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domingo, 23 de janeiro de 2022

As muitas sobrevidas de Elza

 As muitas sobrevidas de Elza

domingo, 23 de janeiro de 2022 


Folha de S. Paulo  | Opinião   |   Ruy Castro

Na noite de 19 de dezembro de 1973, Elza Soares chegou ao último andar do Maracanã e viu lá de cima o anel do estádio tomado. Eram 131.555 pessoas. Suspirou e disse para um amigo: "Agora eu posso morrer". Ali se realizava seu sonho: um jogo de despedida para Garrincha, o homem que ela amava e a quem o Brasil devia duas Copas do Mundo e um milhão de alegrias -o Jogo da Gratidão, entre a seleção de 1970 (com o já simbólico Garrincha no ataque) e um combinado de craques estrangeiros. Nunca um jogador recebera tal homenagem no Brasil.


Fora dela a ideia e, graças à sua luta, reunindo ex-jogadores, jornalistas, cartolas e políticos, ele iria acontecer. Fora dela também a exigência de que parte da renda se destinasse a comprar um apartamento e abrir uma poupança para cada uma das oito filhas de Garrincha -até para que cessasse a perseguição a eles. Foi sua primeira vitória sobre a intolerância, o moralismo e a hipocrisia. Daí ela achar que já "podia morrer".


Mas Elza não morreu. Tinha então 43 anos e viveria outros 48, suficientes para mais uma ou duas vidas. Nenhuma outra artista brasileira teria tantas sobrevidas. Basta somar os dramas, tragédias, declínios, voltas por cima e novos apogeus que ela experimentaria até quinta-feira (20), quando finalmente partiu.


A trajetória de Elza foi ainda mais dura do que se tem dito nos obituários e programas a seu respeito. Ela passou décadas escondendo a idade. Dava a entender que a menina que fora ao programa de rádio de Ary Barroso dizendo ter vindo do "Planeta Fome", em 1953, era uma adolescente. Não era. Já tinha 23 anos, porque nascera em 1930. E ainda levaria outros seis até ser descoberta por Sylvia Telles na boate Texas, no Leme, em 1959, e levada à consagração na gravadora Odeon.


Sua vida, portanto, começou aos 29 anos. Foi o tempo que lhe custou para se tornar a Elza Soares que chegaria, invicta, aos 91.

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Nelson Freire representava e representa uma outra face do Brasil'

 'Nelson Freire representava e representa uma outra face do Brasil', diz João Moreira Salles

Publicado: 15:55:00 - 01/11/2021


http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/nelson-freire-representava-e-representa-uma-outra-face-do-brasil-diz-joa-o-moreira-salles/524384

O pianista Nelson Freire morreu na madrugada desta segunda-feira, dia 1º, aos 77 anos. Como legado, deixou um trabalho celebrado por seus pares, pela crítica especializada e pelo público. Também teve sua história registrada no documentário Nelson Freire, de 2003, de João Moreira Salles. Disponível no serviço de streaming Globoplay, o longa-metragem acompanha a rotina de turnês e a memória dos primeiros acordes ao piano.


"Os documentários que eu vinha fazendo até então tratavam de desordem, de violência e de desagregação. Tive vontade de filmar o contrário daquilo e Nelson foi o caminho", conta João Moreira Salles em depoimento enviado ao Estadão. 


No filme, há momentos com Nelson Freire filmados em São Paulo, no Rio de Janeiro, na França, na Bélgica e até mesmo na Rússia — são mais de 70 horas de material gravado depois de João acompanhar o pianista por dois anos. 


A seguir, confira o depoimento completo de João Moreira Salles enviado ao Estadão.


