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sábado, 8 de janeiro de 2022

Países miseráveis ou destroçados por guerras “viraram” o ensino(Veja, 7 1 22)

 VILMA GRYZINSKI - A ESPERANÇA DE REDENÇÃO

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022


Revista Veja  | Colunistas   |   VILMA GRYZINSKI

Países miseráveis ou destroçados por guerras “viraram” o ensino





Você está preparado para as platitudes que os candidatos vão falar sobre educação, se se derem ao trabalho, lá pelo fim dos discursos que desafiarão nossas paciências neste ano? Um bom treinamento pré-eleitoral para os brasileiros com senso de honra pode ser colocar como tela de fundo de seus celulares os resultados do PISA, a pesquisa sobre educação feita pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico. Em termos educacionais, o 662 lugar do Brasil, num total de 77 países, é o equivalente à “fila dos ossos”, o colar de humanos desvalidos à espera de restos de açougue que aflorou em cidades brasileiras. A classificação é de 2018 — o PISA 2021 foi postergado por causa da pandemia. Nos cinco lugares acima do Brasil estão Peru, Bósnia, Azerbaijão, Cazaquistão e Colômbia. Para não nos desesperarmos, e buscarmos lições valiosas, é bom olhar também para vários dos melhores classificados e lembrar que já foram países miseráveis, subdesenvolvidos, destroçados por guerras ou esmagadoramente analfabetos — quando não tudo isso junto.





Singapura, que aparece ora em primeiro, ora em segundo lugar nos indicadores mundiais de educação, era um dos lugares mais atrasados do mundo e, apesar da localização estratégica como porto e entreposto comercial, desmerecido até pelos colonizadores ingleses. Gradualmente povoada por agricultores chineses trazidos para trabalhar no cultivo da pimenta-do-reino, tinha o potencial de conflito com a população original, de etnia malaia, e recursos zero em um território equivalente à metade da cidade de São Paulo. Criou um sistema educacional tão sofisticado, com um currículo voltado para a matemática e a ciência, que professores de ensino médio ganham o equivalente a 90 000 dólares por ano — isso depois de passar por um concurso disputadíssimo, reflexo da valorização reservada aos educadores, típica das sociedades asiáticas influenciadas pelo pensamento confuciano, onde os detentores do saber ocupam o topo da escala social. A Coreia do Sul é outro país asiático que deu um salto inacreditável, indo da ocupação japonesa e de uma devastadora guerra desfechada pelos comunistas do norte para mais de 70% da população entre 25 e 34 anos com educação superior.





Desde 1990, o orçamento para a educação quintuplicou, mas corresponde a apenas 3,4% do PIB — no Brasil, são 6%. O incentivo familiar é tão competitivo que o governo proibiu aulas particulares depois das 10 da noite. Fora da esfera asiática, há fenômenos como a Estônia, um país báltico de 1,3 milhão de habitantes — pouco menos que o número de militares russos, cuja invasão os estonianos passam o tempo todo temendo —, que ficou em quinto lugar no PISA. A Polônia, em 11º — uma posição à frente do Reino Unido, o país onde mais de 1,5 milhão de poloneses foram procurar trabalho depois da era soviética. Aos que os menosprezavam como incultos, podem exibir com orgulho o salto educacional que deram. Devido às diferenças históricas e culturais, muitas experiências dos que “viraram” as condições de ensino são intransferíveis, mas isso não elimina a pergunta principal: se países que vieram de condições tão desfavoráveis conseguiram, por que não conseguiremos também? Ou nos resignamos a deixar nossas crianças e nossos jovens eternamente na fila dos ossos? 

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Desejo de ano-novo( Pedro Doria, Estado , 31 12 21)

 Pedro Doria - Desejo de ano-novo

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021


O Estado de S. Paulo  

O Brasil nunca elegeu um extremista para a presidência - até que aconteceu, em 2018. A não ser que algo de muito improvável ocorra, pela primeira vez desde o início da reeleição o ocupante do terceiro andar do Planalto não ganhará um segundo mandato. Não importa o vencedor, por si só já é uma boa notícia. Teremos a mais agressiva eleição da Nova República. Derrotado, com ainda dois meses de mandato, não podemos esperar civilidade de Jair Bolsonaro. Mas podemos sonhar com 2023. Meu desejo para o Brasil é de que a esquerda encare uma de suas maiores contradições. É gostar de empresário grande mas ter horror a empreendedores.


O Brasil está em 8o.° lugar no ranking de competitividade global de talentos. Não é que não tenhamos cérebros qualificados. É que eles estão fúgindo para o exterior. Um governo de esquerda não teria dificuldades de investir em universidades e reter nossas melhores cabeças. Só que conhecimento vira riqueza quando negócios são criados a partir deles. E empreender é nosso fraco: somos o 124.0 país do mundo em facilidade para fazer negócios, segundo a OCDE.


Políticas econômicas defendidas pela esquerda despejam dinheiro para turbinar empresas gigantes. Se é para grandes empresários, aqueles mais afeitos aos corredores palacianos do que aos debates sobre inovação, aí os preconceitos desaparecem. A contradição parte de uma incompreensão: a esquerda acha que um bom negócio nasce da força bruta do dinheiro despejado, não do capital humano, das idéias e das capacidades de quem o ergue.


Noutros tempos, quando as regras que valiam eram as da Era Industrial, a política de jogar dinheiro público em quantidade para construir do zero um setor até funcionava. Mas o caminho para o Brasil encontrar seu lugar no século 21 será pela economia verde, este é um setor novo, e nele as regras ainda não estão dadas.


O método para o século 21 é o do Vale do Silício. Produz-se conhecimento e se cria um ambiente onde abrir e fechar empresa é muito fácil. Onde pequenos financiamentos para testar modelos são estimulados com a consciência de que, para cada cem apostas, noventa darão errado, oito serão empresas bacanas e duas se tomarão extraordinárias.


O Estado deve estar presente em políticas sociais. E fundamental que esteja. Mas, caso se livre de preconceitos e compreenda que não precisa controlar cada passo da sociedade, descobrirá que nossa criatividade não se limita aos esportes e às artes. Basta deixar o brasileiro tentar, errar - acertar. Todos nos beneficiaremos com o PIB criado. ?


JORNALISTA


A esquerda precisa parar de gostar de empresário grande e de ter horror a empreendedores

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Nelson Freire representava e representa uma outra face do Brasil'

 'Nelson Freire representava e representa uma outra face do Brasil', diz João Moreira Salles

Publicado: 15:55:00 - 01/11/2021


http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/nelson-freire-representava-e-representa-uma-outra-face-do-brasil-diz-joa-o-moreira-salles/524384

O pianista Nelson Freire morreu na madrugada desta segunda-feira, dia 1º, aos 77 anos. Como legado, deixou um trabalho celebrado por seus pares, pela crítica especializada e pelo público. Também teve sua história registrada no documentário Nelson Freire, de 2003, de João Moreira Salles. Disponível no serviço de streaming Globoplay, o longa-metragem acompanha a rotina de turnês e a memória dos primeiros acordes ao piano.


"Os documentários que eu vinha fazendo até então tratavam de desordem, de violência e de desagregação. Tive vontade de filmar o contrário daquilo e Nelson foi o caminho", conta João Moreira Salles em depoimento enviado ao Estadão. 


No filme, há momentos com Nelson Freire filmados em São Paulo, no Rio de Janeiro, na França, na Bélgica e até mesmo na Rússia — são mais de 70 horas de material gravado depois de João acompanhar o pianista por dois anos. 


A seguir, confira o depoimento completo de João Moreira Salles enviado ao Estadão.


"Os documentários que eu vinha fazendo até então tratavam de desordem, de violência e de desagregação. Tive vontade de filmar o contrário daquilo e Nelson foi o caminho. Ele encarnava valores de um humanismo essencial a todo projeto de civilização decente – a transmissão da beleza, o imperativo moral do trabalho bem feito, a recusa a toda vulgaridade e espalhafato.  Um presidente que tira a máscara de um  bebê e força uma criança a fazer uma arma com as mãos é uma imagem verdadeira e poderosa do País. Mas não é a única. Nelson Freire (o pianista, não o filme) representava e representa – nos discos, nos registros dos concertos, na vida discreta que levou – uma outra face do Brasil, o lado capaz de nos salvar. Seu talento não está ao alcance de maioria de nós, mas a honradez, sim". 


quarta-feira, 13 de outubro de 2021

As transformações globais e a Defesa(Rubens Barbosa , Estado de S. Paulo, 12 de outubro de 2021 )

 Rubens Barbosa - As transformações globais e a Defesa

terça-feira, 12 de outubro de 2021


 

O Estado de S. Paulo  / Noticias

Rubens Barbosa


As Forças Armadas no A Brasil, para seu fortalecimento, deveriam passar por ajustes e transformações para responder aos desafios das profundas mudanças no cenário internacional. O crescente avanço tecnológico das últimas décadas transformou significativamente os paradigmas dos conflitos e das ameaças, exigindo de todos os países um questionamento permanente de adequação das estruturas de seus instrumentos de defesa e dos conceitos neles vigentes.


O Centro de Estudos da Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) elaborou documento de trabalho sobre a Política e a Estratégia Nacional de Defesa e encaminhou recomendações ao governo e ao Congresso para, num sentido mais amplo, aprimorar as instituições e processos voltados para questões da defesa nacional.


