segunda-feira, 15 de maio de 2023
quinta-feira, 6 de janeiro de 2022
Três perguntas para Niall Ferguson(Revista Poder,| Coluna da Joyce, 5 1 22)
3 PERGUNTAS PARA... NIALL FERGUSON, professor da Universidade de Harvard e um dos mais renomados historiadores da atualidade. Autor do recém-lançado Catástrofe (ed. Crítica)
quarta-feira, 5 de janeiro de 2022
Revista Poder | Coluna da Joyce | JOYCE PASCOWITCH, COM DADO ABREU
POR QUE ALCANÇAMOS TANTOS AVANÇOS NA CIÊNCIA, COMO A PRODUÇÃO DE VACINAS EM TEMPO RECORDE, MAS NÃO EVOLUÍMOS COMO SOCIEDADE? Nosso conhecimento científico, sem dúvida, não tem precedentes na história humana. Contudo, você pode ter os avanços científicos mais sofisticados, com Ph.Ds. conduzindo trabalhos multidisciplinares, mas se a população permanecer analfabeta, do ponto de vista científico, e suscetível ao pensamento mágico das redes sociais e teorias da conspiração, os avanços não terão aceitação pública. E é por isso que as vacinas, que têm alta eficácia e risco baixíssimo, foram rejeitadas por, pelo menos, 1/5 dos americanos. Uma segunda resposta é sobre as estruturas burocráticas que proliferam no mundo desde 1970. O estado administrativo produz planos para desastres, mas que se desintegram com o contato com a crise real. Essa combinação explica por que nosso vasto conhecimento não pode ser traduzido em respostas eficazes aos desastres quando eles acontecem. Não se trata apenas de compreender um novo patógeno, é sobre ter uma estratégia bem preparada para detectá-lo. Taiwan e Coréia do Sul mostraram que isso poderia ser feito. Os EUA e a maior parte da América Latina se saíram muito pior. Todos nós tivemos acesso à mesma ciência.
NESTE SENTIDO, COMO TORNAR AS REDES SOCIAIS MENOS PERIGOSAS? Disjuntores. Você precisa ser capaz de isolar as fontes de contágio e excluí-las temporariamente da rede. Uma sociedade hiperconectada é altamente vulnerável ao contágio, e não apenas com os vídeos de gatos que se tornam virais - esse foi o argumento de A Praça e a Torre: Redes, Hierarquias e a Luta pelo Poder Global (ed. Crítica). Acho que agora isso é óbvio para todos. Com a ciência em rede, podemos entender melhor como limitar a propagação de uma pandemia e de uma “infodemia”, porque podemos identificar quem são os propagadores.
O PRÓXIMO DESASTRE PODE SER AMBIENTAL? SOMOS RELUTANTES EM ACEITAR ISSO? Acho que reconhecemos desastres reais, incluindo a possibilidade de mudanças climáticas severas. Na verdade, somos ruins em fazer algo para evitá-los. Se o movimento verde realmente se importasse com as mudanças climáticas, adotaria a energia nuclear e o gás natural como uma tecnologia de transição, enquanto as energias renováveis se tornam mais eficientes.
domingo, 2 de janeiro de 2022
A opção pelo hidrogênio verde(Celso Ming, Estado, 2 1 22)
A opção pelo hidrogênio verde
domingo, 2 de janeiro de 2022
O Estado de S. Paulo | Economia | Celso Ming
A Conferência do Clima da ONU (COP-26), que se realizou na primeira semana de novembro na Escócia, depositou grandes esperanças no hidrogênio verde, o combustível que poderia, em princípio, apressar a substituição dos produtos de origem fóssil.
Mas falta muito para garantir que seja o caminho a ser trilhado na peripécia da descarbonização do planeta. Este é um tema que esta Coluna já tratou no dia 29 de julho de 2021 (A vez do hidrogênio verde), mas, dado o protagonismo esperado pelos ambientalistas, é preciso avaliar melhor do que se trata.
As principais fontes de energia renovável, como a eólica e a solar (exceção feita à energia nuclear, que enfrenta outros problemas), têm duas importantes limitações: são intermitentes e, em grande escala, não podem ser armazenadas. Quando há pouco vento, como em 2021 na Europa, ou pouco sol, a produção de energia elétrica por essas fontes é baixa. É o fator que compromete sua confiabilidade. Uma vez gerada, tem de ser imediatamente transmitida e consumida. É o que tentou explicar a então presidente Dilma quando disse que não dá para estocar vento. Nisso, a geração hidrelétrica tem uma vantagem porque sempre se pode estocar água nos reservatórios. Mas também depende das chuvas.
O hidrogênio é poderosa fonte de energia. É o principal combustível dos foguetes espaciais. Mas tem de ser obtido por hidrólise da água, que é a quebra da molécula H2O submetida a uma corrente elétrica. Pode parecer inviável usar volumes colossais de eletricidade para produzir energia elétrica. No entanto, o processo tenta superar o problema da intermitência da energia renovável. A proposta é usar a energia eólica e solar (enquanto houver vento e sol) para a eletrólise, que, por sua vez, vai produzir hidrogênio verde, este, sim, armazenável.
Mas, atenção, armazenável em termos. O hidrogênio é altamente inflamável. Foi o combustível que pegou fogo em um dos mais impressionantes desastres da história, a destruição do dirigível Hindenburg, em 1937, quando morreram 37 pessoas, em New Jersey. Foi o fim da Companhia Zeppelin.
Ainda não foi desenvolvido um sistema altamente seguro e economicamente viável de transporte e armazenamento. Quando isso acontecer, o hidrogênio poderá substituir o carvão mineral e o óleo combustível em atividades intensivas em carbono.
Com alto potencial de energia eólica e solar, o Brasil é forte candidato a ser produtor e exportador de hidrogênio verde e segue tentando. Recente regulamentação da Aneel deu aval para o funcionamento de usinas híbridas, o que tende a tomar as energias renováveis mais competitivas e, consequentemente, ajudar na produção do hidrogênio verde, que já conta com planta em instalação no País, no Porto do Pecém (Ceará).
A opção pelo hidrogênio verde só enfrenta um adversário potencial: o de que se encontre um meio de produzir baterias baratas capazes de armazenar energia elétrica em grande escala. ?
segunda-feira, 15 de novembro de 2021
O carro ecológico criado por Henry Ford em 1941 e nunca comercializado(BBC, 3 novembro 2021)
https://www.bbc.com/portuguese/geral-59123741
Henry Ford foi imortalizado como o homem que popularizou o uso de automóveis com a criação do primeiro carro produzido em massa, o Ford T.
A linha de montagem, inventada pelo americano, possibilitou que o mercado automobilístico se expandisse, revolucionando a indústria de transportes no início do século 20.
Hoje a proliferação de carros — que emitem dióxido de carbono, o principal gás causador do aquecimento global — é considerada um fator central das mudanças climáticas.
Mas poucos sabem que Ford, símbolo do carro, da indústria e da linha de montagem, também flertou com a produção de um produto ecológico — pelo menos no material usado para a produção.
Nos anos 30, a Ford foi uma das primeiras indústrias a fabricar o que hoje chamamos de bioplástico: um plástico feito de plantas que, ao contrário do plástico tradicional - feito de hidrocarbonetos - é biodegradável.
Ford chegou a criar um carro com esse material: o Soybean Auto (carro de soja), que ele apresentou ao público em 1941.
Ele estava tão convencido das virtudes deste plástico — que, segundo ele, era dez vezes mais resistente do que o aço — que pegou um machado e atingiu um painel de metal e um de plástico, mostrando que apenas o metal tinha amassado.
No entanto, apesar de o próprio magnata ter previsto que "dezenas de milhares de artigos e autopeças atualmente feitos de metal" seriam feitos de "plástico criado a partir de materiais colhidos na fazenda", o protótipo nunca virou um produto. O carro de soja nunca foi e o único modelo existente foi destruído. Não há nem mesmo uma réplica.
Qual a história por trás desse projeto? Por que ele não prosperou?
