânico entre os investidores? Nem as dificuldades na área fiscal estão mexendo tanto com os preços ativos. Qual é a interpretação dos agentes sobre a crise política?

Por enquanto, parece que estão convencidos de que existe um descolamento entre a crise política e a economia, hipótese que creio estar equivocada. Imagino que a situação mude quando os riscos fiscais ficarem mais claros à frente.

Qual é a avaliação dos investidores estrangeiros em relação à crise política e a economia?

Para o investidor estrangeiro, o Brasil é lugar para especular e para comprar um ou outro ativo barato. De resto, estão mais interessados nas reviravoltas da Casa Branca e do Congresso norte-americano, na agenda legislativa daqui dos EUA, do que no Brasil.

O país perdeu todos os bondes da história para poder virar um país realmente desenvolvido? Estamos condenados a sermos um país de renda média baixa?

Não acho que estejamos condenados a nada. Há chance de o Brasil voltar a crescer, de melhorar a produtividade, de passar reformas importantes. Para que isso aconteça, é preciso que o que aí está se vá - isso ocorrerá naturalmente em 2018. É preciso, também, que a sociedade se mobilize para exigir dos políticos que venham a eleger em 2018 - espero que tenhamos ampla renovação no Congresso - uma agenda de políticas públicas que revelem real compromisso com o futuro do país, não com seus umbigos. Depois do imenso sofrimento dos últimos anos, não acho que seja ingenuidade pensar assim. Mas, vamos ver o que acontece nas urnas.

No livro Como matar a borboleta azul, a senhora faz uma analogia ao governo Dilma e como ela conseguiu destruir a saúde das contas públicas com medidas equivocadas, que levaram o país à recessão. Olhando para o governo Temer, que borboleta azul ele está matando?

A metáfora do meu livro é em relação ao crescimento e como se mata a capacidade de um país crescer fazendo coisas em tese bem intencionadas, porém que acabam por ter efeitos horrorosos. E foram essas coisas que mataram o crescimento no Brasil durante os anos Dilma: as políticas de campeões nacionais, o desinteresse pelo controle fiscal, o aumento desenfreado do crédito público, as desonerações tributárias, a ideia de que se podia tolerar um pouco mais de inflação para ter mais crescimento. No fim do livro, há um capítulo que pergunta se os morcegos seriam capazes de ressuscitar a borboleta do crescimento, referência ao recém-empossado Temer. Mas, passado um ano e pouco de governo, dá para dizer que ainda não houve ressurreição. O morcego não conseguiu ressuscitar nada e está matando o crescimento de uma forma muito pior, porque os deficits primários das contas públicas estão maiores do que antes e há um risco considerável de a meta fiscal não ser cumprida. Temer não fez nenhuma das reformas prometidas. A trabalhista que passou foi uma promessa parcialmente cumprida. A fiscal não foi feita porque o teto do gasto não é reforma. A da Previdência não deve passar. Está tudo montado para que a bomba fiscal exploda no colo do próximo governo. Essa bomba não pode ser colocada apenas na conta da Dilma, uma parte é do vice dela, que assumiu o poder e não está cumprindo o que prometeu fazer, deixou as promessas de lado para continuar no poder.

Diante desse quadro nada animador, a senhora acha que o Brasil tem jeito? É possível ser otimista?

Apesar de tudo, acredito que o país tem jeito. Prefiro pensar em coisas positivas para parar um pouco com essa negatividade de só falar de coisa ruim. É preciso uma mudança de mentalidade não só dos políticos e dos governantes, mas da sociedade também. Ela precisa se engajar no processo de eleger novas pessoas para o Congresso e para a Presidência nas eleições de 2018. Essa é uma chance de dar um reboot no Brasil, ainda que o país enfrente os problemas que estão aí. É preciso escolher um novo governo razoável, que saiba se articular e comunicar para a sociedade quais são os verdadeiros problemas que precisam ser enfrentados. Assim, as pessoas vão entender que a situação é muito ruim e não dá para fazer mágica. Certas reformas precisam ser profundas e abrangentes. E cabe àqueles que querem concorrer mostrar propostas sérias, apesar de haver muitos oportunistas. Em razão dos oportunistas, é preciso explicar de forma bem clara quais são os problemas e como eles precisam ser enfrentados. Tem gente que não vai querer perder benefícios ou privilégios, mas isso será inevitável. E a sociedade precisará avaliar as prioridades. Tenho esperança de que as pessoas estão preparadas para enfrentar esse desafio desde que seja na mão de um governo confiável, um governo eleito, não herdado. A lição do governo Temer é que nada se faz nas mãos de quem não tem crédito algum, pois, além de não ter sido eleito, está sob suspeita - durante o mandato - de ter se envolvido no que não devia. Temer não é Itamar. Tampouco é Sarney.