As recomendações abrangem três áreas consideradas relevantes e estratégicas:


- Elevação do nível de tratamento pelo poder público dos temas de defesa, desde sua formulação até a implementação de políticas de defesa;


- Transformação urgente nas instituições de defesa, de forma a adequá-las às necessidades do País diante dos novos paradigmas de conflitos e torná-las ajustadas às boas práticas internacionais;


- Incrementar a participação de profissionais civis nas várias atividades voltadas para o preparo da capacidade militar, tanto as operacionais de combate como as de logística de defesa (industriais e pesquisa e desenvolvimento).


A primeira recomendação do Cedesen para a formulação de uma política nacional de defesa, e não apenas de defesa nacional, seria atribuir ao Conselho de Defesa Nacional (CDN), instituição do mais alto nível no âmbito do Executivo, a responsabilidade pela elaboração de documento abrangendo defesa, segurança e diplomacia e suas interfaces com o desenvolvimento, o que permitiria maior participação dos órgãos diretamente interessados em questões de defesa e segurança. Adicionalmente, para que o Congresso Nacional possa ter melhores condições de acompanhar os principais temas relacionados com a defesa e a segurança nacional, seria essencial a existência de um foro permanente que unisse as duas Casas do Poder Legislativo. Nesse sentido, o Cedesen recomendou o exame da possibilidade de criação de comissão mista de caráter permanente, integrada por deputados e senadores, para tratar de matérias de competência do Congresso Nacional na área de defesa e segurança nacional. Até aqui, cabe ao Ministério da Defesa (MD) a responsabilidade principal de elaboração da Política e da Estratégia Nacionais de Defesa, inclusive do Livro Branco da Defesa Nacional. Na prática, entretanto, ocorre um reduzido envolvimento de outros órgãos, particularmente dos Ministérios das Relações Exteriores, Justiça e Economia, além, em particular, do próprio Congresso Nacional, como representante do povo brasileiro.


No tocante às mudanças institucionais nas estruturas de defesa, todos os países com alguma relevância econômica e/ou militar no cenário internacional se ajustaram à aceleração do desenvolvimento tecnológico, com a consequente e rápida obsolescência dos sistemas de armas e seus componentes críticos, com impacto na eficácia e sua manutenção. Foi levado em conta o aumento contínuo e significativo do custo dos sistemas de armas, particularmente pela necessária incorporação dos avanços tecnológicos, as restrições orçamentárias crescentes para a função defesa em períodos de paz e o interesse em contar com maior profissionalismo para a execução das atividades de logística de defesa, que se encontram entre as mais complexas que existem.


A recomendação feita pelo Cedesen, semelhante à encontrada nos principais países desenvolvidos, foi no sentido da separação das atividades de operações de combate e afins das de logística de defesa destinadas a aparelhar e apoiar o emprego das unidades combatentes das Forças Armadas. As atividades de aquisição de produtos e sistemas de defesa e de desenvolvimento de atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação específicas para defesa ficariam com um órgão independente das Forças Armadas, mas subordinado diretamente ao MD. Este órgão, que poderia evoluir a partir da Secretaria de Produtos de Defesa (Seprod), seria dotado de um corpo profissional de militares e civis com formação e capacitação adequadas e, no caso dos militares, com carreiras totalmente independentes das carreiras militares. Com relação à participação de profissionais ou especialistas civis, há muito vem sendo apontada a necessidade de sua admissão, no âmbito do Ministério da Defesa e de seus órgãos subordinados. Nesse particular, o Cedesen recomendou que a definição dos cargos e perfis profissionais que mais se adequem a uma ocupação por especialistas civis seja feita no âmbito dos estudos visando à transformação das instituições de defesa.


Na semana passada, o Cedesen realizou encontro (YouTube/cedesen-interesse nacional) para discutir as transformações no MD. As outras duas recomendações serão examinadas publicamente durante o corrente mês. Essas reuniões têm como objetivo ampliar o conhecimento e o envolvimento da sociedade civil no exame de temas de interesse da defesa e da segurança nacional. E o fortalecimento das Forças Armadas.


"É preciso aprimorar as instituições e processos voltados para questões da defesa nacional"


PRESIDENTE DO CEDESEN

terça-feira, 24 de agosto de 2021

Quem alimentará a China?(Alysson Paolinelli, Correio Braziliense, 24 8 21)

 ALYSSON PAOLINELLI - Quem alimentará a China?

terça-feira, 24 de agosto de 2021 - 00:00


 

Correio Braziliense  / Opinião

ALYSSON PAOLINELLI ANTONIO LICIO


A pergunta foi levantada pelo economista americano Lester Brown em seu livro, de 1995, Who Will Feed China, e permeou grandes discussões mundiais desde então, prevendo-se fome para esse povo, incapaz,


que seria de se autoabastecer de alimentos. No momento, alguns analistas mais radicais chegam às raias do extremismo lançando preparativos contra uma possível invasão chinesa ao Brasil para garantir seus níveis alimentares que estariam à beira do colapso pela exaustão de seus recursos naturais: terra, água e climas favoráveis. Nada melhor do que o tempo para avaliação de previsões futurísticas. Passados 25 anos, cabe aprofundar sobre o que efetivamente ocorreu com a agricultura chinesa nesse período, sua capacidade futura de autoabastecimento e possíveis desequilíbrios estruturais nos mercados mundiais de alimentos.


De fato, os chineses sofreram crises recorrentes de produção/consumo alimentar devido a secas e enchentes que devastaram sua produção agrícola, sendo a mais notável, entre 1959 e 1961, quando seu líder Mao Tse Tung implementou reformas políticas que desestruturaram a produção e teriam levado à morte 30 milhões de chineses. Todavia, a partir de 1978, Deng Xiaoping, segundo homem na hierarquia política e substituto de Mao, levou a efeito outras reformas. Desta vez, ao contrário de seu antecessor, Xiaoping liberalizou as relações econômicas no sentido da economia de mercado capitalista.


Seus efeitos notáveis se fazem sentir até hoje, mas, de início, se deram exatamente sobre o setor mais prioritário: a produção de alimentos. A China planta atualmente 185 milhões de hectares (ha) de lavouras (Índia, 210 milhões; Estados Unidos, 100 milhões; e Brasil, 80 milhões). Antes das reformas de 1978, os chineses plantavam 145 milhões. Agregou, portanto, 40 milhões e logrou notáveis sucessos em produtividades, tanto no milho quanto no arroz, suas maiores fontes energéticas, principalmente via irrigação (65 milhões de hectares irrigados contra 7 milhões no Brasil). Resultado: sua produção de milho saltou de 50 milhões de toneladas, em 1976, para 260 milhões em 2019 (superada somente pelos Estados Unidos, 360 milhões de toneladas); no arroz, de 130 milhões de toneladas para 220 milhões de toneladas. Portanto, a primeira parte da pergunta original foi respondida: quem alimentou a China até os anos recentes foi a própria China, por meio de reformas estruturais econômicas que propiciaram notável resposta produtiva.


E o porvir ? Lamentavelmente, tudo indica que, a partir de 2015, a China parece ter esgotado sua fronteira agrícola, de acordo com o Economic Research Service/USDA, assim como de expandir sua irrigação. Mas sua renda e Produto Interno Bruto (PIB) continuam a crescer, trazendo consigo maiores demandas por alimentos mais sofisticados, como carnes, leites e ovos (proteínas animais), frutas e hortaliças. Ocorre que não se produz mais proteínas animais sem um grãozinho mágico chamado 'soja', que o metabolismo animal dos bovinos, suínos, aves processam e transformam nas proteínas animais tão demandadas.


Mas a China falha. Não consegue produzir soja senão nos baixos volumes de 15 milhões de toneladas em 8, 5 milhões de hectares, assim como em todos os demais países, exceto Brasil, Argentina e Estados Unidos, que, juntos, produzem 82% de toda a soja mundial (Brasil na frente com 145 milhões de toneladas). Coube a China: 1) importar carnes prontas do exterior; 2) importar soja e transformá-la internamente em proteínas animais, o que tem prevalecido inclusive na catástrofe recente de peste suína africana, que dizimou boa parte de seu rebanho. De fato, dos 167 milhões de toneladas de soja importadas no mundo, a China responde por 60% e o mundo ainda importa 68 milhões de toneladas de farelo de soja.


Essa fome por proteínas animais tem levado ao que a teoria econômica previra: elevação de preços de todos os tipos de carnes, assim como dos insumos para suas produções: soja e milho. As carnes bovinas tiveram um patamar de preços médios de US$ 5. 000/ton até 2010, quando iniciou a escalada para os atuais US$ 10. 000/ton; as carnes de aves tiveram menores elevações, de US$ 1. 500/ton para pouco mais de US$ 2. 000/ton no mesmo período; o milho teve preços históricos durante décadas ao redor de US$ 100/ton, pulando para US$ 200/ton em 2010 e chegando ao patamar de US$ 250/ton nos últimos meses; a soja teve comportamento semelhante, com US$ 250/ton até 2007, daí para R$ 400/ton até recentemente e explodindo para os níveis atuais ao redor de US$ 600/ton.


