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quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Metaverso entra em cena como a próxima era da internet (CAROLINA NALIN, 31 de outubro de 2021)

 Metaverso entra em cena como a próxima era da internet

'Bigtechs' e fundos globais aceleram investimentos para que realidade digital surgida nos games alcance o cotidiano

domingo, 31 de outubro de 2021


 

O Globo  / Economia

CAROLINA NALIN


Imagine um mundo onde não há mais fronteiras entre espaço físico e digital. Nas ruas, pessoas poderão usar óculos que executam comandos para filmagem ou projeção de encontros com amigos que estão a quilômetros de distância. Minutos depois, entram no escritório, onde as reuniões não são mais remotas ou presenciais -são um misto dos dois formatos, numa experiência imersiva. Na hora do almoço, dá para curtir um evento musical sem que o espaço físico limite o tamanho do público no local. Bem-vindos ao metaverso.


Parte desse mundo, que pertencia aos filmes de ficção científica, já começa a se tornar realidade -e é a nova fixação das big techs, levando a uma onda de investimentos milionários em start-ups.


Na semana passada, o Facebook anunciou que seu nome corporativo será Meta -a rede social e suas outras marcas, como Instagram e Whatsapp, seguirão chamadas pelo seu nome atual. A empresa já anunciou que vai investir US$50 milhões no metaverso e lançouo aplicativo Horizon Workrooms, para reuniões corporativas. E não está sozinha. Outras gigantes da tecnologia, como Microsoft, Tencent e Nvidia, têm investido pesado em soluções tecnológicas para essa nova realidade digital de experiência imersiva.


Segundo projeções da Bloomberg Intelligence Unit, o metaverso deve movimentar US$ 800 bilhões até 2024. Surgido no mundo dos games, essa realidade digital entrou no mundo corporativo, atraiu marcas e celebridades e fisgou consumidores ávidos por novidades, ainda que só virtuais. A Gucci já vendeu uma bolsa Dionysus, que só existe neste universo paralelo, na plataforma de games Roblox pelo equivalente a R$21, 8 mil (ou 350 mil Robux, a 'moedalocal'). E uma live do avatar do cantor Travis Scott no game Fortnite atraiu nada menos do que 12 milhões de pessoas simultaneamente.


-A próxima onda da internet vai estar ligada ao metaverso. As empresas já entenderam que estar nos games é necessário para que elas vendam seus produtos. A atenção dos consumidores, assim como hoje está nas redes sociais, vai estar nesse ambiente. E, naturalmente, as empresas vão precisar estar lá -diz André Micelli, coordenador do MBA de Marketing e Negócios Digitais da FGV.


5G E'GADGETS' PARA IMERSÃO


O potencial desse novo ambiente alimenta uma onda de financiamentos a start-ups dispostas a ajudar a construir as bases para que o metaverso se incorpore ao cotidiano de bilhões de pessoas, do lazer ao mercado de trabalho. São vários os exemplos. A Magic Leap, 'unicórnio' que produz óculos de realidade aumentada, captou US$500 milhões para a criação de um fone de ouvido. O SoftBank, gigante que é um dos principais financiadores globais para start-ups, criou um fundo que investirá US$ 170 milhões na plataforma de metaverso Naver Z Corp.


POTENCIAL BRASILEIRO


De acordo com dados do CB Insights, há pelo menos 90 start-ups empenhadas em construir o metaverso. Essa indústria abrange desde equipamentos (hardware), passando pelos wearables (dispositivos eletrônicos, como óculos de realidade virtual), softwares de computação 3D e processos computacionais como NFTs (sigla para tokens não-fungíveis, uma espécie de selo virtual de autenticidade de objetos virtuais) e o blockchain (sistema que garante a segurança da operação). Tem ainda a infraestrutura de redes de telefonia móvel com o 5G, cuja velocidade de conexão será determinante para permitira experiência final do ser humano como usuário e criador de conteúdo no metaverso.


O Brasil também está na mira. Como destaca José Gabriel Bernardes, analista da gestora Fuse Capital, o país tem uma grande vantagem nesse mercado: consumidores. De acordo com a consultoria Newzoo, há 94, 7 milhões de gamers no país.


- RE certo que o consumidor brasileiro vai aderir ao metaverso, da mesma forma que já tem enorme aderência às redes sociais, com tempo médio gasto nelas bem maior do que em outros países. E essa mudança de nome do Facebook é mais uma prova de que a digitalização e descentralização estão virando realidade -diz Bernardes.


