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quarta-feira, 23 de março de 2022

China Faces Worst Crop Conditions Ever Due to Climate Change(Bloomberg News, 23 3 22)

 China Faces Worst Crop Conditions Ever Due to Climate Change

The country’s agriculture minister said last year’s record-breaking floods have created “big difficulties” with food production 

https://www.bloomberg.com/news/articles/2022-03-23/climate-change-threatens-china-s-crop-yield-food-security?cmpid=BBD032322_GREENDAILY&utm_medium=email&utm_source=newsletter&utm_term=220323&utm_campaign=greendaily


Harvested rice is deposited in a grain hauler tractor in Shanghai.Photographer: Qilai Shen/Bloomberg

Bloomberg News

23 de março de 2022 00:00 BRT



More extreme weather caused by rising global temperatures — compounded by geopolitical turmoil and the pandemic — is hindering China’s effort to ensure food supplies for its 1.4 billion population. 


President Xi Jinping has made food security a priority for the world’s second-biggest economy, an effort to meet the soaring demand that’s pushed imports of corn, soybeans and wheat to record levels, making Beijing increasingly vulnerable to trade tensions and supply shocks. At the same time, climate change-induced disasters have caused widespread crop damage and shrunk the amount of arable land, making it harder to boost local production.



Tang Renjian, the country’s agriculture minister, brought up the threat at a high-profile government meeting in Beijing this month. “China faces big difficulties in food production because of the unusual floods last autumn,” he told reporters. “Many faming experts and technicians told us that crop conditions this year could be the worst in history.”


More than 860 people died or went missing in natural disasters last year, which damaged almost 30 million acres of crops. Record-breaking rains in the central province of Henan in July alone damaged 2.1 million acres of farmland. The floods delayed planting on more than 18 million acres of land, about one-third of China’s total winter wheat acreage. The amount of first- and second-grade crops, where there are more than 2.7 million seedlings on every acre of land, fell by more than 20% this year compared with normal years.


Climate change hurts China’s pursuit of food security in two ways, according to Zhang Zhaoxin, a researcher with the agricultural ministry. More frequent extreme weather events are already lowering crop yields. Meanwhile, increasingly unpredictable seasons can undermine farmers’ confidence and potentially worsen the sector’s existing labor shortage. 


Farmers in northern China are used to droughts, not floods, Zhang said. In many of the regions that were affected by torrential rain last year, farmers couldn’t harvest their corn because their machinery couldn’t handle the water. There wasn’t enough infrastructure such as pipes and systems to drain the field in time. 


Those issues are set to get more serious as the planet warms. Seasonal droughts will reduce yields of China’s three major staple foods — rice, wheat and corn — by 8% by the end of the decade, according to World Resources Institute. In the longer term, climate change also means rising coastal waters along the long and low eastern coal could further stress the agricultural industry.  


“As climate change continues to intensify in coming years, weather events are going to have a greater and greater impact on agricultural productivity,” said Even Pay, an agricultural analyst with Trivium. Ramping up imports isn’t a viable alternative, she added, pointing out that global warming makes food cultivation more challenging globally. “Climate change felt in the rest of the world could also impact China’s food security,” she said. 

-- With assistance by John Liu and Karoline Kan

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Desejo de ano-novo( Pedro Doria, Estado , 31 12 21)

 Pedro Doria - Desejo de ano-novo

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021


O Estado de S. Paulo  

O Brasil nunca elegeu um extremista para a presidência - até que aconteceu, em 2018. A não ser que algo de muito improvável ocorra, pela primeira vez desde o início da reeleição o ocupante do terceiro andar do Planalto não ganhará um segundo mandato. Não importa o vencedor, por si só já é uma boa notícia. Teremos a mais agressiva eleição da Nova República. Derrotado, com ainda dois meses de mandato, não podemos esperar civilidade de Jair Bolsonaro. Mas podemos sonhar com 2023. Meu desejo para o Brasil é de que a esquerda encare uma de suas maiores contradições. É gostar de empresário grande mas ter horror a empreendedores.


O Brasil está em 8o.° lugar no ranking de competitividade global de talentos. Não é que não tenhamos cérebros qualificados. É que eles estão fúgindo para o exterior. Um governo de esquerda não teria dificuldades de investir em universidades e reter nossas melhores cabeças. Só que conhecimento vira riqueza quando negócios são criados a partir deles. E empreender é nosso fraco: somos o 124.0 país do mundo em facilidade para fazer negócios, segundo a OCDE.


Políticas econômicas defendidas pela esquerda despejam dinheiro para turbinar empresas gigantes. Se é para grandes empresários, aqueles mais afeitos aos corredores palacianos do que aos debates sobre inovação, aí os preconceitos desaparecem. A contradição parte de uma incompreensão: a esquerda acha que um bom negócio nasce da força bruta do dinheiro despejado, não do capital humano, das idéias e das capacidades de quem o ergue.


Noutros tempos, quando as regras que valiam eram as da Era Industrial, a política de jogar dinheiro público em quantidade para construir do zero um setor até funcionava. Mas o caminho para o Brasil encontrar seu lugar no século 21 será pela economia verde, este é um setor novo, e nele as regras ainda não estão dadas.


O método para o século 21 é o do Vale do Silício. Produz-se conhecimento e se cria um ambiente onde abrir e fechar empresa é muito fácil. Onde pequenos financiamentos para testar modelos são estimulados com a consciência de que, para cada cem apostas, noventa darão errado, oito serão empresas bacanas e duas se tomarão extraordinárias.


O Estado deve estar presente em políticas sociais. E fundamental que esteja. Mas, caso se livre de preconceitos e compreenda que não precisa controlar cada passo da sociedade, descobrirá que nossa criatividade não se limita aos esportes e às artes. Basta deixar o brasileiro tentar, errar - acertar. Todos nos beneficiaremos com o PIB criado. ?


JORNALISTA


A esquerda precisa parar de gostar de empresário grande e de ter horror a empreendedores

sábado, 13 de novembro de 2021

O maior desafio da energia eólica é o PIB(Revista Conjuntura Econômica, 11 11 21)

 'O maior desafio da energia eólica é o PIB'

quinta-feira, 11 de novembro de 2021 - 00:00


 

Revista Conjuntura Econômica  / Noticias

Os 10 anos que a economista Elbia Gannoum completa à frente da Abeeólica também marcam a forte expansão da geração eólica no Brasil, colocando-se como a segunda maior dentro da matriz elétrica brasileira, com custos competitivos. Pelo lado da oferta, a executiva diz que a capacidade de expansão do setor continua praticamente ilimitada, podendo acontecer à medida que o país cresça e a estrutura de transmissão permita levar a energia gerada aos centros de consumo. Em entrevista à Conjuntura Econômica, Elbia destacou o potencial da exploração offshore no Brasil, afirmando que sua complementaridade com a atual geração onshore eliminaria a necessidade do uso de termelétricas. Tecnologia e fontes de financiamento não faltam; afirma, ressaltando que a energia eólica também já mostrou colaborar para o crescimento socioeconômico das regiões em que os parques têm sido instalados, especialmente no Nordeste. "Além de ser uma matriz renovável, usando recursos competitivos, é uma ferramenta de desenvolvimento, que é algo tão desafiador para o país; afirma.


Conjuntura Econômica - A geração eólica registrou forte expansão na última década no Brasil. Como o atual cenário de inflação e juros altos, desvalorização da moeda, tensão sobre a gestão fiscal e estimativa de baixo crescimento afetam as perspectivas do setor?


A energia eólica participou do primeiro leilão em 2009, quando foram contratados em torno de 2GW. Em 2011, entrou em operação o primeiro parque resultante desse leilão. Nesse ano, quando cheguei na Abeeólica, tinhamos 1GW de capacidade instalada. A partir daí, até 2017, foram contratados em média 1, 8GW a 2GW por ano. Em 2017 tivemos um momento muito importante, pois foi


quando a eólica se tornou a fonte de energia mais barata do país - em 2009, ela custava duas vezes mais que a geração hidrelétrica. Diante disso, começou a surgir para nós um novo nicho, pois o mercado livre também passou a se interessar pela eólica, fazendo a demanda crescer ainda mais. Em 2018/19, contratamos 1, 5GW nos leilões e de 2, 5GW a 3GW no mercado livre. E o montante contratado era o que a própria cadeia podia produzir, porque 80% da cadeia eólica é nacionalizada. Em 2020, por causa da pandemia, os leilões regulados foram cancelados, mas mantivemos uma contratação em torno de 3GW no mercado livre. Em 2021 os leilões voltaram, tivemos S00MW contratados, e vamos ter um pouco mais de leilões. E o mercado livre continua muito dinâmico. Devemos repetir 3GW novamente este ano, e a tendência é de que esse nível de contratação ainda continue por mais dois ou três anos.


Assim, no curto prazo, não estamos revisando nossas projeções, pois com esses resultados temos construções contratadas até 2025, quando incluiremos ao menos mais 10GW de geração, totalizando 31GW. , Isso mostra que a velocidade do crescimento dos próximos 10 anos tende a ser maior do que a dos 10 anos passados, dada essa inserção forte da eólica no nicho do mercado livre. Essa perspectiva parece destoar do pessimismo com o qual olhamos as estimativas para a economia brasileira até 2022. . .


Esse Brasil mais pessimista me ensinou muito, principalmente entre 2014-16, quando vivi uma agonia grande porque tivemos leilões cancelados, devido à retração da atividade. Hoje, me traz muita preocupação o descontrole macroeconômico. Quando começamos a ver a alta da Selic nesse nível, anúncio de que a inflação em um mês (setembro) é a maior em 27 anos, isso tudo traz muita incerteza. Estou acostumada, quando visto meu chapéu de investidora, a lidar com instabilidades políticas - pelas experiências que passamos, como a Lava Jato, aprendemos a precificar isso e já seguimos para a segunda derivada. Só que os fundamentos macroeconômicos de certa forma estavam mantidos, o descontrole foi gerenciado. Na medida em que se perde o controle macro, terei que aprender a lidar com uma situação razoavelmente nova, com a qual nesses 20 anos de carreira, e 10 no setor de energia eólica, eu não lidei ainda. Somos dependentes do investimento externo, então nos preocupa o impacto que isso pode trazer na disponibilidade de crédito, no apetite dos investidores internacionais.


