sexta-feira, 16 de junho de 2017

A educação de nossos filhos (Fábio Giambiagi)


Valor Econômico - 14/06/2017

Uma das razões do atraso brasileiro é o nível de nossa educação. O problema vai muito além do que supõe a maioria das pessoas. É muito comum que esse atraso seja associado a problemas como precariedade física das escolas, elevada evasão de professores, etc. Questões como essas são relevantes. Fazendo uso de uma antiga expressão, porém, "o buraco é mais embaixo". Um dos maiores desafios que o país enfrenta - e que afeta todas as classes sociais - é algo que pode soar estranho aos leitores, mas que procurarei justificar no artigo: uma grande proporção dos brasileiros simplesmente não sabe como funciona o capitalismo. E isso começa pela elite.
O que irei transcrever é uma questão aplicada anos atrás na prova de geografia do último ano do ensino fundamental de uma das melhores escolas privadas do país, que sempre figura entre as primeiras no ranking do Enem. Poderia ter optado por outro texto de outro estabelecimento de ensino, porque exemplos como este há aos montes. Escolhi a questão, porém, porque ela sintetiza vários dos vícios da catequese anticapitalista pregada em muitas dessas escolas nas aulas de geografia, história e - até mesmo - religião.
A pergunta da prova foi: "Até os dias atuais, muitos países pobres ainda estão pagando os empréstimos tomados no exterior e mesmo tomando novos empréstimos. A consequência é muito grave, pois ao pagar as dívidas e os juros, resta-lhes pouco dinheiro para investir em educação, saúde, saneamento básico, etc. Nessas condições, é difícil realizar o desenvolvimento econômico e social. A dívida externa torna-se um grande obstáculo para os países pobres. Cite dois obstáculos que essa dívida externa produz". Trata-se de um massacre: em apenas 5 linhas, subliminarmente, o pobre do garoto de 14 anos aprende que:
1- cobrar as dívidas, por parte do credor, prejudica os devedores;
2- pagar os juros de uma dívida é algo negativo;
3 - seria melhor que os juros não fossem pagos;
4- contratos não deveriam ser plenamente considerados; e
5- a culpa dos problemas do país é dos credores externos.
Na cabeça ingênua - e propensa a dividir o mundo em bases maniqueístas - de um adolescente, a conclusão é clara: o sistema é injusto. Daí a que esse jovem se torne um adulto completamente despreparado para enfrentar o mundo da competição, é só um passo. A continuar nesse ritmo, cinco anos depois ele estará engrossando as passeatas contra a globalização e o neoliberalismo.
O que caberia a um professor, comprometido com a preparação do aluno para um mundo competitivo, fazer para treinar esse indivíduo para a vida adulta? Poderia, por exemplo, expor a mesma questão em sala de aula, induzir a resposta óbvia que 99 entre 100 garotos tenderão a dar (justificando o "calote" das dívidas) e sugerir, a continuação, o seguinte raciocínio:
"Vamos imaginar a situação de um senhor de 50 anos que trabalha desde os 15 anos e, após 35 anos de sacrifício, conseguiu não apenas poupar para ter uma modesta casa própria, como também construir uma casa ao lado, que aluga para um inquilino há 10 anos. Imaginemos que um dia o inquilino bate na porta do proprietário e diz que o pagamento do aluguel está prejudicando a capacidade dele de gastar dinheiro em comida e que, como está pagando aluguel há 10 anos, não vai pagar mais, mas vai continuar morando na casa. O que vocês acham disso?".
Provavelmente, 100% da audiência iria achar a atitude do inquilino um completo despropósito. O cenário estaria pronto então para o professor levar os alunos a fazer as seguintes perguntas: "Por que quem tinha um capital de R$ 50 mil na forma de uma casa tem todo o direito de continuar a ser remunerado por permitir seu uso pelo inquilino, recebendo um pagamento em troca, enquanto que o banco que emprestou R$ 50 mil a alguém não vai continuar a receber juros pelo seu empréstimo? Se o devedor que pagou juros durante anos julga que a dívida não deve mais ser paga, qual é a diferença que justifica que o inquilino que pagou pelo uso da casa durante anos não siga a mesma lógica? Afinal, um empréstimo e uma casa são duas expressões do mesmo: um capital".
A realidade é que a maioria de nossas escolas não prepara os alunos e futuros adultos para encarar a realidade dura com a qual terão que conviver. O futuro cidadão aprende a se revoltar com o país e com o ambiente em que habita, mas sabe muito pouco sobre o que as nações fizeram para triunfar nesse mesmo mundo. Ele é muito mal preparado para encarar o mundo e a vida, o que requer, fundamentalmente:
1- entender que a obediência à Lei deve ser uma das bases da prosperidade; 2- perceber que o destino de cada indivíduo na vida dependerá em boa parte do esforço e da capacitação que for adquirindo ao longo dos anos; e 3- ter um bom ensino de português, de língua estrangeira, de ciências e de matemática.
Em suma, se queremos que o país seja mais competitivo, teremos que fazer que nossas escolas preparem os alunos para enfrentar a competição. Estamos a anos-luz disso.