Segundo Guilherme Zanin, estrategista da Avenue Securities, a abertura de capital da Roblox favorece a atração de capital para essa empreitada. A plataforma de games, com jogos que simulam o metaverso, já tem 48 milhões de usuários ativos por dia, mais do que a população inteira da Espanha ou Canadá. A empresa chegou à Bolsa de Nova Yorkem março deste ano, valendo US$38 bilhões. À mudança de nome do Facebook atraiu para o tema investidores que são clientes da Avenue, diz Zanin:


- Apresentamos a eles empresas como a Fastly, Roblox, Nvidia, AutoDesk e inclusive o Meta ETF (fundo negociado em Bolsa com cerca de US$ 100 milhões em ativos, que reúne especificamente as empresas ligadas ao metaverso). Ninguém quer ficar de fora do que pode ser o futuro.


SEM 'DESLOGAR' O AVATAR


Apesar das discussões sobre a criação do metaverso estarem mais avançadas em países como Estados Unidos e China, há espaço para empresas brasileiras, avalia Renato Valente, sócio do Iporanga Ventures, gestora de venture capital:


- Para funcionar, o metaverso tem que ser algo construído não por alguns, mas por muitos. Se não, serão vários 'silos' e isso não gera valor no longo prazo. As empresas do Brasil podem participar com a construção de soluções para o metaverso ou um espaço, uma realidade dele.


Thiago Toshio, especialista em tecnologia criativa de GoVision e BoomPReal, explica que o principal entrave para a consolidação do metaverso é a interoperabilidade. Esse novo espaço deve ser a união de vários ambientes, permitindo ao usuário transitar entre plataformas sem 'deslogar' seu avatar.


- Tem também a questão do 5G e da computação. Quando falamos de mundo 3D, precisamos de uma renderização, que é o processamento de um objeto nesse ambiente, (que deve ser rápido) para se ter uma experiência em tempo real sem ruídos. Isso depende de ferramentas e padrões de intercâmbio. Quais padrões precisam estar acordados entre as bigtechs ou as primeiras frentes de metaverso serão construídas fragmentadas? Há muito a ser desenvolvido -diz Toshio.


Conrado Leister, diretorgeral do Facebook no Brasil, em entrevista recente, reconheceu que o desenvolvimento desse extenso mundo virtual não é tão simples quanto nos filmes de ficção científica: - Vai levar alguns anos, infelizmente ainda tem muito para desenvolver. Mas acho que vai ser disruptivo e concordo com a visão de que vai ser o novo sistema operacional de verdade. (Colaborou Julia Noia)


Da ficção para a realidade


> O que significa 'metaverso"? Descrito pela primeira vez em 1992, o termo apareceu no livro de ficção científica 'Snow Crash", de Neal Stephenson, e designa um espaço coletivo que converge o mundo real com um espaço virtual. Hoje, tecnologias como realidade virtual (RV) e realidade aumentada (RA) buscam romper a fronteira existente nesses ambientes, e podem ter aplicações em diversos setores - como games, plataformas de streaming, programas para videoconferências no mundo corporativo ou eventos de entretenimento, como shows.


> Como surgiu? O desenvolvimento mais recente deste mundo paralelo digital no qual as pessoas interagem por meio de avatares se deu nos games. Um ensaio, nos anos 2000, foi a onda de jogos virtuais como o Second Life, da Linden Lab. Mas estão surgindo tecnologias capazes de tornar essa ambiência digital, o metaverso, mais abrangente e de amplo acesso simultâneo.


> Quem já domina? Plataformas degames como Roblox e Fortnite já formalizaram sua entrada no metaverso promovendo várias experiências imersivas com milhares de usuários em tempo real. Facebook e Microsoft investem pesado nessa nova fronteira. A experiência imersiva muitas vezes inclui o uso de gadgets, como óculos de realidade virtual.


> Como marcas vão se apropriar do metaverso? Com a aceleração da digitalização de negócios e serviços na pandemia, marcas devem intensificar ações de marketing virtual e até a venda de produtos que só existem on-line, com reflexo na economia real.

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

As transformações globais e a Defesa(Rubens Barbosa , Estado de S. Paulo, 12 de outubro de 2021 )

 Rubens Barbosa - As transformações globais e a Defesa

terça-feira, 12 de outubro de 2021


 

O Estado de S. Paulo  / Noticias

Rubens Barbosa


As Forças Armadas no A Brasil, para seu fortalecimento, deveriam passar por ajustes e transformações para responder aos desafios das profundas mudanças no cenário internacional. O crescente avanço tecnológico das últimas décadas transformou significativamente os paradigmas dos conflitos e das ameaças, exigindo de todos os países um questionamento permanente de adequação das estruturas de seus instrumentos de defesa e dos conceitos neles vigentes.


