sexta-feira, 4 de agosto de 2017

'Temer acha que é Itamar, mas é Sarney', diz cientista político (BBC)



3 agosto 2017

'Temer acha que é Itamar, mas é Sarney', diz cientista político

Mariana Sanches

Da BBC Brasil em São Paulo

Votação lançou Temer e seu governo no colo do chamado Centrão, diz cientista político

O resultado da votação na Câmara nesta quarta-feira tem efeitos muito mais amplos do que o arquivamento da denúncia por corrupção passiva contra o presidente Michel Temer. A afirmação é do filósofo e cientista político da Unicamp Marcos Nobre, um especialista em PMDB.

De acordo com ele, em sua face mais visível, a votação lançou o peemedebista e seu governo no colo do chamado Centrão – uma bancada suprapartidária de parlamentares de pouca expressão organizados pela primeira vez sob a batuta do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ), atualmente preso pela Lava Jato.

Com essa base, é improvável que Temer seja capaz de aprovar reformas estruturais e deverá passar os próximos 16 meses de mandato debelando crises, afirma.

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Em seu aspecto mais relevante, no entanto, a votação representou uma "cisão incontornável" do PSDB. Na sua avaliação, o partido está dividido ao meio pelo anseio do governador paulista Geraldo Alckmin de viabilizar sua candidatura presidencial em 2018 e do pragmatismo do senador Aécio Neves, que se coloca como líder do Centrão.

E as manobras de bastidor de Aécio, que ajudaram a garantir a vitória a Temer, aumentaram o poder político do tucano e sua rede de proteção contra os efeitos das investigações que ameaçam prendê-lo. "Aécio Neves é o novo Eduardo Cunha", diz Nobre.

Para Nobre, o que estava em questão na votação era a eleição de 2018 Na bancada tucana, a divisão se expressou em 21 votos a favor da denúncia, 22 contra e 4 abstenções. "Metade do PSDB, a turma do Aécio, desceu do muro ontem. E o Centrão vai forçar o resto a descer também", afirma Nobre.

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Nessa entrevista à BBC Brasil, o cientista político analisa as condições atuais e futuras do campo político da centro-direita.

BBC Brasil - O que o resultado da votação significa para o futuro

político de Temer?

Marcos Nobre - O que importa não é exatamente o que aconteceu com o Temer, a rejeição da denúncia. O que estava em causa hoje era não só a manutenção de Temer, mas a própria eleição de 2018. E o resultado é o mais duro golpe que a gente pode imaginar no PSDB.

Dá pra dizer que as balizas da centro-esquerda foram definidas no impeachment da Dilma e o que foi decidido ontem é o que vai acontecer com a centro-direita em 2018. E a situação é de guerra no campo da centro-direita. Há uma divisão que não é só uma divisão, é uma cisão incontornável, irretrocedível.

BBC Brasil - Como se dá essa divisão?

Marcos Nobre - O PSDB está rachado no meio. Uma metade quer construir um polo para a eleição de 2018 que organiza o Centrão da Câmara e se liga a ele. A outra parte pensa que, se ficar pendurada ao governo Temer e ao Centrão no Congresso, não tem chance eleitoral em 2018.



Cientista político diz que resultado da votação na Câmara é um duro golpe no PSDB

BBC Brasil - Há um cálculo ideológico desse segundo grupo?

Marcos Nobre - Ideológico nada, porque se o governo Temer fosse popular estaria todo mundo abraçado com ele. É um cálculo eleitoral mesmo.

Então, temos o Aécio no primeiro grupo e Alckmin no outro e não há mais acordo. Enquanto o Aécio ainda não estava morto - porque hoje ele é um morto-vivo - havia uma disputa entre ambos pela candidatura presidencial. A partir do momento que o Aécio é ferido de morte, Alckmin achou que ia ganhar por W.O.

BBC Brasil - Mas o resultado de ontem mostra que o jogo não

vai ser fácil?

Marcos Nobre - Sim. O que o Aécio fez? Ele grudou no governo Temer e grudou no Centrão. O que estamos vendo agora é uma tentativa de construir um novo polo em plano nacional, juntar esse centrão do Congresso com uma parte do PSDB.

BBC Brasil - Por que isso interessa a Aécio?

Marcos Nobre - Para o Aécio, defender o Temer é defender a si mesmo. E o mesmo vale para a maioria dos políticos com mandato parlamentar. Quando votam sim, para impedir a denúncia, os parlamentares estão fazendo uma autodefesa. No caso do Aécio, a imagem é bastante clara até porque ele e o Temer foram pegos na

mesma delação, do Joesley Batista. Como Aécio já não tem o governo do Estado de Minas Gerais, ele precisa do governo federal para compensar, para ter algo para oferecer para esse grupo que ele está formando. Então você tem um grupo que vai ficar muito coeso com o governo e que espera em troca receber cargos e verbas, que é o Centrão.

BBC Brasil - Qual é a vantagem para o Centrão de abraçar Temer?

Marcos Nobre - Pense que a eleição do ano que vem será feita sem doação empresarial e haverá limitação de doação de pessoa física.

Logo, estar grudado no governo significa uma vantagem enorme: se por um lado tem que carregar um governo impopular, por outro você tem cargo e recurso, tem a máquina. E ter boas condições de campanha é essencial para se reeleger e conseguir manter o foro privilegiado, sem cair na mão do juiz Sergio Moro.

Então o sistema funciona totalmente em autodefesa, já não tem mais nenhuma relação com representação. Então você de um lado disputa pelos recursos da máquina federal, e por outro disputa pelo fundo eleitoral novo, que vai ser criado pela reforma política (em tramitação no Congresso).