http://www.valor.com.br/opiniao/5003664/educacao-de-nossos-filhos


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Por que os cientistas falam em uma epidemia de miopia - e qual a sua origem (BBC)

BBC: 13/06/2017
Nos últimos 50 anos, o número de pessoas míopes duplicou. Estima-se que em 2020 um terço da população mundial terá o problema na visão, em 2050, a metade.
"Estamos em meio a uma epidemia global de miopia", disse o médico Earl Smith, professor de desenvolvimento da visão e decano da Faculdade de Optometria da Universidade de Houston, nos Estados Unidos. 

E essa epidemia tem mais incidência entre os jovens do leste da Ásia, em países como China e Coreia do Sul, onde o problema afeta quase 90% dos estudantes que concluem o Ensino Médio.

Em outras regiões do mundo, embora os números não sejam tão alarmantes, a condição também avança.

As pessoas míopes podem ver claramente os objetos que estão próximos, mas não conseguem focar objetos distantes.
Ela ocorre quando o globo ocular cresce demais e fica maior do que o normal. Essa condição visual costuma se manifestar quando as crianças estão em idade escolar e piora gradualmente até que o globo ocular complete seu crescimento.
Se não for detectado e corrigido com lentes, a miopia pode progredir e, com o tempo, aumentar significativamente o risco de catarata, glaucoma, desprendimento da retina e maculopatia míope.
Além disso, está entre as três primeiras causas de cegueira permanente no mundo.

Qual é a causa?

Os especialistas acreditam que a genética tenha um papel no desenvolvimento da miopia, mas não é o único fator.
"Há algo em nosso comportamento e nosso ambiente que está contribuindo para o aumento de casos de pessoas míopes", garante Smith, que recebeu financiamento de US$ 1,9 milhão (R$ 6,3 milhões) exatamente para investigar as causas e estratégias de tratamento.
Muitos estudos mostram que as pessoas que passam mais tempo ao ar livre são muito menos propensas a desenvolver miopia que aquelas que permanecem a maior parte do dia entre quatro paredes.
"A demanda educacional cada vez mais exigente e o fato de se passar mais tempo em espaços fechados são fatores que contribuem para que uma pessoa se torne míope", acrescenta Smith.
"Na Ásia, entre 80% e 95% dos jovens que terminam o Ensino Médio nas zonas urbanas têm miopia, e já evidências fortes de que o índice também está aumentando nos Estados Unidos e na Europa", disse ainda o especialista, um dos líderes no tema.
"Nas situações em que há uma expectativa educacional alta, é mais provável que as pessoas desenvolvam miopia. Considere nossos próprios estudantes de optometria como exemplo: aproximadamente metade se torna míope durante os quatro anos de estudos aqui", contou o professor da universidade de Houston.
Smith e sua equipe estão agora se debruçando sobre os fatores ambientais, como a exposição a certos tipos de luz, que podem ter um impacto sobre o crescimento do globo ocular que leva à miopia.

O que podemos fazer?

A miopia não tem cura nem é reversível, mas o uso de óculos pode impedir ou desacelerar o avanço da condição.
Também há cirurgia com laser que altera a forma do globo ocular para corrigi-lo, embora esse procedimento não seja recomendado em crianças ou jovens que ainda estão em processo de crescimento.