O Centro de Estudos da Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) elaborou documento de trabalho sobre a Política e a Estratégia Nacional de Defesa e encaminhou recomendações ao governo e ao Congresso para, num sentido mais amplo, aprimorar as instituições e processos voltados para questões da defesa nacional.


As recomendações abrangem três áreas consideradas relevantes e estratégicas:


- Elevação do nível de tratamento pelo poder público dos temas de defesa, desde sua formulação até a implementação de políticas de defesa;


- Transformação urgente nas instituições de defesa, de forma a adequá-las às necessidades do País diante dos novos paradigmas de conflitos e torná-las ajustadas às boas práticas internacionais;


- Incrementar a participação de profissionais civis nas várias atividades voltadas para o preparo da capacidade militar, tanto as operacionais de combate como as de logística de defesa (industriais e pesquisa e desenvolvimento).


A primeira recomendação do Cedesen para a formulação de uma política nacional de defesa, e não apenas de defesa nacional, seria atribuir ao Conselho de Defesa Nacional (CDN), instituição do mais alto nível no âmbito do Executivo, a responsabilidade pela elaboração de documento abrangendo defesa, segurança e diplomacia e suas interfaces com o desenvolvimento, o que permitiria maior participação dos órgãos diretamente interessados em questões de defesa e segurança. Adicionalmente, para que o Congresso Nacional possa ter melhores condições de acompanhar os principais temas relacionados com a defesa e a segurança nacional, seria essencial a existência de um foro permanente que unisse as duas Casas do Poder Legislativo. Nesse sentido, o Cedesen recomendou o exame da possibilidade de criação de comissão mista de caráter permanente, integrada por deputados e senadores, para tratar de matérias de competência do Congresso Nacional na área de defesa e segurança nacional. Até aqui, cabe ao Ministério da Defesa (MD) a responsabilidade principal de elaboração da Política e da Estratégia Nacionais de Defesa, inclusive do Livro Branco da Defesa Nacional. Na prática, entretanto, ocorre um reduzido envolvimento de outros órgãos, particularmente dos Ministérios das Relações Exteriores, Justiça e Economia, além, em particular, do próprio Congresso Nacional, como representante do povo brasileiro.


No tocante às mudanças institucionais nas estruturas de defesa, todos os países com alguma relevância econômica e/ou militar no cenário internacional se ajustaram à aceleração do desenvolvimento tecnológico, com a consequente e rápida obsolescência dos sistemas de armas e seus componentes críticos, com impacto na eficácia e sua manutenção. Foi levado em conta o aumento contínuo e significativo do custo dos sistemas de armas, particularmente pela necessária incorporação dos avanços tecnológicos, as restrições orçamentárias crescentes para a função defesa em períodos de paz e o interesse em contar com maior profissionalismo para a execução das atividades de logística de defesa, que se encontram entre as mais complexas que existem.


A recomendação feita pelo Cedesen, semelhante à encontrada nos principais países desenvolvidos, foi no sentido da separação das atividades de operações de combate e afins das de logística de defesa destinadas a aparelhar e apoiar o emprego das unidades combatentes das Forças Armadas. As atividades de aquisição de produtos e sistemas de defesa e de desenvolvimento de atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação específicas para defesa ficariam com um órgão independente das Forças Armadas, mas subordinado diretamente ao MD. Este órgão, que poderia evoluir a partir da Secretaria de Produtos de Defesa (Seprod), seria dotado de um corpo profissional de militares e civis com formação e capacitação adequadas e, no caso dos militares, com carreiras totalmente independentes das carreiras militares. Com relação à participação de profissionais ou especialistas civis, há muito vem sendo apontada a necessidade de sua admissão, no âmbito do Ministério da Defesa e de seus órgãos subordinados. Nesse particular, o Cedesen recomendou que a definição dos cargos e perfis profissionais que mais se adequem a uma ocupação por especialistas civis seja feita no âmbito dos estudos visando à transformação das instituições de defesa.


Na semana passada, o Cedesen realizou encontro (YouTube/cedesen-interesse nacional) para discutir as transformações no MD. As outras duas recomendações serão examinadas publicamente durante o corrente mês. Essas reuniões têm como objetivo ampliar o conhecimento e o envolvimento da sociedade civil no exame de temas de interesse da defesa e da segurança nacional. E o fortalecimento das Forças Armadas.