Em se tratando de grãos commodities, há que se separar efeitos especulativos das variações de preços reais, quando apostadores de bolsas investem em grãos prevendo ganhos fáceis de curto prazo (efeito cassino). Por outro lado, estudos econométricos feitos por nós em 2013 no âmbito do Fórum do Futuro, com base no ano de 2010 e projeções para 2020, considerando somente variáveis 'reais"' - renda, consumo, elasticidades-renda e demanda - estimaram para 2020 uma demanda adicional de milho de 250 milhões de toneladas sobre um consumo em 2010 de 850 milhões de toneladas, ou seja, para algo em torno de 1, 100 bilhão de toneladas.


Para que os preços se mantivessem no mesmo nível médio de 2010, seria necessário um aumento de produção mundial de 250 milhões de toneladas, e aconteceu: o crescimento foi de 275 milhões de toneladas, o que segurou os preços até fins de 2020, quando estouraram ao nível atual de US$ 260/ton. Como não houve neste curto prazo de 2021 nenhuma alteração de demanda nem frustração de oferta que pudesse justificar tamanho incremento, resta apostar no efeito especulativo, como ocorreu, várias vezes, nos últimos anos, e retorno aos preços de 2010. Raciocínio similar se aplica à soja, com a diferença de que somente três grandes países produzem e dois deles - EUA e Argentina - esgotaram sua fronteira agrícola, ou seja, a resposta a esperar da oferta não se concretizará.


Podemos acalmar os mais exaltados, afirmando que os níveis de consumo calórico da China atingiram padrões nutricionalmente aceitos por meio de sua produção, mas terão que apelar quase integralmente à importação de proteínas para manter suas dietas completas, o que farão facilmente trocando bens não agrícolas por alimentos proteicos do Brasil, como tantos outros o fazem.

quinta-feira, 15 de julho de 2021

Nunca os seres humanos foram tão explorados quanto agora(Eugênio Bucci, Estadão, 15 7 21)

 

‘Nunca os seres humanos foram tão explorados quanto agora', diz Eugênio Bucci

15.7.21

Enquanto navegamos pelas redes sociais, estamos trabalhando - para os outros. E de graça, permitindo que nossas informações sejam reunidas, catalogadas e transformadas em bases de dados. Não há mais um imaginário com o qual as companhias dialogam para vender um produto. O capital passou a criar o próprio imaginário em que estamos mergulhados.

 

É esse um dos pontos de partida para o novo livro de Eugênio Bucci, jornalista e professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. A Superindústria do Imaginário: Como o Capital Transformou o Olhar em Trabalho e se Apropriou de Tudo Que É Visível inaugura a Coleção Ensaios da editora Autêntica. E traz reflexões e conceitos nos quais Bucci vem trabalhando há mais de duas décadas.

 

 

Eugênio Bucci fala sobre os danos irreversíveis das ‘fake news’

Eugênio Bucci fala sobre os danos irreversíveis das ‘fake news’

“Nunca os seres humanos foram tão abusivamente explorados como agora”, diz Bucci na entrevista a seguir, na qual fala sobre as ideias do livro e o modo como essa nova configuração na relação com o capital influencia diferentes campos, da arte à produção jornalística.

 

O livro traz reflexões já presentes em seu doutorado. Em que medida o passar do tempo contribuiu com as ideias apresentadas? O que ainda não havia que hoje se tornou presente e foi fundamental para o livro?

Mais do que reflexões, há conceitos nesse livro que eu formulei há mais de 20 anos. O entendimento do que vem a ser o valor de gozo é um deles. A expressão foi cunhada pelo psicanalista francês Jacques Lacan num curso que ele deu em 1967, mas nunca foi desenvolvida por ele ou por seus seguidores na forma de uma categoria comunicacional e econômica. E, no meu doutorado, há 20 anos, eu proponho um modelo teórico para isso. Agora, no meu novo livro, essa construção ficou mais aprofundada e mais fundamentada. Outros conceitos cruciais, porém, eu só pude enxergar e elaborar mais tarde, como o de superindústria do imaginário. Quanto ao que não existia na época, eu posso lembrar aqui as plataformas sociais e esses conglomerados monopolistas globais, como Facebook e Google. O advento desses gigantes da era digital só confirmou os postulados da minha tese.

 

O senhor mostra como estamos expostos aos algoritmos em um jogo desigual, pois sabemos pouco sobre eles. É possível igualar as chances nesse jogo?

Por enquanto, acho difícil e improvável igualarmos esse jogo, que se tornou uma relação assimétrica num grau absurdo. Os algoritmos sabem tudo sobre a intimidade dos frequentadores da internet e esses frequentadores nada sabem sobre os algoritmos. Perto disso, o 1984 de George Orwell é uma fábula infantil. A exploração econômica que esses conglomerados realizam é mais absurda ainda. Pensemos nas plataformas sociais. O modelo de exploração chega às raias da desumanidade. Quem são os digitadores, os fotógrafos, os editores, os locutores, os atores e os modelos de tudo o que aparece nas plataformas? Ora, os “usuários”, como aprendemos a chamá-los. Um Facebook da vida não precisa contratar ninguém para “postar conteúdos”, no linguajar deles, pois os tais “usuários” fazem isso de graça. E como se estivessem se divertindo, aproveitando as vantagens de um entretenimento que lhes é dado de graça. Sejamos diretos: quem entra de graça aí não são as funcionalidades das plataformas, mas o trabalho do tal “usuário”. Além do seu trabalho e do seu olhar, que vale dinheiro, e muito, o pobre e inocente “usuário” entrega todos os seus dados, sua biografia, seus sonhos mais pueris para o algoritmo. Depois, no fim da linha, quem vai ser vendido é o próprio usuário, com seus dados, seu olhar e o circuito secreto de seu desejo inconsciente. Nunca os seres humanos foram tão abusivamente explorados como agora.

 

Teremos de construir uma forma de resistência, mas ela está muito distante. Ela só poderá vir da regulação democrática que seja capaz de, em primeiro lugar, quebrar os monopólios e, em segundo lugar, impedir a apropriação desleal, pelos algoritmos, dos dados e da configuração do nosso desejo. O que essas empresas fazem é mercadejar com o que há de mais íntimo e mais pessoal. Isso é intolerável se queremos viver numa sociedade civilizada. É verdade que a tecnologia nos trouxe e nos traz coisas maravilhosas, mas a tecnologia aprisionada pela ganância do capital rebaixa a dignidade humana a um patamar selvagem, que não podemos aceitar. Uma rebelião digital é urgentemente necessária.

 

Em um contexto no qual o sujeito tem sua própria vontade trabalhando pelo capital, é possível ainda falar de individualidade?

Sim, a individualidade existe, assim como existem as subjetividades de cada pessoa. Mas, não nos esqueçamos, há um processo caprichoso e atroz de colonização dos nossos aparatos psíquicos individuais. Os artifícios da exploração adotados pela superindústria são mais ou menos como um vírus que se insinua por dentro do corpo e se aloja no interior das células de sua vítima para subjugar o organismo. Os bits da superindústria penetram nas subjetividades, de onde extraem informações, transformam o desejo numa mercadoria barateada e escravizam as pessoas. Há estudos provando que essas plataformas se valem de mecanismos viciantes para capturar e enclausurar o tal “usuário”.

 

Uma delas é a perda de contato com a razão, com os fatos e com a política orientada para o bem comum. Tragada pela economia das sensações e das emoções, a política se degrada em fanatismo. O que é o bolsonarismo se não uma legião de aproveitadores que se apropriaram de ferramentas da era digital para promover a mentira, o ódio e o culto da violência? Entre as consequências dessa indústria, nós podemos listar, também, o adoecimento da democracia.

 

A superindústria do imaginário traz mudanças para a organização do espaço público, interferindo em noções de tempo, de espaço, e nas formas de comunicação. Em que medida a esfera pública compreende essas mudanças e se adapta a isso?

Veja que coisa perturbadora. Nossa esfera pública foi moldada pela mediação dos jornais impressos, que chamo de instância da palavra impressa. Esse padrão comunicacional predominou desde fins do século 18 até a primeira metade do século 20 e imprimiu o seu fenótipo ao Estado moderno. Hoje, porém, a sociedade pulsa em outro padrão, a instância da imagem ao vivo, da qual a internet é uma extensão e um aprofundamento vertiginoso. Os dois padrões entram em embates o tempo todo. As mobilizações de 2013 no Brasil foram uma evidência disso: as redes sociais se batiam contra a burocracia estatal, que não tinha como assimilar aquele imenso volume de demandas, que acabaram ficando sem respostas.

 

A passagem da instância da palavra impressa para a instância da imagem ao vivo também tem influências na atividade jornalística. Como, no entanto, pensar na possibilidade de transformação do jornalismo em um contexto que favorece as fake news?

O jornalismo está em crise escancarada, não apenas porque perdeu o pé das tecnologias, mas principalmente porque a política passou a desprezar a verdade dos fatos, que é o centro de gravidade da função jornalística. Se um presidente da República dá uma banana para os fatos, todos os dias, o que o jornalismo pode fazer? Pode insistir na apuração do que se passa, como temos feito, mas a situação é difícil. O ambiente digital, que foi sequestrado pela voracidade de um capitalismo sem princípios, tem sido hostil para os jornalistas, para o diálogo racional e para a moralidade pública.

 

A instância da imagem ao vivo 'é o portal por onde a totalidade do agora abraça a totalidade do espaço'. Em que medida o modo como se organiza esse agora, com suas novas especificidades, pode levar a uma mudança de percepção a respeito do passado ou então da possibilidade de se imaginar um futuro?