Um trabalhador fabrica um carro de plástico
CRÉDITO,FORD MOTOR COMPANY
Legenda da foto,
Henry Ford acreditava que o plástico feito à base de plantas seriao material do futuro
De acordo com o Benson Ford Research Center, dedicado a preservar a memória de Henry Ford, o famoso empresário cresceu em uma fazenda em Michigan e durante toda a sua vida buscou uma forma de combinar "os frutos da indústria com os da agricultura".
Ford criou laboratórios dedicados a encontrar usos industriais para plantas como soja, milho, trigo e cânhamo. A ideia de construir um carro de plástico feito a partir desses materiais não só cumpria o propósito de unir as duas paixões, mas também tinha outros méritos, destaca o centro de pesquisas.
Uma era que a Ford acreditava que "os painéis de plástico tornavam o carro mais seguro do que os carros de aço tradicionais; e que o carro poderia até mesmo capotar sem ser esmagado".
Mas havia também uma questão prática: com o início da Segunda Guerra Mundial na Europa, em 1939, houve uma "escassez de metais" no mundo.
"As matérias-primas plásticas podem custar um pouco mais", disse ele ao jornal The New York Times durante a apresentação de seu "carro feito de plástico", em agosto de 1941. "mas prevemos uma economia considerável como resultado de menos operações de acabamento na fabricação."
A estrutura metálica do carro de plástico
CRÉDITO,FORD MOTOR COMPANY
Legenda da foto,
A fórmula do material é desconhecida até hoje
O que se sabe sobre o Soybean Auto
O próprio Benson Ford Research Center reconhece que muito pouca informação foi preservada sobre esta invenção original, que, no entanto, continua a despertar o interesse de muitas pessoas — especialmente agora que há tanta atenção dada às questões ambientais.
Uma das grandes incógnitas são os detalhes sobre o material com que o carro foi feito. Os ingredientes exatos dos painéis de plástico são desconhecidos porque atualmente não há registro da fórmula.
A reportagem do New York Times da época diz que "um dos plásticos desenvolvidos pelos químicos da Ford é um material composto de 70% de fibra de celulose e 30% de aglutinante de resina".
"A fibra celulósica é composta por 50% de fibras de pinho, 30% de palha, 10% de cânhamo e 10% de rami, material usado pelos antigos egípcios para as múmias", detalha o jornal.
Mas o homem encarregado de criar o carro, Lowell E. Overly, deu uma versão muito diferente em outra entrevista. Ele disse que o carro era feito de "fibra de soja em uma resina fenólica com formaldeído".
Modelo de estrutura metálica do carro
CRÉDITO,THE HENRY FORD/FORD MOTOR COMPANY
Legenda da foto,
A base do carro era uma estrutura metálica
O projeto
O que está mais documentado é como o Soybean Car foi projetado e montado.
A Ford confiou a tarefa a Overly, que era designer de ferramentas e matrizes do Laboratório de Soja, que fazia parte do complexo criado pelo empresário automotivo.
O supervisor de Overly, Robert A. Boyer, que era químico, também ajudou no projeto. O carro tinha uma estrutura de aço tubular, à qual foram fixados 14 painéis de plástico.
Além de fazer o carro mais resistente a impactos, o plástico tinha outra grande vantagem: era muito mais leve. O Soybean Car pesava menos de uma tonelada, metade do peso dos carros tradicionais da época.
Este foi outro fator que Ford destacou quando apresentou sua inovação em 13 de agosto de 1941 no Dearborn Days, um festival em Michigan. O "carro de plástico" também foi exibido no Michigan Fairgrounds no final daquele ano.
Mas apesar de seu apoio à sua nova invenção e da confiança de Ford no futuro dos plásticos à base de plantas, o projeto não foi para frente.
De acordo com Overly, o único modelo já feito foi destruído e os planos para produzir uma segunda unidade nunca saíram do papel.
O que impediu o projeto — e parou toda a produção de automóveis nos EUA — foi a entrada do país na Segunda Guerra em 1941, depois do ataque japonês a Pearl Harbor.
No final da guerra, a ideia de um carro de plástico desmoronou enquanto a energia estava indo para os esforços de recuperação, explica o Centro de Pesquisa Benson Ford.
Outros afirmam que o desinteresse pelo plástico à base de plantas foi devido a um fator puramente econômico: a abundância de petróleo barato após a Segunda Guerra Mundial.
sábado, 13 de novembro de 2021
O maior desafio da energia eólica é o PIB(Revista Conjuntura Econômica, 11 11 21)
'O maior desafio da energia eólica é o PIB'
quinta-feira, 11 de novembro de 2021 - 00:00
Revista Conjuntura Econômica / Noticias
Os 10 anos que a economista Elbia Gannoum completa à frente da Abeeólica também marcam a forte expansão da geração eólica no Brasil, colocando-se como a segunda maior dentro da matriz elétrica brasileira, com custos competitivos. Pelo lado da oferta, a executiva diz que a capacidade de expansão do setor continua praticamente ilimitada, podendo acontecer à medida que o país cresça e a estrutura de transmissão permita levar a energia gerada aos centros de consumo. Em entrevista à Conjuntura Econômica, Elbia destacou o potencial da exploração offshore no Brasil, afirmando que sua complementaridade com a atual geração onshore eliminaria a necessidade do uso de termelétricas. Tecnologia e fontes de financiamento não faltam; afirma, ressaltando que a energia eólica também já mostrou colaborar para o crescimento socioeconômico das regiões em que os parques têm sido instalados, especialmente no Nordeste. "Além de ser uma matriz renovável, usando recursos competitivos, é uma ferramenta de desenvolvimento, que é algo tão desafiador para o país; afirma.
Conjuntura Econômica - A geração eólica registrou forte expansão na última década no Brasil. Como o atual cenário de inflação e juros altos, desvalorização da moeda, tensão sobre a gestão fiscal e estimativa de baixo crescimento afetam as perspectivas do setor?
A energia eólica participou do primeiro leilão em 2009, quando foram contratados em torno de 2GW. Em 2011, entrou em operação o primeiro parque resultante desse leilão. Nesse ano, quando cheguei na Abeeólica, tinhamos 1GW de capacidade instalada. A partir daí, até 2017, foram contratados em média 1, 8GW a 2GW por ano. Em 2017 tivemos um momento muito importante, pois foi
quando a eólica se tornou a fonte de energia mais barata do país - em 2009, ela custava duas vezes mais que a geração hidrelétrica. Diante disso, começou a surgir para nós um novo nicho, pois o mercado livre também passou a se interessar pela eólica, fazendo a demanda crescer ainda mais. Em 2018/19, contratamos 1, 5GW nos leilões e de 2, 5GW a 3GW no mercado livre. E o montante contratado era o que a própria cadeia podia produzir, porque 80% da cadeia eólica é nacionalizada. Em 2020, por causa da pandemia, os leilões regulados foram cancelados, mas mantivemos uma contratação em torno de 3GW no mercado livre. Em 2021 os leilões voltaram, tivemos S00MW contratados, e vamos ter um pouco mais de leilões. E o mercado livre continua muito dinâmico. Devemos repetir 3GW novamente este ano, e a tendência é de que esse nível de contratação ainda continue por mais dois ou três anos.
Assim, no curto prazo, não estamos revisando nossas projeções, pois com esses resultados temos construções contratadas até 2025, quando incluiremos ao menos mais 10GW de geração, totalizando 31GW. , Isso mostra que a velocidade do crescimento dos próximos 10 anos tende a ser maior do que a dos 10 anos passados, dada essa inserção forte da eólica no nicho do mercado livre. Essa perspectiva parece destoar do pessimismo com o qual olhamos as estimativas para a economia brasileira até 2022. . .
Esse Brasil mais pessimista me ensinou muito, principalmente entre 2014-16, quando vivi uma agonia grande porque tivemos leilões cancelados, devido à retração da atividade. Hoje, me traz muita preocupação o descontrole macroeconômico. Quando começamos a ver a alta da Selic nesse nível, anúncio de que a inflação em um mês (setembro) é a maior em 27 anos, isso tudo traz muita incerteza. Estou acostumada, quando visto meu chapéu de investidora, a lidar com instabilidades políticas - pelas experiências que passamos, como a Lava Jato, aprendemos a precificar isso e já seguimos para a segunda derivada. Só que os fundamentos macroeconômicos de certa forma estavam mantidos, o descontrole foi gerenciado. Na medida em que se perde o controle macro, terei que aprender a lidar com uma situação razoavelmente nova, com a qual nesses 20 anos de carreira, e 10 no setor de energia eólica, eu não lidei ainda. Somos dependentes do investimento externo, então nos preocupa o impacto que isso pode trazer na disponibilidade de crédito, no apetite dos investidores internacionais.