Dadas suas características, qual o limite possível da participação da geração eólica na matriz elétrica brasileira?


Vamos fazer análise do lado da oferta e da demanda. Do lado da oferta, o Brasil tem 800GW de potencial eólico onshore e cerca de 1TW offshore. Então, quando olho do lado do recurso eólico, o potencial de expansão é infinito quando comparado à capacidade instalada do Brasil hoje, de 170GW. Mas o Brasil não vai chegar nisso nunca, porque a matriz precisa ser diversificada por definição. Já tivemos 90% de geração hidrelétrica; hoje, frente à crise hídrica, ter 60% da geração hidrelétrica já nos deixa numa posição difícil.


Os limites, portanto, estão do lado da demanda. Primeiramente, como disse, pelo fato de que o planejador não expandirá a eólica infinitamente, pois precisa alocar outros recursos de produção, como solar, termelétrica. Esse é um lado, e é uma constante. O único lado da demanda em que há algum grau de manobra para ampliação seria em registrado uma expansão na


, com uma trajetória virtuosa que a levou a ser a segunda fonte da matriz - respondemos por 11% de participação na capacidade instalada, e em termos de geração representamos no segundo semestre deste ano cerca de 17% em média do sistema elétrico nacional, com picos de 20%. Mas se a gente tivesse um PIB maior, esse crescimento também seria maior. Então, nosso maior desafio está relacionado ao PIB, à economia, que tem apresentado resultados pífios. Agora já se fala de uma recessão em 2022, e isso é ruim. Na hipótese - Deus me livre - de o Brasil ter mais uma década de estagnação, o que acontecerá com a eólica? É possível que daqui a cinco ou seis anos esse impacto da crise econômica chegue no setor. Mas ainda não chegou, pois ele tem uma dinâmica própria de atender ao mercado livre. Por outro lado, quando a economia passa um tempo estagnada e volta à crescer, a demanda por energia é maior do que aquela elasticidade média que conhecemos, de 1, 5. Em retomadas rápidas, essa elasticidade pode chegar a 2%, 2, 5%. O limite estaria aí.


Atualmente, há grande interesse na expansão das fronteiras da geração eólica para o offshore. Há limitações para esse tipo de exploração no Brasil?


Não temos limites tecnológicos, nem de financiamento para fazer offshore. Só não o fizemos ainda por questão de competitividade. Veja, diferentemente do resto do mundo, o problema a se resolver no Brasil não está na escassez do recurso, e sim na abundância do recurso renovável. O Brasil tem eólica, solar, hidrelétrica, PH, biomassa, e essas fontes se tornaram muito competitivas nos últimos 10 anos. Então, ao fazer a gestão da abundância, o planejador vai tomar a decisão lógica do preço, postergando a escolha das fontes menos competitivas. E por que o offshore é o tema do momento? Porque vários países, especialmente os europeus - Inglaterra, Dinamarca, Holanda - investiram fortemente na tecnologia offshore, e com isso o custo dessa tecnologia tem caído drasticamente. Como também tem ocorrido com a geração solar. Nessa curva de decréscimo de custo, a eólica offshore está chegando num patamar próximo do nível do de uma termelétrica competitiva, em torno de R$ 350 por unidade de energia. Então, a partir do momento em que o offshore se aproxima do preço da termeleticamelen e razoa velharia o Brasil. Vale ressaltar que, embora o offshore utilize turbinas parecidas com as da geração onshore, estamos falando de recursos distintos do ponto de vista elétrico, regimes de produção diferentes. Isso, inclusive, o torna fonte complementar para diversificar a matriz com mais renováveis. Com qual fonte a offshore concorre efetivamente? Com a termelétrica. Os defensores de termelétrica ressaltam que esta garante uma geração flat que traz segurança. Porém, quando eu coloco offshore combinada com várias eólicas onshore, que estão em regiões distintas, no Nordeste e no Sul, elas se complementam, eliminando a necessidade do uso da termelétrica. E aí eu resolvo duas questões: a termelétrica é poluente, e preciso de uma matriz cada vez mais limpa. E ela é caríssima. Nesse momento em que estamos vendo uma crise energética global, e o Brasil precisando de térmicas porque no passado não se fez um planejamento adequado - considerando que era difícil prever que sofreríamos todos esses efeitos das mudanças climáticas -, estamos tendo que pagar muito caro pelo combustível. Para o offshore no Brasil, o que precisamos é de regulamentação, cujo projeto o ministro Bento de Albuquerque, de Minas e Energia, sinalizou que lançaria ainda em novembro.


Um dos gargalos conhecidos para a expansão da geração eólica é a transmissão. Como equacionar esse tema, especialmente se o plano é levar essa geração para o alto-mar? A questão da transmissão não chega a ser um gargalo, mas sem dúvida é um desafio sempre presente. Das três variáveis que tenho de monitorar o tempo todo - demanda, financiamento e transmissão -, ela é a que está no topo das minhas atenções. Com relação à demanda, mencione a preocupação com o PIB. Fontes de financiamento não faltam. Temos uma quantidade enorme de investidores chegando no Brasil, de fundos, e temos recursos do BNDES, que financiam 90% dos nossos projetos. Por que usamos tanto o BNDES? Porque ele me dá salvaguarda da variação cambial. Muitos interessados em nosso mercado têm dinheiro, mas por conta do câmbio acabam usando o BNDES. E não faltam recursos. O banco tem R$ 130 bilhões para financiar energia; a eólica usa no máximo R$ 8 bilhões por ano. No caso da transmissão, quando começamos lá em 2009 com a eólica nos leilões, acreditávamos que uma linha de transmissão poderia entrar em funcionamento em dois, três anos. Então fazíamos um leilão de eólica, outro de transmissão, e esperávamos o casamento de ambas acontecer. Mas a eólica terminava e a transmissão não chegava, por questões ambientais, entre uma série de complexidades da transmissão. Tivemos que mudar o planejamento, ampliando o prazo. Então, para fazer um parque eólico funcionar daqui 5 anos, precisamos do leilão de transmissão dois, três anos rancescido leilão dareólican E assim o planejamento tem sido feito. O que está acontecendo agora é que o aprofundamento da crise hídrica, associado às mudanças climáticas, nos mostrou que não podemos mais contar com as hidrelétricas como no passado, que elas nos darão trabalho mais frequentemente. Então, é preciso trazer outros recursos energéticos. A térmica, como disse, especialmente a térmica emergencial, é dramaticamente cara. Então, qual a forma de eu ajustar essa perda de geração hidrelétrica que não vou recuperar mais? Preciso aumentar a quantidade de energia renovável, tanto eólica quanto solar. Só que os recursos eólicos melhores estão concentrados no Nordeste e no Sul do país, então preciso aumentar a transferência de energia entre Nordeste e Sudeste, entre Sul e Sudeste. Esse é o problema hoje. No fim de outubro houve um leilão emergencial do Ministério de Minas e Energia em que a eólica não foi contratada, apesar de entrar em funcionamento em 1 ano e meio, porque não adianta gerar eólica lá no Nordeste se não há linha de transmissão para trazer para o Sudeste. Do ano passado para cá essa necessidade de aumento da transferência ficou muito clara para o planejador, que está preparando uma série de leilões de transmissão. Estudo da Consultoria GO Associados para a Abeeólica indica que municípios que receberam investimentos em geração eólica registraram aumento real do PIB de 21, 15% entre 1999-2017 na comparação com os que não receberam, e que o Índice de Desenvolvimento Humano nesses lugares aumentou 20% entre 2000 e 2010. De que forma esses ganhos acontecem, e como potencializar essa capacidade?


Esse é um dos temas que mais gosto de tratar. Estive pela primeira vez em um parque eólico, no Nordeste, em 2012. Eu era uma economista muito acostumada a lidar com elétrons, e o debate sobre sustentabilidade no setor não estava tão aflorado, especialmente no Brasil. Quando cheguei lá, falei com prefeitos, com a vizinhança dos parques, e percebi esse impacto positivo, mas ainda não tinha como mensurá-lo. Somente passei a incentivar a realização de matérias a respeito. Só chegamos a uma medição desse efeito multiplicador no ano passado.


Veja, o relacionamento de um parque eólico com uma região dura pelo menos 25 anos. Começa com a identificação de áreas que contam com bom vento. Então, o potencial empreendedor chega ao proprietário de um terreno, em geral são pequenas propriedades, afirmando seu interesse em arrendar a terra para colocar uma torre de medição. Essa torre fica ali por cerca de 3 anos, período no qual o dono da terra recebe um valor fixo. Quando o projeto é aprovado e se instala o parque, faz se um contrato de 25 anos e o pagamento passa a ser um valor relativo à geração. A partir daí, esse proprietário - que vive no interior da Bahia, do Piauí, do Rio Grande do Norte, muitas vezes beneficiário do Bolsa Família - tem em média dois ou três aerogeradores instalados em suas terras, e passa a receber cerca de R$ 2 mil mensais por aerogerador. Imagine para uma família de cinco filhos, dependente de transferência do governo, o salto na renda que é. Com esse dinheiro ele compra uma moto, um carro, faz reformas na casa, e isso dinamiza a economia. Por outro lado, esse investimento também se reflete na arrecadação municipal. Um parque eólico de 30MW, por exemplo, demanda um investimento em torno de R$ 400 milhões e vai recolher ISS. Em regiões com muitos parques, como em Parazinho, São Miguel do Gostoso, no Rio Grande do Norte, é perceptível a mudança econômica. Além disso, os parques eólicos, quando chegam na região, costumam fazer melhorias em postos de saúde, escolas com projetos ide educação de agricultura. No Rio Grande do Norte, que citei como exemplo, há muito problema com água salubre, e se investiu em projetos para levar água potável a famílias e escolas. Então, o fator multiplicador forte aqui é o do investimento e do arrendamento. Como podemos melhorar isso? Tenho estudado bastante o assunto, até por essa questão de trazer a transformação energética para o conceito ESG (sigla em inglês para ambiental, social e governança). Considero que a forma de fazê-lo é pensar mais nos investimentos em energia renovável como a eólica, a solar, sob essa lógica de desenvolvimento econômico. Ou seja, de que a eólica, além de ser uma matriz renovável, usando recursos competitivos, é uma ferramenta de desenvolvimento, que é algo tão desafiador para o país.


