Cacá Diegues : Um
craque barroco
P or motivos às
vezes muito diferentes uns dos outros, Garrincha, o mais original de todos os
nossos jogadores de futebol, foi sempre equivocadamente mitificado pela
imprensa, pelos especialistas e pelos torcedores. Tratado como exemplo sublime
de nossa inocência e generosidade como povo, alguns talentosos jornalistas
esportivos e, depois, quase todos os brasileiros de seu tempo o consideraram o
suprassumo da simplicidade e do desligamento do que há de mau no mundo. Uma
verdadeira alma de passarinho, como os passarinhos com que, dizia-se, ele
convivia nas matas de Pau Grande, onde nascera e morava, nas montanhas vizinhas
ao Rio de Janeiro.
E, no entanto,
extraordinário jogador de futebol, craque consumado em qualquer posição que
jogasse, numa pelada ou no Maracanã, Garrincha fazia, da ponta direita em que
jogava, um matadouro de adversários perplexos, incapazes de evitar, não apenas
seus dribles imprevistos e nunca vistos, mas também a desmoralização que ele os
fazia sofrer, sempre com um sorriso se armando nos lábios e a ginga
desmoralizante de seus largos quadris e pernas tortas. Garrincha foi o mais
cruel jogador de futebol para quem o tentasse marcar, para quem estivesse à sua
frente.
Seus
contemporâneos lembram certamente um amistoso contra a Itália, jogado em Milão,
na preparação da seleção brasileira para o campeonato mundial de 1958, o
primeiro do qual saímos campeões, na Suécia. Garrincha disputava a posição com
Joel, ponteiro aplicado do recente tricampeonato carioca do Flamengo,
conquistado no início daquela década. E era Joel, clássico ponteiro de muitas
qualidades, o preferido da torcida, da imprensa e da moderna comissão técnica.
A favor de Garrincha, estavam apenas os visionários do futebol brasileiro, que
sabiam que craques como ele e Pelé eram o emblema de uma nova geração de um
novo futebol.
Pois naquela
noite, em Milão, mesmo disputando uma partida que seria seu teste final para
ocupar um lugar na seleção, Garrincha irritava, com o que fazia em campo, todos
os dirigentes conservadores da então CBD. Sem dar bola alguma para as
instruções que recebia aos gritos do banco brasileiro, ele praticava todo tipo
de jogada que nossos técnicos cartesianos consideravam irresponsável, quase
sempre brincando com a bola, os companheiros e os adversários, como costumava
fazer regularmente, até nos treinos do próprio Botafogo, onde ele atuava. Em
determinado momento, Garrincha recebeu uma bola no meio do campo e saiu com ela
colada aos pés, driblando quem passasse à sua frente, uma, duas ou mais vezes,
humilhando cada um que tentasse interromper seu ziguezague em direção ao gol
adversário.
Diante do goleiro
italiano, Garrincha parou, olhou para trás e viu que não vinha mais ninguém
atrás dele. Aí não vacilou e, no mesmo ritmo que vinha, sentou o pobre arqueiro
na grama de Milão. Mas não entrou com bola e tudo, como era de se esperar.
Garrincha voltou com ela para a entrada da área italiana, driblou duas vezes o
goleiro que se levantara em pânico (um drible para vir, outro para ir) e entrou
enfim serenamente com a bola na rede adversária.
O banco do Brasil
não gostou do que Garrincha havia feito. Durante toda a jogada, gritavam
mandando passar a bola, ordenavam que tentasse logo o gol. O banco decisivo
jurava que Garrincha nunca mais jogaria na seleção brasileira, ele era moleque
demais para a seriedade da missão. Era desobediente, imprevisível,
irresponsável, peladeiro. Ninguém sentiu pena dos defensores e do goleiro que
Garrincha humilhara, ninguém falou nisso, não ocorreu a ninguém tocar nesse
assunto. Muito menos depois, quando um complô comandado pelo gosto da torcida,
jornalistas inteligentes e líderes da seleção como Nilton Santos e Didi, ele se
tornaria o titular de nossa ponta direita e um dos maiores astros daquela
primeira Copa do Mundo vencida pelo Brasil.
Durante a qual, o
que Garrincha fazia com seus adversários era algo parecido com o que fizera com
os italianos em Milão, o que costumava fazer com os laterais esquerdos do
campeonato carioca. Parecido mais ou menos com o que depois descobrimos que
fazia com seus passarinhos, na mata de Pau Grande: caçava-os sem muita poesia e
sem nenhuma piedade. A poesia estava no jeito de ele ser no mundo.
Garrincha talvez
tenha sido o nosso primeiro grande craque barroco, num país de forte cultura
barroca, popular ou erudita, que não deseja reconhecê-la por medo do que isso
possa significar, ameaçando o que os outros consideram civilizado. Sempre
preferimos elogiar a racionalidade realista que parece conhecer o mundo e
apaziguar nossa ignorância com essa ilusão. Num mundo tão incompreensível como
esse em que vivemos hoje, talvez a volumosa cultura barroca de nossas origens
pudesse ser mais libertária, a nos indicar um futuro menos comprometido com o
que já se sabe. E que sabemos que não presta.
@Futebol