Dadas suas características, qual o limite possível da participação da geração eólica na matriz elétrica brasileira?
Vamos fazer análise do lado da oferta e da demanda. Do lado da oferta, o Brasil tem 800GW de potencial eólico onshore e cerca de 1TW offshore. Então, quando olho do lado do recurso eólico, o potencial de expansão é infinito quando comparado à capacidade instalada do Brasil hoje, de 170GW. Mas o Brasil não vai chegar nisso nunca, porque a matriz precisa ser diversificada por definição. Já tivemos 90% de geração hidrelétrica; hoje, frente à crise hídrica, ter 60% da geração hidrelétrica já nos deixa numa posição difícil.
Os limites, portanto, estão do lado da demanda. Primeiramente, como disse, pelo fato de que o planejador não expandirá a eólica infinitamente, pois precisa alocar outros recursos de produção, como solar, termelétrica. Esse é um lado, e é uma constante. O único lado da demanda em que há algum grau de manobra para ampliação seria em registrado uma expansão na
, com uma trajetória virtuosa que a levou a ser a segunda fonte da matriz - respondemos por 11% de participação na capacidade instalada, e em termos de geração representamos no segundo semestre deste ano cerca de 17% em média do sistema elétrico nacional, com picos de 20%. Mas se a gente tivesse um PIB maior, esse crescimento também seria maior. Então, nosso maior desafio está relacionado ao PIB, à economia, que tem apresentado resultados pífios. Agora já se fala de uma recessão em 2022, e isso é ruim. Na hipótese - Deus me livre - de o Brasil ter mais uma década de estagnação, o que acontecerá com a eólica? É possível que daqui a cinco ou seis anos esse impacto da crise econômica chegue no setor. Mas ainda não chegou, pois ele tem uma dinâmica própria de atender ao mercado livre. Por outro lado, quando a economia passa um tempo estagnada e volta à crescer, a demanda por energia é maior do que aquela elasticidade média que conhecemos, de 1, 5. Em retomadas rápidas, essa elasticidade pode chegar a 2%, 2, 5%. O limite estaria aí.
Atualmente, há grande interesse na expansão das fronteiras da geração eólica para o offshore. Há limitações para esse tipo de exploração no Brasil?
Não temos limites tecnológicos, nem de financiamento para fazer offshore. Só não o fizemos ainda por questão de competitividade. Veja, diferentemente do resto do mundo, o problema a se resolver no Brasil não está na escassez do recurso, e sim na abundância do recurso renovável. O Brasil tem eólica, solar, hidrelétrica, PH, biomassa, e essas fontes se tornaram muito competitivas nos últimos 10 anos. Então, ao fazer a gestão da abundância, o planejador vai tomar a decisão lógica do preço, postergando a escolha das fontes menos competitivas. E por que o offshore é o tema do momento? Porque vários países, especialmente os europeus - Inglaterra, Dinamarca, Holanda - investiram fortemente na tecnologia offshore, e com isso o custo dessa tecnologia tem caído drasticamente. Como também tem ocorrido com a geração solar. Nessa curva de decréscimo de custo, a eólica offshore está chegando num patamar próximo do nível do de uma termelétrica competitiva, em torno de R$ 350 por unidade de energia. Então, a partir do momento em que o offshore se aproxima do preço da termeleticamelen e razoa velharia o Brasil. Vale ressaltar que, embora o offshore utilize turbinas parecidas com as da geração onshore, estamos falando de recursos distintos do ponto de vista elétrico, regimes de produção diferentes. Isso, inclusive, o torna fonte complementar para diversificar a matriz com mais renováveis. Com qual fonte a offshore concorre efetivamente? Com a termelétrica. Os defensores de termelétrica ressaltam que esta garante uma geração flat que traz segurança. Porém, quando eu coloco offshore combinada com várias eólicas onshore, que estão em regiões distintas, no Nordeste e no Sul, elas se complementam, eliminando a necessidade do uso da termelétrica. E aí eu resolvo duas questões: a termelétrica é poluente, e preciso de uma matriz cada vez mais limpa. E ela é caríssima. Nesse momento em que estamos vendo uma crise energética global, e o Brasil precisando de térmicas porque no passado não se fez um planejamento adequado - considerando que era difícil prever que sofreríamos todos esses efeitos das mudanças climáticas -, estamos tendo que pagar muito caro pelo combustível. Para o offshore no Brasil, o que precisamos é de regulamentação, cujo projeto o ministro Bento de Albuquerque, de Minas e Energia, sinalizou que lançaria ainda em novembro.
Um dos gargalos conhecidos para a expansão da geração eólica é a transmissão. Como equacionar esse tema, especialmente se o plano é levar essa geração para o alto-mar? A questão da transmissão não chega a ser um gargalo, mas sem dúvida é um desafio sempre presente. Das três variáveis que tenho de monitorar o tempo todo - demanda, financiamento e transmissão -, ela é a que está no topo das minhas atenções. Com relação à demanda, mencione a preocupação com o PIB. Fontes de financiamento não faltam. Temos uma quantidade enorme de investidores chegando no Brasil, de fundos, e temos recursos do BNDES, que financiam 90% dos nossos projetos. Por que usamos tanto o BNDES? Porque ele me dá salvaguarda da variação cambial. Muitos interessados em nosso mercado têm dinheiro, mas por conta do câmbio acabam usando o BNDES. E não faltam recursos. O banco tem R$ 130 bilhões para financiar energia; a eólica usa no máximo R$ 8 bilhões por ano. No caso da transmissão, quando começamos lá em 2009 com a eólica nos leilões, acreditávamos que uma linha de transmissão poderia entrar em funcionamento em dois, três anos. Então fazíamos um leilão de eólica, outro de transmissão, e esperávamos o casamento de ambas acontecer. Mas a eólica terminava e a transmissão não chegava, por questões ambientais, entre uma série de complexidades da transmissão. Tivemos que mudar o planejamento, ampliando o prazo. Então, para fazer um parque eólico funcionar daqui 5 anos, precisamos do leilão de transmissão dois, três anos rancescido leilão dareólican E assim o planejamento tem sido feito. O que está acontecendo agora é que o aprofundamento da crise hídrica, associado às mudanças climáticas, nos mostrou que não podemos mais contar com as hidrelétricas como no passado, que elas nos darão trabalho mais frequentemente. Então, é preciso trazer outros recursos energéticos. A térmica, como disse, especialmente a térmica emergencial, é dramaticamente cara. Então, qual a forma de eu ajustar essa perda de geração hidrelétrica que não vou recuperar mais? Preciso aumentar a quantidade de energia renovável, tanto eólica quanto solar. Só que os recursos eólicos melhores estão concentrados no Nordeste e no Sul do país, então preciso aumentar a transferência de energia entre Nordeste e Sudeste, entre Sul e Sudeste. Esse é o problema hoje. No fim de outubro houve um leilão emergencial do Ministério de Minas e Energia em que a eólica não foi contratada, apesar de entrar em funcionamento em 1 ano e meio, porque não adianta gerar eólica lá no Nordeste se não há linha de transmissão para trazer para o Sudeste. Do ano passado para cá essa necessidade de aumento da transferência ficou muito clara para o planejador, que está preparando uma série de leilões de transmissão. Estudo da Consultoria GO Associados para a Abeeólica indica que municípios que receberam investimentos em geração eólica registraram aumento real do PIB de 21, 15% entre 1999-2017 na comparação com os que não receberam, e que o Índice de Desenvolvimento Humano nesses lugares aumentou 20% entre 2000 e 2010. De que forma esses ganhos acontecem, e como potencializar essa capacidade?