É isso o que eles querem, o Centrão está parafraseando o Zagallo:

"vocês vão ter que me engolir". Eles bloqueiam os recursos de qualquer partido novo e tem o monopólio da representação, para ser candidato você precisa estar em um desses partidos. 'Para Aécio, defender o Temer é defender a si mesmo', afirma Nobre

BBC Brasil - Então é improvável que o Partido Novo ou a Rede consigam viabilizar seus candidatos em 2018?

Marcos Nobre - Existe o imprevisível. Mas o que o sistema político inteiro está fazendo é impedir que o imprevisível aconteça. Todas as estratégias de bloqueio para que algo novo apareça estão em curso. Até o momento eles estão sendo muito eficientes. Porém, se você quer ser um candidato que tenha chance na eleição presidencial, você não pode entrar nesse esquema, se não você não tem chance.

Então tem duas estratégias: a do Aécio é dizer assim "gente, o que estamos propondo são as melhores condições disponíveis para renovar mandatos parlamentares, sem mirar em eleição presidencial", ele já abandonou a pretensão presidencial e está oferecendo máquina, então não importa quem vai ser o candidato a presidente. A do Alckmin é a seguinte: ou eu me apresento como algo diferente do que está aí ou não tenho chance na eleição presidencial. É essa a guerra.

BBC Brasil - Não há espaço para esses dois anseios no PSDB?

Marcos Nobre - Não. E também não há um plano B. O Alckmin criou um apêndice para si, um anexo que era o PSB, quando ele colocou o Márcio França de vice-governador. Mas veja a manobra do Aécio com o Rodrigo Maia: ele esvazia o PSB e faz com que os parlamentares migrem para o DEM, reforçando o Centrão. Então é um ataque especulativo fortíssimo.

Ou seja, se o Alckmin perder a briga dentro do PSDB, o PSB já não é mais uma alternativa para ele, porque ele vai ficar muito reduzido. Ao mesmo tempo o Rodrigo Maia aproveitou a posição estratégica que ele tem (como presidente da Câmara) e negociou sua entrada no acordo desde que o DEM crescesse. Para Nobre, Aécio está na posição que Cunha tinha, de organizar o baixo clero do Congresso

BBC Brasil - Aécio é o herdeiro do Eduardo Cunha na organização do baixo clero do Congresso?

Marcos Nobre - Exatamente. É a coisa mais louca do mundo, mas é isso que está acontecendo. É um choque de tal ordem, que nem sei como explicar isso. O Aécio está na posição que o Cunha estava. E quem está fazendo isso pelo Aécio na Câmara é o (ministro da Secretaria de Governo Antonio) Imbassahy. Porque o Aécio está no Senado, então ele tem dois interlocutores na Câmara, o Imbassahy e o Rodrigo Maia. O Aécio é o novo Cunha, vai querer construir esse polo grudado no governo, Centrão e depois eles pensam em quem vai ser candidato, mas primeiro ele tem que consolidar esse polo e ganhar a guerra dentro do PSDB.

BBC Brasil - Mas há algumas ambiguidades aí, não? O Alckmin poderia ter feito antes um movimento de ruptura com o governo Temer e na verdade não fez. Ele e o João Doria ficaram pedindo cautela. Calcularam errado?

Marcos Nobre - Eles já não estão mais fazendo isso. O Doria é meio atrasado, esquecem de avisar para ele da mudança da correlação de forças e ele não entende sozinho. O Doria não tem a menor noção do que seja a política. Ele entende de mídia social. De política, ele não sabe como funciona. Muito menos Brasília. Deixando o Doria de lado, a ideia do Alckmin era jogar parado: ele olhava o quadro e pensava que Aécio e Serra iam ser pegos na Lava Jato e que ele ia se livrar, logo bastava esperar. Ele não pensou errado. Se ele entrasse numa disputa com o governo Temer no primeiro momento, ia perder porque o Aécio era o presidente do partido e tinha o partido na mão. E perder o PSDB significava perder a candidatura presidencial. A leitura dele era que ele ia levar. Só que o tamanho da onda que veio contra o Aécio, nem o Alckmin esperava. Quando ele viu, pensou: 'estou tranquilo, não tenho mais adversário'. E aí ele fez um acordo com o Aécio, de não chutá-lo enquanto Aécio estivesse caído. Deu tempo do Aécio reagir. Não a ponto de ele poder ser candidato a alguma coisa. Mas a ponto do Aécio poder construir alguma coisa, ocupar esse lugar de Cunha que ele não tinha antes. E isso aí o Alckmin não viu. O Aécio deu a volta nele.

Se você prestar atenção, quantos deputados disseram: 'voto no relatório do PSDB?'. Eu contei quase 100, que realmente enfatizaram esse dado. Essa coisa que o relatório era do PSDB era para mostrar para os não aecistas o seguinte: 'agora vocês terão que descer do muro'. É o Centrão que está dizendo que vai ter que descer do muro. Esses caras arriscaram o pescoço para defender o governo e agora vão querer o pagamento, vão pedir os cargos do PSDB. Ao mesmo tempo, o governo diz que não vai punir ninguém com perda de cargos. Isso é insustentável.

Então a questão é: o racha no PSDB vai ser a ponto de haver migração partidária? Ou fica claro que alguém tem maioria no partido e o outro sai, que é o que não parece provável, ou eles vão passar seis meses se matando até alguém conseguir uma maioria.

Esse é o problema da centro-direita: se você grudar no governo Temer, você não tem chance presidencial, mas tem chance de renovar o mandato pela desigualdade de recursos que vão ter (em relação a) outros candidatos.