"Os documentários que eu vinha fazendo até então tratavam de desordem, de violência e de desagregação. Tive vontade de filmar o contrário daquilo e Nelson foi o caminho. Ele encarnava valores de um humanismo essencial a todo projeto de civilização decente – a transmissão da beleza, o imperativo moral do trabalho bem feito, a recusa a toda vulgaridade e espalhafato.  Um presidente que tira a máscara de um  bebê e força uma criança a fazer uma arma com as mãos é uma imagem verdadeira e poderosa do País. Mas não é a única. Nelson Freire (o pianista, não o filme) representava e representa – nos discos, nos registros dos concertos, na vida discreta que levou – uma outra face do Brasil, o lado capaz de nos salvar. Seu talento não está ao alcance de maioria de nós, mas a honradez, sim". 


sexta-feira, 4 de junho de 2021

Blog Meu Bol$o: REGULAMENTO

 Grupo " Meu Bol$o"

Última atualização: 30 de junho de 2020

Motivações e regramento do grupo:


MOTIVAÇÃO::

A principal motivação para a criação deste grupo de Finanças Pessoais foi a grande preocupação que temos com o presente e futuro da PETROS e consequentemente nossas pensões.

Sabemos que temos poucas chances de interferir no futuro da PETROS e não sabemos como ficarão nossas pensões no futuro ...

Então o que fazer ? Como possibilidade podemos gastarmos cada vez mais de forma racionalmente  e principalmente aumentarmos nossa receita com a rentabilidade de nossos investimentos, empresas e negócios, para manter ou aumentar o nosso padrão de vida.

Observo em vários grupos PETROS que  algumas pessoas estão nos seus limites financeiros e não conhecem tanto de Finanças Pessoais, e outros vários como eu, aínda tem muito o que aprender....

Então já algum tempo pensava em abrir um grupo sobre Finanças Pessoais e áreas afins para compartilhamento de informações, conhecimento e dicas, que nem sempre encontramos na internet ( sites, lives, etc )

REGRAMENTO:

1) Não é permitido postar assuntos sobre política, principalmente sobre política partidaria, sendo isto considerado falta grave e havendo incidência o infrator poder ser afastado do grupo por 1 mês 

1.1) Erros ocorrem, então qualquer postagem inadequada será desconsiderada desde que a postagem seja retirada imediatamente e o colega se retrate com o grupo, entretanto não haverá excessões para reincidencias.

1.2) Evidentemente decisões de economia muitas vezes são pautadas em decisões politicas, então é permitido mencionar uma decisão de economia tomada pelo governo atual ou passado e até contesta-la de forma "técnica" , mas não se pode criticar de forma pejorativa e agressiva, pois isto pela experiência sempre deixa alguém ofendido, que revida.

2) É proibido postar assuntos referente a PETROS , pois existe vários grupos específicos para tal, na reincidência podendo ser retirado do grupo por 7 dias.

2.1) Segue as observações do iem 1.1

3) Todos membros do grupo tem o status de administrador, isto para que todos possam opinar com mesmo peso nas decisões, entretanto qualquer membro pode abdicar desta função se assim desejar.

3.1) Aos novos participantes poderá ser feita perguntas para identifica-los tais quais ( nome, local aonde trabalha ou trabalhou, referência de grupo ou pessoa ) de forma a minimizar a presença de hackers no grupo. Após as respostas passarão a ter status de administrador.

4) Quem for inativo no grupo, sem qualquer tipo de  postagem poderá ser retirado do grupo caso o número de participantes se aproxime da capacidade máxima do grupo.

5)  O grupo será composto por qualquer Petroleiro, ativo ou não, que desejar participar, precisando somente informar o interesse a um dos administradores ou receber um convite na forma de link

5.1) Exceções para pessoas externas somente serão permitidas a parentes diretos, outras exceções serão raras.

6) Responsabilidade pelas decisões de investimento.

6.1) É estimulado ao grupo proceder recomendações de investimento e indicação de dicas específicas..

6.2) Fica claro que qualquer membro do grupo  ao receber uma dica, deve este procurar informações de forma a detalhar o seu conhecimento sobre a dica especifica e avaliar os riscos do investimento. Ninguém do grupo é responsável pelas nossas decisões pessoais de investimentos..

7) Gerenciamento de conflito

7.1) No caso que for identificado alguma falha grave de um participante, qualquer administrador poderá colocar um alerta sobre o fato no grupo, que poder ser seguido ou não de análise crítica por todos

7.2) Se houver reincidência qualquer administrador poderá retirar o status de administrador do colega faltosos, que poderá reinvidicar o retorno a administração se a maioria aceitar

6.3 ) se o mesmo participante continuar procedendo alguma falta grave será retirado do grupo por um administrador que posteriormente escutará o grupo se a decisão foi justa ou não, neste último caso será convidado para retornar na condição de não administrador.