Esse é um dos temas que mais gosto de tratar. Estive pela primeira vez em um parque eólico, no Nordeste, em 2012. Eu era uma economista muito acostumada a lidar com elétrons, e o debate sobre sustentabilidade no setor não estava tão aflorado, especialmente no Brasil. Quando cheguei lá, falei com prefeitos, com a vizinhança dos parques, e percebi esse impacto positivo, mas ainda não tinha como mensurá-lo. Somente passei a incentivar a realização de matérias a respeito. Só chegamos a uma medição desse efeito multiplicador no ano passado.
Veja, o relacionamento de um parque eólico com uma região dura pelo menos 25 anos. Começa com a identificação de áreas que contam com bom vento. Então, o potencial empreendedor chega ao proprietário de um terreno, em geral são pequenas propriedades, afirmando seu interesse em arrendar a terra para colocar uma torre de medição. Essa torre fica ali por cerca de 3 anos, período no qual o dono da terra recebe um valor fixo. Quando o projeto é aprovado e se instala o parque, faz se um contrato de 25 anos e o pagamento passa a ser um valor relativo à geração. A partir daí, esse proprietário - que vive no interior da Bahia, do Piauí, do Rio Grande do Norte, muitas vezes beneficiário do Bolsa Família - tem em média dois ou três aerogeradores instalados em suas terras, e passa a receber cerca de R$ 2 mil mensais por aerogerador. Imagine para uma família de cinco filhos, dependente de transferência do governo, o salto na renda que é. Com esse dinheiro ele compra uma moto, um carro, faz reformas na casa, e isso dinamiza a economia. Por outro lado, esse investimento também se reflete na arrecadação municipal. Um parque eólico de 30MW, por exemplo, demanda um investimento em torno de R$ 400 milhões e vai recolher ISS. Em regiões com muitos parques, como em Parazinho, São Miguel do Gostoso, no Rio Grande do Norte, é perceptível a mudança econômica. Além disso, os parques eólicos, quando chegam na região, costumam fazer melhorias em postos de saúde, escolas com projetos ide educação de agricultura. No Rio Grande do Norte, que citei como exemplo, há muito problema com água salubre, e se investiu em projetos para levar água potável a famílias e escolas. Então, o fator multiplicador forte aqui é o do investimento e do arrendamento. Como podemos melhorar isso? Tenho estudado bastante o assunto, até por essa questão de trazer a transformação energética para o conceito ESG (sigla em inglês para ambiental, social e governança). Considero que a forma de fazê-lo é pensar mais nos investimentos em energia renovável como a eólica, a solar, sob essa lógica de desenvolvimento econômico. Ou seja, de que a eólica, além de ser uma matriz renovável, usando recursos competitivos, é uma ferramenta de desenvolvimento, que é algo tão desafiador para o país.
Em vários países desenvolvidos, a pandemia suscitou o desenvolvimento de políticas de retomada que fossem verdes, ou seja, de promoção de crescimento ambientalmente responsável. No caso do Brasil, quais estruturas de incentivo considera que devem ser criadas, ou reformadas, para incluir o setor energético nessa tendência?
O pacote de retomada verde que os países desenvolvidos estão liderando tem uma lógica interessante, voltada a esse efeito de renda que mencionei. Eles têm recursos estatais para isso, e pensam: já que tenho que impulsionar a economia, que seja pelo lado da infraestrutura. E se a infraestrutura se chama energia, vou produzir energia verde, porque preciso me dedicar à transição ao baixo carbono. Então cria-se uma estrutura de incentivo com mil mecanismos. Por que esses países fazem isso? Porque lá fora eles não têm abundância de recursos renováveis, e as energias renováveis tendem a custar mais caro que a fóssil. Então, boa parte do mundo precisa realmente desse esforço para inserir fontes renováveis, e os países desenvolvidos têm dinheiro para essa retomada econômica verde.
O Brasil tem uma lógica diferente, até escrevi um paper sobre isso. Primeiramente, porque o Estado não tem dinheiro para investir, nem capacidade de fazer incentivo fiscal. Mas isso tampouco é tão necessário, porque aqui a tecnologia renovável é muito mais barata que a fóssil. Então, a tarefa do Estado brasileiro é outra, e mais simples de fazer.
Para obter o mesmo benefício que o mundo está se esforçando para conquistar, é preciso criar um ambiente amigável e atrair investimento. E isso não é tão desafiador porque dinheiro tem, e muito, lá fora. Então, O necessário é sinalizar que vai seguir Os investimentos nessa trajetória: um programa de hidrogênio verde, regular a eólica offshore, fazer transmissão adequadamente, no prazo certo. Mas não são necessários subsídios, pois essas energias Jjá são extremamente competitivas, e o fator central é que o leilão regulado é feito por fonte de energia, onde cada fonte tem um preço de acordo à sua característica técnica e econômica. Por exemplo, no leilão que tivemos em setembro, o preço inicial da eólica e da solar era de R$ 191/MWh; da hidrelétrica, R$ 249/MWh (no caso de pequenas centrais e centrais geradoras com outorga e contratos regulados celebrados anteriormente) e, para termelétricas, R$ 365/MWh. O que isso significa? Que estou pagando o preço associado à característica técnica e econômica. Não tem necessidade de subsídio direto. O papel do Estado, nesse aspecto, é ter inteligência de planejamento. Porque ele tem todas as variáveis na mão para fazer uma expansão da matriz altamente renovável, com uma quantidade de recursos mais baratos entrando, e grande interesse dos investidores. Esse leilão contratou 800MW. Sabe qual foi a oferta inscrita na Empresa de Pesquisa Energética (EPE)? Totalizou 94 mil MW de potência instalada (sendo 690 projetos eólicos, somando 22, 8 mil MW). Então, para
o Brasil errar no futuro energético, tem que fazer um esforço enorme. Hoje você embarca a Glasgow participar da COP26 (a entrevista aconteceu dia 27/10). Qual mensagem pretende passar na Conferência do Clima, e o que espera dela?
Estou indo pelo Gwec (Global Wind Energy Council, do qual é vice-presidente). A mensagem que quero deixar é a de que o Brasil é um país rico
em recursos renováveis altamente competitivos. E que, a despeito de tudo, conta com uma regulação estável para o setor de energiasSob essa perspectiva, o Brasil é amigável ao investimento em infraestrutura, é um país de longo prazo. Especialmente em momentos de agonia como os que vivemos, pode-se pensar menos em Brasília e mais em infraestrutura.
Como mencionei, os investimentos em energia eólica são ESG por definição. E temos potencial para liderar a corrida global na transição energética quando falamos de energias renováveis. O Gwec está promovendo uma coalizão global de investimentos em energia eólica, naturalmente com destaque para offshore, porque é este que está precisando de mais cuidado. Lá fora, buscam-se muitos incentivos, políticas fiscais; no Brasil, precisamos do arranjo regulatório, que está próximo de acontecer. O que eu espero da COP é de que saiamos de lá com uma diretriz clara para a precificação do carbono. É ela quem realmente pode levar as economias a alcançar os objetivos estabelecidos, de chegar a 2050 neutras em carbono. Para o Brasil, do ponto de vista da energia, mesmo errando a gente acerta. Mas no resto do mundo não é assim. E minha preocupação não é energia especificamente, porque esta responde por 26% das emissões globais, e temos outros 74% para resolver. Mas essa precificação colaboraria para o desenvolvimento da certificação de energias renováveis, certo? Sim, mas minha leitura é mais macro, no sentido dos mecanismos de incentivo para que o agente econômico tome a decisão acertada também individualmente. Ou seja, se vou comprar um aparelho celular e tenho que pagar pelo carbono, tomarei decisões mais racionais. Considero que a precificação de carbono é quem vai possibilitar essa mudança.
sexta-feira, 29 de outubro de 2021
China, protagonista em Glasgow?(FSP, 29 10 21)
China, protagonista em Glasgow?
Pequim não vê contradição entre ser maior emissor e liderar transição verde
sexta-feira, 29 de outubro de 2021
Folha de S. Paulo / Mundo
Tatiana Prazeres
A bola está no campo da China. Foi assim que, em mais de uma ocasião, o britânico Alok Sharma, que presidirá a COP26, tratou das chances de sucesso do encontro em Glasgow.
