sábado, 4 de fevereiro de 2017

Cadastro positivo enfrenta resistência de bancos

O Estado de São Paulo - 04/02/2017

A preocupação do governo é que as medidas microeconômicas não tenham um caráter intervencionista, de cunho voluntarista, mas sim efeito de fato.
O governo quer evitar o aconteceu com o cadastro positivo, que não funcionou na prática depois que a regulamentação foi lançada há alguns anos. "Em vários países do mundo, o cadastro funciona, mas no Brasil ele sofreu resistências porque os bancos não querem compartilhar informação da sua base de clientes. Isso porque esse compartilhamento aumenta a concorrência e eles perdem poder de mercado", disse uma fonte envolvida nas negociações.
A melhoria das garantias é outro ponto central para a redução do custo e da inadimplência, um dos itens que pesam para a elevação da spread bancário, além da carga tributária.
Para o ex-presidente do BC Armínio Fraga, a melhoria do cadastro positivo é muito importante nessa agenda. Ele lembrou que Ilan Goldfajn, quando integrou a sua equipe no BC, trabalhou numa agenda de redução do spread. Para ele, a retomada dessa estratégia vem em boa hora e deve incluir medidas para diminuir a concentração bancária e a entrada de novos concorrentes.
Segundo fontes, "querendo ou não os grandes bancos", há que se enfrentar a questão da alta concentração bancária.
"Não é uma bala de prata, mas também não pode ser ignorada", afirmou uma fonte. A estratégia é afastar as barreiras de entrada para os bancos estrangeiros no mercado, identificando as razões pelas quais eles não conseguem se manter rentáveis no Brasil, como Citibank, BBVA e tantas outras instituições que chegaram no passado ao mercado brasileiro.
Para o ex-diretor do BC Carlos Thadeu de Freitas, a redução do spread não vai acontecer de uma hora para outra, principalmente porque hoje os bancos não querem emprestar. Segundo ele, será preciso a redução da carga tributária. "Não faz sentido ter IOF sobre a intermediação financeira." Ele diz que o BC também precisa tirar os bancos da zona de conforto proporcionada pelas operações overnight de mercado aberto, que administram a liquidez do mercado.
Na sua avaliação, é necessário que os bancos tenham mais riscos nessas operações diárias para que sejam estimulados a emprestar mais.
Procurada, a Febraban não quis colocar um porta-voz para falar sobre a agenda. Disse apenas que apoia as iniciativas e está trabalhando junto com o BC para a melhoria do ambiente de crédito. / A.F.

Nujood Ali, divorciada aos 10 anos.


Nujood Ali é uma menina de 11 anos nascida no Iêmen e que aos 8 anos fora dada em casamento pelo pai. Aqui temos a história de seu divórcio.



sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Petróleo: é preciso rever política de conteúdo local - João Manoel Pinho de Mello