"É preciso aprimorar as instituições e processos voltados para questões da defesa nacional"


PRESIDENTE DO CEDESEN

sexta-feira, 24 de julho de 2020

A Lei do WhatsApp pode funcionar(Pedro Doria, Estado, 24 7 2020)

PEDRO DORIA : A Lei do WhatsApp pode funcionar

sexta-feira, 24 de julho de 2020 

  
O Estado de S. Paulo  / Economia



Uma das consequências da Lei das Fake News que foi aprovada no Senado e segue tramitando na Câmara é que a sociedade civil rachou. Boa parte das pessoas que estudam redes sociais, desde o início, viu ali a abertura para um risco de censura pelas plataformas - Facebook, Twitter, Google. Mas houve um grupo bastante específico, aquele dos que estudam não as redes, mas os apps de mensagens, que defendeu o projeto. E eles têm um bom argumento.

De certa forma, quando o assunto é desinformação, damos atenção excessiva às redes sociais. Elas são importantes mas, no Brasil, central mesmo é o WhatsApp. Boa parte do trabalho do gabinete do ódio, da máquina de ataques, explora as fragilidades desse aplicativo. Tratase, evidentemente, do app utilizado para a comunicação básica do dia a dia por dez entre dez donos de smartphones entre nós. E o artigo 10 da lei aprovada, que fala desses serviços de mensageria, po- de ter chances de funcionar.

É inteligente o suficiente para não exigir das plataformas - que incluem apps como o Messenger e o Telegram - mudanças de código que expulsem suas empresas do mercado brasileiro. O artigo não exige que a criptografia do Zap seja quebrada. E, ainda assim, é capaz de identificar quem disseminou informações que manipulam a percepção de realidade de cada cidadão.

Estes são, todos, pontos muito importantes, pois acertam em cheio os argumentos sobre ser impossível controlar os apps. Oficialmente, o que executivos do WhatsApp dizem, no Brasil e lá fora, é que eles não são serviços de broadcast. Servem a conversas entre poucos. E têm números - mais de 90% das trocas de mensagens ocorrem entre duas pessoas.

O problema é que há um certo cinismo nesse discurso. Ninguém pode criar um serviço de assinatura de informações. Assine aqui e enviaremos notícias, piadas, imagens, seja lá o que for.

Mas o WhatsApp inclui, entre as possibilidades, grupos de conversas e listas de transmissão. Uma pessoa envia uma mensagem para uma lista de transmissão com 256 contatos e cada um desses contatos reenvia para uma lista do mesmo tamanho, já dá 65 mil pessoas que receberam em segundos um meme. Na segunda rodada, já passa do milhão.

Quem lê gabinete do ódio por vezes pensa em um ou dois assessores na antessala do presidente Jair Bolsonaro. É muito mais do que isso. Na primeira hora após o assassinato da vereadora Marielle Franco, antes que a maioria das pessoas nem sequer soubesse do crime, já circulavam no Zap falsificações a seu respeito. Qualquer um que tenha frequentado um grupo bolsonarista sabe que há dezenas de áudios, de memes, de vídeos novos todos os dias. Sobre os assuntos do dia, sobre os inimigos do dia. A máquina não para.

Encriptação não é um problema por uma razão simples. Os arquivos maiores que circulam muito, vídeos, áudios ou mesmo algumas imagens, não são encriptados como as mensagens de texto. São armazenados nos servidores do WhatsApp. Quem encaminha não envia do seu celular para outro aquele arquivo pesado. Para economizar banda e processamento, esses arquivos, o WhatsApp já mantém nos servidores. E é nisso que o texto do artigo entra.

Como já são armazenados de qualquer forma, a lei pede que as empresas de mensageria mantenham o registro de quem enviou consigo. Vale para quando uma mesma mensagem foi mandada por mais de cinco usuários num intervalo de 15 dias. Se aquele arquivo chegou a menos de mil pessoas, descarta. Caso tenha chegado a mais gente, se um juiz pedir para saber a origem da mensagem em processo que envolve conteúdo ilícito, aí a empresa identifica.

Esse é, possivelmente, o artigo mais importante da lei inteira. E pode funcionar.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Zoom: teste para o Vale do Silício(Pedro Doria, 12 6 2020)

Pedro Doria: Zoom: teste para o Vale do Silício


Sexta-feira, 12 de Junho de 2020 

É hora de começar a prestar atenção no Zoom. Não no aplicativo, mas na empresa. Nos últimos poucos meses, o fundador da companhia, Eric Yuan, se tornou um dos homens mais ricos do mundo, múltiplas vezes bilionário. O aplicativo era um que ninguém realmente conhecia. Agora, tornouse substantivo comum de uso corrente — vamos fazer um Zoom? Pode parecer uma história de sucesso, mas ainda é cedo. E este será um teste importantíssimo para o Vale do Silício.