"Apareceu no púpito para comemorar o título da série C e a subida para a série B", diz Nobre sobre pronunciamento de Temer

BBC Brasil - Em 16 anos, essa parece ser a melhor chance da centro-direita de ganhar a eleição, no ano que vem. Ao mesmo tempo, a centro-direita está extremamente fragilizada para o jogo agora. Como explicar?

Marcos Nobre - Deu muito errado o impeachment. Foi uma jogada evidentemente errada para a centro-direita. Os partidos ficaram com medo porque no mensalão eles decidiram deixar o Lula sangrar, sem tirá-lo. E em 2006 o Lula ganhou a eleição. Aí eles pensaram que se adotassem a mesma tática com a Dilma, vai que ela se recuperasse e o Lula fosse candidato. Resolveram liquidar a fatura.

Mas aí o problema caiu no colo deles. Não tem como você apoiar o impeachment e dizer que não tem nada a ver com o Temer. E resultou em uma desorganização geral, tanto do campo da centroesquerda quanto da centro-direita. Mas o Centrão já decidiu: melhor ter o dinheiro à vista do que a prazo, e candidato a presidente eles inventam na hora, porque não tem problema nenhum.

BBC Brasil - Quem vai levar essa briga dentro do PSDB?

Marcos Nobre - Não dá pra decidir ainda. Do ponto de vista eleitoral, a estratégia do Alckmin parece muito mais razoável. Mas tudo depende de como ele vai conseguir desembarcar do governo. Ele não pode desembarcar se o PSDB não desembarcar. Eles lidaram muito mal até agora com tudo. Mas agora chegou a hora em que eles vão ter que descer do muro por uma razão muito simples: metade do partido já desceu, a turma do Aécio. Ele já escolheu a estratégia dele para 2018 e tem base. O Centrão são 170 deputados, mais o pessoal de Minas, o povo que deve favor pro Aécio, dá uns 220. É uma base muito forte e que vai querer esses recursos do governo federal. O Aécio sabe operar em Brasília e o Alckmin não. A questão é que o Aécio vai querer botar o Alckmin para fora.

BBC Brasil - Como avalia o pronunciamento do Temer após a votação?

Marcos Nobre - Se fosse pra fazer metáfora futebolística, ele apareceu no púlpito para comemorar o título da série C e a subida para a série B. Impeachment deu errado para a centro-direita, diz o cientista político

BBC Brasil - Qual passa a ser o papel de Aécio no governo Temer?

Marcos Nobre - As movimentações estão muito claras em Brasília. Aécio se tornou uma peça central da articulação do governo. É evidente que o Temer não consegue organizar um governo, ser presidente, então o Aécio vai assumir ali. Essa votação é o empoderamento final da posição de Aécio no papel de Cunha. Não à toa há um novo pedido de prisão do Janot agora.

BBC Brasil - A dependência do Temer em relação ao Centrão vai ficar ainda maior agora?

Marcos Nobre - Completamente. Temer acha que é o Itamar (Franco), mas é o Sarney. E depende do Centrão.

BBC Brasil - E a posição de Rodrigo Maia? Em dado momento até pareceu que ele assumiria o lugar do Temer.

Marcos Nobre - Durou duas semanas o sonho do Maia. O que aconteceu é interessante. Uma coisa é você usar um movimento de rua para fazer um impeachment. Outra coisa é o próprio sistema começar a se comer, não tem mais rua. Se tirassem o Temer, era apenas o sistema se autodevorando. Então as forças políticas perceberam que era um caminho perigoso.

BBC Brasil - Mas Maia tinha pretensões de ser presidente, não?

Marcos Nobre - Desde que se elegeu presidente da Câmara, a quantidade de reuniões que Maia faz com mercado financeiro e empresários é impressionante. Eu nunca tinha visto uma atividade comparável a essa. Ele resolveu deixar claro que era um player. Se colocou de uma maneira diferente e construiu uma posição própria. Quando vem a gravação do Joesley, o telefone de Maia começou a tocar. Eram empresários sugerindo que ele assumisse e evitasse um caos. Maia permitiu que essas conversas acontecessem e aproveitou da posição familiar que tem com o ministro Moreira Franco, padrasto da mulher dele, para impedir que se disseminasse a versão de que ele era traidor.

Só que o Temer deu um contragolpe: chamou o pessoal do PSB para se filiar ao PMDB. A mensagem era para o Maia: "se você continuar nessa linha, eu vou te desidratar".

Segundo Nobre, Maia se colocou como um player desde o começo Maia, lembremos, estava negociando a ida desses mesmos parlamentares para o DEM. Ele topou recuar e, em troca, Temer não ia atrapalhar o crescimento do DEM, que vai voltar para o jogo político como um ator importante. Para Maia, foi ótimo negócio, ele se projetou e fortaleceu o partido, está bem, pode ser o candidato a governo no Rio. E nessa negociação, surge mais uma vez o Aécio.

Na formação desse blocão, além do DEM e do PMDB, é preciso ter gente do PSD e do PP. Maia entra nesse Centrão de Aécio com capacidade de direção, já que distribui as pautas, como presidente tem uma posição estratégica. Ele adquiriu um status que ele mesmo jamais teria imaginado na vida.

BBC Brasil - Com esse cenário, existe alguma chance de

aprovação das reformas?

Marcos Nobre - Ah, não. Isso acabou. Eles já admitem que a da Previdência não vai dar. Agora é aquele momento Sarney e com essas duas estratégias dentro da centro-direita, de grudar em Temer e de afastar.