O país asiático é o maior emissor de CO2 do mundo, com cerca de 28% do total. Matematicamente, sem a China, não há acordo climático global que justifique esse título.
Mas Pequim pretende ser protagonista em Glasgow pelos bons motivos. O país quer aproveitar a COP26 para dar credibilidade à pretensão de liderar a transição climática global.
Glasgow terá inevitavelmente uma etapa de concurso de beleza, em que os países se empenham em sair bem na foto, ressaltando as maravilhas que fazem pelo clima (enquanto o planeta esquenta).
Para esse momento, a China tem o discurso pronto. Apenas neste ano, lançou o maior mercado de crédito de carbono do mundo e se comprometeu a parar de financiar usinas a carvão no exterior. O país está à frente em energia eólica e solar. Investe em hidrogênio verde.
Além disso, a China sabe que precisa de energia nuclear. Enquanto muitos hesitam em tomar esse rumo, Pequim pisa no acelerador, com 11 usinas nucleares em construção hoje. Sairá na frente. Outros devem segui-la, porque a transição climática global dificilmente prescindirá de energia nuclear.
Glasgow terá também seus momentos de ringue de boxe, em que países se acusam mutuamente de não fazer o bastante pelo planeta. O problema é sempre o outro. Aqui, a China também tem protagonismo, sendo criticada por quem lhe cobra mais ambição, sem deixar de apontar o dedo para quem historicamente emitiu mais, ou para quem hoje tem maiores emissões per capita.
Para se cacifar como líder, no entanto, a China teria que ser capaz de assumir mais compromissos climáticos e de dar credibilidade às suas metas. A pergunta é se Pequim poderia antecipar prazos para começar a reduzir emissões ou atingir a neutralidade climática, previstos para 2030 e 2060, respectivamente.
Além disso, a postura da China nas negociações de Glasgow importa. Sobre a mesa estão principalmente questões ligadas a financiamento para ajudar países em desenvolvimento na transição climática, além de parâmetros para um mercado internacional de carbono. O risco é o de que negociadores -de diferentes países- recorram à lógica clássica: oferecer quase nada e querer muito dos demais.
Se for assim, Glasgow será palco desse misto de teatro e jogo de pôquer, em que os países fazem de conta que realmente estão negociando, mas no fundo blefam para ver se o outro lado pisca. No mundo real, todos perdem. A China precisaria ajudar a evitar esse cenário.
As ambições chinesas de liderança se beneficiam das fragilidades da posição americana. Há forças no Congresso carcomendo as pretensões climáticas de Joe Biden. Além disso, a inconsistência da posição dos EUA ao longo do tempo abala sua credibilidade na agenda do clima. Com o trumpismo à espreita, o negacionismo segue preparado para voltar -e o mundo sabe disso.
A China tem lá seus pés de barro. Não apenas pelos níveis altos de emissão, mas porque a atual crise energética no país evidencia a dependência brutal em relação ao carvão e põe em questão a credibilidade das metas chinesas.
Cálculos geopolíticos também tendem a enfraquecer as ambições ambientais chinesas (e americanas), em prejuízo do planeta, mas também de uma posição de liderança da China nessa agenda.
Em 2017, a China já dizia querer ser "participante, contribuidora e líder" nessa agenda. Para Pequim, não há contradição entre ser o maior emissor de CO2 do mundo e liderar a transição climática global.
domingo, 3 de outubro de 2021
Como o fogo na Amazônia ameaça a biodiversidade (Fernando Reinach, 2 10 21)
Como o fogo na Amazônia ameaça a biodiversidade
OCTOBER 02, 2021
Que o fogo mata muitos animais e vegetais ninguém duvida. Basta ver as fotos das áreas queimadas com macacos, répteis e árvores carbonizadas. A questão é saber se a extensão das áreas queimadas na Amazônia é suficiente para colocar em risco a existência de muitas espécies, levar à extinção espécies ameaçadas e provocar o colapso do ecossistema.
Algumas pessoas argumentam que as áreas queimadas são pequenas em relação à Amazônia e, portanto, dificilmente afetariam a sua biodiversidade. Outros discordam.
Como medir diretamente a influência do fogo e do desmatamento é muito difícil, ambos os lados da discussão baseavam seus argumentos em levantamentos parciais ou exemplos de espécies extintas. Mas agora a deu um grande passo e quantificou a fração das espécies que podem ser extintas com as queimadas que já ocorreram na Amazônia.
A sobrevivência de uma espécie depende principalmente da preservação dos ambientes em que ela vive. Caso a área que ela ocupa seja muito extensa (como os pernilongos, que ocupam quase todo o continente) a sobrevivência da espécie vai ser pouco afetada se dedetizarmos nossas casas ou se uma grande área de floresta for destruída.
Agora, se uma espécie existir em uma área pequena (como o mico-leão), um pequeno incêndio pode, sim, levá-la à extinção. Assim, para saber qual o risco de queimadas ou desmatamentos provocarem a extinção de seres vivos é necessário saber a distribuição geográfica das espécies (a extensão e a localização da área em que ela vive) e como os incêndios ou desmatamentos afetam essa área.
A novidade é que os cientistas conseguiram medir esses dois parâmetros. Uma colaboração entre centenas de cientistas conseguiu determinar a distribuição geográfica de 11.514 espécies de plantas e 3.079 espécies de animais em todo o bioma Amazônia (incluindo os países vizinhos ao Brasil). Além disso, usando fotos tiradas pelos satélites do sistema Modis durante quase 20 anos de toda a Região Amazônica (entre 2001 e 2019), os cientistas puderam estimar toda a área já queimada na região.
Essas imagens subestimam a área queimada pois a resolução desses satélites é de aproximadamente 400 metros, ou seja, só detectam focos que queimam aproximadamente quatro quarteirões. Quando a área queimada em toda a bacia amazônica foi plotada em um mesmo gráfico com a distribuição geográfica dessas 41 mil espécies foi possível medir a fração de área ocupada por cada espécie que foi destruída durante esse período.
A área queimada na bacia amazônica é de aproximadamente 150 mil quilômetros quadrados – que, somados aos desmatamentos por corte, atingem aproximadamente 20% do bioma. O interessante é que a área destruída atinge a distribuição geográfica de 64% das espécies estudadas, ou seja, quase dois terços das espécies tiveram sua distribuição geográfica reduzida, o que facilita sua extinção.
Mas o mais importante é que essa destruição afeta diretamente a área em que vivem 85% de todas as espécies listadas como ameaçadas de extinção.
Além disso, esse estudo mostrou como esse impacto vinha diminuindo até 2019 e agora voltou a subir com as mudanças de política ambiental implementadas pelo governo Bolsonaro.
Esses dados são muito importantes pois demonstram de uma vez por todas que, de fato, a quantidade de queimadas que vêm ocorrendo na bacia amazônica diminui as chances de sobrevivência de 64% das espécies estudadas e de 85% das espécies ameaçadas de extinção.
Portanto, a destruição de uma pequena fração da Floresta Amazônica pode ter um efeito amplificado na redução da biodiversidade da Amazônia. E esse efeito pode levar ao colapso da biodiversidade muito antes que 40% do bioma seja destruído. É um resultado assustador que vai servir como base científica para justificar políticas mais agressivas de proteção desse bioma.
MAIS INFORMAÇÕES EM: HOW DEREGULATION, DROUGHT AND INCREASING FIRE IMPACT AMAZONIAN BIODIVERSITY (2021)
sexta-feira, 18 de junho de 2021
Problemas nas baterias dos carros elétricos(Celso Ming, Estado, 18 6 21)
CELSO MING -Problemas nas baterias dos carros elétricos
sexta-feira, 18 de junho de 2021
O carro elétrico é a aposta do setor automotivo para reduzir as emissões de gases poluentes, mas ainda há nele graves problemas ambientais a resolver.
Por pressão dos governos, uma a uma, as grandes montadoras vão anunciando que, a partir de 2030, só colocarão à venda carros elétricos. São, por exemplo, decisões da Volkswagen, da Mercedes-Benz, da Fiat, da Volvo, da Ford, da General Motors. . .