Em vários países desenvolvidos, a pandemia suscitou o desenvolvimento de políticas de retomada que fossem verdes, ou seja, de promoção de crescimento ambientalmente responsável. No caso do Brasil, quais estruturas de incentivo considera que devem ser criadas, ou reformadas, para incluir o setor energético nessa tendência?


O pacote de retomada verde que os países desenvolvidos estão liderando tem uma lógica interessante, voltada a esse efeito de renda que mencionei. Eles têm recursos estatais para isso, e pensam: já que tenho que impulsionar a economia, que seja pelo lado da infraestrutura. E se a infraestrutura se chama energia, vou produzir energia verde, porque preciso me dedicar à transição ao baixo carbono. Então cria-se uma estrutura de incentivo com mil mecanismos. Por que esses países fazem isso? Porque lá fora eles não têm abundância de recursos renováveis, e as energias renováveis tendem a custar mais caro que a fóssil. Então, boa parte do mundo precisa realmente desse esforço para inserir fontes renováveis, e os países desenvolvidos têm dinheiro para essa retomada econômica verde.


O Brasil tem uma lógica diferente, até escrevi um paper sobre isso. Primeiramente, porque o Estado não tem dinheiro para investir, nem capacidade de fazer incentivo fiscal. Mas isso tampouco é tão necessário, porque aqui a tecnologia renovável é muito mais barata que a fóssil. Então, a tarefa do Estado brasileiro é outra, e mais simples de fazer.


Para obter o mesmo benefício que o mundo está se esforçando para conquistar, é preciso criar um ambiente amigável e atrair investimento. E isso não é tão desafiador porque dinheiro tem, e muito, lá fora. Então, O necessário é sinalizar que vai seguir Os investimentos nessa trajetória: um programa de hidrogênio verde, regular a eólica offshore, fazer transmissão adequadamente, no prazo certo. Mas não são necessários subsídios, pois essas energias Jjá são extremamente competitivas, e o fator central é que o leilão regulado é feito por fonte de energia, onde cada fonte tem um preço de acordo à sua característica técnica e econômica. Por exemplo, no leilão que tivemos em setembro, o preço inicial da eólica e da solar era de R$ 191/MWh; da hidrelétrica, R$ 249/MWh (no caso de pequenas centrais e centrais geradoras com outorga e contratos regulados celebrados anteriormente) e, para termelétricas, R$ 365/MWh. O que isso significa? Que estou pagando o preço associado à característica técnica e econômica. Não tem necessidade de subsídio direto. O papel do Estado, nesse aspecto, é ter inteligência de planejamento. Porque ele tem todas as variáveis na mão para fazer uma expansão da matriz altamente renovável, com uma quantidade de recursos mais baratos entrando, e grande interesse dos investidores. Esse leilão contratou 800MW. Sabe qual foi a oferta inscrita na Empresa de Pesquisa Energética (EPE)? Totalizou 94 mil MW de potência instalada (sendo 690 projetos eólicos, somando 22, 8 mil MW). Então, para


o Brasil errar no futuro energético, tem que fazer um esforço enorme. Hoje você embarca a Glasgow participar da COP26 (a entrevista aconteceu dia 27/10). Qual mensagem pretende passar na Conferência do Clima, e o que espera dela?


Estou indo pelo Gwec (Global Wind Energy Council, do qual é vice-presidente). A mensagem que quero deixar é a de que o Brasil é um país rico


em recursos renováveis altamente competitivos. E que, a despeito de tudo, conta com uma regulação estável para o setor de energiasSob essa perspectiva, o Brasil é amigável ao investimento em infraestrutura, é um país de longo prazo. Especialmente em momentos de agonia como os que vivemos, pode-se pensar menos em Brasília e mais em infraestrutura.


Como mencionei, os investimentos em energia eólica são ESG por definição. E temos potencial para liderar a corrida global na transição energética quando falamos de energias renováveis. O Gwec está promovendo uma coalizão global de investimentos em energia eólica, naturalmente com destaque para offshore, porque é este que está precisando de mais cuidado. Lá fora, buscam-se muitos incentivos, políticas fiscais; no Brasil, precisamos do arranjo regulatório, que está próximo de acontecer. O que eu espero da COP é de que saiamos de lá com uma diretriz clara para a precificação do carbono. É ela quem realmente pode levar as economias a alcançar os objetivos estabelecidos, de chegar a 2050 neutras em carbono. Para o Brasil, do ponto de vista da energia, mesmo errando a gente acerta. Mas no resto do mundo não é assim. E minha preocupação não é energia especificamente, porque esta responde por 26% das emissões globais, e temos outros 74% para resolver. Mas essa precificação colaboraria para o desenvolvimento da certificação de energias renováveis, certo? Sim, mas minha leitura é mais macro, no sentido dos mecanismos de incentivo para que o agente econômico tome a decisão acertada também individualmente. Ou seja, se vou comprar um aparelho celular e tenho que pagar pelo carbono, tomarei decisões mais racionais. Considero que a precificação de carbono é quem vai possibilitar essa mudança.

sábado, 30 de outubro de 2021

Roberto Giannetti Isto É Dinheiro / Entrevistas, 29 de outubro de 2021

 ENTREVISTA - ROBERTO GIANNETTI DA FONSECA, ECONOMISTA

sexta-feira, 29 de outubro de 2021 


 

Revista Isto É Dinheiro  / Entrevistas

Beatriz Pacheco


"Com a quebra da confiança, o custo do Auxílio Brasil é maior que o benefício" Para Giannetti, ao extrapolar o teto de gastos, o programa social do governo afasta investidores e provoca um ônus econômico que pode comprometer a recuperação do País no pós-Covid.





O economista Roberto Giannetti da Fonseca circula por eventos e reuniões com lideranças políticas e empresariais como figura costumeira. A experiência acumulada na proposição de uma agenda econômica nacional o credencia como uma voz de peso no mercado. Além da atuação no setor privado, foi secretário-executivo da Câmara do Comércio Exterior (Camex) no governo de Fernando Henrique Cardoso e diretor de relações internacionais e comércio exterior na (Fiesp). Em entrevista exclusiva à DINHEIRO, Giannetti se ressente dos anos que o transformaram em testemunha do fracasso da economia brasileira como potência internacional. Como saída, defende uma agenda reformista diferente da que vê hoje no governo de Jair Bolsonaro. “O cerne das reformas era reduzir privilégios, reorganizar a estrutura administrativa e enxugar o Estado, mas nada disso está sendo feito”, disse. “Precisamos de um novo governo com capacidade para realizar o que ficou para trás.” Por anos ligado ao PSDB, e integrante da equipe que formulou o plano de governo da candidatura de Geraldo Alckmin à presidência em 2018, ele acredita que apenas a união partidária ao centro levará `a escolha de um candidato único para a terceira via.





DINHEIRO – O que a ameaça ao teto de gastos representa para a economia brasileira?


ROBERTO GIANNETTI DA FONSECA – Furar o teto é desmoralizar o equilíbrio fiscal do qual o País depende para atrair investidores. Estamos combatendo a irresponsabilidade fiscal desde 2001, e a figura do teto de gastos formulada no governo de Michel Temer era uma garantia de respeito a esse princípio. Há alternativas para que isso não fosse feito, como a diminuição de despesas e condução de uma reforma administrativa que reduza os desperdícios com o dinheiro público.





O senhor é defensor das reformas. Que pontos faltam ser endereçados pelo governo? Precisamos de uma reforma política imediata para acabar com a reeleição e reduzir o número de partidos.





Por quê? A estrutura que se consolidou no Brasil pulveriza a classe política e dificulta a governança. O nosso sistema legislativo e regulatório também é ultrapassado. Estamos quase no segundo quarto do século 21 e não conseguimos criar um Estado menor e mais eficiente. A sociedade não tem o retorno do que investe por meio dos impostos. Conquistaríamos isso com boas reformas administrativa e tributária.





Como avalia as reformas propostas? A essa altura, a reforma tributária já se trata de um remendo, longe dos objetivos que se buscavam para simplificação e desoneração. Na verdade, segue no sentido contrário. Ela traz medidas questionáveis do ponto de vista constitucional e que podem criar novos litígios. Além disso, tem no seu bojo uma política conflitiva ao manter a disputa do governo federal com estados e municípios pelo ICMS (arrecadação estadual) e pelo ISS (arrecadação municipal).





E a administrativa? Seria melhor não aprovar a reforma que foi apresentada, que deve piorar o cenário atual. O cerne das reformas era reduzir privilégios, reorganizar a estrutura administrativa e enxugar o Estado. Mas nada disso está sendo feito. Precisamos de um novo governo com capacidade para realizar o que ficou para trás.





Que perfil agradaria o mercado para as eleições presidenciais em 2022? Precisamos de um governo com perfil conciliador e reformista para transmitir confiança ao mercado. O desemprego, a inflação e a alta dos juros são as consequências econômicas da perda de credibilidade e de confiança do atual governo. Precisamos de um governante que combine os papéis de bom empresário e estadista.





Que nomes do cenário político atual atendem a esse perfil? Antes do nome de um candidato, precisamos de um programa. Pelo menos seis partidos de peso do centro precisam chegar aos pontos de convergência para desenvolver e aderir a um programa, para que então se decida quem vai implementá-lo. Mais do que isso, é necessário montar uma equipe qualificada para apoiar o andamento dessa agenda. Esse projeto ainda precisa ser amplamente discutido com a sociedade. Então, é preciso avançar ou não haverá mais tempo.