Tenho a impressão de que o gerúndio é a forma verbal por excelência da nossa era. Não é por acaso que essa mania de falar tudo no gerúndio, própria do telemarketing americanizado, teve alastramento tão penetrante. A superindústria do imaginário existe no gerúndio, numa bolha temporal em que as coisas seguem num acontecendo rumorejante, sem que seu início e seu fim se mostrem com clareza. O curso da História se dissolve nesse gerúndio totalitário, em que Elvis Presley, do qual se diz que não morreu, Buda, Neymar, Anitta, a rainha Elizabeth II, o papa Francisco e os ministros do Supremo Tribunal Federal parecem ser celebridades equivalentes, análogas, elas todas fungíveis, elas todas igualmente vazias. Que futuro a gente pode imaginar? A propósito, o verbo imaginar ficou meio inviável dentro do imaginário superindustrial.

 

 

sábado, 29 de maio de 2021

O Brasil do meu coração(Larry Rohter, Época, 28 5 21)

 

L.R. - O Brasil do meu coração

sexta-feira, 28 de maio de 2021 

Larry Rohter

Sem perspectiva de pôr os pés em solo brasileiro até a pandemia terminar, gostaria de enumerar algumas das coisas de que sinto falta ou de que tenho lembranças afetuosas



Não gosto de farofa, não entendo muito de futebol e não sei sambar. Se eu fosse brasileiro, seria um péssimo exemplo de brasilidade. Mas gosto, gosto mesmo, do país, seu povo e suas variadas paisagens. Então, de longe, após 18 meses de ausência forçada e sem perspectiva de pôr os pés em solo brasileiro até a pandemia terminar, gostaria de enumerar nesta coluna de despedida de ÉPOCA algumas das coisas de que sinto falta ou de que tenho lembranças afetuosas:



O pôr do sol na Amazônia, com suas infinitas tonalidades de laranja, rosa e roxo no céu, e tudo se refletindo sobre as águas tranquilas de um rio ou igarapé. E também o nascer do sol na Amazônia. A maneira como os brasileiros se cumprimentam. Não falo apenas dos abraços ou beijos ao chegar ou ao se despedir, mas também de saudações como “Ô, gente boa!” ou “Ô, xará!”. E com minha idade cada vez mais avançada, é sempre bom ouvir alguém me acercar na rua e dizer: “Ô, moço”. O cheiro de sabonete Phebo, variedade odor de rosas, de cor negra. A própria embalagem amarela e vermelha, com sua tipografia art nouveau, relíquia de 1910 em pleno século XXI.



Viajar de táxi numa tarde chuvosa de inverno e escutar a “Ave-Maria” tocar no rádio às 18 horas. O sotaque pernambucano. O sotaque do interior de São Paulo. A sonoridade de certas palavras: crepúsculo, cicatriz, bugiganga. Eça de Queiroz tinha razão quando disse que o brasileiro fala “português com açúcar”. Cordel e os cordelistas. Xilogravuras e os xilogravuristas. Repentes e os repentistas. A voz de Milton Nascimento. A voz de Marisa Monte.



Tomar uma água de coco verde geladinha, sentado na mesa de um quiosque na Praia de Ipanema (ou qualquer outra) às 7 horas da manhã. Depois, pedir que abram o coco para poder desfrutar a polpa.



Moqueca de peixe, de camarão, de caranguejo. Capixaba ou baiana. Com pirão. (Sim, sim, sei que pirão é apenas farinha misturada com caldo, mas certas preferências não têm lógica.)



Os nomes de certos prédios em cidades grandes. Uma vez, em São Paulo, encontrei o Edifício Stan Getz e fiquei encantado. Outra vez, não me lembro onde, dei uma gargalhada satisfeita quando cruzei com quatro edifícios no mesmo quarteirão com nomes de poetas malditos franceses do século XIX: Ed. Baudelaire, Ed. Rimbaud, Ed. Verlaine, Ed. Mallarmé.



Nomes de alguns lugarejos que visitei como correspondente. Meus amigos sempre ficam entretidos quando falo de Gogó da Onça, no Pará, ou Jataí, em Goiás. Mas Puxa Faca, em Roraima, sempre os deixa atônitos.



Por falar de nomes poeticamente esquisitos, também os de duplas sertanejas. Ouvi Milionário & Zé Rico pela primeira vez num garimpo em Itaituba nos anos 1970, e adorei. Comecei a colecionar discos de duplas com nomes engraçados: Abel & Caim, Redator & Jornalista, Marechal & Rondon, Marlboro & Hollywood, Domyngo & Feryado.



O cheiro da floresta depois de uma chuva forte. Sebos. De livros ou de discos, não importa. Passar um domingo de manhã na feira dos nordestinos no Pavilhão de São Cristóvão.



Estar em casa às 17 horas de um domingo com a TV desligada e, mesmo assim, poder acompanhar o placar do jogo de futebol através do gritos e aplausos dos vizinhos. Muito barulho sempre significa gol do Flamengo.



Viajar numa gaiola de Tabatinga até Belém, descendo o Solimões até Manaus, com paradas em lugares como Santo Antônio do Içá e Fonte Boa, e depois o rio-mar do Amazonas.



Viajar de ônibus interestadual ou intermunicipal. De Santarém para Brasília via a Transamazônica foi uma aventura inesquecível. Mas mesmo os trajetos mais modestos, como Salvador-Juazeiro, Porto Alegre-Santo Ângelo, ou Vilhena-Porto Velho são fascinantes, devido às vistas espetaculares ou cenas do cotidiano visíveis da janela de um veículo em movimento. Até as paradas nos lanchonetes do tipo Graal são interessantes.



Passar o Natal numa praia ensolarada, tomando um refrigerante “estupidamente gelado” e pensando no frio e a neve da minha cidade natal, Chicago. Os orquidários de Petrópolis e Teresópolis. As orquídeas que brotaram no tronco do abacateiro no quintal da minha casa.



O Museu Goeldi, em Belém, com sua coleção de artefatos indígenas e seu zoológico e jardim botânico. A Casa do Pontal, no Rio, com sua coleção de artes populares. O Museu do Homem do Nordeste e o Instituto Ricardo Brennand, no Recife. Sorveterias. Em qualquer lugar e qualquer hora. Sabor preferido: coco queimado. Mas, em Santarém, sempre o sorvete de açaí.



Os azulejos no pátio da Igreja de São Francisco em Salvador. Os azulejos pernambucanos. Os azulejos de modo geral. Sentar naquele pátio numa tarde clara, comparando o azul do céu com o do azulejo.

terça-feira, 4 de maio de 2021

Erradicação da pobreza: como a China conseguiu?(Yang Wanming, Correio Braziliense, 4 5 21)

Yang Wanming - Erradicação da pobreza: como a China conseguiu?



terça-feira, 4 de maio de 2021


 

Correio Braziliense  / Opinião

» Yang Wanming Embaixador da China no Brasil


A pobreza é um dos maiores desafios para o desenvolvimento e a governança global. Maior país em desenvolvimento do mundo, a China há muito tempo enfrenta esse flagelo. Desde 2012, o governo chinês travou uma batalha decisiva contra a pobreza. Ao retirar quase 100 milhões de pessoas da pobreza, a China cumpriu a árdua missão de erradicar a miséria absoluta. Pelos padrões do Banco Mundial, a China responde por mais de 70% da redução da população em pobreza mundial.


No livro branco Alívio da pobreza: Experiência e contribuição da China, lançado em abril deste ano, a China compartilha seus conceitos e ações nessa trajetória.


Em primeiro lugar, seguir uma filosofia centrada nas pessoas. Como a erradicação da pobreza é uma das prioridades do Estado, essa agenda está sempre presente em planos de desenvolvimento a médio e longo prazos, a fim de assegurar a coerência das políticas e a estabilidade dos apoios financeiros. Há planos de ação em todas as esferas de governo, além de um completo mecanismo de trabalho.


Segundo, adotar estratégias objetivas e adequadas. Diferentemente do assistencialismo tradicional, a China adotou uma abordagem por meio de promoção de desenvolvimento, com táticas mais precisas para impulsionar a melhoria das condições de desenvolvimento das áreas pobres e elevar o nível de escolaridade e de qualificação laboral da população carente. Tendo em vista as diferenças regionais e demográficas, foram tomadas medidas bem direcionadas: desenvolvimento industrial, realocação da população de áreas inóspitas, compensação ambiental, melhoria da educação, treinamento vocacional e seguridade social.


Xinjiang, por exemplo, a maior região autônoma da China em extensão territorial e em percentagem de população de minorias étnicas, tinha também vários bolsões de pobreza. Na região onde há maiores produtores de uva e melão, o governo local promove tecnologias de conservação e beneficiamento para aumentar o valor agregado desses produtos. Também são oferecidos cursos de produção de joias, aproveitando-se do recurso mineral de jade. Já nas áreas produtoras de algodão são difundidas técnicas têxteis e o manejo de colheitas mecanizadas. Nos últimos 60 anos, um total de 3 milhões e 89 mil habitantes locais saíram da pobreza, o PIB per capita de Xinjiang aumentou quase 40 vezes e a expectativa de vida subiu de 30 para 72 anos.


