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sábado, 19 de março de 2022

Como a matemática pode predizer o futuro(Folha de S. Paulo, 19 3 22)

 Como a matemática pode predizer o futuro

sábado, 19 de março de 2022 


Jornal Folha de S. Paulo  | Folha Corrida   |   Murilo Bomfim

A quem pertence o futuro? Para a ciência, à matemática -ela nos oferece algumas formas de predição, sobretudo por meio das probabilidades. Um exemplo clássico é o jogo de cara ou coroa: ao lançar uma moeda para o alto cem vezes, espera-se que, em metade das ocasiões, ela caia com o lado cara para cima (e, na outra metade, o lado coroa, é claro).


Sabe-se, no entanto, que essa previsão não é muito precisa. Se de fato se lançasse a moeda uma centena de vezes, talvez o lado cara aparecesse em 46 das ocasiões. Ou em 58. Essa variação também não escapa à matemática: é analisada pela chamada distribuição normal. O conceito é bem ilustrado por um gráfico -a curva de Gauss- que mostra, nesse exemplo, as oscilações mais prováveis da moeda (por exemplo, quarenta caras e sessenta coroas) e as mais improváveis (como oitenta caras e vinte coroas).


Mas prever a face aparente da moeda não é tão difícil, afinal as opções são apenas duas. Como antever o comportamento de sistemas mais complexos, que dependem de muitas variáveis, como o organismo humano ou uma colônia de bactérias? Essa é a pergunta que orienta a pesquisa do matemático Dirk Erhard.


Apaixonado por probabilidade, o próprio Erhard foge à curva de Gauss: são raros os matemáticos medalhistas em salto de trampolim. Nascido e criado em Berlim, aos sete anos ele foi descoberto por um caça-talentos de ginástica olímpica. Depois de quase uma década de treinamentos intensos, o jovem percebeu que o sonho de ser campeão mundial em trampolim seria eternamente um sonho. 'Eu não era ruim, mas sabia que não era bom o suficiente para chegar ao topo', lembra o alemão. Entre os 11 ? 0S 17 anos, ele chegou a ser pentacampeão da modalidade na Alemanha -ele diz, porém, que a categoria juvenil não revela muito sobre o potencial do atleta.


Com baixas chances de se tornar um ginasta de sucesso, ele apostou suas fichas namatemática. Erhard é tão improvável que, nos primeiros anos de graduação, não gostava de probabilidade. À época, tinha afinidade mesmo com análise funcional - disciplina que trata do estudo das funções. Em um intercâmbio em Paris, o rapaz deu sorte: teve aulas com um ótimo professor, que explicava, justamente, as intersecções entre a análise funcional e a probabilidade. 'Foi a melhor disciplina que tive na vida, ensinada de uma maneira fácil de entender', lembra o matemático, que ãg top por seguir carreira acadêmica na área.


Entre mestrado, doutorado e programas de pós-doutorado, Erhard passou pela Alemanha, França, Holanda e Inglaterra, até finalmente chegar ao atual trabalho de professor na Universidade


Federal da Bahia -a ideia era ficar mais perto da família da esposa baiana, por quem se apaixonou nas andanças europeias. Mesmo morando em vários países, o matemático se dedicou a uma mesma investigação: tornar predições mais simples, principalmente de sistemas complexos. Em vez de analisar lançamentos de moeda, Erharâ se concentra em sistemas com diversas partículas que interagem entre si e apresentam comportamentos diferentes em pontos distintos do tempo e do espaço.


A pesquisa ainda tem caráter teórico, mas mostra seu potencial quando aplicada a situações práticas, ainda que hipotéticas. Um exemplo seria um lago amplo e profundo, onde peixes se reproduzem e, para isso, precisam de uma temperatura ideal. Em cada ponto do lago, a temperatura vai ser um pouco diferente, influenciada por variáveis como profundidade, incidência do sol, presença de cardumes. Erhard trabalha na criação de um modelo matemático que facilite a previsão da temperatura nas diferentes regiões do lago.


Enquanto o alemão investiga o movimento de partículas, ao menos uma possibilidade mais concreta de aplicação de seus estudos já esteve em pauta. 'Há alguns meses, tive uma conversa com um grupo de físicos que buscam entender mais sobre o cérebro humano', conta Erhard. Se será possível prever comportamentos do cérebro, ainda não se sabe -mas, se depender do matemático, a probabilidade é grande.

Não há vida fora da Inovação(Ricardo Ivanov, 18 3 22)

 TECNOLOGIA - NÃO HÁ VIDA FORA DA INOVAÇÃO

sexta-feira, 18 de março de 2022


Revista Isto É Dinheiro  | Dinheiro e Tecnologia   |   Ricardo Ivanov

Com aquisição de quatro novas empresas no Brasil em 2021, a consultoria Accenture usufrui hoje da mudança de rumo interna em direção ao “toda empresa é uma empresa digital”.





Por um tempo, o CEO da operação brasileira da Accenture, uma das Top 10 empresas de consultoria empresariais no mundo, pensou que poderia ser baterista, já que é um apaixonado por shows de rock. Mas Leonardo Framil, 52 anos, natural do Rio de Janeiro, encontra seu ritmo mesmo é no dia a dia da gestão, outsourcing e tudo o que diz respeito a tornar uma companhia eficiente tecnologicamente — já que desde 2013 a Accenture percebeu que toda empresa, na verdade, é uma empresa digital. “Antes de vender essa ideia, nos transformamos internamente. Fomos nosso melhor case. E quando 70% de nossa receita já vinha do Digital, Cloud e Security, a pandemia chegou”, disse o executivo, que está há 30 anos na Accenture e todo dia aperta o botãozinho na máquina de latinhas de energético na empresa, sem revelar quantas vezes faz isso em seu expediente.





Seguindo a direção da matriz irlandesa, no lugar de “parar e pensar” a pandemia, saíram fazendo aquisições, um passo que se mostrou acertado no momento emergencial. Foram quatro: a Organize Cloud Labs, que trouxe mais inputs em estratégia, migração, implementação e gerenciamento de Cloud; a Real Protect, somando mais segurança customizada e integrada; a Pollux, especialista em criação e implementação de linha de montagem com robôs e softwares especializados; e a Experity, que tinha na bagagem agilidade em comércio, marketing e dados na nuvem. Está clara a ideia do digital, não? É um movimento para quem pode, tem o cacife de prestar serviço para 18 das 20 maiores empresas do Brasil. Só no Cloud First, foi um investimento global de US$ 3 bilhões em três anos, o que fez pular o negócio da Accenture na área de US$ 12 bilhões para US$ 18 bilhões, aumento de 44%.





AQUISIÇÕES “Dentro dos números expressivos de investimento da Accenture globalmente estão, por exemplo, US$ 4,2 bilhões no último ano fiscal em mais de 40 aquisições ao redor do mundo (incluindo as do Brasil), US$ 1,1 bilhão em pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias como blockchain, robótica, 5G, computação quântica; e US$ 900 milhões em aprendizado e desenvolvimento profissional.





Os números em consultoria empresarial são realmente astronômicos, basta ver as receitas de dois dígitos de bilhões das quatro principais no planeta: a McKinsey & Company, Boston Consulting Group, Bain & Company e Deloitte — a Accenture estaria em sétimo segundo pesquisa da Statista para 2021, com US$ 50,5 bilhões em 2021. Mas na lista anual das 50 melhores empresas americanas da Forbes com empresários, parceiros e consultorias de executivos, a Accenture estaria em primeiro em transformação digital, tecnologia, análise de dados e outras 19 de 32 categorias pesquisadas, com ascendências mais pontuais.





Essa é uma das atividades curiosas que a Accenture tem de fazer com alguns clientes: explicar o que fazem. “Não é difícil, é prazeroso mostrar como nos reinventamos para ajudá-los, de como suprimos desde demandas simples às mais complexas”. Um aspecto que ajuda a explicar é que a Accenture não tem em seu core oferecer infra-estrutura, como Cloud — para isso eles têm relacionamentos de nível 1 com os principais players de tecnologia global. “Oferecemos insights, análise de performance, potencial criação de valor, uso de plataformas como o myNav que permite acesso, design e simulações de Cloud, determinando o que é a melhor para o cliente.” Mas alguma empresa ainda tem dúvidas quanto a usar ou não Cloud? Segundo estudo da Accenture, sim. “Identificamos que no Brasil apenas 1% das empresas têm mais de 75% dos negócios na nuvem, enquanto mais de 80% têm menos de metade dos negócios nela.” Além disso, afirmou o executivo, 78% dos entrevistados estão na trajetória para adotar o uso da nuvem nos negócios, “mas ainda há um longo caminho para Cloud contínuo.”