Os partidos de centro ainda titubeiam em abrir mão de candidaturas próprias. Conseguiriam se unir em torno do programa único? Se fracionarmos o centro político, os dois extremos irão para o segundo turno. Hoje, temos como certo apenas que, no curto prazo, a situação econômica no País só tende a piorar. Por outro lado, temos bons institutos no Brasil com capacidade para estruturar um programa de governo com facilidade. Não é necessária uma agenda detalhada e sim contundente e enfática sobre os interesses comuns.





Como o senhor avalia a proposta do programa Auxílio Brasil? Com a quebra da confiança, o custo do Auxílio Brasil é maior que o benefício. O programa aumenta o ônus do governo, que já tem uma dívida pública que ultrapassa 80% do PIB. O mercado vê um desgoverno quando o presidente faz um anúncio que não foi previamente conversado com o Ministério da Economia. Precisamos do auxílio para as quase 15 milhões de famílias brasileiras em extrema pobreza [conforme dado do Cadastro Único do governo federal], mas sem responsabilidade fiscal, estamos gerando inflação. Um tiro no pé. Além de furar o teto de gastos, a expectativa de permanência dessa política é um erro.





Há um esvaziamento do papel do ministro Paulo Guedes no governo, então? O ministro Paulo Guedes assumiu o posto com um discurso liberal e objetivos grandiosos, como acabar com o déficit primário em até dois anos e reduzir a dívida pública. Não fez nada do que foi prometido. Ele caiu nesse vazio pela própria incompetência em conduzir a agenda econômica e pelas interferências do presidente. Bolsonaro só apoia Guedesem política econômica e eleitoreira. O foco do governo é a reeleição em 2022, e a política econômica responsável ficou de lado. Tanto que os melhores servidores do Ministério da Economia já abandonaram o barco. O mercado não acredita mais no ministro Paulo Guedes, que passou a ser até motivo de piada.





E qual seria o caminho para recuperação econômica no País? Pelo ciclo virtuoso da economia, começando pela atração de investimentos para gerar mais empregos. A elevação da renda puxa o consumo, que aumenta a arrecadação. Para começar a fazer essa roda girar, é preciso ganhar a confiança do investidor com regras seguras e estáveis. A insegurança provocou a saída do capital e emperrou a expansão dos negócios no País. Além disso, não temos mais investimentos em ciência, o que leva à fuga de cérebros. No fim, não há estímulo no ambiente econômico. Estamos desorientados e atravessando um mar revolto com um governo que gera conflitos todos os dias.





Existe perspectiva para o Brasil recuperar o seu papel no cenário econômico internacional? Com uma taxa de poupança tão baixa, não há investimentos suficientes para o Brasil crescer no ritmo que precisaria para recuperar o atraso. Podemos até ver um “voo de galinha” na economia, mas o elemento fundamental para sustentar o crescimento econômico é aumentar as taxas de poupança e de investimento.





Que caminhos podem levar à sustentação desse crescimento? O Brasil é um país arcaico para o comércio exterior. Precisamos fazer a abertura econômica para que a fatia de importações e exportações salte dos atuais 18% para 30% do PIB brasileiro em até dez anos.





E o que é decisivo para essa agenda andar? É crucial que seja precedida por uma arquitetura de políticas públicas para aumentar a competitividade das empresas no País. A agenda do comércio exterior passa por mais investimentos em educação e na indústria. Há 35 anos, Brasil, China e Coreia do Sul estavam no mesmo patamar como potências para abertura econômica. À essa época, cometi o maior erro da minha vida, em entrevista ao jornal britânico Financial Times, quando apostei no Brasil como o país que teria a posição de liderança nessa corrida. É uma angústia minha ter visto o País perdendo posição até cair para a lanterna.





O cenário logístico no País também afeta a competitividade no mercado? A logística no Brasil não é boa porque não há segurança jurídica ou desoneração tributária sobre investimentos. O encarecimento da estrutura logística descarrega o custo nas tarifas, o que prejudica todo o entorno. À medida que se organiza uma logística mais rentável, a desoneração se paga pela externalidade da economia, em novas indústrias e em um cenário mais competitivo.





Como a agenda de privatizações afetou o setor logístico no País? Há expectativa para melhoria, mas o próximo governo deve trazer uma visão prioritária para a infraestrutura do setor, que é um caminho para o desenvolvimento. A renovação das concessões também é fundamental para a continuidade dos investimentos na rede e integração da malha.





A agenda ambiental também tem peso para as negociações no comércio internacional. Qual é a situação do Brasil nesse cenário? O que aconteceu na última década, especialmente nos últimos três anos, fez com que a nossa promessa como potência ambiental fosse para o espaço. O estímulo à grilagem e ao desmatamento colocou o País como vilão no mercado internacional. Tínhamos tudo para liderar o mercado de descarbonização. A economia verde só assumiu protagonismo aqui por imposição da sociedade. A agenda ESG foi puxada pelas empresas. O papel do governo nesse cenário não está sendo cumprido, o que precisa mudar urgentemente.





Qual é o sentimento comum no mercado hoje? Há desesperança, mas não desistência ou abandono de forma generalizada. Só não podemos continuar em silêncio com os desvarios e equívocos que estamos cometendo. O governo é um retrato da sociedade. Se estamos insatisfeitos com o estado a que chegamos, precisamos mudá-lo.

domingo, 24 de outubro de 2021

A implacável volta da fome(Revista Isto é, 22 10 21)

 MISÉRIA - A implacável volta da fome

Depois de anos de evolução, o Brasil regride ao século passado e começa a criar mais uma geração de desnutridos. Os últimos levantamentos mostram que existem, hoje, cerca de 20 milhões de pessoas famintas. Com a destruição de políticas públicas, Bolsonaro faz ecoar as lembranças do “homem-caranguejo” e do “homem-gabiru”, que assombraram o País em décadas anteriores. A fome sempre foi um grande paradoxo nacional. E no País do alimento mais uma vez ele falta. A situação só piora

sexta-feira, 22 de outubro de 2021


 

Revista Isto é  / Capa

Vicente Vilardaga e Fernando Lavieri


Engendra-se neste momento uma política de extermínio de brasileiros pobres por meio da miséria e da fome. É mais uma estratégia destrutiva do governo Jair Bolsonaro, que parece ter o objetivo persistente de deixar a população morrer à míngua. Pessoas famintas sendo tratadas e agindo como animais se multiplicam em grandes e pequenas cidades, aumentando a tragédia social que não tem fim. Seres humanos se animalizam, abandonam a civilização por necessidade e atingem a condição de barbárie. Referências da pobreza e subnutrição nacional que pareciam esquecidas no passado, como o “homem-caranguejo”, identificado nos mangues do Recife pelo nutrólogo e geógrafo Josué de Castro, ou o “homem-gabiru”, o brasileiro de 1,35 metro comparado a uma ratazana do Nordeste, voltaram a ecoar e perturbar ainda mais a realidade. O País vive hoje seu pior ciclo de carestia desde o século passado e afunda cada vez mais numa crise humanitária. Atualmente, segundo o Inquérito Nacional Sobre Segurança Alimentar no Contexto da Pandemia de Covid-19, mais recente pesquisa sobre o assunto, pelo menos 20 milhões de pessoas passam fome por aqui, o equivalente a 9% da população, e 55% dos brasileiros têm algum problema rotineiro de falta de alimento.





O levantamento foi realizado em dezembro de 2020 pela Rede PENSSAN, com apoio do Instituto Ibirapitanga e parceria da ActionAid Brasil, FES-Brasil e Oxfam Brasil, todas organizações não-governamentais, e mostrou que a situação se deteriora rapidamente desde 2015, quando o País deixou o Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU), voltando a níveis anteriores a 2004. “A gente tem acompanhado os dados e de que maneira a falta de políticas públicas contribuiu para essa situação alarmante com a pandemia. O Brasil corre o risco de se tornar um novo epicentro da fome no mundo”, afirma Maitê Gauto, gerente de programas da Oxfam Brasil. “Em 2018, havia 10 milhões de esfomeados e em três anos o número praticamente dobrou e mais da metade da população sofre sem comida”. Por conta do aumento de preço dos alimentos, as pessoas vêm seus orçamentos se tornando insuficientes para atender necessidades básicas. O peso da alimentação, muito representativo na lista de despesas das classes mais baixas, cresce e impede que as famílias tenham o suficiente para se manter até o fim dos mês. O arroz, por exemplo, aumentou cerca de 30% nos últimos 12 meses, patamar semelhante ao da carne bovina.





“É uma situação muito complicada e a inflação está subindo. O dado da pesquisa do ano passado ainda não mostrava esses efeitos. Muito provavelmente o quadro agora é muito pior do que em dezembro”, diz o economista Walter Belik, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e estudioso do mercado de alimentos e da fome. Em 2020, a inflação acumulada foi de 4,52%. Em 2021, até setembro, foi de 6,9%. No caso do número de obitos pela Covid-19, dois terços das 604 mil mortes, mais de 400 mil, aconteceram neste ano, mostrando que 2021 está sendo pior em muitos sentidos. O dólar também sobe, aumentando o preço em reais dos produtos importados ou cotados internacionalmente. Com o governo federal abandonando as políticas de combate à fome e tirando recursos da área, quem cuida hoje do assunto para que não haja um colapso são os governos estaduais e municipais, mas de maneira independente e sem coordenação central. Outro problema é que Bolsonaro prejudica a obtenção de dados por causa do cancelamento do Censo Demográfico. Para fazer o levantamento da população faminta no próximo ano não será possível contar com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), perturbando a sequência de informações históricas.