Terceiro, convergir esforços conjuntos. Para completar a meta de erradicar a pobreza, a China implementou um sistema abrangente, que conta com a participação do governo, da sociedade e do mercado. Por meio de incentivos tributários e outras políticas, promoveu o fluxo de talentos, capital e tecnologia de 342 localidades mais desenvolvidas do Leste para 570 destinos menos favorecidos no Oeste. Estimulou ainda empresas privadas, organizações sociais e indivíduos a contribuírem, conforme suas vantagens, para a redução da pobreza nos setores de indústria, ciência e tecnologia, educação, cultura, saúde e consumo. Ao mesmo tempo, valendo-se da tecnologia digital, foram incentivadas novas formas de negócios, como comércio eletrônico rural e ecoturismo, para motivar o empreendedorismo e a criatividade na população de baixa renda.


Quarto, promover a cooperação internacional. Nos mais de 70 anos desde a fundação da República Popular, a China disponibilizou mais de US$ 60 bilhões para ajudar quase 170 países e organizações internacionais, implementou mais de 5 mil projetos de assistência externa, apoiando os países em desenvolvimento na implementação dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. O governo chinês criou o Fundo China-Nações Unidas para a Paz e o Desenvolvimento e o Fundo de Amparo à Cooperação Sul-Sul, impulsionando a concretização da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável da ONU. A iniciativa chinesa "Cinturão e Rota" também ajuda os países parceiros no combate à pobreza. O Banco Mundial prevê que parcerias no âmbito dessa iniciativa ajudarão a tirar 7,6 milhões de pessoas da pobreza extrema e 32 milhões da pobreza moderada.


Sob o impacto do alastramento da pandemia, a humanidade vê crescer seu deficit de governança e de desenvolvimento. A China está disposta a trabalhar com o Brasil e os demais países para fortalecer o intercâmbio e a cooperação na redução da pobreza, unir forças para construir uma comunidade de futuro, compartilhado com vida digna e progresso comum.




quarta-feira, 28 de abril de 2021

O genocídio armênio(Estado, 28,4 21)

 O genocídio armênio


quarta-feira, 28 de abril de 2021


 

O Estado de S. Paulo  / Notas e Informações

"Todos os anos, neste dia, nós lembramos as vidas de todos aqueles que morreram no genocídio armênio durante a era otomana e reafirmamos o compromisso de evitar que tal atrocidade jamais ocorra novamente", disse o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, no dia 24 passado.


A declaração é histórica. Foi a primeira vez que um presidente norte-americano chamou pelo nome a brutal política de extermínio dos armênios empreendida pelo então Império Otomano desde antes da 1.a Guerra Mundial. A palavra "genocídio" ainda seria empregada mais uma vez por Biden no discurso em memória das vítimas, quando ele enfatizou que "o povo americano honra todos os armênios que pereceram no genocídio que começou 106 anos atrás".


A bem da verdade, antes de Joe Biden, muitos presidentes americanos criticaram com firmeza o extermínio dos armênios, jamais reconhecido pelos turcos, porém, sem classificá-lo como genocídio; não porque descabido fosse, mas para evitar ferir suscetibilidades da Turquia, país que Washington considera um frágil aliado na delicada geopolítica na região do Oriente Médio.


Por razões diametralmente opostas, o genocídio é uma questão que toca a identidade nacional de turcos e armênios.


A reação de Ancara após a fala de Biden mostra por que presidentes americanos antes dele tanto evitaram falar em genocídio armênio e quão corajosa foi a inflexão do democrata, que, diga-se, cumpriu uma promessa de campanha com o reconhecimento público da tragédia. Em pronunciamento transmitido pela TV, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, afirmou que a declaração de Biden "afunda" as relações entre seus países.


Erdogan, que classificou como "insultuoso" o discurso de Biden, pediu que o presidente americano "corrija a tempo este passo errado" nas relações entre Turquia e Estados Unidos, que, em sua visão, atingiram "um novo ponto negativo". Não haverá recuo por parte de Washington, evidentemente. Primeiro, como já dito, porque Biden cumpriu uma promessa de campanha. Segundo, por questão de coerência. O primeiro passo para "evitar que tal atrocidade jamais ocorra novamente" é tratar as coisas como são, sem subversões da realidade. O que a política pode distorcer, o registro da História aponta como o primeiro caso de genocídio do século 20, décadas antes da tentativa do extermínio dos judeus pelo regime nazista, não por acaso também negado ainda hoje por aqueles que não só se põem a espancar a História, mas também a memória das vítimas da barbárie.


De fato, era inconcebível que o genocídio armênio não fosse tratado como tal, não obstante todas as evidências da deliberada política de matança e deportação em massa implementada pelo Império Otomano, principalmente, a partir de 1915. Então premidos entre os impérios otomano e russo, no Cáucaso, o movimento de identidade nacional dos armênios sofreu toda a sorte de violência, muito antes da eclosão da 1.a Guerra, que, em seu término, levou ao fim do Império Otomano e à fundação da Turquia.


Lamentavelmente, o governo brasileiro ainda não reconhece oficialmente o genocídio armênio. Foi para cá que acorreram muitos armênios da diáspora. Aqui vivem milhares de seus descendentes.


Em 2015, o Senado aprovou requerimento dos senadores Aloysio Nunes Ferreira e José Serra, ambos do PSDB de São Paulo, e emitiu uma moção de solidariedade aos armênios por ocasião do centenário do genocídio. O emprego correto da palavra motivou reação da Turquia, que convocou para consultas o então embaixador em Brasília, Hüseyin Dirioz.


Os armênios estimam em 1,5 milhão os mortos entre 1915 e 1917. Tramita no Senado um projeto do falecido senador Major Olímpio (PSL-SP) para que se institua o dia 24 de abril como o "Dia de Homenagem às Vítimas e de Reconhecimento do Genocídio do Povo Armênio". A rápida tramitação deste projeto de lei seria uma justa homenagem à memória dos armênios que pereceram no massacre.


"Reconhecer o genocídio armênio é fundamental para evitar a repetição de atrocidades"




sexta-feira, 23 de abril de 2021

Os fortes 100 primeiros dias do governo Biden(Celso Ming, Estado, 23 4 21)

CELSO MING - Os fortes 100 primeiros dias do governo Biden


sexta-feira, 23 de abril de 2021 


 

O Estado de S. Paulo  / Economia



O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, ainda não completou seus 100 primeiros dias de governo (tomou posse dia 20 de janeiro) e, no entanto, já é enorme surpresa. Nenhum analista esperava tanto dinamismo em tantas frentes. Vamos conferir: VACINAS - A meta original nos Estados Unidos de aplicar 100 milhões de doses em 100 dias foi alcançada em 58 dias. Por isso, foi revista. Biden anunciou que já foram aplicados 200 milhões de doses. Nada menos que 80% dos maiores de 65 anos receberam ao menos uma dose. Qualquer pessoa de 16 anos ou mais tem agora acesso à vacina. Dentro de mais algumas semanas, Biden estará em condições de avançar na chamada geopolítica da vacina, destinada a ocupar os espaços que a China e a Rússia vêm ensaiando ocupar.


AVANÇO DO PIB - A imunização da população é requisito para o disparo da atividade econômica, o que está alcançado. Mas Biden avançou mais. Nas primeiras semanas de governo, propôs pacote de ajuda emergencial de Us$ 1,9 trilhão que banca nova rodada de pagamentos para a população carente. E agora, anunciou superprograma de investimentos de US$ 2 trilhões para financiamento de projetos de infraestrutura e de geração de energia limpa. É plano que relança os Estados Unidos como economia líder e deve criar milhões de empregos. É a melhor resposta à política do governo Trump que pretendia garantir os Estados Unidos em primeiro lugar com base em protecionismos, represálias e desmanche de acordos multilaterais. A ideia agora é reforçar investimentos em tecnologia e iniciativas de ponta. O desafio da China passa a ser enfrentado não com antagonismos, mas com fortalecimento da economia e das instituições. Novas projeções do FMI indicam que o PIB dos Estados Unidos saltará 6,4% neste ano.


METAS AMBIENTAIS - A convocação da primeira Cúpula do Clima, realizada ontem e hoje com os principais chefes de Estado e de governo, é, por si só, iniciativa de impacto. Não só reverte a política negacionista do presidente Trump, mas, também, avança nas metas ambientais. Os Estados Unidos se comprometem a reduzir pela metade as emissões de CO até o fim desta déca- 2 da e chegar a emissões zero até 2050. Biden ainda anuncia que pretende ajudar os demais países a cumprir as metas do Acordo de Paris.


REFORMA TRIBUTÁRIA - Há duas semanas, o governo Biden anunciou proposta que altera disposições do sistema tributário que, uma vez aceitas, terão impacto global. A primeira é o aumento do Imposto de Renda das empresas nos Estados Unidos, de 21% para 28%. A segunda, a negociação em âmbito global de um imposto mínimo sobre o lucro das empresas, com o objetivo de acabar com a guerra fiscal entre países destinada a atrair empresas.


POLÍTICA DE IMIGRAÇÃO - Em vez de insistir na construção de muros e na deportação de "não cidadãos" (que substitui a expressão "estrangeiros"), Biden estuda agora formas não truculentas de lidar com o problema migratório.