FOLHA DE S. PAULO - 03/02/2017
Política de conteúdo local no setor de petróleo aumenta os preços e provoca atrasos e prejuízos
Os entusiastas de política industrial postulam que o mercado é incapaz de estimular adequadamente alguns setores, o que justifica a liderança do governo.Por exemplo, a produção de plataformas de exploração de petróleo geraria bons empregos e renda. Abandonado à sorte do mercado, o produtor local não consegue competir porque não tem escala, experiência e financiamento.
O arsenal de instrumentos de política industrial é amplo. O capital é caro? Empréstimo subsidiado. Faltam escala e experiência? Isenção tributária e garantia de demanda à custa do cliente.
O último instrumento é chamado de Política de Conteúdo Local (PCL), muito usado no setor de petróleo. O governo exige que as petroleiras comprem plataformas com parte de componentes produzida no Brasil. É preciso rever a PCL.
A PCL aumenta o preço da plataforma e provoca atrasos e prejuízos porque o fornecedor local tem dificuldade de entregar o produto. Desde 2010, a Petrobras comprou dez plataformas de fornecedores nacionais. Nenhuma foi entregue no prazo. Os atrasos superam três anos. Isso aumenta o custo de exploração e reduz o apetite do investidor.
Houve 13 leilões de blocos de exploração de petróleo desde a quebra do monopólio da Petrobras. As exigências de conteúdo local aumentaram ao longo do tempo.
Até o 4º leilão não havia conteúdo local mínimo, só estímulo. O conteúdo local médio foi 38%. A imposição de conteúdo local mínimo começou no 5º leilão.
As compras domésticas subiram para 78%, em média. Mas caiu a fração de blocos arrematados. Nos quatro primeiros leilões, arremataram-se 60% dos blocos. Nos seguintes, só 27%, apesar de o preço do petróleo ter atingido patamares altíssimos durante quase todo o período.
O último leilão foi em 2015, quando o preço do petróleo havia desabado. O Brasil insistiu nas altas exigências de conteúdo local. Arremataram-se só 14% dos blocos. O investimento previsto é US$ 56 milhões.
No mesmo ano, Canadá e México, onde há menos exigência, venderam 64% e 100% dos blocos leiloados. O investimentos previstos são US$ 623 milhões e US$ 1,2 bilhão, respectivamente. Portanto, não é claro que a PCL aumenta o emprego na cadeia de fornecimento da indústria petroleira. Os fornecedores locais suprem uma fração maior de um bolo menor.
Já seu custo é palpável. No Brasil, a PCL está associada a menos áreas exploradas, menos investimento e menos receita para o governo, conforme aponta o Tribunal de Contas da União. É preciso revê-la para não inviabilizar o pré-sal e para estancar a destruição de valor na Petrobras.
Aqui vão algumas mudanças.
Reduzir bastante a exigência de conteúdo local mínimo.
O requerimento deve ser global, e não por componente, como é hoje. A exigência por componente cria uma miríade de requerimentos complicadíssimos.
E é contraproducente. Segundo seus defensores, a PCL garante escala para o fornecedor local. Sendo assim, seria melhor que as petroleiras satisfizessem as exigências concentrando as compras em alguns poucos componentes.
O conteúdo local não deve ser critério para definir o vencedor do leilão de exploração, como é hoje. Sendo critério, estimula o licitante a prometer índices altos de conteúdo local. Ao mesmo tempo, o comprador pode pedir dispensa do cumprimento de conteúdo local do componente caso os preços sejam abusivos.
Não surpreendentemente, há excesso de pedidos de dispensa, o que cria insegurança jurídica e atrasos.
Há um pleito de preservação do emprego nas empresas fornecedoras da indústria de petróleo. Mas e o emprego nos blocos que não foram arrematados? E o contribuinte?

Proteína reverteu sintomas de Alzheimer em ratos em uma semana

Uma injeção de uma proteína chamada IL-33 pode reverter os sintomas de Alzheimer e declínio cognitivo em ratos, restaurando a sua memória e função cognitiva para níveis saudáveis – e em apenas uma semana.
Para o novo estudo, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, os ratos foram criados para desenvolver uma doença semelhante ao Alzheimer em seres humanos, que progredia à medida que envelheciam.
Em seguida, receberam injeções diárias da proteína IL-33, que não apenas limpou o acúmulo de placas amiloides tóxicas que provocam a doença nos humanos, como também impediu que mais destas placas se formassem.
A equipa que fez a descoberta, que reúne investigadores da Universidade de Glasgow e da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong (HKUST), está confiante de que certos aspetos se poderiam revelar importantes para a criação de um tratamento para pacientes humanos.
Nos seres humanos, o Alzheimer – uma doença sem cura que deve afetar 65 milhões de pessoas até 2030 – geralmente resulta de uma acumulação de dois tipos de lesões no cérebro: placas amiloides e novelos neurofibrilares.
As placas amiloides ficam entre os neurónios e formam aglomerados densos de um tipo de proteína chamada beta-amiloide. Por outro lado, os emaranhados neurofibrilares encontram-se no interior dos neurónios, causados por proteínas tau defeituosas que se aglomeram numa massa espessa. Isto faz com que pequenos filamentos chamados microtúbulos se torçam, perturbando o transporte de nutrientes essenciais em todo o cérebro.
Neste momento, não se sabe porque é que certas pessoas experimentam um acúmulo de placas amiloides e emaranhados neurofibrilares no cérebro à medida que envelhecem, e outras não. Contudo, os cientistas estão confiantes de que, se pudermos descobrir como solucionar esses problemas, podemos efetivamente tratar a doença.