A Accenture saltou em menos 10 anos de US$ 54 bilhões de valor de mercado para US$ 201 bilhões, graças à mudança para cultura full digital. “Aceitamos o desafio da transformação digital. E devolvemos US$ 5,9 bilhões aos acionistas”, disse o CEO. Só no Brasil, iniciou 2021 com 14,4 mil colaboradores e entrou 2022 com 17 mil, o que é perto de 50% da força de trabalho da América Latina. No imediatismo da pandemia, estavam com todas as ferramentas digitais a mão para prover soluções, numa indústria com receita de US$ 263 bilhões em 2021, segundo a IBISWorld. “Chegamos a um estágio em que precisamos aprender com o futuro, não mais com o passado.”

sexta-feira, 18 de junho de 2021

Problemas nas baterias dos carros elétricos(Celso Ming, Estado, 18 6 21)

 

CELSO MING -Problemas nas baterias dos carros elétricos

sexta-feira, 18 de junho de 2021 

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O carro elétrico é a aposta do setor automotivo para reduzir as emissões de gases poluentes, mas ainda há nele graves problemas ambientais a resolver.

Por pressão dos governos, uma a uma, as grandes montadoras vão anunciando que, a partir de 2030, só colocarão à venda carros elétricos. São, por exemplo, decisões da Volkswagen, da Mercedes-Benz, da Fiat, da Volvo, da Ford, da General Motors. . .

Há alguns anos, a maior parte da energia elétrica dos países industrializados ainda era produzida pela queima de combustíveis fósseis. E, nessas condições, pouco valia substituir a emissão de CO' pelo escapamento dos veículos pelas emissões via chaminés das termoelétricas. Mas a matriz da energia elétrica está mudando. A energia limpa vai tomando o lugar da que era antes produzida pela combustão de carvão ou derivados de petróleo. O problema não é mais por aí.

O coração do carro elétrico é a bateria. E a bateria apresenta dois problemas ainda sem solução: o da obtenção sustentável de minerais estratégicos para sua produção, como lítio, níquel, manganês, cobalto e cobre; e o da reciclagem da bateria descartada.

A expectativa da Agência Internacional de Energia é a de que, até 2030, 145 milhões de veículos elétricos, ou 7% da frota mundial de veículos, estarão em circulação. Daí em diante, só aumentarão. A demanda por esses materiais crescerá substancialmente. Além do aumento dos preços, especialistas temem o avanço da mineração ilegal.

Apostar na reciclagem pode ajudar a reduzir a mineração desenfreada e evitar que as baterias não acabem descartadas em aterros sanitários, de onde contaminariam o meio ambiente. A indústria de reciclagem não tem evoluído com a mesma rapidez dos investimentos na produção das baterias. As baterias de íons de lítio são as mais utilizadas nos carros elétricos e têm sido a escolha mais promissora. Esses materiais estão também na composição das baterias dos dispositivos móveis, como smartphones e notebooks, e já são reciclados. A diferença é que, no carro elétrico, tanto esses materiais concorrem em volume maior como o peso das baterias é bem superior. A da versão elétrica do F-150 Lightning da Ford, o mais vendido nos Estados Unidos há 44 anos, pesa 800 kg; a do Tesla Model S, 540 kg.

'O desafio é criar um sistema que dê conta da sofisticação dessas baterias. Elas possuem componentes mais valiosos do que as convencionais, de chumbo-ácido, usadas nos veículos a combustão', observa Jorge Tenório, professor do Departamento de Engenharia Química da Escola Politécnica da USP.

Tenório é um dos pesquisadores envolvidos em projeto de reciclagem de baterias de carros elétricos, desenvolvido pela USP em parceria com a iniciativa privada, que pretende obter maior recuperação (acima dos 90%) dos metais presentes nas células das baterias, a partir de um processo de baixa temperatura que utiliza soluções ácidas, método que consome menos energia e gera menos emissões de carbono.

Boa parte dos projetos emergentes para a reciclagem de baterias tem como base a pirometalurgia, que utiliza altas temperaturas para extrair os materiais. Um dos problemas desse processo é o de que a recuperação dos metais é mais baixa e o consumo de energia, além de alto, pode emitir gases poluentes.

A reciclagem também esbarra em opções estratégicas da indústria. As montadoras vêm dando às suas baterias especificidades destinadas a garantir a dianteira e que tendem a dificultar a padronização por ocasião da reciclagem.

A logística destinada a coletar e transportar as baterias usadas de forma segura é outro problema em busca de solução. Pelas suas composições, os atuais pontos de coleta de eletroeletrônicos ou de pilhas portáteis não poderão ser utilizados para recebê-las. 'As baterias de lítio, que serão descartadas uma a uma, oferecem risco de incêndio quando em contato com outras', adverte Ademir Brescansin, gerente executivo da gestora de logística reversa Green Eletron. O transporte desses materiais é visto com preocupação, porque ainda não existe no Brasil uma indústria que faça a reciclagem de baterias de lítio. Assim, o material tem de ser exportado para países da Ásia ou da Europa.

Uma ideia seria confiar às montadoras a logística reversa dessas baterias, como ocorre na Europa, que já estendeu essa responsabilidade aos produtores. Mas confiar essa tarefa às montadoras, que não têm isso em seu core business, além de ineficaz, pode inibir a criação de outras tecnologias.

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Embraer já tem 200 encomendas de carro voador( Estado de S. Paulo, 2 6 21)

 Embraer já tem 200 encomendas de 'carro voador'

Primeiras entregas do veículo, fruto de parceria entre a fabricante e uma empresa de aluguel de helicópteros, devem ocorrer em 2026

quarta-feira, 2 de junho de 2021 


 

O Estado de S. Paulo  / Economia

Luciana Dyniewicz


Antes mesmo de ter seu projeto de "carro voador" completamente desenvolvido, a Embraer anunciou que recebeu uma encomenda para entregar 200 unidades do veículo elétrico de pouso e decolagem vertical (ou eVtol, na sigla em inglês, e como é chamado o "carro voador" no mercado aéreo). O anúncio fez as ações da fabricante brasileira de aeronaves, que ainda passa por um momento delicado (leia quadro), subirem 4,8% ontem na B3, a Bolsa paulista. O papel fechou negociado a R$ 18,10.


A encomenda - cujas entregas devem começar a ser feitas a partir de 2026 - faz parte de uma parceria da Embraer com a Halo, empresa que fornece serviços de helicópteros e mobilidade aérea urbana privada nos Estados Unidos e no Reino Unido. Do lado da Embraer, o negócio foi fechado pela Eve (braço da companhia brasileira criado para desenvolver o "carro voador").


O acordo prevê também o desenvolvimento conjunto de um sistema de gestão de tráfego aéreo urbano e de operação de frotas. A ideia é que a parceria aumente a acessibilidade dos eVtols, dado que as empresas poderão escalar as operações do veículo.


"Esta parceria é um passo importante para a Eve assumir sua posição como líder global na indústria de mobilidade aérea urbana", afirmou, em nota, o presidente da companhia, Andre Stein. "Estamos confiantes de que este relacionamento mutuamente benéfico terá um impacto positivo para muitos usuários futuros e permitirá que ambas as empresas cresçam seus negócios de forma exponencial", acrescentou.


Também em comunicado, Kenneth C. Ricci, diretor da Halo, afirmou acreditar que a "Eve está projetando uma aeronave que está bem preparada para a certificação inicial e, além disso, (a Embraer) apresenta um histórico comprovado de produção."


Projeto separado. Paralelamente, a Embraer trabalha no desenvolvimento de seu eVtol em uma parceria com o aplicativo de transporte Uber, que pretende realizar voos os primeiros comerciais a partir de 2023. Esse prazo, no entanto, é considerado apertado por participantes do mercado.


Em todo o mundo, pelo menos 140 projetos de eVtol estão sendo desenvolvidos atualmente. O setor aposta que o novo veículo transformará a aviação ao oferecer viagens mais baratas do que as de helicópteros.


A grande mudança tecnológica será que o eVtol não precisará de pilotos e será elétrico. Por ser movido a bateria, não vai emitir poluentes e fará menos barulho do que os helicópteros comuns.


PARA LEMBRAR


Apesar de a crise global ainda ter efeitos na Embraer, o balanço do primeiro trimestre de 2021 começou a mostrar uma luz no fim do túnel. Além de reduzir o prejuízo para R$ 489,8 milhões no período, as receitas da empresa subiram 55% na comparação anual, para R$ 4,45 bilhões. O segmento de aviação comercial viu as receitas dispararem 145%, para R$ 1,512 bilhão, com melhora sensível nas entregas. Além da questão da pandemia em si, a Embraer havia sofrido outro baque em abril do ano passado: o fim do acordo da fusão que havia firmado com a Boeing.

segunda-feira, 31 de maio de 2021

NOVA GERAÇÃO DA TELEFONIA CELULAR (Pedro Doria, Revista Época, 28 5 21)

 HORIZONTE - A NOVA FRONTEIRA

A NOVA GERAÇÃO DA TELEFONIA CELULAR PROMETE REVOLUCIONAR AS CIDADES E MUDAR A MANEIRA COMO O HOMEM INTERAGE COM O MEIO

sexta-feira, 28 de maio de 2021 


 

Revista Época  / Capa

Pedro Doria


Quem entende do assunto diz que o leilão do 5G não sai, no Brasil, antes de setembro. O Chile já pretende estar com sua infraestrutura acelerada até lá. com vistas a cobrir todo o pais quando por aqui estivermos elegendo o próximo presidente. China c Estados Unidos estão numa competição por quem anda mais rápido — até março, já havia cobertura em 341 cidades chinesas e 279 americanas. Na Coréia do Sul são 85 e no Reino Unido 54, de acordo com a consultoria Viavi. Nas contas da Ericsson, mais de 200 milhões de pessoas já estão ligadas por redes super-rápidas. Mas o eterno adiamento ideológico do Brasil atrasa a entrada no futuro e nos coloca em profunda desvantagem nesta briga. Porque o 5G, afinal, não é apenas uma internet mais rápida no celular. A tecnologia é bem mais complexa e vai tão fundo na reinvenção dos ambientes em que vivemos que terminará por alterar nossas vidas de maneiras ainda não imaginadas. Nos próximos dez anos. É que o 5G vai digitalizar o mundo tísico. Sim, a promessa é de um mundo de ficção cientifica.