FIM DA GUERRA - No dia 14 de abril, Biden anunciou a retirada das tropas dos Estados Unidos do Afeganistão até 11 de setembro, data que marca o 20o aniversário do ataque às torres gêmeas. É o fim da guerra mais longa em que se enredaram os Estados Unidos.


ACORDO COM O IRÃ - Trump desmantelou o acordo nuclear com o Irã assinado pelo ex-presidente Obama, situação que abriu espaços para que se fortalecessem entendimentos financeiros e comerciais entre Irã e China. Biden já manifestou interesse para a retomada das negociações. Para isso, terá de enfrentar a oposição de Israel.


São decisões que ainda não garantem que a administração Biden leve a bom termo essas e outras iniciativas, porque os 100 primeiros dias se caracterizam como temporada de tréguas no jogo com a oposição. A partir de agora, os republicanos passarão a ver a administração Biden como sério obstáculo a suas pretensões eleitorais em 2022 e em 2024 e deverão acirrar sua atuação política contra o presidente. No entanto, esse inegável bom começo pode ajudar a reconduzir a vida política no país para o fortalecimento das instituições democráticas e não mais para seu desmonte, como aconteceu ao longo do período Trump.




sexta-feira, 9 de abril de 2021

As Forças Armadas da cleptocracia e a preservação da democracia(Simon Schwartzman, 9 4 21)

 

A doença As Forças Armadas da cleptocracia e a preservação da democracia


sexta-feira, 9 de abril de 2021 


 

O Estado de S. Paulo  / Espaço Aberto

Simon Schwartzman


Um tema importante, mas pouco estudado nas ciências sociais, é o das causas e efeitos da cleptocracia, termo de origem grega que significa, literalmente, governo de ladrões. Em todos os regimes políticos, democráticos ou autoritários, os governantes e seus apoiadores se beneficiam de seus cargos. Mas o que marca a cleptocracia é a pilhagem sistemática dos recursos públicos em benefício dos governantes e seus familiares, atropelando as instituições ou manipulando-as a seu favor. Os cleptocratas têm muito pouco apoio na sociedade, no entanto, conseguem se manter por longo tempo no poder. Como isso é possível?


Cerca de 20 anos atrás, Daron Acemoglu, economista de origem turca que ficou famoso por combinar a análise econômica com a história e as ciências políticas, tratou de responder a essa pergunta, que é mais atual do que nunca, sobretudo no Brasil (*). Ele tomou como exemplo os casos extremos do Congo, com Joseph Mobutu, e da República Dominicana, com Rafael Trujillo, que governaram por décadas e arruinaram seus países, mas o modelo que desenvolveu é de aplicação muito mais ampla.


O que permite que a cleptocracia se estabeleça e se mantenha, diz Acemoglu, é a debilidade das instituições de um país. "Quando as instituições são fortes", diz ele, "os cidadãos punem os políticos retirando-os do poder; quando as instituições são fracas, os políticos punem os cidadãos que não os apoiam. Quando as instituições são fortes, os políticos competem pelo apoio e endosso de grupos de interesse; quando as instituições são fracas, os políticos criam e controlam os grupos de interesse. Quando as instituições são fortes, os cidadãos exigem direitos; quando as instituições são fracas, os cidadãos imploram por favores".


Na cleptocracia todos perdem, exceto os cleptocratas, mas os diferentes setores da sociedade não conseguem se organizar para tirá-los do poder porque eles usam a conhecida tática de dividir para reinar. Pensemos em dois partidos que poderiam unir-se para derrotar os cleptocratas na próxima eleição. Antes que se juntem, o governo chama um deles, oferece vantagens e benefícios e ameaça punir quem ficar contra. Entre o medo e a ganância, o apoio é dado e o governo se mantém. No dia a dia, a técnica funciona trocando constantemente ministros e altos funcionários, provocando insegurança e fazendo as autoridades serem leais aos governantes, e não às responsabilidades e aos fins das instituições em que trabalham.


Existem algumas condições para que esse jogo de dividir para reinar tenha sucesso. A primeira é quando os setores mais organizados da sociedade só conseguem pensar no curto prazo, porque não acreditam na estabilidade das instituições políticas e econômicas. Entre o ganho imediato de um privilégio concedido ou bom negócio feito hoje com o governo e um ganho futuro de uma eventual vitória eleitoral e a economia prosperando, apostam no ganho imediato. O segundo é quando os governantes conseguem concentrar recursos significativos em suas mãos, seja porque recebem ajuda internacional, ou porque se beneficiam dos lucros da exportação de alguns produtos de grande valor, ou porque podem canalizar para si o dinheiro de impostos, ou emitir dinheiro novo. O terceiro é quando a economia é pouco produtiva, o que faz que os benefícios vindos dos favores do governo sejam muito mais valorizados do que os da atividade econômica e profissional independente. O último é quando os diferentes grupos de interes- se na sociedade são igualmente débeis em sua capacidade de se organizar e mobilizar recursos, o que faz que nenhum deles seja capaz, sozinho, de desafiar e ganhar numa disputa com os tecnocratas.


Existem outros dois fatores que contribuem para a permanência das cleptocracias. Um é quando o poder político está concentrado numa pessoa, mais do que num cargo ou numa instituição. Com isso, em eventual conflito entre os interesses do governante e as regras institucionais, prevalecem os primeiros. O outro é quando a sociedade é muito desigual, permitindo que um pequeno grupo mantenha seus privilégios, cooptando parte dos setores mais pobres distribuindo migalhas.


Para os que conseguem acompanhar, Acemoglu e seus colaboradores apresentam um modelo matemático que mostra de forma precisa como a cleptocracia funciona e se mantém. Aqui basta dizer que uma consequência grave da cleptocracia é o ataque permanente às instituições existentes, não só do Executivo, mas também do Judiciário e do Legislativo, que acabam por perder legitimidade e autonomia. O resultado é a desorganização da economia, o empobrecimento da sociedade e o aumento da insegurança, fatores que, por sua vez, facilitam a permanência dos cleptocratas no poder. Mobutu, Trujillo, Stroessner e tantos outros mostram que quando a cleptocracia domina é muito difícil se livrar dela. Mas ela pode ser entendida também como uma doença que vai crescendo aos poucos e precisa ser debelada antes que seja tarde demais.


(*) Acemoglu, Daron, Thierry Verdier e James A Robinson Kleptocracy and divide-and-rule: A model of personal rule. Journal of the European Economic Association, 2 (2-3), pp 162-92, 2004.


SOCIÓLOGO, É MEMBRO DA ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS


Ela vai crescendo aos poucos e precisa ser debelada antes que seja tarde demais



sábado, 27 de março de 2021

O BESTEIROL QUE NOS ASSOLA SEM PIEDADE(Época, 26 3 2021)

 H.G. - O BESTEIROL QUE NOS ASSOLA SEM PIEDADE

sexta-feira, 26 de março de 2021 - 12:42


 

Revista Época  / Colunistas

HELIO GUROVITZ


Um dos efeitos colaterais da Covid-19 foi ter despertado um interesse súbito pela ciência. Quem jamais havia olhado através de um microscópio se viu de repente envolto por epidemiologistas, infectologistas ou imunologistas. Escalas logarítmicas, médias móveis e modelos estatísticos entraram nas discussões como se fossem a tabela do Brasileirão. Uma tal de Ciência — assim, com maiúscula — passou a ser invocada como a força divina capaz de liquidar qualquer questão. Da noite para o dia, legiões de autoproclamados “divulgadores científicos” saltaram dos canais de vídeos na internet e das redes sociais para as páginas da imprensa e os noticiários televisivos. Tornaram-se as vozes mais estridentes num debate já travado em altíssimos decibéis. Mas, se alguém ainda nutre a ilusão de que essa outra epidemia tem contribuído para aperfeiçoar a política ou ampliar o conhecimento da população, basta olhar ao redor para perceber que o besteirol não tem limite.





No mundo anglo-saxão, consagrou-se um palavrão para definir essa mistura de embromação, asneira e pretensão que anima toda conversa fiada: “bullshit” (literalmente, “bosta bovina”). “Bullshit envolve linguagem, estatísticas, gráficos e outras formas de apresentação cuja intenção é persuadir ou impressionar a audiência distraindo, sobrecarregando ou intimidando, sem nenhum tipo de apreço pela verdade, coerência lógica ou informação de fato transmitida”, escrevem os cientistas Carl Bergstrom e Jevin West em Calling bullshit (algo como Refutando o besteirol). “Parte dela é inócua, outra parte é um leve incômodo, uma outra até divertida. Mas muito do bullshitol por aí tem consequências sérias para a saúde e prosperidade humanas, a integridade da ciência e a tomada de decisão numa democracia.” A causa da profusão de besteiras que nos assola sem piedade não é nova: “A invenção de formas de comunicação novas e variadas deu voz e uma nova audiência a muita gente cuja opinião jamais seria solicitada e que, na realidade, tem pouco a acrescentar às questões públicas além de excremento verbal”. Que fazer?