Yuan, que é chinês, se mudou para os EUA no final dos anos 1990 para se juntar à Webex, uma jovem startup do Vale do Silício que construiu um dos primeiros sistemas de teleconferência. No início, não tinha vídeo. Mas permitia compartilhar a tela do computador enquanto, via telefone, as pessoas conversavam em reuniões por áudio. Foi naquele tempo pré-bolha, no qual se tinha ponto com no nome havia a promessa de tornar qualquer um milionário.

Pois é e fez. A Cisco, maior fabricante americana de equipamentos de infraestrutura de rede, comprou a startup. Yuan fez algum bom dinheiro, embora não tanto quanto os fundadores. E foi ficando, se habituando à estrutura de uma empresa gigante quando sua única experiência era com a aventura de começar um negócio.

É um sujeito respeitado. Um ex-executivo da Cisco e o fundador da Webex estão entre os investidores iniciais da Zoom. Sugere confiança de quem trabalhou com ele. Embora não fosse o plano, a lógica que seguiu para desenvolver seu produto está diretamente ligada à explosão, ao sucesso quando veio a pandemia.

Zoom, claro, é a plataforma de vídeo que todos usamos para conversar com gente querida enquanto estamos em casa. Mas nasceu como um sistema voltado para empresas. Não é um mercado simples, este de negócios e grandes contratos. Para ele, a Microsoft tem um produto e Webex ainda é usado por muitos.

Dois truques do Zoom, porém, lhe permitiram crescimento. O primeiro é que é simples de usar. Basta gerar um link, enviar, e pronto. Basta clicar e a pessoa já está dentro da conversa, mesmo que não tenha o aplicativo. Por trás há uma engenharia pesada, que mantém fluido o envio para a nuvem de imagens de vídeo em HD de, às vezes, centenas de pessoas simultaneamente. É simples, pois. O outro truque foi de marketing — a ideia de que os primeiros 40 minutos são gratuitos. Assim, fizeram guerra de guerrilha. Por vezes as empresas tinham a licença de um software, mas os funcionários lançavam mão do Zoom porque era simples, porque era fácil e, ora, era só uma conversa rapidinha. Criou hábitos.

Quando viemos todos para casa, ocorreu de haver muita gente que conhecia o software e foi usando para também encontros pessoais. O boca a boca pegou o Vale do Silício todo de surpresa. Google e Facebook têm sistemas para uso pessoal de videoconferência, além de os profissionais estarem também circulando por aí. Porém foi um outrora desconhecido que disparou.

A beleza do mundo da tecnologia é justamente essa: alguém miúdo e fora do radar, no momento da necessidade, tem uma solução melhor e em pouco tempo larga na frente dos tubarões. O problema é que esta ‘meritocracia’ valia noutros tempos. Conforme o Vale do Silício dominou o mundo, as regras mudaram. As gigantes são tão gigantes, que esmagam qualquer novo concorrente de uma de duas maneiras. Ou compram a empresa jovem, ou então copiam na cara dura os recursos que fazem de seu produto um sucesso. Assim, garantem o monopólio.

Mas há governos de olho nas práticas monopolistas. O que acontecerá com o Zoom é um teste.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

O influenciador, o político, o gado(Pedro Doria Estado, 1 5 2020)

PEDRO DORIA: O influenciador, o político, o gado


Sexta-feira, 1 de Maio de 2020 

A influenciadora fitness Gabriela Pugliesi deu uma festa de arromba no último sábado convidou outros influenciadores e publicou os vídeos no Instagram. Aglomeração em tempos de pandemia. Como ninguém pensou que era um tiro no pé da própria imagem? Perdeu anunciantes às pencas e começou uma onda de perda de seguidores tão violenta que suspendeu a própria conta. É tática. Daqui a um tempo volta tendo estancado a sangria. Os seguidores continuam lá.

Sabemos o que faz um músico, uma cantora. Um ator, uma diretora de cinema. Um escritor ou uma jornalista. Um deputado, uma prefeita. Inúmeras carreiras dão a quem as segue um banquinho na praça pública, um lugar no qual subir e uma audiência que escutará. Todas são carreiras cujo nome nasce da atividade que a pessoa exerce. Estes nomes nos dão uma expectativa a respeito do que esperar de suas vozes. De artistas, certamente, sensibilidade a respeito das emoções. De jornalistas, o compromisso com os fatos. De políticos, conhecimento técnico da administração pública.

É evidente que nos desapontamos. Há artistas movidos pelo ego, jornalistas que trocam o rigor por interesses pessoais, assim como há políticos despreparados ou corruptos. Somos todos humanos e às vezes humanos vacilam. Mas sabemos o que esperar.

E o que faz um influenciador?

