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quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

A quem interessa o desmonte da política de saúde mental?(FSP, 17 12 2929)

 A quem interessa o desmonte da política de saúde mental?


quinta-feira, 17 de dezembro de 2020 


 

Folha de S. Paulo  / Opinião

Cenário Político-Econômico: Colunistas

Bruno Ferrari Emerich, Daniela Arbex e Silvio Yasai


Há poucas décadas, a única possibilidade de cuidado para alguém que sofresse de algum problema mental era ser compulsoriamente isolado e segregado da sociedade em um hospital psiquiátrico, onde o então paciente era submetido a tratamento no qual sua palavra e seu desejo eram desconsiderados.


A partir dos anos 1960 esse cenário foi se transformando. Muitos países optaram por reduzir de maneira drástica as internações em hospitais psiquiátricos, pois elas se revelaram pouco eficientes. Com a mudança de olhar passou-se a investir recursos em serviços comunitários de saúde mental mais próximos dos lugares onde os indivíduos habitam, onde a vida acontece e onde se dá o processo saúde-doença.


Além disso, ganhou destaque a percepção sobre a importância dos fatores sociais, econômicos e culturais que levam os sujeitos a apresentarem algum tipo de sofrimento psíquico e que devem ser levados em consideração ao se efetivar tuna proposta de tratamento e uma política de saúde mental.


Nesse contexto, diversos movimentos de combate a estigmas e preconceitos começaram a ganhar expressão internacional. Dentre eles, o movimento dos pacientes psiquiátricos que denunciavam e ainda denunciam a violação de seus direitos e a violência dos tratamentos aos quais foram (e ainda são) submetidos.


No Brasil, desde a década de 1970, tais denúncias também vieram à tona, escancarando a ineficiência do modelo de atenção até então vigente e a necessidade de construção de um sistema de saúde (incluindo a saúde mental) ancorado na seguridade social, no acesso universal e no dever do Estado em provê-la e sustentá-la, como um direito do cidadão.


Assim, no lugar de uma oferta compulsória e exclusiva de internação, criou-se tuna ampla, complexa e diversificada rede de serviços de saúde mental, como Centros de Atenção Psicossocial (Caps), residências terapêuticas, centros de convivência, Consultório na Rua e Núcleos de Apoio à Saúde da Família (Nasfs), dentre outros.


Nesse modelo, valoriza-se o cuidado em liberdade no lugar onde o indivíduo habita, apostando no aumento da potência da vida do sujeito na construção de formas de lidar com seu sofrimento.


Esse processo está ancorado no contexto das transformações que a sociedade brasileira passou nos últimos 30 anos, especialmente a partir da promulgação da Constituição de 1988 e da construção do SUS, que estabeleceram um novo pacto social civilizatório.


Mas o risco de retrocesso tem sido permanente diante das ameaças do amai governo federal de retomar estratégias retrógradas que caminham na contramão das melhores práticas internacionais e nacionais. Recentemente, assistimos à intenção de revogar portarias que sustentam o financiamento e o funcionamento da Rede de Atenção Psicossocial (Raps). No contexto em que as atenções se voltam para a Covid-19 e o ano se aproxima do fim, aproveitam para continuar "passando aboiada".


Desmontar a Raps irá fragilizar a promoção, a prevenção, o tratamento e a reabilitação em saúde mental. Alimentará o aumento da iniquidade e da desassistência, dos casos mais leves aos mais graves. Além disso, o modo como está sendo tramada essa revogação é tuna clara tentativa de negação da participação social na implementação dos sistemas de proteção, cerne da reforma sanitária e da reforma psiquiátrica.


A quem interessa o desmonte sistemático da política de saúde mental? Aos grupos de poder econômico e político que, historicamente, foram os únicos beneficiados pela barbárie do antigo modelo.


Por outro lado, somos vários, milhares de trabalhadores, gestores, usuários e familiares que criamos ações e cuidados, com participação social, com critérios e evidências científicas.


Seguimos resistindo aos desmontes e construindo caminhos. Assim tem sido e assim faremos, enquanto necessário for. Entre a barbárie e a civilização, não há dúvidas sobre quem está a escolher um caminho ou o outro.