Bergstrom e West ensaiam uma resposta, derivada de um curso homônimo que dão na Universidade de Washington, em Seattle. Não se trata apenas de uma coleção de exemplos absurdos para nos divertir. Eles demonstram de modo didático como a linguagem da matemática e da ciência é usada por picaretas para transmitir uma impressão de rigor. Esmiúçam as falácias mais comuns na interpretação dos resultados científicos (em particular nas relações de causa e efeito), as armadilhas que se escondem atrás da pretensa objetividade das “métricas” (“quando uma medida vira meta, deixa de ser uma boa medida”), os vieses que distorcem a leitura das estatísticas, a prestidigitação usada em gráficos para nos ludibriar, a empulhação que cerca modismos como “big data” ou “algoritmos de inteligência artificial”. “Quando treinamos máquinas para tomar decisões com base em dados colhidos numa sociedade cheia de defeitos, elas aprendem e perpetuam os mesmos defeitos”, dizem.





No capítulo mais corajoso, desmistificam o besteirol que cerca o discurso científico.“Embora o ceticismo talvez torne a ciência a principal metodologia para enfrentar o bullshitol, não é garantia absoluta”, afirmam.





“Há muita bullshit na ciência, parte acidental, parte deliberada.” A explicação da principal artimanha adotada por cientistas para publicar resultados frágeis — conhecida como “p-hacking” — é primorosa e deve ser estudada por todos os que veem estudos científicos como verdades acima de qualquer suspeita. Nos capítulos finais, eles fornecem guias práticos tanto para reconhecer quanto para refutar o besteirol. Identificá-lo é uma atividade individual; contestá-lo, um serviço público essencial nestes tempos. Não se trata de parecer mais inteligente, mas de tornar os outros mais inteligentes. É preciso, para isso, escolher as batalhas e estar preparado para um esforço extenuante. “Produzir bullshit dá muito menos trabalho do que limpar.”





CALLING BULLSHIT | Carl Bergstrom e Jevin West, Random House | 2020 | 336 páginas | US$ 30

domingo, 27 de dezembro de 2020

O resgate da humildade(Época, 25 12 2020)

 DOS EDITORES - O RESGATE DA HUMILDADE

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020 

 

Revista Época  / Dos Editores

Cenário Político-Econômico: Colunistas

Da Redação


Das transformações que presenciamos ao longo dos últimos anos trazidas pela tecnologia, é inegável que a maioria nos beneficia como indivíduos e como grupo. Dos avanços da medicina à maior eficácia dos transportes, da educação à distância ao amplo e facilitado acesso à informação, das conexões viabilizadas pelas redes sociais à praticidade das compras on-line, que nos fazem ganhar tempo. Teria o homem encontrado tão rapidamente uma vacina eficaz para uma doença tão mortífera como a Covid-19 sem servir-se dos aparatos tecnológicos que criou? Dificilmente.


Ainda assim, como é possível que, diante da genialidade humana ao lidar com a inovação, consigamos a façanha de usar esse patrimônio tecnológico contra nós mesmos? O acesso quase irrestrito à informação, viabilizado pela internet, aflorou em muitos de nós um sentimento de autossuficiência que não encontra respaldo na realidade. Valendo-se de informações nem sempre verdadeiras ou manipuladas nas redes, grupos de pessoas vêm contestando a ciência, a medicina, a política, a Justiça, a imprensa e outras áreas de expertise, como se fossem senhores da razão e da verdade. O ápice desse estado de coisas é aquilo a que assistimos hoje: grupos sem qualquer conhecimento técnico ou formação adequada, incluindo um chefe de Estado, lançam mão de informação disponível na internet para questionar o uso de vacinas desenvolvidas pelos maiores laboratórios do mundo com o objetivo de impedir a propagação do vírus mais mortal de que se tem notícia nos últimos 100 anos.



O cientista político Tom Nichols, que fez carreira acadêmica em Harvard e nas escolas militares americanas, vem tratando desse fenômeno há alguns anos. Ele destrincha, em dois livros publicados em 2016 e 2021, The death of expertise (A morte da expertise) e Our own worst enemy (Nosso próprio pior inimigo), ainda não lançados no Brasil, como o narcisismo move as pessoas a negarem o conhecimento estabelecido. Nichols argumenta que a internet acaba criando uma falsa ilusão de igualdade — pelo fato de termos acesso às informações contidas ali, seríamos todos igualmente capazes de processá-las, não importando a formação de cada um. Essa onipotência é um bálsamo para egos frágeis. Acrescida de ressentimentos sociais e econômicos, acaba resultando no que vemos hoje: democracias ameaçadas por seus próprios cidadãos, que, insatisfeitos com a política, procuram soluções mágicas, rápidas e individualistas para suas angústias.


O narcisismo acrescido do imediatismo é, segundo Nichols, a chave do problema. Inspirados pela rapidez das redes em prover respostas a qualquer pergunta, muitos acreditam que há sempre uma solução simples e de fácil compreensão para tudo. E ainda concluem que, se algo é muito técnico ou difícil de entender, possivelmente está errado. Em sua tese, Nichols não quer livrar as elites do conhecimento de sua responsabilidade de prestar contas sobre erros e acertos. Mas joga luz sobre o que o desrespeito à expertise pode causar.


Infelizmente, a solução para o problema não está somente na criação de leis que responsabilizem cada um pelo mau uso da informação na internet. Está, sobretudo, na capacidade do ser humano de reconhecer que nem tudo sabe, que não entende de todos os assuntos e que, em determinados casos, não será capaz de aprender. Ou seja, a boa e velha dose de humildade.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Falando sozinho(William Waack, Estado, 26 11 2020)



WILLIAM WAACK - Falando sozinho


quinta-feira, 26 de novembro de 2020 


 

O Estado de S. Paulo  / Política


WILLIAM WAACK


E preciso um pouco de paciência, mas a força dos interesses privados brasileiros está conseguindo impor severos limites aos rompantes de política externa do governo Jair Bolsonaro. A 'linha" externa foi basicamente subordinar-se a Donald Trump, um erro grotesco do ponto de vista "técnico" de diplomacia e um exemplo já clássico de como a cegueira ideológica conduz a decisões que são pura estupidez.


O agronegócio foi o primeiro a gritar contra a gratuita hostilização de parceiros comerciais no Oriente Médio e na Ásia, seguido de perto por setores modernos industriais e do mundo financeiro em relação a políticas ambientais. Os mais novos grupos a entrar no "vamos dar uma segurada" são de setores tecnológicos ligados a telecomunicações e infraestrutura, preocupados com o dano que a hostilidade à China possa trazer a investimentos no 5G.


Especialmente no agro "tecnológico" - aquele que colocou o Brasil como uma superpotência na produção de grãos e proteínas - a postura externa do governo Bolsonaro é vista com consternação e abertamente criticada. O racha já chegou à relação entre entidades que representam os variados grupos desse setor. Aqueles apelidados de "ruralistas", e identificados com a soja e a pecuária "primitiva", continuam apegados à noção de que, sendo o Brasil um campeão na produção de alimentos, não importa o que aconteça ou o que se diga, o mundo continuará comprando aqui.


Mas coligação de peso é a que passa pelos bancos, grandes indústrias (química, por exemplo) , instituições financeiras (plataformas de investimentos), empresas de ponta no setor digital (aplicação de inovação digital na agricultura, por exemplo), serviços e varejo de massa (por suas ligações com o exterior). Elas se entendem como parte de grandes cadeias internacionais, o que significa levar em grande consideração o que vai pela cabeça de massas de consumidores - e as preocupações de acionistas idem.


Estabeleceram com o presidente do Conselho da Amazônia, o general Hamilton Mourão, uma espécie de interlocução que se faz notar, por exemplo, na maneira como o vice-presidente reagiu ao anúncio de Biden de que retornaria aos acordos do clima de Paris - mais uma vez, a voz de Mourão é abertamente dissonante em relação à de Bolsonaro. Aliás, na cabeça dos executivos desses grupos a vitória de Joe Biden é vista como uma excelente oportunidade de, pelo menos, restaurar parte das cadeias produtivas globais. E fala-se da China com bem menos hostilidade política.


Nenhum desses dirigentes admite em conversas particulares enxergar qualquer vantagem no isolamento internacional a que as posturas de política externa de Bolsonaro levaram o País, e simplesmente ignoram o que diz o governo. Olham para os acordos de comércio recentemente assinados na Ásia (abrangendo 30% do PIB mundial e alguns países "ocidentais" como a Austrália, por exemplo) e examinam em grupos nutridos de análise da situação internacional como não perder o bonde (mais um).


Nesse sentido, a anunciada adesão do Brasil à iniciativa americana de "rede limpa" (clean network), que exclui a chinesa Huawei do 5G brasileiro, foi considerada prematura e desnecessária também por militares envolvidos em programas de Defesa- e que não viram na dedicação de Bolsonaro a Trump qualquer vantagem prática em termos de acesso a tecnologias sensitivas (notadamente nos setores nucleares e de mísseis) tradicionalmente bloqueadas por governos americanos, democratas ou republicanos.


Qual o resultado de tudo isso: será o retorno às deliberações multilaterais (incluindo o acordo de Paris), a moderação na resposta às críticas à política ambiental, mais cuidado no trato com parceiros comerciais importantes na Ásia e Oriente Médio e a reiteração (bem antiga, já) aos que controlam tecnologias de Defesa de que somos internacionalmente "adultos e responsáveis". Em outras palavras, é deixar a área externa do governo, incluindo filhos, assessores e alguns ministros de Bolsonaro, falando sozinhos.