Percebam que o problema já está no nome. É um título que nasceu dentro de agências de publicidade que precisavam explicar aos clientes por que anunciar num certo canal de YouTube ou no Instagram de sei lá quem. Por que anunciar? Porque a pessoa é capaz de influenciar opinião e comportamento dentro de um nicho.

Na primeira geração da internet social, quem era capaz de se comunicar e construir grandes audiências tinha por nome blogueiro. Blogueiro é também descritivo do que faz. Influenciador é mais vago e piorou pela maneira como o mercado publicitário o tratou. Sem precisar lidar com os limites éticos impostos pelo jornalismo, um influenciador topa qualquer coisa por dinheiro. Às vezes tem até alguma preocupação com o que vender. A influenciadora fitness não vai falar de bebida açucarada - mas a preocupação é de coerência de marca, é dada por princípios publicitários. É branding.

Estamos numa fase de transição. Pessoas construirão grandes audiências. Influenciadores, mantenha-se ou não este nome horrível, continuarão a existir. Mas há uma lição fundamental para publicitários e marcas. Construir uma audiência é uma responsabilidade. O que você fala, o que você faz, como você atua quando em público tem de vir com reflexão. Quando o único critério de usar a influência é vender, quando construir audiência serve apenas à venda de produtos, o que sobra eticamente é nada. No fundo, é um tratar o público feito gado. É não ter respeito pela mensagem que se passa.

A palavra gado é importante, aqui. Porque não é diferente do que muitos dos populistas digitais pelo mundo fazem. Quando incorporam desinformação pelas redes sociais como ferramenta política, quando mentir está abertamente tudo bem, quando fake news é só uma estratégia de marketing eleitoral como todas as outras, não é só o eleitor que é ferido. Ele é tratado feito gado manipulável e quem sai ferida é a democracia.

Não sejamos ingênuos. Políticos sempre mentiram. É que, quando pegos, se envergonhavam. Hoje se defendem dizendo que disparar fake news é liberdade de expressão. Não, não é.

A ética na informação que se passa após a construção de uma audiência não mudou porque o mundo ficou digital. É claro que erramos. Todos. E Gabriela Pugliesi pediu desculpas. Que bom. A questão não é pessoal com ela. É com este novo meio. Precisa amadurecer mais rápido.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Facebook entra em águas perigosas (Martin Wolf, Valor Econômico)


Quarta-feira, 26 de Junho de 2019 - 05:22 
Valor Econômico | Opinião 


Na semana passada o Banco da Inglaterra divulgou o resultado de uma avaliação independente do futuro do sistema financeiro, juntamente com sua reação a isso. Como se quisesse provar a importância dessas questões, o Facebook e 27 parceiras anunciaram um plano de lançar uma moeda digital mundial que se chamará Libra e um sistema de pagamentos associado a ela. Como se deveria estimar a relevância, o potencial e os riscos desses desdobramentos? Como os órgãos reguladores deveriam reagir? A resposta é: com cautela.

A revolução da informação, agora ampliada pela Inteligência Artificial (IA), certamente vai revolucionar o sistema financeiro. Oferece enormes vantagens potenciais, sob a forma de pagamentos mais rápidos e mais baratos, serviços financeiros de melhor qualidade e melhor gestão de risco. Já assistimos a uma queda acentuada no uso de dinheiro vivo e a um crescimento explosivo dos pagamentos digitais. Na China, a revolução da tecnologia de pagamentos, encabeçada pela Alipay (atualmente parte da Ant Financial), é extraordinária. O Facebook está tentando criar um concorrente. Note-se bem: nesse caso, os EUA estão seguindo o exemplo da China.

Mas o sistema financeiro também é uma infraestrutura decisiva. Um colapso do sistema financeiro tende a criar uma enorme crise econômica. A inovação mal compreendida revelou ser, muitas vezes, a parteira de calamidades como essas. É vital, portanto, garantir que as implicações de grandes inovações, como a Libra, sejam bem entendidas. Mark Carney, presidente do Banco da Inglaterra, argumentou na semana passada em seu discurso na Mansion House que o banco “se aproxima da Libra com a cabeça aberta, mas não com a porta aberta”. A cabeça não pode se abrir totalmente, no entanto.

Uma primeira pergunta tem de ser se podemos confiar no patrocinador de uma inovação tão delicada. O Facebook foi repulsivamente irresponsável com relação a seu impacto sobre as nossas democracias. Não podemos, obviamente, lhe confiar os nossos sistemas de pagamento. O Facebook dispõe de uma resposta para isso: tem apenas um voto na Libra Association, que terá governança independente localizada em Genebra. A meta é ter 100 membros até o lançamento, em 2020. Mas o Facebook parece tendente a dominar o desenvolvimento técnico da Libra. Isso cer

tamente lhe dará uma influência hegemônica.