As elites econômicas que imaginaram passar o poder do Temer para implementar a agenda que nenhum governante que depende de votos será capaz de tocar se equivocaram, foi um lance malfeito. O que passou até agora é um Frankenstein. A Reforma Trabalhista é uma loucura, metade do empresariado acha que não faz muito sentido. A questão é como organiza o "governo Sarney" nesse último ano e meio.


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quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Para ANP, é hora de deixar de lado idéias intervencionistas (Décio Oddone, Valor Econômico)

Por Cláudia Schüffner | Do Rio
Em meio a mudanças regulatórias desenhadas para destravar o setor de petróleo e gás no Brasil, o diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP), Décio Fabrício Oddone da Costa, diz que está na hora de "corrigir o que não deu certo e deixar para trás ideias estatizantes e intervencionistas". A urgência é apresentada em números. Segundo o executivo, o país perde R$ 2,6 bilhões a cada ano com o atraso da entrada em produção de uma plataforma como a do campo de Libra, no pré-sal.
Entre as mudanças em curso no setor, a mais polêmica é a que reduz o percentual exigido, nos próximos leilões, para contratação de bens e serviços no Brasil pelas empresas de petróleo. O objetivo é facilitar o início de projetos que vão exigir investimentos de R$ 240 bilhões até 2021.
Para contratos assinados em leilões passados, a proposta, em consulta pública, prevê possibilidade de assinatura de aditivo contratual sob as novas regras, que terão percentual de 25% de conteúdo local. No caso de descumprimento, serão aplicadas multas sem a possibilidade de "waiver", que é o perdão pelo descumprimento dos índices previstos e que já resultou em multas de R$ 576 milhões aplicadas pela ANP até agora.
"Queremos gerar volume, e 25% de muitas plataformas é muito melhor do que 55% de nenhuma ou de poucas, como a gente está agora", disse. O executivo trabalhou 30 anos na Petrobras, onde entrou em 1985. Seguiu a carreira do avô, Décio Oddone, primeiro geofísico brasileiro e integrante da diretoria da Petrobras na criação da empresa, em 1953. A influência do avô sempre foi uma inspiração que ele não esconde. Oddone integrou as primeiras equipes de exploração da Bacia de Campos e fez carreira internacional na estatal, tendo passado Iraque, Líbia e Angola. Presidiu a Petrobras na Bolívia e na Argentina, de onde foi afastado por ordem de Jorge Zelada, hoje preso, e foi vice-presidente de Investimentos da Braskem. Deixou a diretoria da Prumo em 2016 para assumir a ANP. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida após sua volta de um giro por oito países: Inglaterra, EUA, Austrália, Malásia, Cingapura, China, Rússia e Noruega.
Valor: A descoberta do pré-sal abriu um debate sobre o ambiente regulatório que acabou interrompendo os leilões no Brasil. Qual o saldo desse período?
Décio Oddone: Quando descobrimos o pré-sal começaram as discussões. Levamos cerca de cinco anos discutindo. Nesse período tivemos queda do preço do petróleo, redução dos investimentos da Petrobras e também dificuldade de cumprimento de regras de conteúdo local, que passaram a ser mais rígidas em 2005. Isso tudo teve impacto enorme na produção do petróleo no Brasil, e o declínio da atividade exploratória foi impressionante. Chegamos a ter 238 poços perfurados em 2011 e só 7 em 2017. Se não fizermos nada, estaremos contratando agora a paralisia da indústria mais à frente.
Valor: Como reverter isso?
Oddone: Precisamos ter coragem de corrigir o que não deu certo e deixar para trás as ideias estatizantes e intervencionistas que vimos que não funcionaram. Às vezes parece que não conseguimos sair daquelas ideias dos anos 50. Cada vez que divulgamos uma medida para estimular a atividade aparece gente dizendo que estamos cedendo à pressão das empresas, insinuando que temos postura de colonizados. Acho que é o contrário. Pensar isso é que é submissão. Estamos escolhendo o caminho que queremos seguir. Quem acha fazemos isso pressionados por outros é que demonstra ter uma mentalidade de colonizado.
Valor: Pode ser mais específico?
Oddone: Estão sendo tomadas algumas medidas de natureza política, como o fim da obrigatoriedade da Petrobras ser operadora única no pré-sal, e outras não, como o calendário de leilões, a revisão do modelo de conteúdo local e a nova política de exploração e produção. Essas mudanças vão dar uma dinâmica nova e inédita ao setor. Vão trazer investimentos relevantes, gerar contratações junto à cadeia de fornecedores, fomentar um ciclo positivo de aumento de emprego e arrecadação.
Valor: Quanto pode vir?
Oddone: Calculamos cerca de US$ 80 bilhões de investimento direto nas rodadas que serão realizadas a partir de agora até 2019. Nos nossos cálculos estatísticos, as reservas de petróleo e gás devem praticamente dobrar. Hoje o país ainda vive dos projetos de exploração e produção que foram concedidos no passado, cujo prazo de exploração começou anos atrás.
Valor: Mantida a previsão de R$ 240 bilhões em investimentos?
Oddone: A ANP contabiliza 20 projetos de produção previstos para o período de 2017 a 2021 que podem gerar investimentos de R$ 240 bilhões e instalação de outras 20 plataformas. É nisso que temos que focar no curto prazo. É preciso destravar esses investimentos.
Valor: Que projetos estão incluídos nesse cálculos?
Oddone: Vários do pré-sal, como Libra, Sépia, Lula, Búzios e outros. São projetos que estão andando em maior ou menor velocidade em função de uma série de dificuldades. O que a gente quer fazer é ajudar para que esses projetos saiam. Dos leilões que aconteceram nos últimos anos, na 11ª e 12ª rodadas [de 2013] e desde a 7ª rodada [de 2005], cerca de 150 poços exploratórios, dos quais 40 no mar, estão travados. Ainda não aconteceram porque não têm licença ambiental, existe dificuldade com conteúdo local ou alguma outra razão. Só aí são cerca de R$ 10 bilhões de investimento. Uma sonda marítima, por exemplo, gera mil empregos, incluindo rodízio da tripulação e apoio. Essas atividades podem ser destravadas.