Há alguns anos, a maior parte da energia elétrica dos países industrializados ainda era produzida pela queima de combustíveis fósseis. E, nessas condições, pouco valia substituir a emissão de CO' pelo escapamento dos veículos pelas emissões via chaminés das termoelétricas. Mas a matriz da energia elétrica está mudando. A energia limpa vai tomando o lugar da que era antes produzida pela combustão de carvão ou derivados de petróleo. O problema não é mais por aí.
O coração do carro elétrico é a bateria. E a bateria apresenta dois problemas ainda sem solução: o da obtenção sustentável de minerais estratégicos para sua produção, como lítio, níquel, manganês, cobalto e cobre; e o da reciclagem da bateria descartada.
A expectativa da Agência Internacional de Energia é a de que, até 2030, 145 milhões de veículos elétricos, ou 7% da frota mundial de veículos, estarão em circulação. Daí em diante, só aumentarão. A demanda por esses materiais crescerá substancialmente. Além do aumento dos preços, especialistas temem o avanço da mineração ilegal.
Apostar na reciclagem pode ajudar a reduzir a mineração desenfreada e evitar que as baterias não acabem descartadas em aterros sanitários, de onde contaminariam o meio ambiente. A indústria de reciclagem não tem evoluído com a mesma rapidez dos investimentos na produção das baterias. As baterias de íons de lítio são as mais utilizadas nos carros elétricos e têm sido a escolha mais promissora. Esses materiais estão também na composição das baterias dos dispositivos móveis, como smartphones e notebooks, e já são reciclados. A diferença é que, no carro elétrico, tanto esses materiais concorrem em volume maior como o peso das baterias é bem superior. A da versão elétrica do F-150 Lightning da Ford, o mais vendido nos Estados Unidos há 44 anos, pesa 800 kg; a do Tesla Model S, 540 kg.
'O desafio é criar um sistema que dê conta da sofisticação dessas baterias. Elas possuem componentes mais valiosos do que as convencionais, de chumbo-ácido, usadas nos veículos a combustão', observa Jorge Tenório, professor do Departamento de Engenharia Química da Escola Politécnica da USP.
Tenório é um dos pesquisadores envolvidos em projeto de reciclagem de baterias de carros elétricos, desenvolvido pela USP em parceria com a iniciativa privada, que pretende obter maior recuperação (acima dos 90%) dos metais presentes nas células das baterias, a partir de um processo de baixa temperatura que utiliza soluções ácidas, método que consome menos energia e gera menos emissões de carbono.
Boa parte dos projetos emergentes para a reciclagem de baterias tem como base a pirometalurgia, que utiliza altas temperaturas para extrair os materiais. Um dos problemas desse processo é o de que a recuperação dos metais é mais baixa e o consumo de energia, além de alto, pode emitir gases poluentes.
A reciclagem também esbarra em opções estratégicas da indústria. As montadoras vêm dando às suas baterias especificidades destinadas a garantir a dianteira e que tendem a dificultar a padronização por ocasião da reciclagem.
A logística destinada a coletar e transportar as baterias usadas de forma segura é outro problema em busca de solução. Pelas suas composições, os atuais pontos de coleta de eletroeletrônicos ou de pilhas portáteis não poderão ser utilizados para recebê-las. 'As baterias de lítio, que serão descartadas uma a uma, oferecem risco de incêndio quando em contato com outras', adverte Ademir Brescansin, gerente executivo da gestora de logística reversa Green Eletron. O transporte desses materiais é visto com preocupação, porque ainda não existe no Brasil uma indústria que faça a reciclagem de baterias de lítio. Assim, o material tem de ser exportado para países da Ásia ou da Europa.
Uma ideia seria confiar às montadoras a logística reversa dessas baterias, como ocorre na Europa, que já estendeu essa responsabilidade aos produtores. Mas confiar essa tarefa às montadoras, que não têm isso em seu core business, além de ineficaz, pode inibir a criação de outras tecnologias.
domingo, 6 de junho de 2021
As empresas sob cerco(Celso Ming, Estado, 6 6 21)
As empresas sob cerco
COLUNISTAS
domingo, 6 de junho de 2021
O Estado de S. Paulo / Economia
CELSO MING
Ainda há quem pense que a agenda ESG (em inglês, Environmental, Social and Governance), cada vez mais cobrada de empresas, bancos e instituições para que, em seus negócios, sejam levadas em conta exigências socioambientais, seja onda passageira, coisa de fundamentalistas ou, ainda, de concorrentes incompetentes que pretendem tomar mercado no mole.
A questão deixou de ser puramente doutrinária. Empresas que não mudarem suas práticas perderão dinheiro e muito - ou correm grandes riscos.
Na semana passada, o jornal Financial Times publicou ampla matéria em que denuncia a gigante Nestlé (faturamento de US$ 93, 3 bilhões em 2020) de manter no mercado nada menos que 63% de seus produtos com componentes prejudiciais à saúde humana. A revelação baseou-se em levantamentos internos feitos pela própria Nestlé. Também na semana passada, no que está sendo considerado caso sem precedente, a petroleira Exxon (faturamento de US$178 bilhões em 2020) teve de aceitar em seu conselho de administração dois ativistas do meio ambiente.
São pressões crescentes às empresas que governos vêm trabalhando para vê-las cumpridas.
Na última quinta-feira, o presidente do Banco da Inglaterra (banco central), Andrew Bailey, deixou de lado os temas puramente monetários para cobrar união de reguladores e formuladores de políticas destinadas a enfrentar ameaças de crises financeiras produzidas por desarranjos climáticos. No mesmo dia, o ex-presidente do Banco Central do Brasil Armínio Fraga advertiu que o derretimento do gelo, que agora pode estar provocando cheia recorde do Rio Negro, pode sepultar debaixo d'água as indústrias da Zona Franca de Manaus.
A BlackRock, que detém carteira de mais de US$ 8 trilhões em ativos, vem pressionando as empresas emissoras desses títulos a assumir o compromisso de reduzir a zero suas emissões até 2050
e a promover a diversidade nos seus conselhos de administração e colegiados.
Como comentado por esta Coluna, há duas semanas, o ex-vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore avisou que montadoras, petroleiras, companhias de energia elétrica que operam com combustíveis fósseis poderão ser obrigadas a riscar dos seus balanços cerca de US$ 22 trilhões em ativos que deixarão de ter valor com o cumprimento das metas de descarbonização.
Por toda parte, governos de países industrializados vêm impondo prazos para o fim da venda de veículos movidos a combustíveis fósseis. Reino Unido, Bélgica e Irlanda fixaram essa proibição para 2030. A China pretende ter, até 2035, metade dos carros novos movidos a energia limpa. Alemanha e França definiram 2040 como prazo final. E o presidente Biden, dos Estados Unidos, avisou que planeja substituir os veículos federais em serviço por carros elétricos.
Com base nessas decisões ou, simplesmente, por encararem novas condições de mercado, as montadoras apressam o desenvolvimento de veículos elétricos e híbridos. A Volvo e a Volkswagen pretendem ter apenas elétricos em seus portfólios a partir de 2030. A General Motors deixará de vender carros a gasolina ou diesel a partir de 2035. A Mercedes-Benz pretende ser 100% elétrica em 2039. Enfim, os tempos estão mudando. Quem ficar para trás pode se dar mal.
segunda-feira, 26 de abril de 2021
BC vai exigir que bancos monitorem risco climático(Valor, 26 4 21)
BC vai exigir que bancos monitorem risco climático
O Banco Central (BC) passará a exigir que os bancos incorporem fatores sociais, ambientais e climáticos às suas políticas de gerenciamento de riscos. A medida sinaliza a percepção do regulador de que essas questões podem ter impacto na estabilidade do sistema financeiro em meio à pressão crescente de investidores e da sociedade.
Esses aspectos serão considerados lado a lado com riscos de crédito, liquidez e mercado no cálculo que as instituições financeiras fazem sobre a exposição que aceitam ter para realizar suas operações. Na prática, passarão a ser contemplados na declaração de apetite a risco que os bancos entregam ao regulador e nos testes de estresse a que estão sujeitos. Hoje, fatores socioambientais já são alvo de acompanhamento, mas não de forma integrada com os demais.