Randal Quarles, presidente do Conselho de Estabilidade Financeira, tem razão ao dizer aos dirigentes dos países do G-20, reunidos no Japão, que “um uso mais amplo de novos tipos de criptoativos para fins de pagamento de varejo asseguraria um monitoramento estreito pelas autoridades a fim de garantir que eles cumpram altos padrões de regulamentação”.

Portanto, independentemente das dúvidas com relação ao patrocinador, um novo sistema mundial de pagamentos tem de ser avaliado por sua estabilidade técnica, seu impacto sobre a estabilidade monetária e financeira (especialmente nos países em desenvolvimento) e sua vulnerabilidade aos fraudadores, criminosos e terroristas. Surgem também inquietantes interrogações sobre as concentrações de poder, no caso de a empreitada ter êxito.

O plano atual prevê apenas um sistema pagamento. A moeda em si, nas palavras do relatório técnico, deverá ser “integralmente lastreada por uma reserva de ativos reais. Uma cesta de depósitos bancários e de títulos governamentais de curto prazo será mantida na Reserva de Libras para cada Libra que for criada, consolidando confiança em seu valor intrínseco”. Esse valor, no entanto, será vulnerável às flutuações cambiais e aos choques financeiros (entre os quais os controles cambiais). Suas oscilações em relação às moedas podem incomodar os usuários. Os órgãos reguladores terão de avaliar as instabilidades associadas a um sistema desse gênero.

Não posso julgar a estabilidade técnica do sistema pretendido. A afirmação de que ele se baseia em tecnologia de “blockchain” [uma espécie de livro contábil eletrônico que armazena o registro das operações em blocos digitais] parece bastante questionável. Mas apenas apoiadores fanáticos de sistemas “não autorizados” têm de se preocupar com isso. O mais importante é que o sistema seja robusto, resistente a violações e que proteja a privacidade pessoal, sendo, ao mesmo tempo, suficientemente transparente para reguladores, autoridades judiciais e outros agentes legitimamente interessados pelos que o usam.

Uma questão decisiva é como a Libra vai interagir com os bancos tradicionais. Poderá privá-los de uma grande parcela de seus clientes, do lado dos pagamentos. Em contraposição, o sistema da Libra poderá deter enormes depósitos nos bancos, equiparados, do outro lado de seu balanço, a carteiras de Libra mantidas pelos clientes.

De forma alternativa, como disse Carney: “Com o surgimento de novos fornecedores e sistemas de pagamento, o acesso à infraestrutura central [do Banco da Inglaterra] deverá mudar, e faz sentido considerar se eles também poderiam deter recursos por um só dia no balanço do banco”. Dependendo do grau em que os bancos centrais criarem essas reservas (uma decisão que só cabe a eles), um sistema como o da Libra poderá contornar totalmente os sistemas tradicionais de pagamentos bancários. As vantagens históricas dos bancos como instituições de crédito especializadas poderão desaparecer.

Desponta uma possibilidade muito mais significativa: o sistema da Libra, com seu conhecimento dos clientes, se tornaria, ele mesmo, uma instituição de crédito, usurpando assim os balanços dos bancos tradicionais do lado dos ativos. Na pior das hipóteses, o mundo poderá ter um monobanco dominado pelo Facebook. Os riscos disso são enormes: instabilidade monetária e financeira, concentração de poder econômico e político, falta de privacidade e muitos outros problemas potenciais.

Uma moeda mundial, criada pela concessão de empréstimos de um banco mundial (uma vez que os bancos criam dinheiro como subproduto de seus empréstimos), em uma moeda (a Libra) não respaldada por qualquer banco central e desprovida de regulador dominante, parece criar um risco apavorante à estabilidade.

Existe, efetivamente, potencial para sistemas de pagamento grandemente aprimorados. Mas o surgimento de um sistema de pagamento em uma rede da escala do Facebook levantaria algumas interrogações gigantescas. No caso de a Libra se desenvolver, em última instância, num verdadeiro sistema bancário, com capacidade para criar sua própria moeda autorizada (artificial), as interrogações se tornarão ainda mais prementes. Mesmo se forem descartados os empréstimos por meio do sistema da Libra, os reguladores não deveriam permitir que esse plano avance sem entender, plenamente, as implicações. Isso seria verdadeiro mesmo se o principal patrocinador não fosse o Facebook. Mas é. Portanto, tenhamos cuidado.

