domingo, 5 de maio de 2019

Globalismo, leite e outros equívocos(Pedro Cavalcanti e Renato Fragelli)


21/02/2019 - 05:00
Globalismo, leite e outros equívocos
Por Pedro Cavalcanti e Renato Fragelli
Causou surpresa na academia, pelo menos entre os economistas, o protagonismo dado ao tema Globalismo nos primeiros dias do
governo Bolsonaro. A questão é considerada irrelevante nos meios acadêmicos, sobretudo diante da falta de evidências empíricas que
suportem a tese. Mais que uma doutrina, o "anti-globalismo" é uma ideologia conspiratória da direita populista que possui pouca,
senão nenhuma, contrapartida nos dados e fatos. E ainda assim, tem enorme influência em setores importantes do atual governo.
Dada a confusão de conceitos, uma apresentação clara do Globalismo não é tarefa fácil. Segundo seus opositores, o Globalismo não
seria apenas uma ideologia, mas um esquema de dominação global. O objetivo último seria impor valores esquerdistas, uma moral
secular e ateia aos diferentes países, substituindo assim seus valores tradicionais. Por "tradicionais" entende-se principalmente cristãos
e (extremamente) conservadores.
Ideologicamente o Globalismo estaria associado ao "marxismo cultural". Isto parece implicar que os canais políticos, de propaganda e de ação da esquerda não estariam mais
ligados à luta de classes, mas agora à luta cultural. Daí o fato de o grande inimigo ideológico ser a escola de Frankfurt. Esse grupo de estudiosos é menos positivista e determinista
que os marxistas tradicionais e se dedicou, entre outros temas, a estudos da cultura e de sua ligação a temas econômicos e sociais. E por isso a oposição bastante forte dos antiglobalistas
às pautas identitárias, assim como à chamada ideologia de gênero, que seriam alguns dos canais de ação política e de tentativa de dominação dos marxistas culturais.
O populismo de direita pode levar a impasses na economia, dificultando a aprovação das reformas de que o país precisa
O toque final desta teoria da conspiração é a crença em que todas as instituições multilaterais mais importantes, como a ONU, FMI, OMC e a União Europeia, estariam
mancomunadas com importantes agentes do globalismo, como George Soros e Barak Obama - considerado um comunista radical - e outros marxistas-culturais, em um projeto de
subversão dos valores tradicionais das sociedades ocidentais.
O grande herói dos anti-globalistas é Donald Trump, visto como "o salvador da civilização ocidental" por um importante membro do governo Bolsonaro. A política comercial de
Trump, de enfrentamento aberto com a China, por exemplo, tem o apoio entusiasmado dos conservadores tupiniquins. Ocorre que essa política, até agora, só prejudicou os Estados
Unidos. Diante da retaliação chinesa, reduziu-se um importante mercado para produtos dos EUA, e encareceu-se a produção doméstica, já que os insumos importados da China