Os principais freios à política externa de Bolsonaro vêm da iniciativa privada

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

A transição(Monica de Bolle, Estado, 25 11 2020)

 MONICA DE BOLLE - A transição


quarta-feira, 25 de novembro de 2020 


 

O Estado de S. Paulo  / Economia


MONICA DE BOLLE


No fim, as profecias mais pessimistas sobre "o fim da democracia americana", entoadas com ar de gravidade por diversos analistas nos EUA e no Brasil, não se confirmou. E era mais do que esperado que não se confirmasse. Como escrevi tanto neste espaço quanto em coluna para a revista Época, Donald J. Trump gosta de quebrar porcelana, mas, quando se trata das instituições deste país onde vivo há muitos anos, entre idas e vindas, tudo funciona conforme se espera.


O Judiciário descartou praticamente todas as tentativas de Trump de subverter as eleições, muitas das quais risíveis. Cenas absurdas marcaram as semanas que transcorreram desde 3 novembro, e a elas voltarei em um instante. Além do Judiciário, as legislaturas estaduais, os responsáveis pela certificação das eleições, entre outros, não se deixaram abalar pelas investidas do ainda presidente, que já havia desistido de governar para se entregar a tentativas esdrúxulas de invalidar as eleições e a rodadas de golfe nos fins de semana. Prevaleceu o que prevaleceria: a vitória do presidente eleito, o democrata Joe Biden.


Para falar sobre a transição de Biden, é preciso discorrer sobre os absurdos que testemunhamos desde a coletiva no estacionamento da hoje famosa Four Seasons Total Landscaping. Para quem não se lembra do episódio, ele aconteceu no dia em que Biden foi declarado vencedor pelos principais veículos de notícias. Nesse dia, Rudy Giuliani, advogado de Trump, convocou a imprensa para falar sobre a estratégia jurídica da campanha. Desafortunadamente para ele - para muitos foi uma delícia -, alguém da equipe apontou e acertou no Four Seasons errado. Por força do erro, a entrevista se deu não no sofisticado hotel, mas em um dilapidado estacionamento que fica entre o crematório e a "Ilha da Fantasia", nome do sex shop ao lado. A Four Seasons Total Landscaping desde então faz sucesso com a venda de camisetas e máscaras protetoras com dizeres variados.


O segundo episódio dentre aqueles absurdos se deu na semana passada, quando um Giuliani de aparência desarranjada suava em frente às câmeras, a tinta do cabelo escorrendo pelas bochechas. A imagem foi menos lúdica do que a do famoso estacionamento, mas, no conjunto, os dois episódios ilustram bem por que o ar grave no trato do resultado das eleições e as sentenças de morte da democracia eram descabidos. O que havia era não um ato ominoso, mas uma chanchada, algo burlesco.


Na segunda-feira, a agência responsável liberou os recursos federais e deu permissão para que a transição se inicie. Mas Biden não está perdendo tempo. Antes mesmo de ser "oficializada" a troca de comando, já tinha se reunido com aqueles que pretendia indicar para os cargos mais importantes. Em pouco mais de um par de dias, anunciou quem seriam os principais assessores da Casa Branca, quem ocuparia a chefia do Departamento de Estado, do Tesouro, da Segurança Nacional, entre outros. Para o Departamento de Estado, escolheu Antony Blinken, diplomata de carreira, tarimbado e experiente tanto em assuntos externos quanto em temas de segurança nacional. O presidente eleito sinaliza, assim, que seu governo retomará as rédeas do multilateralismo achincalhado por Trump e por adeptos da tese do globalismo malvado mundo afora. Tal grupo inclui vários membros de alto escalão do governo Bolsonaro, gurus de seus filhos, além de seus filhos.


Para o Tesouro, Biden chamou Janet Yellen. Yellen foi a primeira mulher a presidir o Fed, durante o governo Obama. Agora ela será a primeira mulher a chefiar o Tesouro. Tive o prazer de conhecê-la e estar com ela em várias ocasiões aqui em Washington, tanto em palestras no Peterson Institute for International Economics, onde trabalho, quanto em ocasiões mais prosaicas. Yellen era frequentadora assídua de uma cafeteria onde eu costumava almoçar antes da pandemia. Sempre em companhia ilustre, a economista nunca deixou de me cumprimentar. Yellen reúne qualidades únicas: é uma acadêmica de peso, além de uma grande gestora de política econômica. Sua visão sobre os males que afligem os EUA passa por um entendimento sofisticado e abrangente das mazelas estruturais responsáveis pela desigualdade no país. É de alguém como ela que precisamos na futura liderança do Ministério da Economia.


A transição de Biden, ainda que a pandemia esteja se agravando por aqui, tem deixado claro algo que precisa ser internalizado também no Brasil. Os surtos de anomalia aguda, os gravíssimos acidentes históricos representados pela ascensão de Trump e de Bolsonaro, são parte da história. Vêm e vão. O Brasil não está destinado a perecer nas mãos da incompetência, assim como não o estavam os EUA. Tudo muda. Tudo está sempre em transição.


ECONOMISTA, PESQUISADORA DO PETERSON INSTITUTE FOR INTERNATIONAL ECONOMICS E PROFESSORA DA SAIS/JOHNS HOPKINS UNIVERSITY

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

O ovo da serpente(Luiz Carlos Trabuco Cappi, Estado, 23 11 2020)

O ovo da serpente


segunda-feira, 23 de novembro de 2020


O Estado de S. Paulo  / Economia


LUIZ CARLOS TRABUCO CAPPI


Bem mais precioso que uma sociedade pode legar aos seus cidadãos, a educação é uma das maiores vítimas dos efeitos destrutivos da pandemia de coronavírus. O fechamento compulsório de escolas, o isolamento de estudantes e as incertezas sobre a retomada de atividades presenciais restringiram, ao longo deste ano, o acesso ao ensino. Nessa medida, a desigualdade educacional se agravou.


É uma evidência que alunos com melhor acesso à tecnologia e suas ferramentas, da conexão firme e veloz à internet ao uso de iPads de última geração, têm melhores meios de mitigar os danos causados pela abrupta interrupção do ano letivo e a rápida introdução do ensino a distância.


Global, o fenômeno ganha relevância em países nos quais as diferenças sociais são mais acentuadas, como é o caso do Brasil. Esse desequilíbrio aumenta o déficit educacional. O preço a pagar projeta danos irreversíveis. Uma sociedade deficiente em educação não avança e, pior, aponta para o atraso. Forma cidadãos sem conteúdo para compartilhar conhecimento, construir sonhos e forjar oportunidades econômicas. Cria uma geração sem esperança.


É o ovo que gera a serpente da desinformação, da proliferação das fake news e da polarização política perigosa. Engessa o progresso, divide a cidadania, anula a solidariedade e radicaliza o individualismo. A deseducação é o que põe em risco a democracia.


A contraface dessa moeda é paz e prosperidade. Enfrentar com prioridade a questão da educação envolvendo soluções que unam governo, iniciativa privada e setores que acumulam massa crítica sobre o tema trará ganhos a todos.


O ensino abre portas para o desenvolvimento inclusivo, meio mais eficaz de combater as desigualdades. Aprimora e reforça os valores civilizatórios. Barra humilhações à Nação e seu povo.


A educação impulsiona política social de base ampla - abarca da criança ao jovem adulto, proporcionando desde o acesso à merenda, nos primeiros anos, ao emprego e renda, no curso da formação. O filósofo Immanuel Kant definiu o ensino como "o grande segredo do aperfeiçoamento da humanidade".


Os indicadores atuais mostram a dimensão do desafio. Em 2019, somente 27% da população com 25 anos ou mais exibiam o ensino médio completo, enquanto 32% nessa faixa etária não tinham concluído o ensino fundamental. A evasão no ensino médio atingiu 18% entre jovens de 19 anos. Apenas 21% dos brasileiros de 24 a 35 anos têm ensino superior, segundo a OCDE, ante 70% na Coreia do Sul. As instituições privadas de ensino superior calculam que 400 mil dos seus 6,5 milhões de alunos deixaram de estudar este ano por conta da pandemia, maior evasão já registrada.


A inversão dessas tendências é tanto mais complexa pela delicada situação fiscal que o País atravessa. Não conseguimos hoje sequer sonhar com uma situação como a da Alemanha, cujo governo anunciou um aporte de ? 160 bilhões, no período de 2021 a 2030, para universidades e centros de pesquisa.


O Brasil precisa de criatividade e sentido de urgência para encontrar os caminhos de um sistema educacional moderno e inclusivo em todos os níveis. A educação a distância, que os especialistas dizem ter vindo para ficar, é nossa aliada nessa corrida, mas é preciso equalizar os acessos à tecnologia a todas as camadas da sociedade, e isso demanda investimento. A qualificação de professores é outra condição para que o País saia do risco de apagão no setor que ilumina o futuro.


Os investimentos em educação têm maturação de longo prazo. Muitas vezes, os governantes preferem se ocupar de outras áreas, em busca de um reconhecimento mais rápido, do que tratar desse setor basal. Considerar, porém, a educação como uma rubrica de gastos incômodos leva à perpetuação do atraso.


Para nossa sorte, o nonagenário educador americano e ex-presidente de Harvard Derek Bok já esclareceu esse dilema: "Se você acha a educação cara, experimente verificar os custos da ignorância."


"Uma sociedade deficiente em educação não avança e, pior, aponta para o atraso"


PRESIDENTE DO CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO DO BRADESCO.