Teste com humanos em breve

“A IL-33 é uma proteína produzida por vários tipos de células no corpo e é particularmente abundante no sistema nervoso central (cérebro e medula espinal)”, disse o investigador principal do estudo, Eddy Liew, da Universidade de Glasgow, no Reino Unido.
“Descobrimos que a injeção de IL-33 em ratos doentes melhorou rapidamente a sua memória e função cognitiva, para o nível dos ratos normais da mesma idade, ao fim de uma semana”.
Liew e a sua equipa descobriram que a IL-33 parece alavancar células imunes no cérebro chamadas microgliócitos (ou microglia), orientando-as para as placas amiloides tóxicas.
A microglia ataca essas placas agressivamente, com a ajuda de uma enzima chamada neprilisina, conhecida por quebrar amiloides. Este processo reduziu o tamanho e o número de placas amiloides em ratos com sintomas de Alzheimer. Além disso, as injeções também impediram a inflamação no tecido cerebral, o que estudos anteriores associaram à proliferação de placas e emaranhados neurofibrilares.
Eddy Liew, no entanto, permanece cauteloso. “A relevância desta descoberta para a doença de Alzheimer humana é atualmente pouco clara, mas há indícios encorajadores. Por exemplo, estudos genéticos anteriores demonstraram uma associação entre mutações da IL-33 e a doença de Alzheimer em populações europeias e chinesas. Além disso, o cérebro de pacientes com a doença de Alzheimer contém menos IL-33 do que o cérebro de pacientes sem Alzheimer”. 
Um teste clínico com humanos para verificar a toxicidade da IL-33 está prestes a começar.

@longevidade @medicina

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Depósito voluntário é medida oportuna, diz Kawall

VALOR ECONÔMICO - 02/02/2017
Com o ajuste fiscal em curso e a reconstrução da credibilidade pelo Banco Central, a criação do "depósito voluntário" como alternativa às operações compromissadas parece uma medida oportuna, na visão do ex-secretário do Tesouro Nacional e economista-chefe do Banco Safra, Carlos Kawall. E pode oferecer ao menos três benefícios: o aumento da autonomia operacional perseguida pelo BC, redução da dívida bruta e maior espaço e flexibilidade para que a autoridade monetária reduza a exigência de depósitos compulsórios.
Ontem o presidente do BC, Ilan Goldfjan, informou ao Valor que o novo instrumento a ser adotado terá remuneração idêntica à da operações compromissadas.
Kawall observa que um risco da adoção desse novo instrumento é gerar a percepção de que o governo pretende reduzir artificialmente a dívida pública. Mas, dado o claro esforço do governo no sentido de conter despesas e colocar as contas em ordem, há espaço para que essa discussão ganhe força agora - diferentemente do que se via em 2015, quando a criação do depósito voluntário chegou a ser considerada. "A pré-condição para que o novo instrumento tenha credibilidade é que ele seja implementado num momento em que há um ajuste fiscal em curso, de transparência nas contas públicas, como o atual", afirma. "Este BC que tem credibilidade para criar o instrumento de forma a não parecer um ajuste artificial na dívida."
Hoje, o BC utiliza as operações compromissadas para gerenciar a liquidez do sistema financeiro, que é estruturalmente abundante. Para impedir que a taxa de juros praticada na economia fique abaixo do que foi estabelecido pelo Copom, o BC retira os recursos em excesso por meio da venda de títulos públicos emitidos pelo Tesouro Nacional por um período determinado. No fim do prazo estabelecido, o dinheiro volta para o sistema e os títulos retornam para a carteira do BC. Esse instrumento, que conta com um estoque de R$ 1,047 trilhão, tem como efeito colateral o aumento da dívida bruta, que contabiliza como passivo toda operação que tem como lastro um papel do Tesouro Nacional.
A substituição gradual das compromissadas por depósitos voluntários, observa Kawall, diminuiria essa parcela da dívida bruta, uma vez que o instrumento não implica a emissão de títulos. Além disso, daria ao BC mais autonomia operacional, que deixaria de depender do lastro emitido pelo Tesouro para fazer a gestão da liquidez.
Por fim, Kawall diz que a substituição, ainda que gradual, das compromissadas por depósitos voluntários daria ao BC mais flexibilidade para reduzir os depósitos compulsórios. Isso porque, quando o BC diminui a exigência de depósito dos bancos, há uma sobra de liquidez que precisa ser esterelizada por meio das compromissadas, com efeitos sobre a dívida bruta. O depósito voluntário, portanto, seria uma forma de absorver essa liquidez sem consequências para o endividamento. "Essa já é a prática internacional, e não uma ´jabuticaba´", afirma Kawall, que estudou os balanços de bancos centrais desde 2000, com foco especial nos BCs da Coreia e México.
A viabilidade operacional da substituição das compromissadas pelo depósito voluntário é algo que demandará um estudo atento, concorda Kawall. Um dos pontos a ser considerado é que os bancos usam os títulos do Tesouro dados pelo BC como lastro nas compromissadas em outras operações de captação de recursos, vantagem que o depósito voluntário não oferece.
@economia 