21/02/2019 Globalismo, leite e outros equívocos

ficaram significativamente mais caros. O efeito final provável será a diminuição, e não o aumento, do emprego industrial nos EUA, em contraste com o que promete Trump. Os
fatos, entretanto, são irrelevantes para uma ideologia que desconsidera os dados. O importante parece ser o enfrentamento da China, do globalismo e dos valores nocivos que
corromperiam a sociedade.
Para os anti-globalistas o comércio não seria uma simples troca benéfica para ambas as partes, mas um mecanismo de dominação internacional. Daí a hostilidade à China. Setores
do governo Bolsonaro e círculos em seu entorno andaram ensaiando atos de hostilidade ao país asiático, um caso clássico de um "rato que ruge", dada a desproporção entre a força
dos dois países na arena global. Ademais, como o Brasil vende à China - nosso principal parceiro comercial, não custa lembrar - commodities cujos preços são determinados no
mercado internacional, não está claro como esse enfrentamento pode nos beneficiar. O ganho provável é zero, mas o prejuízo plausível é a China comprar esses produtos alhures,
ficando o Brasil a ver navios vazios. A hostilidade do grupo aos fatos se estende, aparentemente, ao cálculo econômico.
A aliança dentro do governo Bolsonaro entre populistas de direita e liberais pode ser mais frágil que aparenta. O DNA do presidente não está na escola de Chicago e seu círculo
íntimo está coalhado de anti-globalistas. O presidente, por exemplo, sempre se opôs à reforma da previdência. Somente mudou de opinião ao perceber que não conseguiria
governar se não implantasse uma reforma fiscal radical. Privatização sempre foi um tema malvisto em seu grupo. O recuo na extinção da EBC e da EPL - a empresa do trem-bala -,
duas promessas de campanha, mostra que o cálculo político de curto prazo e a falta de convicção em muitas instâncias poderá dominar a racionalidade econômica e de gestão.
Essa contradição ficou bastante clara em recente medida de proteção à produção leiteira doméstica. Desde de 2001 a importação de leite em pó estava sujeita a uma tarifa adicional
anti-dumping. Esta - como era prática comum nos governos anteriores - vinha sendo renovada automaticamente, sem qualquer estudo ou evidência de que as supostas práticas de
dumpings persistiram (ou existiram...). Portanto, fazia todo o sentido que fosse eliminada e assim foi feito. Bastou, entretanto, o lobby dos produtores de leite se organizar, e a
ministra da agricultura solicitar, que o presidente aumentou a tarifa de importação do leite. Em suas próprias palavras, isso restabeleceria a competitividade da produção local.
Obviamente, em Chicago ou em qualquer escola de Economia, o canal para a maior competitividade é o aumento da produtividade e não o da proteção, que tende a eternizar a
baixa eficiência.
Esses são pequenos sinais do que pode vir à frente. Em anos recentes, o país sofreu muito com o populismo de esquerda. A irracionalidade de agora vem do populismo de direita.
Além do potencial de causar sérios problemas em nossas relações exteriores e em outras áreas chaves, como educação e cultura, a tendência pode levar a impasses na economia,
dificultando a aprovação das reformas de que tanto o país precisa.
Pedro Cavalcanti Ferreira é professor da EPGE-FGV
Renato Fragelli Cardoso é professor da EPGE-FGV e diretor da FGV Crescimento e desenvolvimento

https://epge.fgv.br/pt/noticia/globalismo-leite-e-outros-equivocos-pedro-ferreira-e-renato-fragelli-valor-economico-21-02

https://www.valor.com.br/imprimir/noticia_impresso/6129079 2/2

@política @Brasil

sábado, 4 de maio de 2019

Video: Show de inovação tecnológica


@tecnologia

Brasil perde empresa de alta tecnologia antes de se tornar um pais inovador(FSP)


domingo, 14 de abril de 2019 07:17
FOLHA DE S. PAULO | MUNDO

Autor: Érica Fraga e Flavia Lima

A indústria de alta tecnologia - que impulsionou a capacidade de inovar e o desenvolvimento de nações ricas como Estados Unidos, Alemanha e Coréia do Sul - está encolhendo no Brasil antes mesmo de deslanchar.

A constatação está em um estudo que mapeia, pela primeira vez, a evolução do peso de diferentes segmentos industriais no PIB ( Produto Interno Bruto ) brasileiro ao longo de décadas e indica que o país vive um rápido e precoce processo de desindustrialização.

Somados, os cinco segmentos da indústria mais sofisticada entraram nos anos 1980 com uma participação de 9,7% no PIB, depois de uma fase de expansão na década anterior.

Em 2016 - ano mais recente para o qual o recorte é possível - , essa fatia havia recuado para apenas 5,8% do PIB.

Os segmentos mais sofisticados reúnem a indústria de eletrônica e informática; máquinas e equipamentos; química; automobilística e farmacêutica.

As conclusões são do economista Paulo César Morceiro, que terminou seu doutorado na USP (Universidade de São Paulo) em 2018.

O trabalho, orientado pelo pesquisador Joaquim Guilhoto, da USP e da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), resultou em análises inéditas sobre a trajetória da indústria brasileira.

O setor como um todo atingiu, em 2018, sua menor participação no PIB desde 1947. Ele recuou para apenas 11,3%, menos da metade do pico de 27,3% atingido em 1986.

Comparada ao ocorrido em países que se desenvolveram, a queda rápida indicava um processo de desindustrialização precoce. Mas, para fechar esse diagnóstico, o ideal seria analisar o comportamento individual de cada setor, como Morceiro fez agora.