A primeira pergunta é se podemos confiar no patrocinador de inovação tão delicada. O Facebook foi repulsivamente irresponsável com relação a seu impacto sobre as nossas democracias. Não podemos lhe confiar nossos sistemas de pagamento

@economia @tecnologia

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Fintechs ajudam pequenos a terem acesso a crédito(Estado de São Paulo)


COM PROCESSO MAIS ÁGIL E MENOS BUROCRÁTICO, STARTUPS FINANCIAM EMPREENDEDORES COM TAXAS BAIXAS

Mateus Ajntd *

Se o acesso de pequenos empreendedores ao crédito cm instituições financeiras tradicionais pode se tomar um processo burocrático c com juros altos, fintechs (startupsfinanceiras) passaram a apostar cm empréstimos on-line por incio dc P2P (peer-to-peer-lending) para atender o nicho.

O P2P ou empréstimo coletivo c a prática dc emprestar dinheiro usando plataformas que conectam quem quer emprestar dinheiro a quem precisa dele, sendo que o valor total pode chegar por diferentes investidores. Em geral, são oferecidas taxas mais baixas ao tomador dc credito c, na outra ponta, disponibilizado um retorno superior ao investidor.

Firgun c Ncxoos sãoexem-plos dc startups que viram nesse cenário o potencial dc usar inovação para oferecer processos simples para empreendedores conseguirem crédito onde qualquer pessoa física ou jurídica possa investir. Nas plataformas, são feitas as análises dc crédito, além da definição do valor, do tempo do financiamento c das taxas dc juros.

“Duas situações que combinam para o crescimento dessas fintechs são as condições do crédito c a agilidade do processo. O pequeno empreendedor vai procurar as fintechs quando já tomou um ‘não’ dc um banco ou lhe foi oferecido um crédito fora da realidade”, diz o pesquisador do Centro dc Microfinançase Inclusão Financeira da FGV Eduardo Diniz.

Diniz afirma que, se os juros, o tempo dc financiamento c o valor total estiverem dc acordo com a realidade do empreendedor, é seguro receber o crédito defintechs. “São empresas regulamentadas pelo Banco Central c são confiáveis como qualquer outra instituição financeira.”

As fintechs de credito, financiamentos c negociação dc dividas representam hoje 21% das fintechs do mercado, segundo a pesquisa FinTech Deep Divc 2018 da Associação Brasileira dc Fintechs (ABFintcchs) cm parceria coma PvvC Brasil (Pri-ccwaterhouscCoopcrs).

“O segmento vem crescendo c se fortalecendo com maior credibilidade. A perspectiva para os próximos anos é de crescimento c ganho dc mercado”, diz o líder da vertical de crédito da ABFintcchs, Fábio Neufcld.

Desde 2015 atuando no mercado, a Nexoos, fundada por Daniel Gomes e Nicolas Arrcllaga, já financiou R$ 134.937.388. “Tc-mos uma base dc mais dc 40 mil investidores. Eles veem as propostas que os empreendedores querem c fazem o investimento de quanto eles quiserem na empresa”, diz Arrcllaga.

Na Firgun, fintech dc impacto social criada em 2017 por Fábio Takara c Lemucl Simis, a taxa dc juros pode chegar a zero cm empréstimos de até RS

3.ooo. “A empresa nasceu da vontade de promover transformação de uma maneira sustentável financeiramente. Muitos empreendedores tem para crescerem, mas desistem por juros altos ou burocracias”, afirma Lemuel Simis.

Moradora da periferia de São Paulo c empreendedora desde 2012, Débora Fidelisatua no serviço de bufe com especialidade cm catcring, por meio da empresa Chef Debinha. Por conta de já ter tido nome sujo e scorc baixo, ela se viu impossibilitada de receber credito para alavancar seu negócio por vias tradicionais c se viu obrigada a tomar empréstimos com um agiota.

“Meu negócio não dava aquela alavancada e sempre ficava no ‘quase’”, conta Debinha, que conheceu a Firgun cm 2018. Foi por meio de um empréstimo de R$ 15 mil na plataforma que ela conseguiu comprar uma máquina de embalagem a vácuo, para entregar suas tortas com mais higiene c durabilidade. “Como parei de pegar dinheiro de meios alternativos, onde os juros eram muito altos, acabou me sobrando mais dinheiro e eu consegui ampliar a empresa.”

Além da máquina a vácuo, Debinha comprou um fatiador de frios, uma geladeira de porta dupla c um frcczcr vertical, com sobra para capital de giro. “Hoje, minha empresa consegue empregar oito pessoas, todas elas da periferia. Faturei R$ 800 mil cm 2018”, diz ela, que tem clientes como a rede íbis.


• ESTAGIÁRIO SOBA SUPERVISÃO DO EDITOR DE SUPLEMENTOS. DANIEL FERNANDES
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