"A política de conteúdo local não tem o objetivo de multa. A multa significa o fracasso da política"
Valor: Com tantas dificuldades do governo na área fiscal, não foi difícil convencer a Fazenda a abrir mão dessas multas?
Oddone: Em primeiro lugar, a política de conteúdo local não tem o objetivo de multa. O objetivo é distinto. A última coisa que eu quero aqui é multar. A multa significa o fracasso da política e o ideal é que ela fosse conduzida sem multa. Outra coisa que é preciso lembrar é que estamos vivendo um período de institucionalização. Eu nunca falei com a Fazenda sobre isso. Essa atribuição cabe à ANP. Se por um lado, no passado, as fornecedoras interpretaram as questões de compromisso de conteúdo local como uma demanda potencial e fizeram investimentos com base em expectativas de contratação que não se realizaram, não procedem as argumentações da industria do petróleo de que os compromissos de conteúdo local eram totalmente inexequíveis. Também não é isso. No momento, o que não está claro é que a isenção em larga escala ou a negociação individual de compromisso de ajuste, o "waiver", seja a solução. E não é. Se tivermos milhares de "waivers" isso aqui vai virar um inferno.
Valor: Não é injusto conceder o 'waiver' quando empresas pagaram menos se comprometendo com mais conteúdo local?
Oddone: Um debate que existe é se houve prejuízo para concorrentes nos casos em que a oferta de conteúdo local foi critério vencedor da licitação. Foram apenas dois casos em 673 desde 2005. Uma das áreas já foi devolvida, era em terra da Petrobras com BG no São Francisco. Resta uma no Recôncavo Baiano também em terra. Então não tem nenhum campo relevante. O impacto disso na seleção de ganhadores dos leilões foi mínimo.
Valor: E o TCU criticou essa demora da agência
Oddone: No ano passado, o TCU determinou que em 180 dias a ANP normatizasse a aplicação do "waiver", inclusive para os casos já protocolados. Desde 2009, a ANP vinha alertando sobre as dificuldades encontradas na aplicação da política de conteúdo local. O sistema é rígido, detalhado, de difícil cumprimento e fiscalização, e não parece refletir a atual capacidade da industria fornecedora em bases razoavelmente competitivas. Nosso objetivo ao regulamentar não é ajudar a indústria de petróleo mas evitar insistir nos erros e corrigir o que não deu certo. A contratação de conteúdo local não deve onerar o setor de petróleo de forma arbitrária.
Valor: Como se chegou aos 25% de conteúdo local?
Oddone: Foi em função de uma ampla discussão para redefinir as regras de conteúdo local feita no âmbito do governo.
Valor: Alguma empresa ou segmento industrial reclamou com a ANP que essa mudança é injusta?
Oddone: Eu recebi aqui o Sinaval e a Abimaq, e eles têm uma posição de que os conteúdos locais precisam ser mantidos nos níveis anteriores. Mas nos níveis anteriores, a atividade paralisou. Tanto assim que o governo mesmo reformulou a política. O fato é que as contratações não vieram.
Valor: Essa paralisação não foi por falta de outras empresas competindo com a Petrobras, que passou a ter dificuldades?
Oddone: Quando se tem uma redução da atividade como a gente teve no Brasil, isso é resultado de uma série de fatores. Não foi um fator único. O que a gente viveu foi uma conjunção de políticas equivocadas com concentração em uma única empresa, que é a Petrobras. Mas também de outros fatores como o preço do petróleo que reduziu o nível exploratório das companhias. É uma série de conjunções e devemos trabalhar com as que nos competem. O governo determina as políticas e mudou algumas. A regulação, a ANP ajusta.
Valor: E foram cinco anos sem leilões, de 2008 a 2013.
Oddone: Se me pedissem para eleger um fator, elegeria esse como o mais relevante, como também a dificuldade com conteúdo local. Com o preço do petróleo a mais de US$ 100 tudo fica mais fácil, a indústria fica mais próspera e mais propensa a gastar mais, o que não acontece em época de escassez de recursos como agora. O que queremos que as pessoas entendam é que nosso objetivo é fazer alguma coisa. A indústria brasileira vai se beneficiar muito mais do que se os projetos continuarem parados, e as empresas, a indústria e a ANP entrassem em uma interminável discussão de pedidos de "waiver". Mantida a regra como está vai ser uma judicialização eterna, um debate caso a caso.
Valor: E como fica a situação da indústria brasileira?
Oddone: As empresas mais competitivas serão as primeiras a se beneficiar quando as contratações das empresas de petróleo voltarem. E no final toda a cadeia vai se beneficiar. Queremos gerar volume, e 25% de muitas plataformas - e eu falei vários números aqui - é muito melhor que 55% de nenhuma ou de poucas, como a gente está agora. Isso precisa ser entendido. Sem falar nos outros benefícios de uma retomada da atividade. É por isso que estamos propondo as mudanças e levando o assunto para consulta pública. Todos vão ter condições de opinar.
"Numa democracia capitalista como a nossa, as contratações devem ser feitas sem imposições excessivas"
Valor: Quem vai tomar a decisão final sobre a mudanças na política de conteúdo local?