Os dados revelam que nenhum segmento da indústria brasileira ganhou participação no PIB entre 1980 e 2016. Entre 13 setores mapeados em quase quatro décadas, 11 perderam peso e 2 ficaram estagnados.

Parte da história mostrada pelos números reflete o processo normal de desenvolvimento econômico de um país. A trajetória das nações hoje ricas indica que, à medida que a renda cresce, há uma tendência de queda na participação do PIB dos segmentos menos tecnológicos - como têxtil, calçados e alimentos.

Isso decorre da mudança natural e até esperada no perfil de consumo da população.

Mas esse mesmo processo deveria elevar o peso dos setores de maior intensidade tecnológica na economia e sustentá-lo em um patamar alto por bastante tempo.

A demanda por produtos de maior valor agregado é o que explica essa segunda perna dos processos de industrialização e desenvolvimento econômico, na esteira do aumento da renda para um patamar mais elevado.

Não é, porém, o que tem ocorrido no Brasil.

Desde que a renda do brasileiro entrou na faixa considerada de nível médio (cerca de US$ 10 mil, em paridade do poder de compra), no fim dos anos 1970, tanto a indústria de menor intensidade tecnológica quanto amais avançada têm se tornado, gradualmente, menos relevantes.

Enquanto os segmentos menos sofisticados perderam 4,9 pontos percentuais de participação no PIB entre 1980 e 2016 (recuando de 11,6% para 6,7%), os setores de maior tecnologia encolheram 3,9 pontos percentuais.

"A indústria de mais alta tecnologia no Brasil não conseguiu sustentar seu pico de participação no PIB nem por uma década. É um resultado ruim se comparado ao de países que se desenvolveram", afirma Morceiro.

Como contraponto, o economista menciona dados de outra pesquisa que está fazendo sobre os Estados Unidos. Os setores industriais de maior intensidade tecnológica mantiveram uma participação agregada média de n% no PIB americano por 17 anos, entre 1953 e 1969.

No Brasil, esses segmentos se mantiveram próximos do pico de seu auge - entre 9,5% e 10% do PIB - por apenas sete anos, entre 1973 e 1980.

Outro aspecto ressaltado por Morceiro é que a fatia dos setores de média e alta tecnologia no PIB americano é superior ao dos segmentos menos avançados ainda hoje (6,2%, ante 5,4%, respectivamente, em 2017).

No Brasil, aponta o estudo, isso nunca ocorreu.

Um exemplo preocupante é o do setor de informática e eletrônica, que perdeu 0,2 ponto percentual de participação na economia desde 1980, representando apenas 0,9 % do PIB em 2016.

"Sem desenvolver esse setor, será difícil avançar para o estágio da indústria 4.0, que combina indústria e serviços sofisticados", diz Morceiro.

Segundo Rafael Cagnin, economista do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), o Brasil começou a se distanciar dos países que desenvolveram setore sindustriais mais avançados já nos anos 1980, enquanto enfrentava a crise da dívida externa e a hiperinflação.

Foi nesse período, diz ele, que outros países, incluindo os asiáticos, decolaram no desenvolvimento tecnológico.

"Perdemos o bonde desse processo e nem chegamos a desenvolver competências, empresas e atividades mais complexas desses ramos", afirma Cagnin.

Morceiro enfatiza que, desde então, repetidos períodos de câmbio sobrevalorizado contribuíram para tirar a competitividade da indústria brasileira, que sofreu ainda com uma abertura comercial pouco planejada nos anos 1990 e com a falta de políticas de incentivo bem desenhadas, focadas em inovação.

OLHO : "Perdemos o bonde desse processo e nem chegamos a desenvolver competências Rafael Cagnin economista do iedi


@tecnologia @Brasil

quarta-feira, 1 de maio de 2019

É hora de ousar e inovar(Adriano Pires, Estado de São Paulo)


sábado, 20 de abril de 2019 07:23
O ESTADO DE S. PAULO | ECONOMIA


Os preços da gasolina, do diesel e do gás de cozinha têm um efeito sobre a população difícil de entender e quase impossível de explicar. Nenhum outro bem tem essa mesma influência e apelo. Não temos notícias de uma mobilização nesta intensidade contra aumentos do pão, do feijão, dos remédios ou dos planos de saúde, estes, sim, fundamentais para a população.