A maioria dos pesquisadores concorda que estimular crianças a brincar ao ar livre ajuda a reduzir o risco de desenvolver o problema.
Também há estudos mostrando que, ao brincar ao ar livre, a miopia infantil pode avançar num ritmo mais lento.
Os especialistas acreditam que isso tem a ver com o fato de que os níveis de luz no exterior são muito mais altos que no interior.
Por outro lado, passar muito tempo focando a vista em objetos muito próximos, como lendo, escrevendo ou usando dispositivos portáteis como celulares, tablets ou laptops, pode aumentar o risco miopia, segundo o NHS, o serviço público de saúde britânico.

http://www.bbc.com/portuguese/geral-40262097

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quarta-feira, 14 de junho de 2017

Too big to fail - Alexandre Schwartsman

FOLHA DE S. PAULO - 14/06/2017
Em nome de evitar aprofundar uma crise (no caso, política), o TSE abriu as portas para o risco moral



"Too big to fail" (grande demais para quebrar) é um problema que frequentemente nos atormenta.Há menos de dez anos, em meio à crise deflagrada pela falência da Lehman Brothers, vimos os mesmos que haviam tomado a decisão de não resgatar aquele banco serem forçados a mudar de posição e adotar, a contragosto, medidas que possibilitaram a sobrevivência do sistema financeiro.
A decisão foi justificada então como necessária para evitar que a crise se tornasse ainda mais profunda e, da forma como vejo, isso muito provavelmente era verdadeiro. Caso outras instituições tivessem quebrado na esteira da Lehman, a contração de crédito seria ainda mais profunda e a Grande Recessão de 2008-2009 poderia rivalizar com a Grande Depressão dos anos 1930.
Isso dito, se houve benefícios associados à decisão de resgatar bancos e assemelhados, houve também custos, alguns dos quais não imediatamente visíveis.
Em particular, ficou claro que não há como bancos centrais e Tesouros Nacionais se comprometerem a não resgatar instituições "grandes demais para quebrar". Ao contrário de Odisseu, que se amarrou ao mastro de sua nave para não sucumbir ao canto das sereias, a crise revelou que as cordas são bem mais frágeis do que gostaríamos.
Sabendo disso, não é difícil concluir que instituições "grandes demais para quebrar" tenderão a tomar mais risco do que fariam caso não houvesse a possibilidade de resgate. Não é posição diferente, por exemplo, de um trapezista que, sabendo da existência de uma rede de segurança, escolhe saltos mais arriscados do que faria na ausência dessa rede.
Em economês, isso é definido como um problema de "risco moral" ("moral hazard"), no caso um problema de assimetria de informações em que as autoridades não conseguem monitorar perfeitamente o comportamento de certos agentes. Assim, ao socializar o risco, fazem com que instituições assumam mais risco do que o saudável.
Longa introdução à parte, meu tema hoje não é o risco que o sistema financeiro possa estar acumulando em razão desse problema, mas sim a decisão do TSE, que, mesmo em face de provas inegáveis de corrupção e abuso de poder nas eleições de 2014, se entregou a piruetas de fazer inveja a nosso trapezista imaginário para absolver a chapa Dilma-Temer, decisão saudada por silêncio ensurdecedor tanto da situação como da oposição.
Segundo o ministro Gilmar Mendes, a cassação da chapa "lançaria o país em quadro de incógnita". Ainda que tenha tentado vestir a decisão com uma roupagem técnica, o veredito do TSE muito provavelmente resultou da percepção da enorme desordem política que se seguiria à cassação, caso o STF mantivesse a condenação.
Trata-se do mesmo problema apresentado acima. Em nome de evitar aprofundar uma crise (no caso, política), o TSE abriu as portas para o risco moral: na certeza de que dificilmente serão punidos, candidatos não terão freios para toda espécie de abuso.
Note-se que essa piora institucional é apenas mais uma num quadro de deterioração persistente, que abarca desde a falência das regras de conduta fiscal (como mudanças casuísticas na Lei de Diretrizes Orçamentárias) até a própria governança do país, expressa na corrupção generalizada.
Em tal contexto, apenas o Brasil não parece ser "grande demais para quebrar"...