A medida faz parte de minuta colocada em consulta pública pelo BC neste mês para substituir a resolução 4.327, aprovada em 2014. A proposta também abrange uma reforma das regras de responsabilidade socioambiental dos bancos — consideradas pioneiras na época, mas vistas como insuficientes atualmente.
A intenção do regulador é que o novo texto seja mais específico e reflita conceitos que ganharam força nos últimos anos. A minuta descreve explicitamente assédio, discriminação racial e de gênero, trabalho infantil, desmatamento ilegal e acidentes ambientais como alguns dos riscos que devem ser observados pelos bancos ao fazer operações com clientes.
O BC pretende tornar o clima um fator específico a ser monitorado diante da possibilidade de perdas para as instituições financeiras na transição para uma economia de baixo carbono e de mudanças nas condições ambientais decorrentes do aquecimento global.
Alterações climáticas e a evolução do debate internacional levaram o regulador a rever a norma, diz Kathleen Krause, chefe adjunta do Departamento de Regulação Prudencial e Cambial do BC. “As instituições podem ter perdas, por exemplo, se financiarem indústrias que deixam de ser competitivas numa economia de baixo carbono, ou se tiverem como garantia um imóvel em área sujeita a intempéries relacionadas à mudança climática”, afirma.
A consulta pública 85 ficará aberta por dois meses e é uma das iniciativas de sustentabilidade da agenda do BC. Outra consulta, sobre critérios socioambientais para o crédito rural, foi encerrada na sexta-feira. Uma terceira está prevista para ser lançada nesta semana, com a incorporação de recomendações de uma força-tarefa internacional (TCFD) para um maior detalhamento, pelos bancos, sobre a sustentabilidade dos projetos que financiam. “Investidores têm dedicado parte significativa de seus portfólios para projetos ESG [sigla em inglês para padrões ambientais, sociais e de governança]”, afirmou o diretor de regulação do BC, Otávio Damaso, em evento da Acrefi na semana passada.
"O setor financeiro tem que olhar esse movimento como oportunidade.” O BC não deve proibir os bancos de fazer nenhuma operação.
A ideia é definir parâmetros e fazer com que as instituições deem mais transparência às suas práticas. “O BC pode agir, mas é a própria sociedade que vai cada vez mais questionar”, afirma David Valente, chefe de divisão do Departamento de Regulação.
O desafio será estipular métricas e limites para balizar a pressão que os bancos poderão fazer sobre seus clientes. Para a advogada Lina Pimentel, sócia do escritório Mattos Filho, a tendência é que os bancos façam exigências nos contratos que, se descumpridas, levem ao vencimento antecipado das operações de crédito, como já se faz hoje.
“É uma norma programática. Não barra as operações, mas [o crédito] vai sair mais caro para quem tiver uma conduta menos desejável.”
Bancos procurados pelo Valor não quiseram comentar a proposta porque ainda estão avaliando o teor dela. Para um executivo ligado ao setor, o movimento mostra que o BC está preocupado com a saúde das instituições num mundo em transição. No fim do dia, afirma, é bom para elas, que já têm procurado melhorar suas práticas. Mas essa fonte defende que o regulador adote critérios claros para que o controle seja efetivo.
A regra deve gerar custos ainda que defina exigências proporcionais ao porte dos bancos, avalia Pedro Eroles, também sócio do Mattos Filho. “As instituições vão precisar ter estruturas específicas para gerenciar esses riscos”, afirma.
terça-feira, 20 de abril de 2021
Política climática contra países em desenvolvimento(Bjorn Lomborg, Globo, 20 4 21)
BJORN LOMBORG - Política climática contra países em desenvolvimento
terça-feira, 20 de abril de 2021
O Globo / Opinião
BJORN LOMBORG
À medida que aumentam os custos da política climática, os países ricos pressionam os mais pobres a pagar essa conta por meio de tarifas de carbono. O Reino Unido tem esse objetivo como prioridade de sua presidência do G7, e a União Europeia avança com seus planos de uma taxa de carbono própria. Já os países em desenvolvimento estão irritados com a ideia.
Apesar da retórica verde dos países ricos, eles ainda obtêm 79% de sua energia de combustíveis fósseis. Pôr um fim nisso será difícil e incrivelmente ineficaz.
As promessas do Acordo de Paris significam, na prática, reduzir as emissões mundiais em 7,6% ao ano nesta década. A ONU observa alegremente que isso quase foi alcançado em 2020, com as paralisações devido à Covid-19.
Neste ano, no entanto, precisamos de uma redução duas vezes maior. Ou seja, equivalente a duas paralisações como a de 2020. Em 2022, ela deverá ser três vezes maior, e assim por diante, chegando ao equivalente a 11 paralisações mundiais todo ano a partir de 2030. Os modelos econômicos mostram que isso custará dezenas de trilhões de dólares por ano.
Além disso, os cortes não terão muito impacto sobre o clima. Mesmo que todas as nações da OCDE cortassem por completo suas emissões de CO2, o modelo climático padrão da ONU mostra uma redução nas temperaturas de apenas 0,4°C em 2100.
O motivo? Seis bilhões de pessoas desfavorecidas que também querem ter acesso a energia abundante e barata para sair da fome e da doença. Mas as políticas climáticas prejudicam o mundo em desenvolvimento. Se o objetivo for uma redução de até 2°C na temperatura, um estudo recente revisado por pares indica que haverá 80 milhões a mais de pobres até 2030.
À medida que as políticas climáticas na Europa e nos EUA aumentarem os custos de energia, mais empresas migrarão para regiões menos sobrecarregadas, como a América Latina, a China e a índia. Estabelecer uma tarifa sobre as importações, conforme as emissões subjacentes, reduziria esse movimento.
Porém essas tarifas também tornariam mais difícil para os países em desenvolvimento competir, visto que a maioria dos ricos emite carbono de forma mais moderada. Em nível global, essas tarifas seriam ineficientes e tomariam as políticas climáticas ainda mais caras. Mais importante, no entanto, é que elas serviriam como um protecionismo de retaguarda para os países ricos.
Para que os países ricos cortem 20% de suas emissões, o custo será de US$ 310 bilhões por ano. Usando tarifas de carbono, os países ricos podem terminar com US$ 90 bilhões a mais, atraindo as empresas de volta. Em vez disso, eles impõem mais de meio trilhão em custos extras, todo ano, aos pobres do mundo.
A UE e outras partes acreditam que ameaças tarifárias forçarão países em desenvolvimento a adotar suas próprias políticas climáticas onerosas. Não vão. No caso da China, um estudo recente mostra que, mesmo que as tarifas de carbono dos EUA custem US$ 24 bilhões ao ano, um imposto doméstico para 0 carbono seria quase dez vezes mais caro.
Forçar os países em desenvolvimento a escolher entre perder um bilhão ou dez bilhões não levará a políticas climáticas efetivas. Levará a um profundo ressentimento em relação a países ricos que transferem seus custos climáticos aos pobres do mundo. Brasil, África do Sul, índia e China denunciaram recentemente essas tarifas como "discriminatórias", e as nações africanas acusam-nas de protecionistas.
Aplicar tarifas de carbono pode ser popular entre eleitores de países ricos, mas provavelmente levará a uma guerra tarifária, fazendo países em desenvolvimento criar um regime de livre comércio separado.
A maneira mais eficaz de lidar com o problema gerado pelas mudanças climáticas é aumentar drasticamente o investimento em pesquisa e desenvolvimento de energia renovável. Se fosse possível tornar a energia verde mais barata que a dos combustíveis fósseis, todos fariam essa troca tranquilamente.
O Brasil e seus parceiros precisam voltar a influenciar a política climática e insistir em inovações inteligentes e sustentáveis. Esses países devem deixar claro para um Ocidente arrogante que privar os pobres do mundo dos dois motores do desenvolvimento (energia abundante e livre comércio) é inaceitável.