E não é só no Brasil. Desde o ano passado temos visto o conflito social deflagrado na França pelos "Coletes Amarelos", que têm caminhoneiros na linha de frente do protesto. O estopim para a manifestação foi o aumento no preço do diesel no país, causado pela equiparação do seu imposto ao da gasolina, em razão de uma política ambiental de redução de emissões.

E o que causa toda esta revolta? No caso brasileiro, uma explicação está na relação entre a nossa sociedade e a Petrobrás. O monopólio legal da empresa, que durou 44 anos e ainda causa reflexos no setor, deixou no imaginário nacional a sensação de que a Petrobrás deveria atender aos desejos e sonhos de todos, ideia simbolizada pelo slogan O Petróleo é Nosso. Desde o início dessa campanha, em 1948, a Petrobrás se confunde com a psique da Pátria, com uma mentalidade de "ame-a ou deixe-a". Quem fala mal da Petrobrás não é brasileiro, e sim um vendilhão da Pátria. Pode-se até torcer contra a seleção brasileira, mas nunca contra a Petrobrás.

Ao longo do tempo, a empresa passou a financiar diversas atividades, visando a conquistar simpatia e apoio dos diversos segmentos da sociedade brasileira. Foram alocados recursos para patrocinar vôlei, futebol, festas juninas, cinema, teatro e até salva-vidas nas praias da zona sul do Rio de Janeiro, transformando a Petrobrás na verdadeira Campeã Nacional.

No início do governo Bolsonaro, que foi eleito como um defensor do livre mercado e da autonomia na gestão da Petrobrás, verifica-se que mais uma vez prevalece a velha prática de intervir nos preços, desta vez explicada por uma possível greve de caminhoneiros. Parece que não conseguiremos nunca nos livrar deste intervencionismo, que tanto estrago já provocou na Petrobrás e no Brasil. Será que estamos eternamente condenados a essa prática, recorrente em diferentes governos e levada ao limite no primeiro mandato da ex-presidente Dilma Rousseff?

É hora de ousar e inovar, criando um fundo de estabilização dos preços para evitar que a volatilidade da cotação do petróleo e do câmbio atinja diretamente os consumidores. A primeira fonte de receita seria o excedente de royalties. Esse montante seria calculado a partir da diferença entre o que foi provisionado no Orçamento da União, que prevê valores para o barril de petróleo e o câmbio, e o realizado na prática. Quando as cotações do petróleo e do câmbio superarem as expectativas, haverá um aumento na arrecadação do fundo, compensando a elevação no preço dos combustíveis.

Outra cifra que poderia ser incluída é a parcela de dividendos da Petrobrás a que a União tem direito como acionista majoritária. Dessa forma, a União e toda a sociedade brasileira passariam a ser sócias do sucesso da empresa. A última parcela seria composta pelo dinheiro recuperado da sonegação dos combustíveis. Com isso, estaríamos criando uma solução estrutural para acabar de vez com o intervencionismo no setor.

A ideia de um fundo para estabilização de preços já foi implementada com sucesso por vizinhos nossos. Entre 1985 e 2006, o Chile, grande exportador de cobre, adotou o Fundo de Estabilização do Cobre, que utilizava recursos acumulados no momento de preços altos para estabilizar o mercado nos períodos de queda.

O uso do fundo para minimizar a volatilidade dos preços garantiria a segurança regulatória e jurídica necessária para privatizar as refinarias, e mesmo a BR Distribuidora, e com isso trazer competição ao setor.

Intervenções políticas visando a atender a interesses específicos provocam impactos no longo prazo, com prejuízos ao setor e à Petrobrás, o que resulta em perdas para a União e, consequentemente, para toda a sociedade. Precisamos nos livrar de slogans ultrapassados e entender que "o petróleo é nosso; a Petrobrás, não".

Precisamos nos livrar de slogans ultrapassados e entender que 'o petróleo é nosso; a Petrobrás, não

@petróleo @petrobrás