Uma das causas do aumento da fome é a irregularidade e a incerteza do auxílio emergencial, que substituiu o Bolsa Família durante a pandemia e perdeu poder de compra devido à inflação galopante. O programa está parado desde que o governo adotou o auxílio emergencial, sujeito a interrupções e recomeços e que corre por fora do Cadastro Único, central de informações atualizadas de beneficiários e consolidadas na última décadas, que exige contrapartidas para o pagamento mensal. O auxílio atual enfrenta problemas de governança e compliance, além de gerar incertezas na população pelo seu caráter precário. Para substituir o Bolsa Família, o ministro da Economia, Paulo Guedes, anunciou, quarta-feira, 20, o lançamento do programa Auxílio Brasil, que a partir de novembro deverá pagar R$ 400 para 16 milhões de famílias. O problema é que a medida chega como mais uma cartada populista de Bolsonaro, com prazo de validade para 2022 e cheia de oportunismo eleitoral, além de romper o teto de gastos do governo. Sem contar que o crescimento do número de famélicos é exponencial e há uma demora inaceitável para se ajustar iniciativas de combate ao flagelo. Como dizia o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, grande lutador pelos direitos humanos, “quem tem fome, tem pressa”.





Segundo a economista e professora do Insper Laura Müller Machado é inexplicável que se tenha gasto tanto dinheiro com o auxílio emergencial e se realizado tão pouco no enfrentamento da insegurança alimentar. “O Bolsa Família custa R$ 30 bilhões por ano, e o auxílio, nos últimos doze meses, já custou R$ 300 bilhões”, afirma. Os recursos saem dos cofres do Estado, mas não chegam até a população necessitada. “Se a rede de assistência social não funciona, não é porque faltou dinheiro, mas sim porque o governo alocou recursos de forma errada”, diz. Deu pouco para muita gente e não resolveu o problema. “Se chegamos nesse ponto é porque não houve eficiência no socorro na pandemia e nem o apoio necessário da assistência social”, disse.





Cenas dantescas se repetem no Brasil nas últimas semanas e recuperam algo que parecia ter sido superado. Pessoas esfomeadas buscando restos de comida em lixos de rua, brasileiros desesperados em busca de alguma proteína animal. No fim das feiras, aumentam as aglomerações de pessoas a procura de alimentos. Disputam-se ossos e carnes descartadas para consumo, como se viu no Rio de Janeiro, ou vasculhando caminhões de lixo em Fortaleza para encontrar algo aproveitável para comer. Há pessoas sendo presas porque roubaram um pacote de miojo, como foi o caso da moradora de rua Rosângela Lemos, no final de setembro. Dependente química e mãe de cinco filhos, ela entrou no supermercado Oxxo, na Vila Mariana, em São Paulo, e furtou um macarrão, uma garrafa de Coca-Cola, e um pacote de suco Tang. Acabou presa por quinze dias, mas com a ajuda da Defensoria Pública de São Paulo e do clamor popular, alcançou a liberdade.





Seu caso, afinal, foi enquadrado como furto famélico, ação que visa saciar a fome e que envolve alimentos cujos valores são considerados irrisórios para a vítima. O defensor público Diego Polachini, que atuou no processo de Rosângela, diz que situações como a dela se tornaram corriqueiras. Ele trabalha, por exemplo, num caso de furto de dois pacotes de amendoim, cada um no valor de R$ 1,50, em que o autor foi condenado a um ano de cadeia. “Atos desse tipo são muito pequenos para se mobilizar o Estado”, diz. Imagens do cotidiano da maior metrópole do País demonstram que o estudo da Rede PENSSAN está correto e, provavelmente, subestimado. Ao caminhar pelas ruas que dão acesso ao Mercado Municipal, no centro de São Paulo, pessoas famélicas se alimentam do que sobra de comida no lixo. “Se não pegar, passo fome” diz Gilberto Alves de 53 anos. Com o corpo coberto por trapos, numa terça-feira de frio e chuva na cidade, Alves, pintor profissional, vaga pelas ruas vasculhando lixos em busca de comida e vai pegando o que pode. Ele está em situação de rua há dez anos e não procura mais emprego desde o inicio da pandemia. Famílias inteiras estão vivendo na penúria mais absoluta. A dona de casa Alexandra de Araújo, de 29 anos, que mora no Recife (PE) e cuida de cinco filhos, os dois menores gêmeos, é um exemplo de brasileira sofrida nestes tempos famélicos. Na segunda-feira, 18, ela e suas crianças estavam sem colocar nada na boa há 24 horas. Alexandra recebe auxílio emergencial de R$ 375 e mora numa casa alugada na beira do Rio. A maior parte do que ganha vai para o aluguel e sobra pouco para o alimento. “Não sabemos mais o que fazer”, diz.





O Mercado Municipal é um dos pólos turísticos da cidade de São Paulo. O estabelecimento é repleto de restaurantes e lanchonetes que atendem turistas de todas as partes do planeta com iguarias de alto requinte. Porém, próximo ao local em que Gilberto Alves se alimentava com as sobras de bananas e melões em decomposição, há uma saída do prédio, na Avenida do Estado, em que pessoas se amontoam à espera de descartes. “O que ganho não dá para matar a fome”, diz Lígia Maria de Oliveira, 72, aposentada. O dinheiro que recebe é a única renda da família que sustenta três adultos e uma criança. Ela conta que chegou cedo ao local. “Estamos aqui desde às seis horas”, diz. Dona Lígia explica que os restos de alimento que pega, antes que sejam descartados na caixa trituradora, leva para casa, no Jardim Peri, lava tudo e guarda na geladeira. O cunhado de Ligia, Janio Souza, de 64 anos, desempregado desde 2016, diz que o Brasil empobreceu após a chegada de Bolsonaro ao poder. “O presidente não pensa nos trabalhadores, só nos filhos”, diz. Os dois conseguiram abastecer as sacolas com legumes, como tomate, pimentão e berinjela, além de peixes podres.





“Já vi gente morrer de fome aqui no gramado”, diz a moradora de rua Neusa Carvalho da Silva ao começar a falar sobre o tema da fome. Ela vive no canteiro central em frente ao Ceagesp, maior entreposto da América Latina, situado na zona oeste da cidade. “Tia”, como é conhecida Neusa, é a responsável por cozinhar a sopa que alimenta todos os moradores do local à noite. Ela reclama que o Ceagesp não ajuda o seu pessoal, pelo contrário. “Quem entra lá, apanha. Nem o banheiro podemos usar”, conta. Uma das pessoas mais comprometidas em minimizar a fome no País é o padre Júlio Lancellotti, criador da Pastoral do Povo da Rua. A organização eclesiástica distribui 800 almoços diariamente a pessoas em situação de rua além de prestar outros tipos de atendimento. O padre conta que ao observar pessoas famintas se alimentando, como elas não têm certeza que no dia seguinte vão conseguir comer novamente, pegam a marmita e a devoram com a máxima ferocidade possível. “A intenção é comer duas vezes para poder suportar mais tempo sem se alimentar”, diz. Lancellotti vê esse momento como um dos piores da história brasileira. “Vejo pessoas que comem até comida estragada”, afirma Em relação à política do governo no combate a fome, o padre só vê ações deletérias. “Bolsonaro não entende muito bem o que está fazendo e o governo trata essas pessoas como descartáveis”, lamenta.





A interrupção de políticas públicas de combate à miséria e à fome durante o atual governo é causa direta da tragédia alimentar que aflige o País. Desde que assumiu, Bolsonaro trata de quebrar estruturas de assistência social e interromper programas que levam comida aos mais necessitados. Uma das primeiras medidas, em 2019, foi extinguir o Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), o que desorganizou as políticas nacionais de combate à fome. A entidade tinha a atribuição de elaborar e sugerir ao governo federal condutas que priorizem políticas públicas de segurança alimentar e nutricional. “Foi como varrer a sociedade civil de todas as ações de governo”, afirma Kiko Afonso, diretor-executivo da Ação da Cidadania Contra a Fome e a Miséria Pela Vida, instituição criada por Betinho. Ele explica que a fome no Brasil vem crescendo há quatro anos, porque, a partir de 2017, mudou a visão política do processo de produção de alimentos e se passou a negligenciar a agricultura familiar. “Nesse período, as políticas de combate a fome foram destruídas”, diz.





Outras medidas negativas do governo que agravam a carência de alimentos foram a redução drástica do Programa de Cisternas, que garante água para a produção de alimentos e criação de animais nas regiões mais secas do Nordeste e o fim dos estoques reguladores, que começaram a ser extintos em 2017 e impediriam, se estivessem ativos, o encarecimento de itens básicos como o arroz e o feijão, que aumentou 17,3% em 12 meses. Também foi desmantelado o bem-sucedido Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que previa a compra pelo governo de alimentos produzidos pela agricultura familiar e sua distribuição para a população carente. Finalmente, em mais um golpe no pequeno produtor, foi encolhido o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar, com um corte de 40% nos subsídios em 2021. Mesmo com o novo programa de auxílio, o governo não tem vontade política e nem capacidade de gestão para enfrentar o drama da fome de frente. Há um gravíssimo problema que exige uma solução imediata. É uma vergonha que o Brasil, reconhecido como o País que mais reduziu a fome e a pobreza no mundo na década passada volte para o famigerado mapa da carestia e se converta novamente numa referência da miséria global.


A crise nas cadeias de abastecimento é golpe na globalização? (VEJA 22 10 21)

 VILMA GRYZINSKI - O MUNDO FICA DISTANTE DE NOVO

sexta-feira, 22 de outubro de 2021 - 07:18


 

Revista Veja  / Colunistas

VILMA GRYZINSKI


A crise nas cadeias de abastecimento é golpe na globalização?





EM abril de 1956, um cargueiro zarpou de Nova Jersey para Houston levando uma novidade: “caixas” de aço corten de tamanho padronizado que podiam ser transferidas diretamente para carrocerias de caminhões especialmente adaptadas para transportá-las. Chamavam-se contêineres e tinham sido inventadas por Malcom McLean, um empreendedor que havia começado no ramo dos transportes como menino paupérrimo do interiorzão da Carolina do Norte, trabalhando com um caminhão de segunda mão. As humildes “caixas” mudariam o mundo. Ao racionalizar e baratear os custos do transporte marítimo, elas confluíram para transformações muito mais celebradas, como a revolução digital, a transformação da China em economia de mercado e a entronização do capitalismo e do livre fluxo de mercadorias como sistemas consensuais. O conjunto dessas mudanças foi chamado de globalização.