'Pelo visto, ficará para o próximo governo, após 2018, a dura tarefa da consolidação fiscal, além da agenda de reformas. Como não temos ideia do que sairá das urnas no ano que vem, surpreende-me a calmaria dos mercados'

'Quem determina a viabilidade política das reformas e do ajuste é o ocupante do Planalto. A ele interessa proteger-se de acusações mantendo-se no poder. Não é prioridade melhorar de fato as perspectivas do país'

domingo, 6 de agosto de 2017

Lula joga com a morte (Merval Pereira - O Globo)


O Globo - 06/08/17
Lula joga com a morte na disputa eleitoral. O ex-presidente Lula, na sua campanha para poder se candidatar à Presidência em 2018, tentando assim escapar de uma possível prisão, deu uma declaração em conversa gravada em vídeo com um deputado petista que resume bem sua disposição política atual. Embora bombástica, não teve a repercussão que provavelmente buscava, talvez pela desimportância do interlocutor, talvez pela postura claramente eleitoreira.

'Deixa eu dizer uma coisa a quem me persegue: eu posso ser um bom candidato a presidente da República, se for candidato; eu posso ser um grande cabo eleitoral se não me deixarem ser candidato; e se morrer como mártir, eu serei um grande cabo eleitoral'.

Fazendo uso de sua morte como um instrumento eleitoral, assim como já fizera na morte de dona Marisa e, dias antes, havia repetido que a Operação Lava-Jato a matou, o ex-presidente Lula chega a uma situação paradoxal em que especula sobre a morte como mártir político justamente para tentar evitar essa situação limite.

Simula mais uma vez Getúlio Vargas, que já foi seu alvo e hoje é seu espelho. O Lula líder sindicalista defendia o fim da Era Vargas, de quem dizia que, se foi o 'pai dos pobres', era também 'a mãe dos ricos'. Chegou a chamar a CLT, no início de seu primeiro governo, de 'AI-5 dos trabalhadores'.

Ser ou não ser mártir político pode ser uma fabricação, lembra Maria Celina D'Araujo, cientista política do departamento de Ciências Sociais da PUC-Rio e estudiosa do período varguista desde os tempos do CPDOC da FGV. 'O conceito de mito político é uma criação do início do século XX, recuperando a mitologia clássica e medieval. No contexto da crítica à liberal-democracia, um grupo de pensadores, autoritários e corporativistas, julgou necessário recuperar o peso dos símbolos e dos mitos na ordenação política das sociedades humanas. A democracia de massas, a quem se atribuía a responsabilidade pelos graves problemas da sociedade capitalista, deveria ser substituída pelo 'culto à personalidade.' As massas, o povo, precisavam de líderes para conduzi-los e protegê-los'.

Quando Lula afirma poder tornar-se um mártir, ressalta a cientista política, ele sabe que poderá construir essa imagem por meio de seu partido e de intelectuais e jornalistas que o apoiam caso seja condenado pela Justiça, ou impedido de concorrer a novas eleições. Poderá ser imortalizado como 'vítima das elites contrárias aos interesses do povo'.

O mais importante para Maria Celina, no entanto, é indagar se a política brasileira precisa acionar conceitos tão antigos e tão pouco democráticos para pensar o seu futuro. 'O lamentável é continuar pensando a política em termos de revanche e vingança, de mártires e infiéis, e não como instrumento para administrar o tão difícil entendimento em busca do bem comum'.

Tanto Celina quanto Lira Neto, o biógrafo de Getúlio Vargas, citam as vezes em que Getúlio ameaçou suicidar-se, ficando claro que era uma obsessão dele quando a situação parecia incontornável. Lira Neto lembra que Getúlio sempre manteve a ideia do que chamava de 'sacrifício pessoal' como alternativa para sair, com honra, sempre quando confrontado em situaçõeslimite: em 1930, quando comanda tropas contra o governo de Washington Luiz, em 1932, quando irrompe a Revolução Constitucionalista de São Paulo, em 1945, quando os militares o retiram do poder encerrando o Estado Novo e, finalmente, em 1954.

Para Celina, foi um suicídio planejado, partilhado entre aliados, anunciado em bilhetes espalhados por seu escritório. Foi consumado naquela ocasião porque, ao contrário das anteriores, não havia alternativa de ganhar pelas armas, como em 1930 e 1932, nem havia a possibilidade de 'voltar nos braços do povo" como em 1945. Do ponto de vista político, o suicídio foi um golpe de mestre. Fixouse como mártir e mito. O impacto disso sobre a democracia brasileira, contudo, foi mais radicalização.

Mas Lira Neto acredita que a fala de Lula faz lembrar muito mais o 'Ele disse', quando Getúlio, derrubado do poder em 1945, execrado do poder, transformado em mártir pelos adversários, recomendou que seus eleitores votassem em Dutra.

O chamado mudou o rumo das eleições, ressalta Lira Neto, quando faltava menos de uma semana para o povo ir às urnas. O candidato favorito, Eduardo Gomes, antigetulista ferrenho, que todos já consideravam eleito, foi derrotado clamorosamente. Getúlio, assim, comprovou sua imensa popularidade.

'Lula, talvez, venha a fazer o mesmo. Se Moro prende Lula, o candidato que o líder petista apontar como seu representante nas urnas terá imensa possibilidade de ser o próximo presidente da República. Em suma: os adversários de Lula, que parecem desconhecer História, estão brincando com fogo', diz Lira Neto.


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Lula joga com a morte