Bjorn Lomborg é presidente do Consenso de Copenhague
sexta-feira, 18 de dezembro de 2020
Mudança de paradigma(Celso Ming, Estado, 18 12 20)
Mudança de paradigma
COLUNISTAS
sexta-feira, 18 de dezembro de 2020
O Estado de S. Paulo / Economia
CELSO MlNG
Nesta quinta-feira, a Mercedes-Benz anunciou o fechamento de sua fábrica em Iracemápolis, interior de São Paulo, inaugurada há apenas quatro anos. Razão principal: a empresa decidiu alterar sua estratégia de negócios e dedicar-se à produção de veículos movidos a motores elétricos.
Este é apenas um episódio que indica aceleração na mudança no paradigma energético do planeta.
Até há poucos anos, havia enorme resistência na adoção de novos padrões de energia no mundo em direção à produção e ao consumo de energia limpa e renovável. Os mais conservadores entendiam que se tratava de concorrência desleal destinada a alijar do mercado as indústrias que vinham operando de maneira convencional, o que também semeava desemprego nos principais centros produtivos. Esse foi o principal argumento pelo qual o Partido Republicano dos Estados Unidos trabalhou pela rejeição do Protocolo de Kyoto e foi, também, a razão pela qual o presidente Donald Trump abandonou o Acordo de Paris, que determina metas de redução da emissão de gases responsáveis pelo efeito estufa.
Paradoxalmente, este também foi o argumento pelo qual as esquerdas e, de uma maneira mais geral, os governos dos países em desenvolvimento combateram acordos que tinham os mesmos objetivos. Essas cláusulas - com certa razão - impunham aos países pobres aumentos de custos de produção que os países ricos não tiveram no passado quando desenvolveram a sua própria indústria.
Hoje, a questão ambiental ganhou regime de urgência. Há mais consciência sobre os estragos produzidos pelo aquecimento global e sobre a necessidade de medidas drásticas para evitá-los. O presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, promete acatar os termos do Acordo de Paris e anunciar incentivos a investimentos destinados a substituir os combustíveis fósseis.
A seguir, algumas metas já decretadas ou em estudo em alguns países: ? China: a partir de 2035, metade dos veículos novos será movida a "energia nova".
- Reino Unido: aumentam as pressões para que a proibição da venda de veículos movidos a combustíveis fósseis seja antecipada para 2030.
- Noruega: a meta é eliminar veículos novos a diesel e a gasolina até 2025. Em outubro deste ano, mais de 60% dos carros novos eram elétricos.
- União Europeia: Alemanha e França definiram 2040 como prazo final para venda de veículos novos a gasolina e diesel. Bélgica, Irlanda e Países Baixos fixaram como prazo 2030.
- Japão: estuda a proibição a partir de 2030. O primeiro-ministro Yoshihide Suga promete que até 2050 as emissões de CO serão reduzidas a zero.
- Califórnia: o governador Gavin Newsom anunciou em setembro que, até 2035, será proibida a venda de carros novos a combustíveis fósseis.
- C40: autoridades de 38 cidades que compõem o Grupo C40 se comprometeram a banir até 2025 as emissões de gás carbônico no setor de transportes urbanos (ônibus e vans).
Aviso para o Brasil: as coisas estão acontecendo. Omissões ou simplesmente deixar que o mundo gire e a Lusitana rode podem custar perdas irreversíveis de mercado e empregos.
COMENTARISTA DE ECONOMIA
» Bitcoin, valorização recorde O bitcoin já teve neste ano uma valorização de mais de 200% e não para de subir. Ultrapassou nesta semana a cotação de US$ 23 mil por unidade. Criptomoeda criada em 2008, cujas emissões se baseiam no pagamento de megasserviços prestados por computador ("mineração"), continua sendo considerada confiável. No início foi procurada por quem queria fugir dos bancos na intermediação de negócios. Hoje, também se tornou refúgio para quem quer escapar dos impostos ou vive de lavar dinheiro.
segunda-feira, 16 de novembro de 2020
Brasileiros anônimos que ganharam o Nobel da Paz(Correio Braziliense, 16 11 20)
Brasileiros anônimos que ganharam o Nobel da Paz
segunda-feira, 16 de novembro de 2020
Correio Braziliense / Opinião
João Guilherme Sabino Ometto Engenheiro (Escola de Engenharia de São Carlos - EESC/USP), empresá
Muitas vezes, ao longo de nossas vidas, ouvimos a expressão "A arte imita a vida". Quem tem o bom hábito dos livros ou do cinema, bem como presta atenção ao que está lendo e assistindo, seja realidade documentada ou ficção, com certeza lembra de várias referências às grandes tragédias do mundo. Obras do gênero ficção científica, por exemplo, mostram supostos regimes políticos opressores ou situações de violência pública em razão do esfacelamento do Estado, quando eventos catastróficos atingem a humanidade. De repente, porém, cá estamos nós, os quase oito bilhões de habitantes da Terra, enfrentando a gravíssima pandemia do novo coronavírus, como se fôssemos os personagens de um desses filmes apocalípticos.
A dura realidade presente está expressa no Documento Político Covid-19 e Cobertura Universal de Saúde, que acaba de ser divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU). Em apenas nove meses após os relatos dos primeiros casos, a doença havia causado mais de um milhão de mortes e infectado 30 milhões de pessoas, em 190 países. Ademais, 500 milhões de empregos foram perdidos e pela primeira vez houve regressão global nos indicadores de saúde, renda, educação e condições da vida do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), que criou o índice há 30 anos, em 1990. Cabe ressalvar que o relatório foi concluído e divulgado antes da segunda onda de contágio que se verifica na Europa e cujas consequências seguem imprevisíveis.
Em decorrência do agravamento da exclusão socioeconômica, a insegurança alimentar está aumentando. Dentro de um ano, quase 270 milhões de pessoas poderão morrer de fome, conforme alertou a presidente do Comitê Norueguês do Nobel, Berit Reiss-Andersen, ao anunciar o Prêmio da Paz em 2020, concedido ao Programa Mundial de Alimentos (WFP) da ONU. O reconhecimento é muito justo. Somente em 2019, foram atendidos 97 milhões de indivíduos em todo o planeta. Acredito ser importante frisar que dois terços do trabalho realizam-se em regiões afetadas por conflitos, onde as pessoas têm três vezes mais probabilidade de ficar subnutridas do que aquelas que vivem em países sem guerra.
Ao analisar os dados do organismo multilateral vencedor do Nobel da Paz, foi inevitável lembrar de uma questão relevante: com certeza, boa parte dos alimentos levados pelo WFP às milhões de pessoas necessitadas em todo o mundo, em meio às ameaças de cenários bélicos e de regimes opressores, é produzida pelas mulheres e os homens do meio rural de nosso país, incluindo milhares de pequenos e médios produtores, bem como as atividades agropecuárias de maior porte.
Esses brasileiros anônimos que, desde o início, estão na linha de frente na guerra contra a covid-19, enfrentando os riscos da pandemia para que milhões de pessoas possam se alimentar, são ganhadores eméritos do Nobel da Paz, concedido ao programa da ONU. Obviamente, não dividirão o polpudo valor em dinheiro recebido pelo WFP. Entretanto, merecem os aplausos de todos nós e do poder público, que poderia expressar seu reconhecimento, por exemplo, não aumentando os impostos do setor, como preveem projetos da reforma tributária em tramitação, reduzindo as taxas de juros dos créditos agrícolas, ainda altas, e ampliando a subvenção ao seguro rural, um fator muito importante para a segurança dos produtores.
O papel do Estado é importante como indutor do desenvolvimento, crescimento econômico, qualidade da vida, inclusão social e fomento de atividades essenciais, como a agropecuária. Também é decisivo para evitar a deterioração da política e do Estado de direito, no presente e no futuro, impedindo que eventos imponderáveis, como a covid-19, afetem a liberdade e as prerrogativas da cidadania de todos os indivíduos e da sociedade.
Celebremos, pois, a democracia em seu momento mais emblemático, exercemos o direito e o dever do voto nas eleições municipais de novembro. Escolhendo nossos governantes e representantes no Legislativo, somos tão protagonistas da política e do poder público quanto os nossos produtores rurais foram no Nobel da Paz em 2020.