Levantar de manhã e tomar um café com cápsula feita na Suíça — um país que não produz um único pé de arábica —, teclar num celular fabricado em Zhengzhou e pegar um carro alimentado a chips semicondutores vindos de Taiwan são atos que a globalização normalizou. E os contêineres viabilizaram, em escala estonteante. O maior navio cargueiro do mundo tem capacidade de levar 23992 contêineres. Cabem neles 145 milhões de pares de tênis. Tão revolucionárias quanto as ânforas para o transporte de vinhos e azeites disseminadas pelos fenícios, as caixonas de transporte inauguraram problemas que se tornaram clássicos da globalização. A começar pela redundância dos estivadores, uma categoria altamente sindicalizada e boa de briga, características que não impediram seu drástico encolhimento. Das fábricas de calçados gaúchas às siderúrgicas de Detroit, a transferência da produção para a China provocou o mesmo efeito exterminador nos empregos. A promessa da economia globalizada era que os postos de trabalho sugados “aqui” — no setor manufatureiro — ressurgiriam “ali” — na indústria de serviços e de tecnologia avançada. Nem sempre foi uma promessa cumprida, redundando em rebeliões eleitorais como a vitória de Donald Trump e do Brexit, mas a economia globalizada tirou 1,1 bilhão de pessoas da pobreza e barateou o custo de vida de outros bilhões.


sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Fim da pandemia e o que veio para ficar(Celso Ming, Estado, 22 10 21)

 Celso Ming - Fim da pandemia e o que veio para ficar

sexta-feira, 22 de outubro de 2021 


 

O Estado de S. Paulo  / Economia

A gora que mais da metade dos brasileiros está plenamente vacinada, o fim da pandemia já aparece no fim do túnel. Independentemente das confusões no combate à covid-19, da política e da área econômica, muitas coisas mudaram ou pegaram carona na pandemia para mudar.


O trabalho em casa é uma dessas coisas. Do ponto de vista da empresa, a redução de custos na área dos escritórios foi colossal. Do ponto de vista do empregado, ficou aquela chateação de ter de permanecer indefinidamente engaiolado e das restrições de contato com a equipe e com a chefia. Mas o trabalho em casa flexibilizou os horários, evitou cansativos percursos para o trabalho e de volta para casa. É provável que o trabalho não volte ao que era e que o novo regime adotado por parte das empresa seja híbrido, uma mistura entre o presencial e o home office.


A retomada da atividade está aumentando as contratações de mão de obra. Mas o emprego deve mudar de patamar. As empresas aprenderam a operar com mais tecnologia e menos pessoal.


No mundo inteiro, a suspensão das restrições aumentou a produção e o consumo. E o que se viu foi forte escassez de matérias-primas, energia, semicondutores e contêineres. A pandemia havia reduzido a navegação, porque a tripulação dos navios teve de se resguardar. O sistema dos fluxos de transporte e de distribuição ficou desarticulado. E desorganizou-se o regime just in time, pelo qual os estoques haviam sido reduzidos ao mínimo, insumos e componentes chegavam apenas na hora da montagem. A disparada dos preços do petróleo e a inflação dos alimentos têm a ver com isso. Aos poucos, a organização anterior deverá ser restabelecida. Mas não totalmente. É possível que as empresas tenham aprendido a não correr mais o risco do desabastecimento e que voltem a fazer algum estoque. O resultado será o aumento dos custos e inflação.


O final da pandemia não vem sozinho. Estão em curso outras mudanças. Já vinha acontecendo uma revolução nas relações de trabalho, em direção às atividades autônomas regidas por aplicativos. A população está envelhecendo, o custo da saúde está à beira do insuportável e o engajamento dos governos em direção à energia sustentável vai mudar muita coisa. E há as novidades do open banking, da indústria 4.0, a conexão 5G as cidades inteligentes. Como esse mundo novo será aplicado de maneira desigual, a desigualdade aqui e no mundo também tenderá a aumentar.


A covid-19 continuará entre nós, assim como outros vírus. Mas, felizmente, o sacrifício de vidas tende a ficar cada vez mais baixo.

domingo, 19 de setembro de 2021

Apesar das negações, vem mais carga tributária(Celso Ming, Estado de S. Paulo 19 9 21)

 Apesar das negações, vem mais carga tributária

domingo, 19 de setembro de 2021


 

O Estado de S. Paulo  / Economia

CELSO MING


O aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) : determinado pelo presidente Jair Bolsonaro aprofunda distorções na economia. E mostra que não vale nada a palavra do governo, tantas vezes repetida, de que não haverá aumento da carga tributária.


- A alíquota do IOF cobrada das empresas sobe de 1, 5% ao ano para 2, 04% ao ano. E a das pessoas físicas, de 3, 0% ano para 4, 08% ao ano. Esse adicional vem para obter mais R$2, 14 bilhões até o fim deste ano para cobrir as despesas do AuxílioBrasil. Esse auxílio social extra não vem mais para garantir uma compensação para o trabalhador de baixa renda em consequência da paralisação determinada pela pandemia, porque essa ameaça foi atenuada pelo avanço da vacinação. Trata-se de uma decisão de cunho populista cujo objetivo é dar alguma viabilidade à candidatura do presidente Bolsonaro nas eleições do ano que vem. - O uso do IOF está sendo de formado. Este é um imposto regulatório. Mas passa a ser usado como instrumento de arrecadação. O governo já não liga mais para a finalidade de seus instrumentos. É como usar o telefone para pregar prego na parede. Preferiu ser: vir-se de um imposto regulatório porque, ao contrário dos impostos arrecadatórios que começam a valer só no exercício seguinte, o imposto regulatório tem vigência imediata.


-A principal consequência prática dessa nova mordida é aumentar o custo do crédito para o tomador. Atinge : também as operações de câmbio (inclusive as despesas com cartão de crédito no exterior), as operações com cheques especiais e o prêmio pago para a contratação de seguros.


- Além de ter de enfrentar a alta vigoro sados juros definida pela política monetária do Banco Central, o consumidor terá de pagar mais esse pedágio para facilitar a campanha de Bolsonaro.


: O pagamento de novas despesas públicas com aumento de impostos só não é pior do que seria o recurso às emissões de moeda ou ao aumento da dívida pública.


Essa esticada no custo do crédito vem num momento em que as empresas e as famílias já estão fortemente endividadas e já não vinham conseguindo enfiar as despesas financeiras para dentro do seu orçamento. Parece inevitável agora certo aumento da inadimplência.


A nova restrição do crédito acontece no contrapé da atividade econômica. Os produtores já vinham sendo desestimulados pela disparada da inflação, pela crise hídrica, pela queda dos investimentos, pela deterioração das contas públicas e pelas incertezas políticas. Agora vem mais essa. O financiamento habitacional estava soltando soluços por falhas de motor. Agora, enfrenta mais um tranco.


Decididamente, esta não é a melhor maneira para combater o desemprego e a queda da renda. Para expressar a mesma coisa de outra maneira, ficou claro que a recuperação econômica não está entre as prioridades do governo. E, diante de mais esses custos para o consumidor, aumentam as dúvidas sobre o resultado final pretendido pelo governo, porque recessão e mais desemprego não são boas notícias para o eleitor. Na última sexta-feira, 17, a empresária Luiza Trajano, presidente do Conselho de Administração do Grupo Magazine Luiza, avisou que o brasileiro já não aguenta mais tanta carga de impostos. E nunca é demais lembrar que a Inconfidência Mineira começou com a derrama; começou com o aumento do confisco determinado pela coroa portuguesa sobre os produtores de então.


Cabe uma preocupação final. Se o governo não tem escrúpulo em marcar gol com a mão agora, imagine-se do que será capaz quando tiver de enfrentar o rombo dos precatórios, a disparada da dívida ou a rejeição do eleitor.


segunda-feira, 5 de julho de 2021

As criptomoedas na mira dos bancos centrais(Celso Ming, O Estado de S. Paulo, 4 7 21)

CELSO MING - As criptomoedas na mira dos bancos centrais

domingo, 4 de julho de 2021 


 

O Estado de S. Paulo  / Economia

CELSO MING


Desde quando apareceu a primeira delas (o bitcoin, em 2008), as criptomoedas vêm sofrendo fortes ataques por parte de autoridades monetárias e policiais ao redor do mundo pelos argumentos errados.


Um deles é o de que não são 'legítimas', porque não são emitidas por bancos centrais ou por governos soberanos. Mas esta não é exigência intrínseca de uma moeda. Ao longo da História, são inúmeras as moedas que tiveram grande aceitação sem que ostentassem a efígie de César ou do imperador do momento.


O primeiro dólar, por exemplo, nasceu por decisão do conde Hieronymus Schlick lá por 1540, cuja propriedade, na área de Joachimstal ('Vale do Joaquim'), na Boêmia, encontrou uma mina de prata. Cunhou então o Joaquimstha-lergroschen (algo como grosso do 'Vale do Joaquim'), nome convenientemente encurtado para taler (do vale) em alemão, tallero em italiano e dollar em inglês. Foi umamoeda de grande aceitação sem que ninguém reclamasse então da deficiência de soberania na sua emissão. Desde tempos imemoriais, ouro em pó desempenhou função de moeda sem que levasse o carimbo de autoridade de Estado. A aceitação das criptomoedas provém das regras confiáveis de sua criação, da sua ancoragem em algoritmos e na indevassável tecnologia blockchain.


Também não se pode alegar que a emissão por um banco central toma uma moeda mais confiável do que essas novidades. A inflação e a rejeição de tantas moedas oficiais mostram que bancos centrais e governos não foram tão zelosos na guarda do valor da sua moeda.