O supermercado no qual entramos e pegamos o que queremos sem passar pelo caixa. A loja de roupas que identifica a cliente na entrada, sabe que vestido ela viu no site e de cara já lhe oferece uma promoção. O Uber sem motorista e o robô que entrega pizza. O bueiro que, antes de entupir, já avisa à prefeitura para evitar a enchente. A lavoura que nunca é perdida porque, por mais vasta que seja a terra, nunca estará seca ou sem nutrientes. A criança no interior que precisa de uma cirurgia urgente e grave e pode ser atendida por um especialista a centenas de quilômetros, intermediado pelos dedos hábeis de outro robô. A casa que já dispara o ar-condicionado na temperatura da gente, acende a meia luz e ainda põe um Miles Davis para tocar, tudo no momento certo, porque, ora, ela já percebeu antes de chegarmos, pelos nossos batimentos, pelo suor que corre o rosto, que o dia foi duro e merecemos descanso.





 Foi o 4G que, de certa forma, nos passou a ilusão de que é velocidade o que muda em cada geração nova de celular. Mas não c\ A iG, que jamais foi chamada assim, inaugurou a ideia de um telefone que pudesse transitar pela cidade. É antiga, de 1970, e demorou décadas até ser implementada. A 2G também não foi apresentada a ninguém desse jeito. Mas era digital, e isso quer dizer que mensagens de texto por SMS eram possíveis de serem enviadas c, por meio de um protocolo chamado Edge, dava até para conectar computador e celular para oferecer na tela maior uma internet bastante precária. Já a 3G permitiu que os smartphones florescessem. Embora lenta, já Unha internet que permitisse navegar pela web, assistir a vídeos curtos.





Então: a primeira fez nascer os celulares, a segunda os digitalizou e a terceira tornou os aparelhos máquinas multimídia sempre conectadas à internet. Aí veio o 4G. que deu à telefonia móvel banda larga, e assim hoje assistimos com conforto a uma série por streaming sentados à mesa do bar.





O salto que o 5G dá é imenso. Pelo ângulo da rapidez, seu potencial é de alcançar velocidades muito maiores do que as bandas largas fixas já oferecidas no Brasil. Mas, simultaneamente, ele rompe outra barreira: a rede 5G pode interligar até 100 bilhões de aparelhos. Bom lembrar: não chegamos a 8 bilhões de humanos no planeta. Enquanto num quilômetro quadrado uma rede 4G é capaz de alimentar 4 mil aparelhos simultaneamente, a 5G liga 1 milhão no mesmo espaço, Não bastasse, o 5G tem baixa latência — e esse é um conceito importante.





Imagine um rio. Um rio muito largo permite que muitos barcos trafeguem simultaneamente. Um rio estreito vai ter de fazê-los navegar cm fila indiana. Isso é banda. Latência tem a ver com a velocidade da água. Quanto demora para o barco sair de um ponto c chegar ao outro. O 4G tem banda larga, mas é de alta latência. Demora para o barco chegar, embora muitos barcos trafeguem juntos. Além de ter muito mais banda, o 5G tem baixa latência. São ainda mais barcos juntos e eles vêm acelerados. Quer dizer. Uma quantidade imensa de dados sai de um ponto e chega ao outro quase instantaneamente.





E é essa infraestrutura que vai construir o mundo no qual o físico ganha características digitais e permitirá a criação daquilo que antes só imaginávamos na ficção. Não é difícil entender o porquê. O carro autônomo na frente precisa avisar ao carro autônomo atrás que ele vai frear bruscamente. Essa informação precisa chegar instantaneamente para evitar um acidente. O 5G garante isso. É o mesmo com o robô cirurgião. Muitas operações são particularmente delicadas e exigem precisão. Se uma médica no Rio de Janeiro gira o joystick para afastar uma veia com a mão robótica sobre o corpo de um paciente em Manaus é importante que entre o comando e a ação não exista intervalo de tempo. Tem de ser imediato. É o 5G que permitirá.





Então junte a banda muito larga com a latência muito baixa e multiplique de forma absurda o numero de aparelhos conectados O 5G vai fazer o celular virar só mais um objeto entre os muitos digitais e conectados. Os óculos que usamos poderão estar na internet, o marca-passo, assim como o relógio que fica de olho na pressão e tem acelerômetro para detectar queda. Quando seu avô cair, você — ou o hospital — será imediatamente informado.





A grande transformação está nos sensores conectados. O acelerômetro que mede a queda, claro, mas também muitos outros. É um sensor que percebe se um bueiro está entupindo. Outro avalia a temperatura e decide se liga o ar-condicionado ou se irriga um pouco mais as plantas. Um terceiro sensor funciona como um radar e informa caso algum objeto esteja em rota de colisão. Sensores de nível de luz decidem quando acender as lâmpadas. Sensores sutis poderão medir nossa taxa de oxigenação, a fluidez da sístole e da diástole e até se transpiramos demais. Câmeras são sensores potenciais quando inteligentes o bastante para identificar rostos, movimentos suspeitos ou só o momento exato de disparar aquela fotografia incrível. Esses sensores já existem, Não estão todos conectados simultaneamente. Cada maquininha destas, algumas do tamanho de uma unha ou menos, poderá estar on-line, enviando informação a um servidor em algum canto.





Some, pois, esses tantos sensores conectados a outras duas tecnologias muito recentes: big data e o tipo de inteligência artificial que batizamos “aprendizado de máquina”. O nome já diz. Algoritmos que fazem máquinas aprenderem. Cada infarto monitorado por sensores vai gerar uma montanha de dados sobre como o corpo estava antes do acidente. E conforme o número de casos se acumula, os sistemas que avaliam os dados dos sensores se tomarão mais e mais precisos, capazes de avisar do perigo iminente com horas de antecedência que bastam para evitar a morte. Serão acidentes de trânsito impedidos por carros cada vez mais digitais — mesmo aqueles que ainda dirigimos. As possibilidades são infinitas — é a câmera da loja que perceberá pelos gestos de alguém um furto próximo. Ou as microexpressões do rosto que podem indicar uma depressão como o melhor psiquiatra não necessariamente enxerga.





O mundo é de ficção cientifica, mas isso não quer dizer que é a realidade divertida dos Jetsons. Pode muito bem se tornar uma distopia como o 1984 de George Orwell, com um Grande Irmão — o Estado que tudo sabe sobre todos, e a toda hora. Ou a gigante do Vale do Silício — faz pouca diferença para quem é vigiado. Enquanto nossa sida digital está trancafiada naquelas poucas polegadas de tela dos celulares, a privacidade que, hoje, às vezes, parece um conceito abstrato não será quando entrarmos numa loja e ela nos cumprimentar pelo nome e nos oferecer produtos ao nosso gosto. Talvez até algumas transgressões. Quando, pelo movimento das câmeras pelas ruas, o Estado for capaz de determinar cada um de nossos passos. O seguro de saúde talvez queira nos dar um desconto inicial em troca de usarmos certos sensores — que dará a eles informação talvez excessiva sobre nossa saúde. Informação que poderá custar caro no futuro. Para não falar no que vai dar o conhecimento sobre aquelas buscas muito pessoais, que fazemos quando sozinhos, à noite, protegidos e cm casa.





O dilema da privacidade não é trivial. Câmeras em estádios lotados poderão identificar a presença de terroristas conhecidos, mas também de maridos infiéis. Poderão inocentar muitos que terão como provar onde estavam na noite do crime. Assim como poderão terminar cobrando mais caro por aquilo que precisamos muito — e o Grande Irmão saberá disso.





Tudo indica que, movido pela paranoia anti-China do governo, o Brasil será um dos últimos a entrar no mundo do 5G. Isso quer dizer que não serão startups brasileiras que desenvolverão muitas das tecnologias que alimentarão a construção desse futuro. Quer dizer que teremos o 5G que os outros construíram. Que não participaremos da largada dos muitos debates éticos. Chegar tarde e ser só consumidor é a sina brasileira.

sexta-feira, 14 de maio de 2021

O ataque de Moscou(Pedro Doria, Estado, 14 5 21)

PEDRO DORIA - O ataque de Moscou


sexta-feira, 14 de maio de 2021 


 

O Estado de S. Paulo  / Economia

A Colonial Pipeline, empresa que controla o maior oleoduto americano, que vai do Texas a Nova York, pagou US$ 5 milhões em resgate para um grupo hacker russo. Foi agora, no fim de semana. Os "sequestradores" conseguiram injetar na rede interna da operadora um malware, espécie de vírus que pega os dados de uso corrente na empresa, criptografa tudo, e ninguém consegue mais trabalhar. Só com uma senha - e a senha entregam mediante resgate pago em criptomoedas como bitcoin. Impossíveis de serem localizadas.