Oddone: A ANP. Os interessados poderão se manifestar. Temos tradição de engessar muito as decisões. A de conteúdo local é um exemplo. Agora vamos licitar blocos do pré-sal e seria bom ver companhias disputando quem oferece maior bônus no momento em que o país precisa de receitas adicionais. Mas não podemos, porque está definido na lei que o bônus não é mínimo, é fixo. Ganha quem oferecer a maior parcela de petróleo para a União. Passamos anos discutindo o destino da renda do pré-sal e acabamos decidindo que a Petrobras seria operadora única com mínimo de 30% de cada bloco.
Valor: O bônus previsto para as áreas do pré-sal é de R$ 8,5 bilhões. Acha que perdeu-se tempo?
Oddone: Aí tem uma coisa interessante. A União se apropria de 75% da renda do petróleo, o "government take" como se fala em inglês, que é o conjunto de resultados que sobram depois de pagos todos os custos. Como o Estado detém cerca de 50% do capital da Petrobras, se distribuído sob a forma de dividendos, metade do seu lucro poderia reverter para a União. O resto corresponderia aos demais acionistas.
Valor: O governo tem 47,61% considerando participações indiretas do BNDES e da Caixa.
Oddone: Mas vamos imaginar que sejam 50%, vamos fazer uma conta de padeiro. Dessa forma, se a Petrobras operasse sem sócios em uma área no pré-sal, metade do lucro auferido pela companhia, 12% da renda total, poderia passar ao Estado, elevando a parcela que caberia ao governo a 87%. No entanto, a Petrobras optou por ter 30% nos blocos que selecionou nos próximos leilões. Em função disso, a participação do Estado no lucro da companhia poderia chegar perto de 4% do total, o que elevaria o montante da União a 79% da renda total. Nos blocos em que a Petrobras não participar, a quota do Estado será de 75%. Portanto, toda a discussão sobre a renda gerada pela exploração do pré-sal resume-se a cerca de 4% do total.
Valor: A discussão tomou muito tempo, inclusive no Congresso
Oddone: Pois é. E enquanto essas regras eram discutidas, o país pagava Juros elevados sobre a sua dívida. Do ponto de vista econômico-financeiro teria sido melhor iniciar a produção logo. Algo parecido acontece na discussão sobre o conteúdo local, que está na ordem do dia. Parece que as contratações a preços mais elevados são um problema só das empresas, inclusive da Petrobras. E olha a contradição aí. A Petrobras é do povo, ela é nossa, mas pode arcar com custos mais elevados. E numa democracia capitalista como a nossa, as contratações devem ser feitas de forma livre, sem imposições excessivas. A interferência deve ser limitada, já que existem políticas. Nessa discussão sobre o conteúdo local não se fala dos custos para a sociedade.
Valor: Qual o impacto do atraso de uma plataforma como a do campo de Libra?
Oddone: Com o petróleo custando US$ 50 o barril e considerando que a plataforma terá capacidade de produzir 150 mil barris, a conta é impressionante. São R$ 2,6 bilhões de receitas postergadas a cada ano por causa do atraso na entrada em produção de uma plataforma como essa. Se estamos falando de um potencial de 20 plataformas nos próximos anos, faz a conta. São dezenas de bilhões de reais potenciais de projetos previstos. E mesmo que não sejam tudo isso, continuam sendo dezenas de bilhões de reais em receitas que, do ponto de vista prático, nunca mais vão ser recuperadas. Se vai produzir o petróleo daqui a 20 anos, se trouxer a valor presente é nada. Quem mais perde com isso é a sociedade. É preciso coragem de propor alguma coisa, e é o que estamos fazendo.
Valor: É possível que venha uma onda de importações que possa impactar a balança comercial?
Oddone: Eu vejo uma situação em que a retomada da atividade vai gerar demanda. Teremos coisas que serão feitas fora e existem grandes discussões sobre o que. Mas não tenho dúvidas de que montagem de cascos e módulos serão feitos no Brasil. Eu já vi apresentações públicas de consórcios falando que níveis de contratação próximos aos que estão estabelecidos agora serão viáveis. E se não forem na forma que estamos propondo, aí haverá multa, porque não vai mais existir a figura do "waiver". E quando se retoma a atividade se cria toda uma cadeia de produção que não está presente quando a atividade é reduzida. Não nos esqueçamos também que o Brasil é longe, existe um custo logístico para trazer as coisas para cá, e a questão de impostos aplicáveis às importações. Isso gera vantagens para as empresas estabelecidas no Brasil. As empresas mais competitivas serão beneficiadas no primeiro momento, mas com o grande volume de plataformas que vão ser consumidas nos próximos anos, não tenho dúvida que vai aumentar o grau de contratações da indústria em geral.
Valor: Existe algum estudo mostrando as dificuldades de se adquirir bens no mercado nacional?
Oddone: Existem muitos estudos, nenhum da ANP. Os pedidos de "waiver" que temos aqui, exceto Libra e Sépia, da Petrobras, são da fase de exploração, que não tem essa questão de indústria tão intimamente relacionada.
Valor: Quais itens de conteúdo local estão sendo objeto de pedidos de "waiver"?
Oddone: Temos pedidos para afretamento de sondas, apoio logístico a embarcações, aquisição de sísmica, brocas, equipamentos de poços e revestimentos, que são as tubulações. E temos dois de sistemas de comunicação. Tudo ainda relacionado com a atividade de exploração, enquanto o grosso da contratação da indústria local vem na fase de desenvolvimento. Mas a ANP ainda não está avaliando esses pedidos.
Valor: Como vê a conjuntura de preço do petróleo?
Oddone: Tanto a Opep quanto a Agência Internacional de Energia [AIE] identificam que a reação da indústria à queda do preço do petróleo em 2014 e 2015 vai gerar a necessidade de exploração. No momento em que cai o preço, o primeiro ajuste que as empresas fazem é cortar a exploração e foi esse o movimento que vimos de 2014 a 2016. Agora está voltando o interesse das empresas por exploração e tanto a AIE quanto a Opep acham que em 2020 a falta de exploração em 2014, 2015 e 2016 vai levar a um aumento de preços.