Desmontar a Rede de Atenção Psicossocial irá fragilizar a promoção, a prevenção, o tratamento e a reabilitação em saúde mental. Alimentará o aumento da iniquidade e da desassistência, dos casos mais leves aos mais graves. (...) É uma clara tentativa de negação da participação social na implementação dos sistemas de proteção

sexta-feira, 24 de julho de 2020

A afasia dos médicos(Valor, 26 6 2019)




Esta é a época mais próspera da história. Com o poderoso avanço do processo civilizador no último século, a humanidade está melhor do que nunca. Pode parecer mentira, mas por toda parte as pessoas estão mais ricas e mais livres, têm mais educação, estão menos violentas e desfrutam de menor desigualdade social. Quem tem dúvida deve começar por consultas às fontes citadas em “A ordem do progresso”, texto que ocupou este espaço do Valor em 31/7/2018.
O problema é que “não existe almoço grátis”, como pontifica o velho e sábio provérbio. O preço de tão prodigioso salto tem sido calculado, mas falta muito para que essa conta possa ser fechada. Estão cada vez mais acuradas as avaliações sobre dois de seus mais graves componentes: o
aquecimento global e a erosão da biodiversidade. Porém, isso ainda está muito longe de ocorrer com outra importantíssima parte da “dolorosa”: os retornos para a saúde humana dos gigantescos avanços das modernas cadeias agroalimentares, químicas, farmacêuticas e cosméticas.
Nocivos impactos das tendências de consumo legitimadas nos últimos setenta anos — período que os historiadores chamam de “A Grande Aceleração” — foram obscurecidos pelas sofisticadas proezas da medicina. Quando flagrados, demoram demais a ser admitidos. Veja-se a novela “glifosato”, o maior vilão dos agroquímicos, que agora está com os dias contados, graças à excelência do Poder Judiciário dos EUA, como expôs esta coluna do Valor em 29/8/2018.
Só que a tão denunciada dimensão cancerígena dos agrotóxicos é mero detalhe de encrenca muitíssimo maior, que deixa os médicos atônitos: os perigos dos ‘desreguladores endócrinos’, principalmente para a gestação, primeira infância e velhice. Razão pela qual merece especial atenção a reportagem “Estamos cercados”, reproduzida há dez dias pela edição brasileira do espanhol El País (17/6/19), corroborando três outras colunas no Valor, publicadas no ano passado: 27/6, 9/11 e 28/11.
Talvez os médicos ainda não tenham tido tempo de assimilar os resultados das pesquisas que já indicam quão calamitosos podem ser muitos dos atuais hábitos alimentares e de cuidados pessoais (higiênicos e estéticos). Pois é recente a compreensão dos papéis desempenhados pela microbiota intestinal (antigamente chamada de “flora”). Só começou em 2007, com o estratégico “Projeto Microbioma Humano”, dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA: https://hmpdacc.org/. Pior: a conexão intestino-cérebro sequer fazia parte, até há pouco, dos currículos das escolas médicas e de nutrição.
defasagem dificulta o entendimento de ao menos duas cruciais hipóteses sugeridas por tais estudos. A primeira afirma que não houve tempo hábil para que os intestinos humanos se adaptassem a uma alimentação excessivamente carregada de açúcar, arroz, batata, carne, laticínios, milho, soja e trigo. Por isso, estes oito grandes vetores do agronegócio global estariam turbinando as piores bactérias intestinais, em detrimento das amigáveis, que deveriam, ao contrário, merecer toda a atenção e carinho.
A outra hipótese é ainda mais intrincada, pois se refere aos comportamentos de ilustríssimas desconhecidas: as lectinas. São proteínas muito presentes em cereais, leguminosas, batata-inglesa e alimentos oriundos de animais empanturrados por rações cheias de grãos. As lectinas têm forte propensão a atravessar a parede intestinal, causando fissuras, condição conhecida como ‘síndrome do intestino permeável’. Uma vez no sangue, elas confundem o sistema imune, dando origem a várias doenças autoimunes, artrites, cardiopatias, diabetes e demências, além de causarem perecimento precoce.
Os vários mecanismos desenvolvidos pela espécie humana para se defender de tão feroz artilharia, amenizando seus piores efeitos, seriam insuficientes para lhe garantir a imprescindível tolerância imunológica. Daí a necessidade de dar prioridade a alimentos com baixos teores em lectinas, o que só tornaria mais evidente a necessidade de se romper com os cânones de proTamanha dução e consumo promovidos pela dominante agroindustrial dos negócios alimentares.
Então, só pode ser motivo de muito aplauso a publicação em português de um livro que — por mais polêmico que seja — tem o mérito de didaticamente apresentar ao grande público a intrigante dupla de hipóteses decorrente das atuais investigações sobre o microbioma humano: “O Paradoxo dos Vegetais”, de Steven R. Gundry (Paralela, 2019), tradução do best seller “The Plant Paradox” (HarperCollins, 2017).
Seu autor — uma das mais consagradas autoridades mundiais em cirurgia cardíaca — nos últimos vinte anos passou a se dedicar integralmente à nutrologia. Reviravolta muito bem explicada e justificada em seu novo trabalho, lançado em março: “The Longevity Paradox” (HarperLuxe, 2019). Mesmo que as prescrições desses dois livros sejam pouco persuasivas, isso jamais deveria impedir séria reflexão coletiva sobre suas bases analíticas, fundamentadas em preciosa bibliografia científica. A começar pelos médicos!
É evidente a necessidade de romper com os cânones da produção e consumo promovidos pela agroindústria alimentar

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