O caso saiu na imprensa do mundo todo, mas não é raro. É, aliás, bem comum. Este chamou atenção porque 45% da gasolina, do diesel e do diesel de aviação consumidos na Costa Leste vêm por este duto. Não tem caminhão tanque em quantidade nos EUA ou em nenhum lugar para substituir. Descoberto no último dia 7, sexta-feira passada, fez com que o duto precisasse ser imediatamente fechado. Se a situação não tivesse sido regularizada até a terça, ia começar a faltar combustível em Nova York, Washington, Boston, Miami - alguns dos principais centro do país, inclusive a capital. Pior. As petroleiras no Golfo do México, a um ponto, poderiam também começar a ter dificuldade de escoar a produção diária, sem ter onde armazenar.


O resgate foi pago em horas, no próprio dia 7. Contra a recomendação do FBI, de acordo com a agência Bloomberg, que descobriu alguns dos detalhes de como foi a negociação. Quando a notícia apareceu nos jornais, sem que ninguém soubesse fora das altas esferas, os engenheiros da Colonial já tinham a senha e se dedicavam ao lento processo de decodificar a criptografia e botar de pé novamente os sistemas.


Estes ataques - chamados ransomware - são razoavelmente comuns. Atingem pessoas físicas que se descuidam e clicam no link de e-mails que não deviam, mas têm por alvos também grandes empresas. Há poucos meses, o Superior Tribunal de Justiça, aqui no Brasil, sofreu um do tipo. No caso da Colonial, porém, há ali um alerta particularmente importante.


O grupo responsável, DarkSide, começou a operar em meados do ano passado e se especializa em ataques de grande porte. Tudo na casa dos milhões de dólares. Alguns de seus integrantes já foram entrevistados por especialistas em segurança via sistemas de chat que garantem anonimato. Como se comunicam em russo, como a documentação de seu vírus é também em russo, como o software se baseia noutro vírus que é sabidamente russo, a suspeita é que sejam de lá.


Hackers russos são ambíguos. Muitos trabalham ou para o Exército ou para a FSB, a agência de espionagem. E, ao mesmo tempo, tocam em paralelo uma atividade criminosa. As linhas entre uma função e outra são tênues. O fato de agirem no underground lhes permite travar contatos que, em geral, hackers que operam para as forças da lei têm mais dificuldade de obter. Isto quer dizer, entre outras coisas, aprender técnicas. Mas como também trabalham para o governo, em Moscou, nunca está claro quando um ataque é uma operação de sequestro pura e simplesmente, ou quando é serviço de espionagem.


Mas a mensagem é claríssima: a Colonial pagou o resgate. Poderia ter recebido ou não uma senha para botar seus sistemas de pé em retorno. Recebeu. Não era certo. A Rússia, nesta semana, poderia ter interrompido o fluxo de combustível para a região mais populosa dos Estados Unidos.


Todo mundo está trabalhando com a ideia de que houve um crime praticado por piratas modernos. Mas o recado é claro. Poderia ter sido um ataque vindo de Moscou.


sexta-feira, 23 de abril de 2021

Dinheiro físico ganha espaço na economia em meio à pandemia(Valor, 23 4 21)

 



O universo financeiro passou por uma verdadeira transformação digital nos últimos anos, com o surgimento de novas tecnologias, como o Pix e o open banking, além da concorrência de fintechs.
Mas, uma forma de pagamento bastante tradicional ganhou espaço em 2020: o dinheiro em papel. Impulsionada pelo pagamento do auxílio emergencial, em meio à pandemia, a quantidade de notas em circulação aumentou fortemente e levou consigo empresas que trabalham com numerário, como operadoras de caixas eletrônicos, transportadoras de valores e mesmo algumas fintechs. 

Hoje, as cédulas e moedas em circulação na economia brasileira somam R$ 340,879 bilhões. Ao fim de fevereiro de 2020, antes da eclosão da pandemia por aqui, esse volume era de R$ 259,340 bilhões, ou seja, em pouco mais de um ano houve um aumento de 31,4%. A demanda por dinheiro em papel foi tanta que o Banco Central foi obrigado a antecipar o lançamento da nota de R$ 200, mas a produção ainda é baixa — há apenas 63,3 mil cédulas do tipo em circulação, o menor número de todas as notas e bem atrás das cédulas de R$ 1, com 148,7 mil unidades.

A expectativa daqui para frente é de que o dinheiro ainda represente uma parcela importante das transações. Antes da pandemia, o Brasil tinha quase 45 milhões de desbancarizados. Mesmo com os indícios de que esse número tenha sofrido uma redução substancial por conta do pagamento do auxílio emergencial por meio do aplicativo Caixa Tem e da popularização de bancos digitais, é grande ainda a parcela da população com nenhum ou pouco acesso a serviços bancários, e que está no mercado informal de trabalho.

Os dados oficiais do BC sobre o uso do dinheiro são de 2018. Naquele ano, uma ampla pesquisa mostrou que 29% recebiam salário em dinheiro vivo e 96% usavam notas para pagar contas ou fazer compras. O dinheiro era a forma de pagamento utilizada com maior frequência para 60% dos entrevistados. No ano seguinte, uma pesquisa feita pelo Instituto Locomotiva mostrou que 71% dos entrevistados usavam dinheiro vivo como principal meio de pagamento do cotidiano.

“Por mais que o brasileiro tenha se bancarizado, ele ainda gosta muito do numerário, a grande maioria sacou o auxílio emergencial”, afirma Alessandro Abrahão, diretor-geral da Prosegur Cash.

Ele conta que metade de todo o volume de auxílio emergencial pago no ano passado passou pela transportadora. O faturamento da unidade cresceu 12% em 2020, para R$ 2,155 bilhões. “O auxílio emergencial deu um impulso de 4% na nossa receita”, diz.

Marcelo Caio D'Arco, CEO da Brinks no Brasil, ressalta que, apesar de todo viés de digitalização, o montante de dinheiro circulando hoje é muito maior do que antes da pandemia, o que também aconteceu em outros países. “O Brasil com suas dimensões continentais e desigualdades não consegue atender 100% do público com soluções exclusivamente digitais. Alguns municípios mal têm energia elétrica, internet”, conta.

O Grupo Protege chegou a prever uma queda de 40% no faturamento em 2020, em função da pandemia, mas a retração acabou sendo bem menor, de 2,5%, sendo que na unidade de transporte de valores houve alta de 3,3%. “O auxílio emergencial criou um potencial a mais que não era esperado nas nossas projeções, mas é momentâneo”, afirma Marcelo Baptista Oliveira, presidente.

Ele destaca, contudo, que o dinheiro físico continuará tendo papel muito importante por mais 10, 20 anos, apesar da digitalização do setor financeiro. “A gente está de olho, tentando entender o mercado, o que está acontecendo com Pix, pagamentos pelo WhatsApp.

As empresas do segmento ainda não estão preparadas para dizer o que mercado vai virar. O Brasil e o mundo não estão preparados para o fim do dinheiro”, diz Oliveira.

Até mesmo as fintechs, que já nasceram num ambiente totalmente digital, começam a trabalhar com dinheiro de papel. A Celcoin, que fornece uma plataforma aberta de serviços financeiros para fintechs e bancos digitais, disponibilizou novas APIs para realização de depósitos em caixas eletrônicos. “Queremos capilaridade sem a necessidade da abertura de postos físicos”, afirma o CEO, Marcelo França.

Já a Sled, criada em novembro, está desenvolvendo uma solução que permite transformar pontos de venda (supermercados, por exemplo) em caixas eletrônicos para os consumidores. Em 2016, Anderson Locatelli, CEO e fundador da empresa, havia criado a Troco Simples, que visava revolucionar o troco em moeda. Ao compreender que o troco é apenas uma parte de um mercado repleto de outras dificuldades, ele resolveu fundar a nova fintech.

Leandro Vilain, diretor de inovação, produtos e serviços da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), diz que ações estruturais para reduzir a circulação do dinheiro em espécie foram feitas nos últimos anos, como não precisar mais sacar dinheiro para pagar boleto vencido de um banco onde a pessoa não tem conta e Pix, sistema de pagamento instantâneo que é gratuito para pessoas físicas. Contudo, diz, uma redução mais drástica do numerário tende a acontecer num horizonte de longo prazo. O próprio Pix terá a possibilidade de saques no varejo.

“Não sou inocente em afirmar que as transações com dinheiro vão zerar. Alguns produtos que envolvem numerário terão espaço por algum tempo, mas miramos sua redução no longo prazo”, diz, ao lembrar que os gastos do setor bancário com logística do numerário chegam a R$ 10 bilhões por ano. Vilain também não acredita que os caixas eletrônicos possam acabar, à medida que crescem os serviços digitais.

Ele crê que possam surgir novas formas de aproveitamento.

Apesar do impulso dado pelo auxílio emergencial no ano passado, a nova rodada, que começou a ser paga este mês, tem um público bem menor, com valores também reduzidos, o que significa que o impacto na circulação de dinheiro este ano será menos significativo. Assim, as empresas que trabalham com dinheiro em papel seguem investindo em fontes para diversificar a receita.