 http://www.valor.com.br/brasil/5064006/para-anp-e-hora-de-deixar-de-lado-ideias-intervencionistas
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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Beatles: último show (30/01/1969)

Get Back

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O Poder da gratidão (Gustavo Ranieri)

Exercitar esse sentimento no dia a dia faz bem para a gente mesmo e também para quem está próximo. Melhor, nos ajuda a cultivar a desejada paz interna


Não chegaríamos aqui à toa. Repito essa frase a mim mesmo algumas vezes enquanto escrevo este texto. Quantas guerras, intempéries, furacões, terremotos, pestes, fome, miséria, descobertas, amizades, amores, fartura, riquezas e uma gama de outras situações foram vividas por aqueles que vieram bem antes de nós para que pudéssemos agora estar exatamente no lugar em que estamos? Um pensamento que me transporta diretamente a um aprendizado que tive certa vez com uma religião oriental que estudei, na qual seus frequentadores cultuam os antepassados. Apesar da beleza do ritual, uma das coisas que mais me impressionaram foi o cálculo matemático apresentado por eles sobre os nossos elos de conexão – era algo que eu nunca havia parado para pensar. Para ter uma ideia, ao olhar para trás, para as últimas dez gerações, por exemplo, cada um de nós encontrará o incrível número de 1.024 pessoas que se ligaram umas às outras até chegar aos nossos pais, que, por conseguinte, nos permitiram nascer. Avós, bisavós, trisavós, tetravós, pentavós e o sempre crescente número de famílias que compõem a ascendência de cada um de nós me fazem repetir a mesma frase: não chegaríamos aqui à toa. Mas, acima de tudo, me despertam o sentimento que deveria reger toda a humanidade, o de gratidão. Essa emoção tem sido bastante analisada pela ciência nas últimas décadas. E os estudos só comprovam os inúmeros benefícios que ela exerce em quem a pratica no seu dia a dia. Entre as diversas pesquisas, ganha destaque, por exemplo, a realizada na Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, e publicada em 2016. O estudo foi feito com 43 pessoas, homens e mulheres de idades diversas, que participaram do experimento de maneira voluntária. Em comum, todos se tratavam de depressão e distúrbios relacionados à ansiedade. Desses, 22 foram submetidos por três meses a sessões semanais em que deveriam passar um tempo determinado escrevendo cartas para expressar gratidão. Eles eram incentivados a agradecer pelo dia que tiveram, por um encontro com um amigo... Ao final, verificou-se que aqueles que fizeram essa prática ativaram uma área do cérebro responsável por tal sentimento e conseguiram tratar seus distúrbios com mais facilidade. Outro especialista no assunto, o psicólogo americano Robert A. Emmons, também atestou, por meio de suas pesquisas, como a gratidão reduz as emoções tóxicas das pessoas e gera o aumento da felicidade. Isso porque, segundo seus estudos, ao sermos gratos liberamos no organismo um neurotransmissor conhecido como dopamina, que gera dentro da gente uma onda interna de bem-estar e prazer. Emmons é autor do best-seller Agradeça e Seja Feliz! (Nova Era).