Conclusão:

Pedimos então a colaboração de todos, o sucesso do grupo e do nosso desenvolvimento pessoal e financeiro está na  forma altruísta e generosa em compartilhar nosso conhecimento e dúvidas.

E lembre-se o grupo é de todos.

sábado, 1 de maio de 2021

O fruto do nacionalismo(Fernando Reinach, Estado, 1 5 21)

 FERNANDO REINACH - O fruto do nacionalismo

COLUNISTAS

sábado, 1 de maio de 2021 


 

O Estado de S. Paulo  / Metrópole



O Brasil se mostrou incapaz de executar um distanciamento social rígido e longo o suficiente para controlar o espalhamento do coronavírus. Temos relaxado as medidas assim que as mortes se estabilizam.


Nessas condições, a única medida que pode controlar a pandemia, antes que todos sejam infectados, é a vacinação. O consenso nos países que estão controlando a pandemia é de que 70% a 85% da população precisa estar imunizada, pela vacina ou pela infecção, para conter a pandemia. Esses números podem mudar, dependendo das novas variantes.


Em meados de 2020, o governo definiu sua estratégia inicial. Recusou-se a comprar doses prontas de vacina e apostou na produção local pela Fiocruz e pelo Instituto Butantan. Como não estavam desenvolvendo as próprias vacinas, estes dois fizeram parcerias com produtores estrangeiros: o Butantan com a Sinovac, chinesa, e a Fiocruz com a AstraZeneca.


Esses contratos de transferência de tecnologia preveem duas etapas. Nos primeiros seis meses de 2021, os institutos receberiam a vacina praticamente pronta em grandes lotes e fariam o envase no Brasil.


Durante esse período, os dois institutos construiriam fábricas para produzir localmente a vacina (o chamado IFA), de modo que, a partir do segundo semestre, a produção fosse totalmente nacional. Para isso, ambas receberam financiamento do governo e doações para construir as fábricas. Se desse certo, o Brasil teria 400 milhões de doses até o fim de 2021, suficientes para vacinar toda a população.


Infelizmente o plano desandou. Estamos no início de maio e apenas 64,5 milhões de doses foram entregues 32,3% do previsto para o primeiro semestre. Já a importação de ingrediente farmacêutico ativo (IFA) tem sofrido atrasos e cortes - as fabricantes não têm cumprido os prazos.


Muito provavelmente a entrega do IFA correspondente aos primeiros 200 milhões de doses só chegará no segundo semestre. É isso que explica nossa vacinação a conta-gotas.


Além disso, as fábricas para produção nacional estão atrasadas: a Fiocruz promete agora que a sua estará em operação em setembro, mas sequer conseguiu fechar o contrato de transferência de tecnologia. O Butantan já anunciou que a sua só ficará pronta no início de 2022.


Para piorar a situação, as duas vacinas em que o Brasil apostou são provavelmente as de menor eficácia. Hoje os cientistas acreditam que as melhores vacinas são as baseadas em mRNA (Pfizer e Moderna). A da AstraZeneca, apesar de aprovada na Europa e no Brasil, ainda não foi aprovada nos Estados Unidos. E a Coronavac ainda é pouco conhecida e não se sabe se ela será aprovada pela Organização Mundial da Saúde.


Para amenizar o problema, o Instituto Butantan resolveu desenvolver em parceria com os americanos a Butanvac, cujos testes em humanos (fases 1, 2 e 3) sequer foram aprovados pela Anvisa. E, portanto, nada se sabe sobre sua eficácia.


Agora, com a chegada do primeiro milhão de doses da vacina da Pfizer, o Brasil está diversificando suas apostas, o que deveria ter feito um ano atrás. Se a Pfizer entregar de fato 100 milhões de doses até setembro, ela pode vir a ser vacina com mais doses no País - já que é pouco provável que o Butantan e a Fiocruz entreguem esse número de doses até lá.