A TecBan, que opera a maior rede independente de caixas eletrônicos do Brasil, investiu R$ 4 bilhões em pesquisa e desenvolvimento nos últimos dez anos e deve aplicar R$ 500 milhões em 2021.

Na semana passada, concluiu a emissão de R$ 320 milhões em debêntures para refinanciar dívidas e auxiliar nesses investimentos.

Em meados de 2019 a TecBan criou o HubDigital, que facilita a entrada de novas instituições na rede Banco24Horas, reduzindo os custos das fintechs e a necessidade de investimentos em desenvolvimento e infraestrutura tecnológica. Hoje são mais de 20 fintechs parceiras e R$ 2 bilhões sacados em 2020. Além disso, em junho anunciou um acordo com a plataforma Ozone, que foi utilizada na implantação do open banking no Reino Unido, para acelerar o desenvolvimento do ecossistema dessa nova tecnologia no Brasil.

A companhia também tem outras iniciativas de diversificação, como o saque no comércio e as publicidades exibidas nos caixas eletrônicos. Com isso, essas outras linhas de receita já representam 20% do seu faturamento. “Ao fim de 2020 estreamos em um novo segmento. Constituímos a TecBan Serviços Integrados, que atuará no mercado promovendo soluções especializadas em logística, armazenagem, operação, manutenção e revitalização de equipamentos”, diz a companhia. A receita bruta cresceu 8,6% no ano passado, com desempenho mais forte do que o esperado da transportadora de valores TBForte, e o lucro saltou 220,3%, a R$ 183,2 milhões.

Já a Brinks tem quase 4 mil “cofres inteligentes” instalados em comércios de todo o país, possui um acordo com a PicPay para que os usuários da fintech possam sacar em lojas cadastradas e criou o serviço Pignus, com vans blindadas para o transporte em pequenas quantidades de itens como joias, celulares e artigos de luxo.

A Prosegur tem duas redes de correspondentes bancários (LogMais e ProPago), com mais de 160 lojas, além de oferecer uma plataforma de conciliação de vendas e gestão para pequenos lojistas. O Grupo Protege já tem uma operação mais diversifica, pois além do transporte de valores possui uma forte atuação em segurança privada e logística. Sua unidade Proair oferece terceirização de serviços para os setores operacionais e de segurança em 42 aeroportos.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Vem aí a moeda digital(Celso Ming, Estado, 15 4 21)

 CELSO MING - Vem aí a moeda digital


quinta-feira, 15 de abril de 2021


 

O Estado de S. Paulo  / Economia

Segunda-feira, em evento promovido pelo Banco de Espanha, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, informou que em breve dará notícias sobre a criação de moeda digital no Brasil.


Há tempo que os brasileiros já vêm tendo contato com algum tipo de moeda ou quase moeda digital. O exemplo mais conhecido e mais antigo é o dos pontos de milhagem (pontos de fidelidade). Outro caso é o das criptomoedas, cujo melhor exemplo é o bitcoin.


Em 2019, o Facebook anunciou a criação de uma moeda digital global, inicialmente chamada 'libra', que, no final de 2020, foi rebatizada como 'diem'. Essa moeda seria partilhada por outras 27 big techs como Visa, Mastercard, Spotify e Uber. Mas as duas primeiras não chegam a desempenhar as funções de moeda de fato. Podem servir para pagar determinados produtos e serviços, mas não servem nem como medida de valor nem como reserva de valor, ou porque têm cotação restrita (caso dos pontos de milhagem) ou porque seu preço está sujeito a enormes volatilidades, como acontece com o bitcoin. Quanto ao projeto do Facebook, nada ainda a dizer. Sua circulação segue em avaliação.


Algumas dessas moedas digitais vêm tendo larga aceitação porque sua criação e, principalmente, sua posse e estocagem são feitas com sólidas garantias.


No caso das criptomoedas, as transferências desses ativos de pessoa para pessoa contam com uma base de dados de registro permanente à prova de ação de violações, mais conhecido como sistema blockchain.


Em janeiro de 2017, o estoque de criptomoedas foi avaliado em US$ 18 bilhões. Dois anos depois, passou a US$ 287 bilhões, como aponta estudo da OCDE, de fevereiro deste ano.


Por enquanto, correspondem a uma fração insignificante dos meios de pagamento em circulação no mundo, mas sua aceitação foi suficiente para avisar os bancos centrais de que essas moedas podem se expandir exponencialmente. Assim, trazem o risco de que os bancos centrais percam capacidade de criação e de administração de uma moeda nacional.


Mais do que isso, em caso de crise sistêmica e choque de desconfiança, as autoridades não estariam em condições de intervir e de evitar desastres.


Há alguns anos, especialistas de todo o planeta vêm estudando a criação de moedas digitais a serem administradas por bancos centrais, já conhecida pela sigla em inglês CBDC (Central Bank Digital Currency). Estão fadadas a substituir tanto o meio circulante (papel-moeda e moedas metálicas) quanto a chamada moeda contábil. Até agora, nenhum banco centra as emitiu. Mas estão em curso projetos-piloto, na China, na Suécia, no Uruguai, Bahamas e Caribe Oriental.


Não há informações sobre as características da CBDC que o Banco Central do Brasil está preparando, mas já se sabe sobre algumas consequências que advirão de sua emissão em larga escala, não só no Brasil mas em toda parte.


A mais importante delas é a de que o saldo pertencente a um correntista deverá ser um endereço eletrônico controlado por um banco central. Nessas condições, pagamentos e transferências deverão dispensar a intermediação de instituições financeiras e baratear substancialmente essas operações. Hoje, as transferências internacionais são caras, em média de 7% por remessa, demoradas demais e pouco eficientes. Os bancos que já vêm perdendo espaço na ocupação do mercado financeiro, deverão perder ainda mais.


Pode-se imaginar, também, a forte redução dos custos de manipulação de moedas digitais, principalmente quando comparados com os de lidar com papel-moeda convencional, que exige armazenamento e transporte com alto grau de segurança, manipulação complicada e necessidade de substituição das notas avariadas por novas.


Outra consequência, as autoridades de qualquer país estarão em condições de controlar todos os fluxos de moeda e, portanto, também as tentativas de lavagem de dinheiro, de financiamento do narcotráfico ou de comércio clandestino de armamentos. Nessas condições, as chamadas transações anônimas podem estar com os dias contados.


Terceira consequência, aumentará a importância do uso das redes sociais nas transações financeiras. O projeto da moeda digital privada, o 'diem', do Facebook, daria acesso imediato a quase3 bilhões de pessoas, já demonstrara essa importância.


Para total confiabilidade na moeda digital, duas exigências são impreteríveis: uma sólida infraestrutura que permita um sistema de pagamentos globais confiável e uma rede muito mais eficiente de internet do que a que se tem hoje.


COMENTARISTA DE ECONOMIA




domingo, 14 de fevereiro de 2021

carro elétrico, desafio para a indústria(Celso Ming, Estado, 14 2 2021)

CELSO MING - O carro elétrico, mais um desafio para a indústria

COLUNISTAS

domingo, 14 de fevereiro de 2021 


 

O Estado de S. Paulo  / Economia


A General Motors dos Estados Unidos acaba de anunciar que, a partir de 2035, deixará de vender carros a gasolina ou diesel e se restringirá aos elétricos. É tendência geral. Uma a uma, as grandes montadoras vêm fazendo anúncios desse tipo.


O Brasil não pode escapar dessa. Embora tenha a opção do carro a álcool, não pode se fiar inteiramente nele, porque tem de exportar. Não pode dar-se ao luxo de ter duas linhas de produção paralelas, uma para o mercado interno e outra para o externo.


A questão mais importante está em saber se o Brasil tem condições de desenvolver uma bateria, o item mais caro e mais pesado de um veículo elétrico, ou terá de depender de importações. As baterias de íons de lítio são hoje as mais usadas nesses veículos. Mas esse é um componente sujeito a grandes mudanças tecnológicas. Estados Unidos e China trabalham em novas soluções destinadas a aumentar a capacidade energética, a durabilidade, a redução do tempo de recarga e a segurança das baterias.


Partes importantes desses avanços têm íntima relação com novas políticas de mobilidade urbana e estão sendo encabeçadas por empresas de fora do setor ou que nasceram com a tecnologia em sua atividade principal, a exemplo da norte americana Tesla, que até hoje só produziu carros elétricos.


Este é fator que, atrelado aos custos excessivos, má administração e grande dependência de subsídios fornecidos pelos governos, deixa as montadoras tradicionais em situação de vulnerabilidade perante as mudanças previstas na mobilidade urbana do futuro. É o que observa Antonio Jorge Martins, coordenador de cursos automotivos da Fundação Getúlio Vargas. E ele acrescenta: "O que está em jogo é a sobrevivência de um setor que tem mais de 100 anos de atuação sob a ótica analógica e que está indo para uma tecnologia que exige investimentos constantes. Essa nova condição exige alto volume de investimentos, que, em certos casos, ultrapassa o fôlego financeiro das montadoras. Elas têm de formar parcerias com conglomerados de tecnologia para conseguir se reinventar".