http://www1.folha.uol.com.br/colunas/alexandreschwartsman/2017/06/1892642-decisao-do-tse-abre-as-portas-para-toda-especie-de-abuso.shtml

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segunda-feira, 12 de junho de 2017

Economista é punido por exigir que equipe escreva melhor (Financial Times)

Lucy Kellaway, colunista do "Financial Times
É a história mais triste que li em muito tempo. O economista-chefe do Banco Mundial ordenou ao seu staff que escrevesse de maneira mais clara, fosse sucinto nas apresentações e que todos os relatórios fossem curtos e compreensíveis. Em vez de ser enaltecido por sua coragem, Paul Romer foi punido como um herege e afastado de suas funções executivas. Sua história parece uma versão corporativa do martírio de Joana D´Arc. Só tenho um problema com Romer. Entre seus decretos havia uma imposição à citação da palavra "e", exigindo que um relatório oficial não tivesse mais do que 2,6% delas. É um pouco estranho perseguir essa conjunção comum, que tem a vantagem de ser útil, clara e curta, quando há por aí palavras como alavancar, gerar, jornada, diálogo, plataforma, vigoroso e milhares de outras - que não são nada dessas coisas.
Mesmo assim, quando a "Stanford Literary Lab" publicou um "paper" em 2015 analisando os relatórios do Banco Mundial, a palavra "e" não foi poupada. Os autores observaram que seu uso quase dobrou nos 70 anos anteriores e citaram, em tom de brincadeira, passagens em que substantivos horríveis e não relacionados foram colados a séries de conjunções.
Mas será que a culpa é realmente dessa pequena palavra? Ao longo da última semana, mergulhei em muitos textos, a começar com o trabalho de Martin Wolf, que escreve tão claro quanto qualquer economista com quem já me deparei. De fato, em sua última coluna, meu computador contou uma porcentagem admiravelmente modesta de 2,5% de "es". Em seguida, estudei uma coluna da Janan Ganesh, um homem cuja prosa é bastante admirada. Ele se saiu ainda melhor, com 2%.
Depois disso, ampliei meu leque e baixei da internet o "Rei Lear" inteiro, para descobrir que Shakespeare usou meros 19 "es" a cada mil palavras. Quando você considera que a maioria delas se trata de marcações cênicas - "Entram Kent e Gloucester" -, a verdadeira contagem é ainda menor.
Eu estava para concluir que Romer estava bêbado ou coisa assim, quando resolvi analisar minha própria escrita e descobri que na coluna da semana passada eu usei vergonhosas 30 vezes a palavra "e" por mil palavras. Romer teria ficado desesperado.
Em um esforço derradeiro para provar que ele está errado, examinei "Orgulho e Preconceito", o romance mais elegante da escritora mais elegante do idioma inglês. Baixei um capítulo aleatoriamente e, bingo: Jane Austen usou a enorme quantidade de 3,8% de "es".
No momento em que eu fazia isso, em um palco do Hay Literary Festival um ex-vice-presidente do Banco da Inglaterra dizia a uma plateia que para fazer seus economistas escreverem de maneira inteligível, o banco os fez estudar a obra de Dr. Seuss. Ao saber disso, fui direto para "O Gato do Chapéu" e para a minha alegria, encontrei "es" por toda parte - 46 por 1.000 palavras.
Isso prova que o "e" é um problema somente quando ele espicha os textos ou quando gera confusão. Dr. Seuss pode se dar ao luxo de usá-lo aos montes porque seu texto é bem enxuto. Em apenas 1.620 palavras ele conta uma história mais surpreendente e memorável do que qualquer coisa que houver em um relatório de banco.
Mas mesmo que os economistas fossem forçados e usar menos palavras, isso não solucionaria o problema. Longo quase sempre significa ruim, mas curto não quer dizer necessariamente bom. Um dos piores textos que li na semana passada foi uma carta que Alex Cruz, presidente da British Airways, enviou aos membros do Executive Club depois que um problema na área de tecnologia da informação deixou 75.000 passageiros retidos em aeroportos.
Ela tinha apenas 421 palavras e começa bem simples: "Eu queria entrar em contato pessoalmente para pedir desculpas". Embora nada especial, enquanto um e-mail de massa produzido por um robô, ele não poderia ser mais impessoal.
Além de ser simples e curto, um bom texto precisa ser sincero. Olhei para o texto de "Rei Lear" que baixei da internet e li na tela as linhas finais do Duque de Albay: [precisamos] "Falar o que sentimos, e não o que deveríamos dizer". Mas mesmo isso não vai ajudar os economistas. A compulsão por escrever baboseiras cheias de pompa é grande demais para que uma imersão rápida em Shakespeare ou Dr. Seuss possa mudar isso.
Qualquer economista dirá a você que a melhor maneira de mudar de comportamento é mudar os incentivos. Isso significa promover aqueles que escrevem bem. Não significa punir alguém que tentou fazer seus colegas escreverem textos que as pessoas possam querer ler.
@economia