Ranço ideológico e vida real (Pedro Parente)

Folha de São Paulo, 01/02/2017
ideologias, quando levadas ao extremo, tornam as pessoas impermeáveis a argumentos. Discutir a origem do capital no Brasil é um exemplo
A Petrobras, recentemente, foi alvo de polêmica por ter convocado somente empresas "estrangeiras" para participar da concorrência para a construção, no Rio, da unidade de processamento do gás do pré-sal.
O fato revela total desconhecimento das diretrizes da Petrobras, além de um ranço ideológico do mesmo tipo que sustentou a intervenção estatal que tanto prejuízo trouxe ao país nos últimos anos e cuja expressão mais dramática são os atuais 12 milhões de desempregados.
Ideologias, quando levadas ao extremo, tornam as pessoas impermeáveis a argumentos e fatos. Discutir a origem do capital investido no Brasil é um exemplo. Superada pela Constituição, que não faz distinção entre capital nacional e estrangeiro, essa discussão tem pouca utilidade na vida real.
A maioria dos brasileiros vai trabalhar diariamente em veículos de marcas globais fabricados no Brasil; falamos ao celular em aparelhos com peças importadas do mundo inteiro; a maior parte das ações da bolsa brasileira é de investidores estrangeiros.
No setor de óleo e gás, o intervencionismo estatal se materializou na "Política de Conteúdo Local" (PCL). A exigência de um conteúdo local muito acima da capacidade da indústria impôs prejuízo significativo ao governo e ao setor. Quem diz isso não é a Petrobras, mas o Tribunal de Contas da União, que em auditoria recente concluiu que "existe um alto custo da política, em função da baixa competitividade da indústria nacional".
Na Petrobras, além dos custos mais elevados apontados pelo TCU, houve atrasos de mais de três anos na entrega de 12 plataformas.
Isso significa que a Petrobras -e em última instância a sociedade brasileira, sua maior acionista- está subsidiando as empresas desses setores e os governos federal, estaduais e municipais, deixando de arrecadar R$ 33 bilhões em oito anos por causa dos atrasos nos investimentos ou no início da produção.
Voltemos à polêmica sobre a concorrência da Petrobras. Na vida real, o que interessa são investimentos realizados e transformados em empregos, renda, impostos e qualidade de vida.
Adir Freitas, 61, está há 40 anos na filial brasileira da Schlumberger, maior empresa de serviços de petróleo do mundo. Trabalhou 32 anos em plataformas até tornar-se supervisor. Orgulha-se de ter conseguido formar um filho engenheiro e ter uma filha cursando administração. A empresa está no Brasil desde 1945, gera empregos e paga impostos aqui, apesar da origem com capitais franceses.
Ademir Klitze, 43, trabalha há 23 anos na WEG, empresa brasileira fundada em 1961. É técnico de montagem de motores e geradores, tem casa própria e a renda necessária para criar os dois filhos. A WEG tem 35 fábricas em 12 países. Produz equipamentos para os setores de óleo e gás, petroquímica, papel e celulose e siderurgia. Também gera empregos e paga impostos aqui.
Que não haja dúvida: a Petrobras defende uma política de conteúdo local que ajude a indústria a ser competitiva globalmente e está disposta a contribuir para isso. A política precisa incentivar a inovação, as parcerias, a produção com qualidade, custos e prazos adequados. Deve estimular novas histórias de sucesso, como as das empresas em que trabalham Adir e Ademir.
Quando o Brasil registra 12 milhões de desempregados, com todas as consequências disso na vida das pessoas e suas famílias, custa-me acreditar que sinalizamos desapreço ao investimento no país.
Deveríamos estar empenhados em atrair novos investidores e em criar o ambiente necessário para que o capital disponível no mundo venha para o Brasil.
Esta é a verdadeira escolha: entre o ranço ideológico, que a poucos beneficia, e a dignidade e o bem-estar que um novo emprego pode proporcionar a milhões de brasileiros e a suas famílias.
*PEDRO PARENTE é presidente da Petrobras. Foi ministro da Casa Civil (governo FHC)

@petrobrás @economia @Brasil