O Brasil não está inteiramente a zero nesse segmento. Acordo assinado, no fim de 2020, entre o governo de Minas Gerais e uma joint venture formada por oito empresas norte-americanas do Vale do Silício prevê a construção de um polo produtor de baterias e componentes elétricos próximo ao Aeroporto de Confins. A inauguração da planta está prevista para o ano de 2023.


Importante limitador de um rápido desenvolvimento no Brasil da produção de uma frota elétrica e de seus componentes, como as baterias, é a baixa demanda por esse tipo de veículo, que por enquanto não justifica sua produção em série no País. Maior demanda, por sua vez, depende da criação de uma rede de suporte de serviços e investimentos públicos em infraestrutura que proporcionem uma malha viária adequada para esse tipo de veículo.


O coordenador do Observatório de Inovação da USP, Glauco Arbix, argumenta que a falta de uma política industrial eficiente tende a deixar a indústria brasileira ainda mais para trás, caso os avanços dos veículos elétricos e autônomos se consolidem nos próximos anos. Principal razão: o Brasil não avançou na criação de relações comerciais fortes que alavanquem as exportações.


As vendas de veículos elétricos e híbridos cresceram 66,5% em 2020, na comparação com o ano anterior. Mas esse crescimento não deve impressionar já que essas vendas não passam de 19.745 unidades, ou 0,1% do total. O fator preço também explica a presença tímida do segmento no Brasil. A maior parte desses veículos é importada e atende a um nicho específico de mercado. Ricardo Bacellar, sócio líder de Industrial Markets e Automotivo da KPMG no Brasil, adverte que a indústria nacional de veículos tem de pensar em soluções mais próximas do perfil de renda do brasileiro. Sem isso, não haverá massificação que justifique os investimentos em sua produção.


Ele sugere a adoção do modelo de carro por assinatura. Nele, em vez de pagar por um carro de sua propriedade, o consumidor paga um aluguel para usar o veículo por tempo determinado. "É opção que reduz o impacto financeiro de uma compra mas, ao mesmo tempo, possibilita o uso de um veículo próprio. O potencial desse mercado é grande. Poderia ser a criação de um ambiente mais propício para o início da produção de elétricos no Brasil", afirma Bacellar. /COM PABLO SANTANA



domingo, 27 de dezembro de 2020

O resgate da humildade(Época, 25 12 2020)

 DOS EDITORES - O RESGATE DA HUMILDADE

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020 

 

Revista Época  / Dos Editores

Cenário Político-Econômico: Colunistas

Da Redação


Das transformações que presenciamos ao longo dos últimos anos trazidas pela tecnologia, é inegável que a maioria nos beneficia como indivíduos e como grupo. Dos avanços da medicina à maior eficácia dos transportes, da educação à distância ao amplo e facilitado acesso à informação, das conexões viabilizadas pelas redes sociais à praticidade das compras on-line, que nos fazem ganhar tempo. Teria o homem encontrado tão rapidamente uma vacina eficaz para uma doença tão mortífera como a Covid-19 sem servir-se dos aparatos tecnológicos que criou? Dificilmente.


Ainda assim, como é possível que, diante da genialidade humana ao lidar com a inovação, consigamos a façanha de usar esse patrimônio tecnológico contra nós mesmos? O acesso quase irrestrito à informação, viabilizado pela internet, aflorou em muitos de nós um sentimento de autossuficiência que não encontra respaldo na realidade. Valendo-se de informações nem sempre verdadeiras ou manipuladas nas redes, grupos de pessoas vêm contestando a ciência, a medicina, a política, a Justiça, a imprensa e outras áreas de expertise, como se fossem senhores da razão e da verdade. O ápice desse estado de coisas é aquilo a que assistimos hoje: grupos sem qualquer conhecimento técnico ou formação adequada, incluindo um chefe de Estado, lançam mão de informação disponível na internet para questionar o uso de vacinas desenvolvidas pelos maiores laboratórios do mundo com o objetivo de impedir a propagação do vírus mais mortal de que se tem notícia nos últimos 100 anos.



O cientista político Tom Nichols, que fez carreira acadêmica em Harvard e nas escolas militares americanas, vem tratando desse fenômeno há alguns anos. Ele destrincha, em dois livros publicados em 2016 e 2021, The death of expertise (A morte da expertise) e Our own worst enemy (Nosso próprio pior inimigo), ainda não lançados no Brasil, como o narcisismo move as pessoas a negarem o conhecimento estabelecido. Nichols argumenta que a internet acaba criando uma falsa ilusão de igualdade — pelo fato de termos acesso às informações contidas ali, seríamos todos igualmente capazes de processá-las, não importando a formação de cada um. Essa onipotência é um bálsamo para egos frágeis. Acrescida de ressentimentos sociais e econômicos, acaba resultando no que vemos hoje: democracias ameaçadas por seus próprios cidadãos, que, insatisfeitos com a política, procuram soluções mágicas, rápidas e individualistas para suas angústias.


O narcisismo acrescido do imediatismo é, segundo Nichols, a chave do problema. Inspirados pela rapidez das redes em prover respostas a qualquer pergunta, muitos acreditam que há sempre uma solução simples e de fácil compreensão para tudo. E ainda concluem que, se algo é muito técnico ou difícil de entender, possivelmente está errado. Em sua tese, Nichols não quer livrar as elites do conhecimento de sua responsabilidade de prestar contas sobre erros e acertos. Mas joga luz sobre o que o desrespeito à expertise pode causar.


Infelizmente, a solução para o problema não está somente na criação de leis que responsabilizem cada um pelo mau uso da informação na internet. Está, sobretudo, na capacidade do ser humano de reconhecer que nem tudo sabe, que não entende de todos os assuntos e que, em determinados casos, não será capaz de aprender. Ou seja, a boa e velha dose de humildade.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

É a conexão 5G. Veja o que está em jogo(Celso Ming, Estado, 25 12 2020)

CELSO MING - É a conexão 5G. Veja o que está em jogo


sexta-feira, 25 de dezembro de 2020


 

O Estado de S. Paulo  / Economia


Mesmo cercada de polêmica, vem aí a conexão 5G. Esse não é um assunto para nerds, como parece. Então, convém entender melhor do que se trata.


Essa nova tecnologia promete produzir importantes melhoras na qualidade da conexão de internet, que vão acelerar o processo de digitalização da sociedade. Os trâmites para adoção do sistema no Brasil seguem a passos de tartaruga, mas alguns avanços aconteceram há duas semanas.


Um deles é de natureza técnica. Foi a decisão da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) que reservou a faixa de 6 giga-hertz (GHz) para o uso exclusivo de conexões Wi-Fi. Essa faixa vai funcionar como auxiliar e contribuir para que os celulares dos consumidores disponham da mesma velocidade obtida pelas operadoras de telefonia com a internet de banda larga, aquela contratada em casa. Hoje, as redes Wi-Fi podem manter conexões nas frequências de 2,4 e 5 GHz, que se encontram sobrecarregadas e tendem a prejudicar a qualidade de cobertura e de sinal pretendida com a nova geração de conexão móvel.


O 5G promete importantes vantagens para o consumidor: uma velocidade de conexão dez vezes maior do que a do 4G; continuidade de sinal e mais acesso, com diminuição das áreas de sombra (locais onde as redes apresentam ausência do sinal, como elevadores, túneis e áreas de difícil acesso); e diminuição do tempo de resposta da conexão (latência) entre um dispositivo e a rede.


A tecnologia já está em operação comercial em mais de 40 países, entre os quais Coreia do Sul, Estados Unidos, China, Uruguai e África do Sul.


Por causa de suas características, espera-se que o 5G traga benefícios que favoreçam a economia digital e permitam avanços tecnológicos que intensifiquem a criação de cidades inteligentes por meio de soluções de IoT (Internet das Coisas, na sigla em inglês) e circulação de veículos autônomos. Para ter acesso aos avanços pretendidos pela nova geração de rede móvel, o Brasil ainda precisa fazer investimentos em infraestrutura e realizar o leilão das frequências que serão utilizadas no 5G - evento previsto para o fim do primeiro semestre de 2021.


São iniciativas que ficarão majoritariamente a cargo de capitais privados. Esses investimentos não terão capital de recuperação. Ou seja, as empresas do setor não poderão revender os equipamentos antigos para ajudar a cobrir os custos da substituição. E a incorporação do sistema no Brasil dependerá da demanda ou da oferta de serviços mais baratos, aponta Maurício Pimentel, professor e gerente de inovação da Empresa de Tecnologia da Informação e Comunicação do Município de São Paulo (Prodam).


Pimentel adverte que o poder público deve ter uma visão estratégica do desenvolvimento do 5G no Brasil e se aliar à iniciativa privada de maneira a não restringir o acesso apenas aos centros urbanos, como acontece hoje com a conexão 4G. Nesse sentido, os avanços na economia digital a se tem obtidos na agricultura poderão ajudar nesse processo de interiorização.


O outro tema vem sendo mais comentado na imprensa. Trata-se de superar a disputa geopolítica com os Estados Unidos no fornecimento de equipamentos pela China. O presidente Bolsonaro tem feito de tudo para fazer o jogo dos Estados Unidos e barrar o acesso do mercado brasileiro aos equipamentos da chinesa Huawei. O presidente Trump quer banir a Huawei sob alegação de que seus equipamentos embutem instrumentos de espionagem. A propósito, nada garante que equipamentos de outra procedência sejam isentos desse problema.