A partir de agora, a estratégia mais lógica aqui é garantir que Butantan e Fiocruz consigam produzir o IFA o mais rápido possível, e combinar as doses desses programas com as vacinas importadas, de preferência as de tecnologia do mRNA (Pfizer e Moderna) e as que necessitam de somente uma dose (Jansen).


Essas vacinas provavelmente vão ser aprovadas para crianças nos próximos meses, o que dificilmente ocorrerá com a Coronavac. Se o governo tiver sucesso nessas negociações, pode ser que consiga aplicar as 400 milhões de doses até o fim do ano.


Mas uma coisa é certa, chegaremos no fim do ano com mais de 600 mil mortos ao evitarmos o distanciamento social rigoroso. Quantos dessas mortes poderiam ter sido evitadas se a estratégia de vacinação tivesse rejeitado o nacionalismo exacerbado é difícil de saber, mas serão centenas de milhares.


É difícil saber quantas vidas seriam poupadas ao evitar o nacionalismo exacerbado


sábado, 10 de abril de 2021

Morre Alfredo Bosi, o maior crítico literário do Brasil(Carta Capital, 8 4 21)

EDITORIAL - Perda irreparável

quinta-feira, 8 de abril de 2021 


 

Revista Carta Capital  / Editorial

Mino Carta


Morre Alfredo Bosi, o maior crítico literário do Brasil





Quanta falta vai fazer Alfredo Bosi para o Brasil e para mim, especificamente. Foi o grande crítico literário do País até sua morte, por Covid, dia 7 de abril de 2021, em São Paulo, aos 84 anos. De verdade, eu já sabia que ele se despedira da vida muito antes, quando do falecimento da sua mulher, Ecléa, quatro anos atrás. Professora do Instituto de Psicologia da USP, era a sua companheira inseparável, desde quando ambos passaram dois anos em Florença, graças a uma bolsa de estudos concedida pelo governo italiano no começo dos anos 60. Lembro-me dele para sempre na calçada de uma rua do bairro paulistano do Itaim, à porta de um restaurante, onde almoçaríamos juntos para falar do meu penúltimo livro, O Brasil, publicado em 2013 pela Editora Record.





Veio ao meu encontro com um sorriso que nele era inconfundível, miúdo e elegante. Ousadamente eu submetera a minha obra ao seu crivo agudíssimo e, ao cabo, ele decidiu escrever uma carta para desenvolver a sua análise com a pronta cortesia, que nele era típica. Não resisto à tentação de citar o que disse em um momento da missiva: “O narrador nunca deixa de pontuar o cafonismo kitsh colado ao grã-finismo paulista, figurado pelo ponto de vista de um anarcossocialista aristocrático e renascentista chamado Mino Carta. (...) Qual é o desígnio do texto? Levar ao ridículo a nossa burguesia arrivista e puni-la metodicamente, mas sem nenhuma esperança de corrigi-la”.





Nasceu ali, entre uma garfada e outra de um peixe assado debaixo do sal, uma amizade muito sólida, iluminada pelos versos de Giacomo Leopardi e pelo pensamento de Antonio Gramsci, autores que conhecíamos literalmente de cor. Lembro de um jantar na minha casa, em que começamos a recitar em coro um poema de Leopardi, intitulado O Infinito.­ Infelizmente, o nosso tempo foi breve, mas tive a ventura de conhecer Ecléa, que o acompanhava a vários encontros noturnos à beira de garrafas ilustres. Noitadas memoráveis marcadas pelas afinidades eletivas. Alfredo era um especialista em literatura italiana, que lecionou por um bom tempo na USP, mas foi ainda um estudioso atilado da literatura brasileira, que também lecionou no Departamento de Letras Clássicas e ­Vernáculas da FFLCH desde 1970. A sua vocação de professor mereceu-lhe inúmeras honrarias no Brasil e mundo afora.





Dois filhos nasceram do casamento feliz, Viviana e José Alfredo. Ao me apresentar a filha, ele me disse, comovido: “É a cara da Ecléa”. Depois da morte da esposa vivia recluso, mas ainda assim consegui encontrá-lo algumas vezes para o meu enlevo, pois com ele sempre havia o que aprender em torno de argumentos que nos empolgavam a ambos. Personagem più unico che raro, conforme soletra uma típica expressão italiana.