Outro argumento frequentemente repetido pelas autoridades é o de que as criptomoedas estão sendo cada vez mais usadas por sonegadores, terroristas e narcotraficantes, que se valem do anonimato nas transações. Por isso, concluem essas autoridades, deveríam ser banidas. No entanto, o dólar e o euro são moedas mais usadas e mais falsificadas por esses fora da lei do que as criptomoedas, sem que ninguém até agora tivesse pregado sua retirada de circulação. Nenhuma moeda tem a função de apontar atividades ilícitas. No dia em que deixar de assegurar a privacidade e qualquer um puder saber quanto alguém guarda no cofre, essa moeda começará a ser rejeitada.


É inegável que a política monetária (política de juros) dos bancos centrais está sob ameaça. Se o uso das criptomoedas se tornar ainda mais generalizado, os bancos centrais não terão como calibrar o volume de moeda no mercado para combater a inflação.


Por trás dessa impossibilidade está o fato de que os bancos centrais desfrutam hoje (ou até recentemente) de monopólio sobre a criação e a administração da moeda nacional. É sobre essa circunstância que se assentam as bases da atual política monetária, que é a prerrogativa exercida pelos bancos centrais de aumentar ou diminuir o volume de moeda de maneira a combater (ou não) a inflação. No entanto, nada assegura de fato esse monopólio. A qualquer momento, uma moeda mais confiável pode eliminá-lo. Ainda não se sabe como os governos ou os bancos centrais poderíam quebrar a espinha dorsal das criptomoedas de modo ape-renizar seu próprio monopólio.


O maior problema das criptomoedas é sua enorme volatilidade, o que as impossibilita de se tomar reserva estável de valor. E há, ainda, o fato de que consomem volumes enormes de energia elétrica tanto para a sua 'mineração' (criação) quanto pelo processamento das transferências de titularidade.


Há uma revolução no sistema monetário global facilitada pela Tecnologia da Informação ou, mais especificamente, pela generalização dos algoritmos e dos aplicativos, que possibilitaram as criptomoedas. Não sabemos ainda o que está a caminho. Sabemos apenas que será um mundo bem diferente do que é hoje.

quarta-feira, 23 de junho de 2021

A gestação da Receita Federal Mundial(Helio Beltrão, FSP 23 6 21)

 A gestação da Receita Federal Mundial

Tributação proposta pelo G7 protege os países ricos

quarta-feira, 23 de junho de 2021 - 00:00


 

Folha de S. Paulo  / Mercado

Helio Beltrão


Nos anos 1960, o tema dos impostos crescentes impactou as biografias e obras de grandes artistas de rock. No Reino Unido, Harold Wilson, um barão trabalhista, que governou entre 1964 e 1970 (e entre 1974 e 1976), foi homenageado com uma canção dos Beatles.


Wilson implementou um imposto confiscatório sobre a renda. Não ficou por aí: estabeleceu a infame "cláusula dos Beatles". Esta previa que a antecipação de rendimentos futuros, anteriormente tributada como ganho de capital, fosse considerada renda normal, sujeita a alta alíquota progressiva. Naqueles meados dos anos 1960, os Beatles começavam a ganhar muito dinheiro, mas o fisco britânico passou a tomar quase tudo.


O grupo conhecido até então por seu lirismo sobre o amor, a vida, e carros, emplacou "Taxman" (álbum "Revolver", 1966), sua primeira obra política, composta pelo beatle mais pacífico e zen: George Harrison. Começa assim: "Vou te dizer como vai ser / um para você, dezenove para mim".


A cláusula dos Beatles teve como resposta uma letra ácida sobre o poder arbitrário estatal: "Se tiver um carro, taxo a rua; se tentar sentar, taxo o assento; se ficar com frio, taxo o aquecimento; se caminhar, taxo seus pés".


Não era exagero. O poder central é legitimado a perseguir o cidadão onde quer que esteja. "Não gostou, aperte um botão na próxima eleição e torça, ou mude de país", responde no ato o estatista tradicional. Na Europa medieval, várias centenas de principados e ducados competiam pela atração de população. Se os impostos fossem altos em uma jurisdição, os súditos pegavam suas trouxas e se mandavam para um outro ducado. A população votava com os pés.


Nos anos 1970, pelo menos os mais talentosos ainda podiam votar com os pés: a debandada foi geral. Entre os roqueiros, Mick Jagger, Keith Richards, Pink Floyd, Led Zeppelin, Lennon, Ringo, David Bowie, Rod Stewart buscaram um país que permitisse que retivessem uma parte um pouco maior de seu suado trabalho. Até Cat Stevens, coitado, comprou um apartamento perto da lagoa Rodrigo de Freitas. Oh, baby, it´s a wild world!


A proposta do G7 de impor a todos os países do mundo uma alíquota mínima de Imposto de Renda tem por propósito algemar os pés das multinacionais. Não importa onde estabeleçam sua sede, a ideia é que sejam taxadas proporcionalmente às suas operações em cada país, pagando pelo menos a alíquota mínima em cada um dos países.


É um cartel, puro e simples, garantindo que não haja via de escape. É o prólogo de uma Receita Mundial, um leão global todo-poderoso.


O governo Biden pretende aumentar a alíquota de empresas americanas a 28% de imediato para cobrir gastos crescentes, mas sabe que o efeito seria diluído se as empresas pudessem buscar países mais amigáveis, como a Irlanda (que cobra 12,5%), a Macedônia do Norte (10%), a Hungria (9%) ou outros com nível geral de impostos baixos. A proposta do G7 caiu como uma luva. Foi vendida por Janet Yellen, secretária do Tesouro, como essencial para a "melhoria do bem-estar da classe média e do ambiente".


Pense no que ocorreria se as companhias telefônicas anunciassem conjuntamente que passariam a cobrar ao menos R$ 100 por seus planos de dados em nome da melhoria do bem-estar de seus clientes. Ensejaria uma revolta geral e aplicação máxima de lei de defesa da concorrência. Mas o Estado pode.


Não sem custos, no entanto. Wilson quebrou o Reino Unido ao punir a atividade produtiva, e foi necessário o doloroso e brilhante governo de Margaret Thatcher para que voltasse aos trilhos.


Aqui, Paulo Guedes parece ter esquecido a lição de sua guru e pretende aumentar impostos sobre empresas. Não ganhará um rock, mas um réquiem. Será o fim do governo.

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Classes média e alta puxam a retomada do consumo(Valor, 17 5 2021)

Classes média e alta puxam a retomada do consumo

Uma das características mais impressionantes da covid-19 é o seu efeito desigual. Muitas pessoas continuam saudáveis enquanto outras ficam gravemente doentes ou morrem. O impacto econômico da pandemia tem sido desigual da mesma forma, com algumas famílias sendo poupadas de qualquer dificuldade financeira, enquanto outras sofrem ou até mesmo são dizimadas.
Essas diferenças são importantes na medida em que olhamos para a recuperação da economia depois da pandemia. Embora os gastos do consumidor respondam por cerca de dois terços da atividade econômica dos Estados Unidos, eles são um mosaico, e não um monólito.
Recentemente analisamos no MckKinsey Global Institute a demanda e o comportamento dos consumidores durante a pandemia na China, França, Alemanha, Reino Unido e Estados Unidos. Dividimos os consumidores em grupos por idade e renda para determinar a força e o formato da recuperação dos gastos. Em seguida examinamos quais mudanças comportamentais induzidas pela pandemia poderão persistir depois do fim da crise. No geral, constatamos que a natureza excepcional do choque econômico provocado pela covid-19 oferece motivos para otimismo de que os gastos do consumidor se recuperarão rapidamente assim que a pandemia terminar. Ao contrário de muitas recessões anteriores, esta não envolve o elevado endividamento do consumidor, o colapso de bolhas de ativos ou flutuações de longo prazo no ciclo de negócios. A súbita e grande queda do consumo na China, EUA e Europa ocidental, que foi de 11% a 26% nos primeiros meses da pandemia, foi resultado principalmente de cortes na prestação de serviços presenciais, especialmente viagens, entretenimento e restaurantes. Esses setores vinham anteriormente crescendo de forma constante e pesquisas com consumidores indicam um provável forte aumento da demanda depois da pandemia. O crescimento de 10 a 20 pontos percentuais na taxa de poupança nos EUA e Europa Ocidental em 2020 (equivalente ao dobro da poupança anual nos EUA) deixou muitas famílias numa boa posição para gastar. Tão logo a China conteve o coronavírus, por exemplo, os consumidores começaram a gastar novamente, retornando a atividades pré-pandemia como comer fora, ir ao cinema e concertos e fazer voos domésticos para visitara família e amigos.
Mas nossa análise de diferentes segmentos por idade e renda mostra que a recuperação deverá ser desigual, especialmente nos EUA. Enquanto muitas famílias de renda mais alta sairão da crise em grande parte sem problemas financeiros, as famílias de renda mais baixa enfrentam o desemprego e a incerteza com a renda. Além disso, muitos empregos do setor de serviços mudaram, uma vez que as empresas automatizaram suas Operações e passaram a operar online, potencialmente reduzindo a recuperação do emprego. Desse modo, assim que as medidas de estímulos terminarem, o consumo poderá se tornar mais polarizado entre os segmentos de renda.
Diante disso, acreditamos que os gastos pelos grupos de média e alta renda nos EUA voltarão aos níveis pré-pandemia em 2021-2022, enquanto os gastos dos grupos de baixa renda poderão cair abaixo dos níveis pré-pandemia assim que as medidas de estímulo terminarem. Na Europa, esperamos uma recuperação mais lenta, mas mais equilibrada, com uma desigualdade menos pronunciada do que nos EUA, embora também lá, sem estímulos governamentais adicionais, os grupos de baixa renda provavelmente se recuperarão mais lentamente do que as famílias de renda mais alta.
Mas os alvos dos gastos dos consumidores também são importantes. E a pandemia interrompeu, acelerou ou mesmo inverteu muitos hábitos de consumo antigos.
Para determinar se essas mudanças de comportamento induzidas pela pandemia deverão pegar, examinamos seis mudanças de consumo em uma ampla faixa de setores que cobrem quase três quartos dos gastos dos consumidores. Essas mudanças incluem uma aceleração das compras de supermercado pela internet, uma queda muito grande nos gastos com entretenimento ao vivo, mais gastos com itens como equipamentos de ginástica para prática em casa, equipamentos de jardinagem e equipamentos de videogame (o chamado 'home nesting'), além de uma queda das viagens aéreas a lazer, a mudança para o aprendizado remoto e um aumento das consultas de saúde virtuais.
Dois padrões consistentes se destacaram. Primeiro, a pandemia de covid-19 acelerou a adoção digital, especialmente nas compras de supermercado e cuidados com a saúde, e acreditamos que isso vai continuar.
Segundo, a pandemia e os 'lockdowns' associados, ao encorajarem o chamado 'home nesting', reverteram o declínio de longa data do dinheiro e tempo gastos em casa. Acreditamos que esse comportamento também persistirá porque algumas pessoas de famílias de alta renda continuarão a trabalhar mais de casa depois da pandemia, enquanto as famílias de baixa renda manterão o entretenimento digital e de baixo custo em casa.
Ao mesmo tempo, outros comportamentos interrompidos pela pandemia - como as viagens aéreas a lazer, o ensino presencial e as refeições fora de casa - provavelmente serão retomados com a recuperação, embora possivelmente em formatos modificados.
Embora a demanda do consumidor seja um pré-requisito para as mudanças de comportamento, a velocidade e grau com que essas mudanças são inseridas em uma população dependem das ações dos governos e indústrias. Por exemplo, inovações em produtos e serviços moldam as escolhas dos consumidores e as regulamentações governamentais ajustam seu comportamento. O que empresas e autoridades fizerem moldará o comportamento do consumidor depois da pandemia, e também os próprios consumidores.
Cada grande crise econômica do passado deixou sua marca no comportamento do consumidor. A Grande Depressão criou uma geração de poupadores cautelosos. À crise do petróleo de 1973-1974 deu início a uma mudança em direção à eficiência energética e redução do impacto ambiental. Como a maior ruptura econômica desta geração, a pandemia de covid-19 também terá um impacto duradouro sobre o comportamento do consumidor mas um impacto que poderá ser mais variado e diferente de uma maneira nunca vista.