O Congresso Nacional criou recentemente grupos de trabalho para acompanhar as decisões do governo sobre o tema. O objetivo é evitar que decisões arbitrárias dificultem a competitividade nas telecomunicações, uma vez que a Huawei é responsável por parte das atuais redes móveis de 4G e 3G no Brasil. E há a questão de custos: a infraestrutura chinesa tende a ser mais barata.


Arthur Barrionuevo, ex-conselheiro do Cade e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), não vê sentido em banir a chinesa Huawei no fornecimento de equipamentos de 5G para o Brasil: "Ainda não se provou nada contra a empresa e, apesar de a discussão sobre o controle de dados e espionagem ser fator relevante, todo mercado, e não só a Huawei, deveria ser submetido aos mesmos crivos nessa questão". / com PABLO SANTANA



terça-feira, 22 de dezembro de 2020

A entrega das empresas de internet para o Brasil(FSP, 22 12 2020)

A entrega das empresas de internet para o Brasil

Digitalização de restaurantes, mercados e parceiros abre portas para o futuro

terça-feira, 22 de dezembro de 2020 - 05:17


 

Folha de S. Paulo  / Tendência e Debates


Fabricio Bloisi


Pandemias, assim como guerras, geram horror, medo e incerteza. Provocam também mudanças sociais profundas e saltos tecnológicos. Se, por um lado, a onda de Covid-19 teve como efeito colateral empurrar as empresas tradicionais para a digitalização, por outro, para o iFood, que já nasceu digital, o efeito foi diferente. Deu-nos a oportunidade de usar tecnologia e a nova economia para contribuir para a sociedade e para o desenvolvimento do país.


Num momento em que o Brasil e o mundo discutiam se a estratégia era salvar vidas ou a economia, o iFood foi nas duas direções. Atendeu com comida e compras quem estava em isolamento e ajudou a manter vivos mais de 200 mil restaurantes, na imensa maioria pequenos e médios negócios. Também gerou renda para os cerca de 150 mil entregadores que são nossos parceiros Brasil afora.


Fundei minha primeira empresa de tecnologia há 20 anos, na pré-história da internet, produzindo mensagens SMS em uma pequena sala. Em 2014, quando investimos no iFood, éramos uma startup com 20 pessoas, e o negócio de delivery de comida era algo restrito à pizza do fim de semana.


Cerca de 85% dos restaurantes brasileiros são empresas familiares e, para a maioria, a ideia de fazer entregas via aplicativo parecia distante. Da noite para o dia, o delivery passou a ser sua única fonte de receita viável. Investimos cerca de R$ 200 milhões em capital próprio para que esses restaurantes se mantivessem vivos. Devolvemos parte da nossa receita a eles, zeramos a comissão de pedidos "para retirar" e, em parceria com o Itaú, diminuímos o prazo de repasse dos pedidos de 30 para 7 dias, injetando mais de R$ 5 bilhões em capital de giro no setor.


Além dos restaurantes, o iFood investiu, desde março, cerca de R$ 100 milhões em apoio aos nossos entregadores, e até hoje os que são dos grupos de risco estão em casa, recebendo. Doamos mais de quatro milhões de itens de proteção, como máscaras e frascos de álcool em gel.


Com a mudança de hábito, as pessoas passaram a lembrar do iFood em todas as horas do dia. O número de pedidos, naturalmente, cresceu muito. No dia da Black Friday de 2020 (27 de novembro), entregamos 2,5 milhões de pedidos e chegamos a quase 50 milhões de pedidos por mês. "Isso deve ter gerado um lucro astronômico", é o que sempre ouço. Na verdade, nosso prejuízo nos últimos dois anos supera R$ 1 bilhão.


A coragem de investir faz parte do negócio: nosso objetivo é de longo prazo, e nossa aposta no Brasil continua. Agora, com o Pix, vamos diminuir custos dos restaurantes e mercados, apostamos ainda num sistema de gestão sem taxas e na comunicação do restaurante com os seus clientes também sem custos, entre outras iniciativas.


Esse investimento volta na forma de satisfação de clientes e parceiros. Em dezembro, recebemos o mais importante prêmio de qualidade de atendimento, o Empresa Super Campeã do Reclame Aqui.


Temos orgulho também do nosso papel social. Doamos mais de 1.500 toneladas de alimentos, beneficiando 570 mil pessoas, e fomos reconhecidos pela ONU com a ONG Ação da Cidadania.


Neste cenário, as empresas de delivery que prestam bom serviço são uma mola propulsora de crescimento e geração de renda para os restaurantes e para toda sociedade. Hoje somos uma empresa com 3.000 pessoas, 1.000 delas trabalhando em tecnologia e inteligência artificial para melhorar nossa capacidade de prever que tipo de comida um cliente vai querer e como entregá-la rapidamente.


Há percalços, claro. E, com eles, aprendizados. Durante a pandemia, os holofotes da sociedade e da opinião pública foram jogados sobre empresas como o iFood â?"e esse tem sido um exercício de humildade para entendermos melhor nosso papel e nossos desafios.


A economia digital ainda gera muita angústia mundo afora e vivemos uma polarização como nunca antes, o que acaba resultando em narrativas distorcidas, algumas vezes motivadas por desconhecimento, outras por má-fé. Sabemos, porém, que quanto mais investirmos, maior será a percepção de que essas empresas cumprem o fundamental papel de fomentar o empreendedorismo e a tecnologia no Brasil.


A meta do iFood, antes, durante e depois da pandemia, será ajudar outros milhões de restaurantes, mercados e parceiros entregadores a se digitalizarem, abrindo as portas para o futuro e gerando riqueza para todo o ecossistema â?"e essa meta nós vamos entregar.


[...] Cerca de 85% dos restaurantes brasileiros são empresas familiares e, para a maioria, a ideia de fazer entregas via aplicativo parecia distante. Da noite para o dia, o delivery passou a ser sua única fonte de receita viável. (...) As empresas que prestam bom serviço são uma mola propulsora de crescimento e geração de renda

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Home office e inovação: um casamento difícil(CB, 23 11 2020)

 Vivaldo José Breternitz - Home office e inovação: um casamento difícil


segunda-feira, 23 de novembro de 2020


 

Correio Braziliense  / Opinião


» Vivaldo José Breternitz Doutor em ciências pela Universidade de São Paulo


A Microsoft acaba de publicar os resultados de uma pesquisa que desenvolveu acerca do trabalho na modalidade home office, que no exterior é mais conhecido como work from home, ou WFH. Foram ouvidos nove mil executivos e funcionários de empresas que operam em 15 países da Europa. O número de funcionários se dizendo satisfeitos por trabalhar em casa chegou a 69%, com justificativas como economia de tempo para deslocamento e de dinheiro, por fazer refeições em casa, a possibilidade de uso de roupa informal, de personalizar o ambiente de trabalho, de trabalhar próximo aos seus animais de estimação etc.


Também da parte dos gestores, algumas conclusões esperadas ficaram evidentes, como a possível redução de custos com escritórios. Mas, algumas informações interessantes vieram à tona, como a de que a esperada queda na produtividade dos empregados não aconteceu: 82% dos executivos disseram que a mesma se manteve ou aumentou. Além disso, acreditam que a oferta de oportunidades de trabalho na modalidade WFH será um fator que ajudará a reter seus atuais empregados e atrair novos talentos.


Acredita-se que esses números relativos à produtividade se devem ao fato de os funcionários não terem sua atenção desviada, como no escritório, por movimentos, ruídos e conversas com colegas. Pesquisa de 2019 mostrou que 52% apontavam estas como causas de perda de tempo, número que caiu para 41% após o início da pandemia.


Analisando os resultados da pesquisa, parece claro que as empresas devem, no pós-pandemia, manter políticas flexíveis para trabalho WFH. Essa é também a opinião do professor Michael Parke, da Wharton School da University of Pennsylvania, um dos responsáveis pela pesquisa, que chama nossa atenção para alguns temas mais delicados levantados, entre eles o fato de empregados perderem o senso de propósito de seu trabalho, que é obtido quando mantêm relações próximas com seus colegas e podem entender como suas tarefas se conectam com as de seus colegas e contribuem para que a organização atinja seus objetivos. Trabalhando de casa, fica muito mais difícil estabelecer e manter essas relações, levando os funcionários a se sentirem desconectados de sua empresa e, consequentemente, impactando a capacidade de inovação da mesma.


A pesquisa de 2019 apurou que 56% dos executivos consideravam suas empresas inovadoras em termos de produtos e processos. Esse número caiu para 40% neste ano, fato que se deve, na opinião dos entrevistados, pela impossibilidade da proximidade física e na dificuldade para a realização de brainstormings a distância.


Um recente estudo, conduzido pela HP, chegou a conclusões semelhantes, apontando também queda na lealdade dos empregados à empresa, especialmente no caso de pessoal mais jovem. Aproximadamente a metade dos pesquisados pertencentes à Geração Z, aqueles nascidos a partir de meados dos anos 1990, disseram sentir-se desconectados da cultura da empresa.