Vídeo: Brasil, aqui tudo acaba em baião de dois

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domingo, 11 de junho de 2017

O cerco aos bancos - Celso Ming

Até agora, os bancos escaparam da Operação Lava Jato, mas alguma coisa está para sair. Sem mais delongas, vamos ao principal: ninguém precisa sacar seu dinheiro por isso. Não há nada especialmente errado com o sistema bancário em si.
A emissão da Medida Provisória 784 na última quinta-feira, com objetivo de permitir novo enquadramento dos bancos, nada tem a ver com lavagem de dinheiro, corrupção e coisas assim.
Apenas atualiza o arsenal do Banco Central, que tem por obrigação fiscalizar e supervisionar a atuação dos bancos.
Mas vamos por partes.
A suspeita de que há bancos sob a mira da Operação Lava Jato não é invenção de paranoicos. A esta Coluna, o procurador da força-tarefa Roberson Pozzobon admitiu que existem investigações que vêm fazendo o cerco a instituições bancárias. No ano passado, reportagem do Estadão já apontava que cerca de 13 delas estavam sob investigação por lavagem de dinheiro em transações que envolveram o Grupo Schahin e a Petrobrás. Mas os bancos, que passaram incólumes pela Lava Jato, agora podem ocupar o papel central antes desempenhado pelas empreiteiras.
Outro procedimento da força-tarefa fareja possíveis fraudes e falhas no sistema do Bradesco. A história volta aos primórdios da Lava Jato, que envolvem o operador Fernando Soares. Baiano, como é conhecido, teria pago em 2012, por meio do Bradesco, R$ 220 mil de propinas para o ex-diretor da Petrobrás Nestor Cerveró, na compra de uma Land Rover.
Supremo Tribunal Federal pode oferecer um remédio amargo ao Sistema Financeiro Nacional (SFN). Em petição, o ministro Fachin, relator da Lava Jato, pediu à Justiça Federal do Paraná que investigue a transferência parcial do setor de Operações Estruturadas da Odebrecht, conhecido como departamento de propinas, para a República Dominicana. Como tem sido divulgado, os investigadores da Lava Jato querem saber se agentes bancários burlaram regras do SFN ao longo da movimentação de recursos por meio desse braço da Odebrecht.
E quando o ex-ministro da Fazenda do primeiro governo Lula Antônio Palocci avisou que se dispunha a fazer delação premiada que daria assunto para mais um ano na Lava Jato, foi interpretado como interessado em expor a atuação de determinados bancos.
Operações de lavagem de dinheiro são regidas por lei especial (a 9.613, de 1998) que nada tem a ver com a atuação do Banco Central. Cabe ao Ministério da Fazenda, por meio do Coaf, e à Justiça comum julgar tais desvios.
A medida provisória apenas atualiza procedimentos adotados pelo Banco Central na tarefa de supervisionar bancos, corretoras e a Comissão de Valores Mobiliários. A lei anterior é da Reforma Bancária de 1964. A punição máxima aos bancos nos casos de infração na concessão de créditos ou observância de determinações reguladoras lá exposta era pagamento de multa de R$ 250 mil, de longe insuficiente para desestimular desvios do tipo. (Agora, as multas podem alcançar R$ 2 bilhões.) Em outras palavras, o que está sob investigação são transgressões na área de lavagem de dinheiro. Não há nada que transpire falta de saúde do sistema financeiro brasileiro. / COM RAQUEL BRANDÃO E AMANDA PUPO, ESPECIAL PARA "O ESTADO"

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