domingo, 16 de maio de 2021

Diplomacia e turismo da vacina(Celso Ming, Estado, 16 5 2021)

 CELSO MING - Diplomacia e turismo da vacina


domingo, 16 de maio de 2021 


 

O Estado de S. Paulo  / Economia

O país que primeiro entendeu a importância da chamada diplomacia da vacina foi a China. Logo no início da pandemia, colocou à disposição de outros países os insumos de suas vacinas. Seu objetivo foi dar um passo em direção ao mercado mundial da saúde, hoje avaliado em quase US$ 9 trilhões por ano.


Agências europeias vêm oferecendo pacotes de viagem que incluem vacinação com a Sputnik V em Moscou ou em São Petersburgo. Por iniciativa de governantes ou, mesmo, de instituições privadas, turistas passaram a ser convidados para se imunizar nos Estados Unidos. O prefeito de Nova York, Bill de Blasio, os chamou para serem vacinados na Times Square e algo assim foi o que fizeram empresas de Miami. É provável que outras autoridades também escolham esse caminho, com o objetivo de aumentar o fluxo de turistas.


Também é parte integrante da diplomacia da vacina dos Estados Unidos a sugestão do presidente Joe Biden de apoiar a proposta da África do Sul e da Índia na OMS de quebrar as patentes das principais vacinas. Além disso, a Casa Branca anunciou que, em dois meses, até 60 milhões de doses da AstraZeneca serão doadas a países pobres ou com a vacinação atrasada.


Do ponto de vista do governo dos Estados Unidos, este não é apenas mais um lance geopolítico de enfrentamento à China, que vai ocupando espaços globais, nem de um programa de ajuda a países carentes. Tampouco se trata apenas de operação de melhora da imagem depois do estrago produzido pela administração Trump. Tratase, principalmente, de iniciativa que apressa a recuperação dessas economias que, assim, tanto poderão voltar a importar dos Estados Unidos como voltar a produzir bens primários e intermediários em falta, o que vem sendo obstáculo para restabelecimento das cadeias globais de suprimento.


A União Europeia é que parece ter ido na contramão quando passou a defender a criação de um passaporte da vacina, cujo objetivo é barrar a entrada de potenciais infectados pela covid-19. Em todo caso, alguns dos seus políticos vêm lembrando que "ninguém está a salvo enquanto todos não estiverem a salvo".


O verão está chegando ao Hemisfério Norte e, com ele, a alta temporada do turismo. Esta é uma das principais atividades econômicas de países da Europa, que ficou estancada em 2020 pelo necessário distanciamento e pela proibição de inúmeros voos internacionais. É um setor que responde por 12% do PIB da Espanha; por 7,4% da França; cerca de 6,0% da Itália; 6,8% da Grécia; e 8,0% de Portugal, conforme dados da OCDE.


Aqui no Brasil, a proposta de que empresas privadas importem vacinas passou a ser incompreensivelmente considerada prática desleal. E, no entanto, se uma iniciativa dessas fosse acatada, mais gente estaria imunizada e mais rapidamente haveria recuperação da atividade econômica e do emprego.


Há quem veja prática antiética nos beneficiados pelo turismo da vacina, sob o argumento de que aumenta a desigualdade. Isso não faz sentido. Então, para enfrentar a desigualdade seria melhor não comprar computador, já que tanta gente não pode tê-los?

terça-feira, 4 de maio de 2021

Erradicação da pobreza: como a China conseguiu?(Yang Wanming, Correio Braziliense, 4 5 21)

Yang Wanming - Erradicação da pobreza: como a China conseguiu?



terça-feira, 4 de maio de 2021


 

Correio Braziliense  / Opinião

» Yang Wanming Embaixador da China no Brasil


A pobreza é um dos maiores desafios para o desenvolvimento e a governança global. Maior país em desenvolvimento do mundo, a China há muito tempo enfrenta esse flagelo. Desde 2012, o governo chinês travou uma batalha decisiva contra a pobreza. Ao retirar quase 100 milhões de pessoas da pobreza, a China cumpriu a árdua missão de erradicar a miséria absoluta. Pelos padrões do Banco Mundial, a China responde por mais de 70% da redução da população em pobreza mundial.


No livro branco Alívio da pobreza: Experiência e contribuição da China, lançado em abril deste ano, a China compartilha seus conceitos e ações nessa trajetória.


Em primeiro lugar, seguir uma filosofia centrada nas pessoas. Como a erradicação da pobreza é uma das prioridades do Estado, essa agenda está sempre presente em planos de desenvolvimento a médio e longo prazos, a fim de assegurar a coerência das políticas e a estabilidade dos apoios financeiros. Há planos de ação em todas as esferas de governo, além de um completo mecanismo de trabalho.


Segundo, adotar estratégias objetivas e adequadas. Diferentemente do assistencialismo tradicional, a China adotou uma abordagem por meio de promoção de desenvolvimento, com táticas mais precisas para impulsionar a melhoria das condições de desenvolvimento das áreas pobres e elevar o nível de escolaridade e de qualificação laboral da população carente. Tendo em vista as diferenças regionais e demográficas, foram tomadas medidas bem direcionadas: desenvolvimento industrial, realocação da população de áreas inóspitas, compensação ambiental, melhoria da educação, treinamento vocacional e seguridade social.


Xinjiang, por exemplo, a maior região autônoma da China em extensão territorial e em percentagem de população de minorias étnicas, tinha também vários bolsões de pobreza. Na região onde há maiores produtores de uva e melão, o governo local promove tecnologias de conservação e beneficiamento para aumentar o valor agregado desses produtos. Também são oferecidos cursos de produção de joias, aproveitando-se do recurso mineral de jade. Já nas áreas produtoras de algodão são difundidas técnicas têxteis e o manejo de colheitas mecanizadas. Nos últimos 60 anos, um total de 3 milhões e 89 mil habitantes locais saíram da pobreza, o PIB per capita de Xinjiang aumentou quase 40 vezes e a expectativa de vida subiu de 30 para 72 anos.


Terceiro, convergir esforços conjuntos. Para completar a meta de erradicar a pobreza, a China implementou um sistema abrangente, que conta com a participação do governo, da sociedade e do mercado. Por meio de incentivos tributários e outras políticas, promoveu o fluxo de talentos, capital e tecnologia de 342 localidades mais desenvolvidas do Leste para 570 destinos menos favorecidos no Oeste. Estimulou ainda empresas privadas, organizações sociais e indivíduos a contribuírem, conforme suas vantagens, para a redução da pobreza nos setores de indústria, ciência e tecnologia, educação, cultura, saúde e consumo. Ao mesmo tempo, valendo-se da tecnologia digital, foram incentivadas novas formas de negócios, como comércio eletrônico rural e ecoturismo, para motivar o empreendedorismo e a criatividade na população de baixa renda.


Quarto, promover a cooperação internacional. Nos mais de 70 anos desde a fundação da República Popular, a China disponibilizou mais de US$ 60 bilhões para ajudar quase 170 países e organizações internacionais, implementou mais de 5 mil projetos de assistência externa, apoiando os países em desenvolvimento na implementação dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. O governo chinês criou o Fundo China-Nações Unidas para a Paz e o Desenvolvimento e o Fundo de Amparo à Cooperação Sul-Sul, impulsionando a concretização da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável da ONU. A iniciativa chinesa "Cinturão e Rota" também ajuda os países parceiros no combate à pobreza. O Banco Mundial prevê que parcerias no âmbito dessa iniciativa ajudarão a tirar 7,6 milhões de pessoas da pobreza extrema e 32 milhões da pobreza moderada.


Sob o impacto do alastramento da pandemia, a humanidade vê crescer seu deficit de governança e de desenvolvimento. A China está disposta a trabalhar com o Brasil e os demais países para fortalecer o intercâmbio e a cooperação na redução da pobreza, unir forças para construir uma comunidade de futuro, compartilhado com vida digna e progresso comum.