Manter talentos que se sentem assim é um desafio crítico para as organizações. Para continuar inovando, fator crítico para seu sucesso, a Microsoft recomenda aos seus gerentes de nível médio que empoderem seus subordinados, dando-lhes tarefas com mais responsabilidade e mais autonomia para tomada de decisões. Isso é mais fácil de dizer do que fazer, já que 60% dos profissionais da Microsoft que ocupam cargos desse nível disseram não se sentir preparados para trabalhar dessa forma.


Teremos tempos difíceis à frente: certamente as coisas não voltarão a ser como eram e, também, não permanecerão como estão. Para garantir seu crescimento e perenidade, as empresas só não podem fazer uma coisa: aguardar o desenrolar dos acontecimentos.

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

EUA vencem batalhas contra 5G chinês(FSP, 21 10 20)

 


EUA vencem batalhas contra 5G chinês

Mais países proíbem, oficialmente ou na prática, compra de equipamentos da Huawei

quarta-feira, 21 de outubro de 2020 


  

Folha de S. Paulo  / Mercado


Vinícius Torres Freire


A em geral pacífica Suécia proibiu as teles do país de comprar equipamentos de infraestrutura de telecomunicações das chinesas Huawei e ZTE. Seguiu orientação de seus militares e do seu serviço de segurança. As empresas chinesas vão ficar fora também do 5G sueco.


E daí a Suécia? É mais um exemplo da lista agora bem relevante de países que baniram a tecnologia chinesa, oficialmente ou na prática. A restrição a essas empresas é uma discussão que ultrapassa a mera maluquice diplomática subalterna de Jair Bolsonaro.


Funcionários americanos estão oficialmente no Brasil para convencer o governo brasileiro a proibir a Huawei de fornecer equipamentos para as redes 5G. Até abril de 2021, devem ser leiloadas as frequências para 5G ("estradas" de dados) entre as teles.


Pelo menos desde 2012, há campanha americana contra as firmas chinesas que vendem infraestrutura de telecomunicações. A Huawei é a líder mundial do setor. Sob Donald Trump, a campanha se tornou conflito aberto. Entre outras medidas, Trump quer estrangular o fornecimento de softwares, chips e outras tecnologias para as empresas chinesas, além de criar rede de comunicação mundial "limpa", livre de ciberameaças - isto é, sem participação da China.


O Japão não se comprometeu com os EUA, mas a empresa japonesa que usava a Huawei vai deixar de fazê-lo. O governo, de resto, quer aproveitar a oportunidade para aumentar a participação ínfima das companhias japonesas nesse mercado, assim como os sul-coreanos. A Índia parece que discretamente vai evitar as empresas da rival China e estimula a criação de tecnologia nacional.


A Alemanha prepara leis que, na prática, vão barrar as chinesas, plano que têm apoio dos três principais partidos do país, apesar da oposição de teles e de outras empresas alemãs, que exportam muito para a China.


O Reino Unido baniu as chinesas. A França não vai fazê-lo, mas seu serviço de cibersegurança baixou normas que inviabilizam a opção chinesa. Emmanuel Macron faz lobby pelas empresas europeias do ramo, Nokia e Ericsson, que dividem com a Huawei cerca de 75% desse mercado. A Itália discute o que fazer. A Espanha não baniu ninguém, mas, como em vários países, as teles se sentem pressionadas a mudar de fornecedor.


Em suma, o mercado para as empresas da China pode se limitar a partes da Ásia, do mundo islâmico, da América do Sul e da África. Empresas e mesmo governos da Europa dizem que vai ficar mais caro e demorado implementar o 5G sem a Huawei. Ainda assim, os americanos ganham batalhas importantes.


Os especialistas discutem o futuro da Huawei, destino que pode influenciar decisões de comprar seus equipamentos. Será econômica e tecnologicamente sufocada pela ofensiva dos EUA, ficando atrasada? Ou, ao contrário, o setor pode ter dificuldade de avançar sem a presença, patentes e colaboração tecnológica da gigante chinesa? A empresa pode tentar se virar com pesquisa própria ou com "vazamentos" de insumos e tecnologias?


Um fato é que essas empresas se tornaram assunto militar e de segurança. As acusações não vêm apenas dos EUA. Na página da Polícia de Segurança sueca, seu diretor diz em entrevista oficial que a China é uma das maiores ameaças à Suécia, que o governo chinês faz espionagem cibernética e rouba tecnologia a fim de promover seu desenvolvimento econômico e militar; que isso precisa ser levado em conta na legislação do 5G. Por lei, a agência reguladora sueca de comunicações tem de seguir orientações das Forças Armadas e do Serviço de Segurança.

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Adesão ao Pix afeta aplicativos de bancos(CB, 6 10 2020)

 


Adesão ao Pix afeta aplicativos de bancos

Sistema de pagamentos instantâneos do BC tem mais de 3,5 milhões de chaves inscritas no primeiro dia de cadastramento. Forte procura chega a provocar instabilidade em programas de internet banking. Serviço começa a operar em 16 de novembro

terça-feira, 6 de outubro de 2020 


  

Correio Braziliense  / Economia

MARINA BARBOSA




O Pix começa a operar em 16 de novembro, mas já desperta a atenção de milhões de brasileiros. Apenas ontem, primeiro dia de registro no sistema de pagamentos instantâneos, mais de 3,5 milhões de chaves Pix foram cadastradas. A procura foi tanta que os aplicativos dos principais bancos chegaram a ficar instáveis. Na avaliação do Banco Central (BC), os números mostram o sucesso da operação.


As chaves são a forma pela qual cada conta bancária será localizada no sistema de pagamentos instantâneos. E já começaram a ser registradas justamente para que não haja nenhum tumulto digital no primeiro dia de funcionamento do Pix já que o interesse era grande. Só na primeira hora de cadastros, o BC recebeu 50 mil chaves Pix. Na segunda hora, eram 140 mil. Na quarta, já eram 1 milhão de registros e muitos outros clientes interessados em garantir a sua chave.


Com o movimento, os aplicativos do Itaú, do Bradesco e do Santander apresentaram instabilidade. O BC não associou o problema diretamente ao Pix, mas indicou que os fatos estavam relacionados ao avisar que os brasileiros não precisam ter pressa para se cadastrar no sistema. Afinal, os pagamentos instantâneos só começam em 16 de novembro e os cadastros podem ser realizados até depois disso. Será possível, inclusive, receber um Pix sem a chave. O que a chave faz é facilitar e dar celeridade ao processo, pois elimina a necessidade de o pagador apresentar todos os dados bancários do recebedor, como é preciso hoje ao fazer uma TED e um DOC, permitindo que o pagamento seja iniciado mediante a apresentação de um único dado, como o número e telefone.


Os bancos admitiram a instabilidade nos aplicativos e logo colocaram suas equipes para tentar solucionar o problema. Por isso, os cadastros continuaram em ritmo acelerado, chegando à marca de 3,5 milhões por volta das 18h30, horário do último balanço diário do BC. "É um número bastante significativo, considerando que estamos na fase inicial. Isso indica o nível de expectativa e o nível de valor agregado que as pessoas estão vislumbrando no Pix", avaliou Carlos Eduardo Brandt, chefe-adjunto do Departamento de Competição e de Estrutura do Mercado Financeiro do Banco Central (Decem). Cadastro Os cadastros seguem sendo feitos por tempo indeterminado. Porém, é preciso ter atenção ao registro. É que uma chave só pode ser associada a uma conta. Se tem mais de uma conta, o correntista precisa cadastrar chaves diferentes para cada uma delas. Entre as opções, estão o CPF (ou CNPJ, no caso das empresas), o telefone, o e-mail ou um QR Code, que é gerado no aplicativo. Também é importante fazer esse cadastro sempre no ambiente digital do banco no qual já tenha conta, pois fraudadores estão enviando links falsos de cadastro por e-mail para tentar capturar os dados bancários das pessoas.


Custo O grande interesse deve-se ao fato de que o sistema de pagamentos instantâneos promete ser rápido, simples e barato. O Pix vai permitir que pagamentos e transferências sejam realizados em até 10 segundos, a qualquer hora do dia, em qualquer dia da semana, e será gratuito para pessoas físicas. Para pessoas jurídicas e empresários individuais, que vão utilizar o Pix para receber pagamentos de serviços comerciais, haverá a cobrança de uma tarifa. As taxas serão definidas pelas instituições financeiras, mas o BC garante que devem ser inferiores às taxas já existentes no mercado, pois um Pix vai custar apenas um décimo de centavo de real para os bancos.


O chefe-adjunto do Decem avaliou, contudo, que as empresas podem demorar a sentir essa redução de custo. "Não é no primeiro dia que vai perceber uma tarifa mais baixa, porque, nesse primeiro momento, as instituições vão estar testando o mercado, vendo até onde o cliente paga e o cliente também vai procurar os melhores preços. Isso leva algum tempo", analisou Brandt. Ele pediu que os empresários tenham paciência e procurem os melhores preços para estimular a competição entre as 677 instituições que já estão aptas a operar o Pix.


"É um número bastante significativo, considerando que estamos na fase inicial. Isso indica o nível de expectativa e o nível de valor agregado que as pessoas estão vislumbrando no Pix" Carlos Eduardo Brandt, chefe-adjunto do Departamento de Competição e de Estrutura do Mercado Financeiro do BC