 Ser grato

 Mas, afinal, o que é ser grato? A pergunta que parece ter uma resposta óbvia tem razão de ser feita atualmente. Nos últimos dois anos, após algumas celebridades usarem a hashtag #gratidão em suas redes sociais, o termo passou a ser utilizado massivamente na web para as mais distintas situações, especialmente ao ser a legenda de fotos publicadas no Instagram: seja a prática de ioga, a visita a um santuário, um banho de sol na praia, um passeio pelo parque e até num treino de MMA. Certo é que, em muitos casos, se confundiram os sentidos de “obrigado” – palavra que se origina do verbo em latim obligare, o mesmo que se amarrar/ligar por um favor feito por outra pessoa – e de “gratidão” – do latim gratia, o mesmo que graça, reconhecimento por tudo o que é recebido. “Várias pessoas falam em gratidão banalizando a palavra, mas vejo isso com bons olhos, pois é um sinal de caminho evolutivo. Muitas vezes, a gente repete algo para depois trazer realmente para dentro de nós. E tudo bem se essa sensação estiver no campo mental em um primeiro momento, já que estamos em uma sociedade que valoriza muito isso. Não vejo problema, mas espero que essa sensação possa descer da cabeça para o corpo”, salienta Carolina Bergier, educadora na área de sustentabilidade e fundadora da Casa Sou.L, no Rio de Janeiro. Para ela, gratidão, no sentido mais amplo, é reconhecer a bênção de estar vivo. “Ela surge quando estou alinhada comigo mesma e na compreensão de que a vida está me trazendo exatamente aquilo de que preciso, que pode ser um copo d’água ou um grande desafio. Às vezes, receber um pouco de água pode ser com um obrigado e outras vezes pode ser com gratidão, depende de onde aquilo está mexendo ou tocando em mim, me levando para a conexão comigo mesma e com o divino. Seja lá o que isso signifique para cada um, é essa força maior que rege nossa existência na Terra”, acredita Bergier. Tal sentimento encontra eco em Odilon Niskier, um advogado aposentado, hoje com 91 anos. Polonês, vindo para o Brasil em 1932, quando ainda era criança, quem o conhece logo é tocado com a força da gratidão que expressa pela vida e transmite aos que estão ao seu redor, como a esposa, com quem está unido há 61 anos, filhos, netos, irmãos, sobrinhos, amigos. O sentimento não foi alterado nem mesmo quando, há um ano, quebrou o fêmur e precisou fazer cirurgia, seguida de fisioterapia para reaprender a andar. “Tenho uma gratidão enorme pela vida. E não tenho queixas. Pelo contrário, tenho motivos de contentamento e satisfação, reconhecimento por tudo o que recebi e por toda a alegria que as pessoas me proporcionaram”, afirma ele, emocionado. “A vida só tem me dado alegrias, boas recompensas, boas notícias e muita satisfação. As agruras também fazem parte da nossa existência, que tem seus aspectos positivos e aspectos menos positivos, mas tudo é um conjunto, e vou conservar essa gratidão comigo para sempre”, diz Niskier. Acima de tudo, gratidão não está atrelada a qualquer caráter espiritual. Independentemente de qual seja a crença de cada um, ou mesmo na ausência de uma, o sentimento age igualmente no nosso desenvolvimento pessoal. Um dos mais belos exemplos disso é o livro Gratidão (Companhia das Letras), do neurologista e escritor anglo-americano Oliver Sacks. Declaradamente ateu durante toda a sua existência, Sacks, que assinou vários best-sellers ao longo de sua trajetória, descobriu no início do último ano de sua vida (2015) que estava com um tipo de câncer com pouquíssimas opções de tratamento. Diante do prognóstico de pouco mais de seis meses de vida, o médico e cientista se dedicou a escrever quatro ensaios, publicados separadamente no jornal americano The New York Times, e posteriormente reunidos no livro mencionado há pouco. Em todos os textos, cada um à sua maneira, o médico e pesquisador expressou o profundo sentimento de gratidão pela vida que lhe foi permitida. “Não consigo fingir que não estou com medo. Mas meu sentimento predominante é a gratidão. Amei e fui amado, recebi muito e dei algo em troca, li, viajei, pensei, escrevi. Tive meu intercurso com o mundo, o intercurso especial dos escritores e leitores. Acima de tudo, fui um ser senciente, um animal que pensa, neste belo planeta, e só isso já é um enorme privilégio e uma aventura”, escreveu no ensaio intitulado My Own Life.

Força quântica

Olhando cada um de nós pela física e pela saúde quântica, 99,9% do que somos é energia. Apenas a minúscula parte restante é matéria. Consequentemente, a administração de nossas emoções nos encaminha para diferentes tipos de realidades. Para o professor, palestrante e escritor brasileiro Wallace Liimaa, especialista em física quântica e saúde integral, vivemos em uma sociedade na qual, como mostram os estudos, quase 80% da população morre em virtude de alguma doença crônica, gerada e mantida seja por hábitos errados, seja pelo gerenciamento equivocado de nossas emoções. “Uma pessoa que diante de qualquer obstáculo sempre se coloca como vítima, como coitada, o sistema endócrino dela responde colocando no corpo os chamados hormônios do estresse, que são especialmente cortisol e adrenalina. Dessa forma, a pessoa vive constantemente no modo de sobrevivência, no qual ela está ali em uma situação em que vai precisar fugir ou lutar para se defender. E nosso corpo não foi programado para se manter nesse estado de estresse continuamente, porque isso fragiliza os sistemas, mina nosso sistema imunológico. Mas, ao contrário disso, a ciência vem pesquisando que o estado de gratidão se comunica com outra reação química em nosso corpo. Agradecer por tudo o que acontece e pelas mínimas coisas, especialmente pelos desafios, nos deixa em estado de prontidão e em modo criativo. Isso porque a gratidão joga no organismo os neurotransmissores do bem-estar, que são a serotonina e a dopamina, ansiolíticos naturais. Nesse estado de tranquilidade e relaxamento, você pode pensar em soluções, em vez de problemas”, salienta Liimaa. Atuando na cidade do Recife e ministrando diversos cursos, como o intitulado Salto Quântico, Liimaa explica também que, do ponto de vista quântico, todo pensamento emite uma onda elétrica. Quando pensamos, os neurônios são conectados através de cargas elétricas, as quais, em movimento, geram campos magnéticos. “Então, toda vez que estamos pensando, nos comportamos de certa forma como antenas de rádio, emitindo sinal eletromagnético em determinada vibração e frequência. Por isso temos a tendência a atrair pessoas que estão na mesma sintonia que a gente. Mas, em momentos de crise, quando algumas pessoas ficam na frente da televisão só vendo acontecimentos ruins o tempo todo e falando sobre isso, elas vão contaminando o corpo com essa vibração predominante e não conseguem sair desse estado ou mesmo pensar em soluções para os problemas diários. A gratidão é exatamente você treinar o corpo para viver o estado de presença. À medida que trabalhamos a gratidão conscientemente, produzimos bem-estar”, atesta. É importante ter em mente, igualmente, que quando a gratidão é expressa de maneira sincera ela não só atua em você mas tende a se multiplicar para mais pessoas ao redor. “Se agradeço a você e você recebe esse ato da maneira certa, você aumenta em um grau a sua felicidade pessoal, pois gratidão está diretamente relacionada à felicidade”, enfatiza o antropólogo americano Darrell Champlin, autor dos livros iEu e Portal dos Sonhos.

Além dos genes
Champlin, que vive no Brasil há 30 anos e mora em Santos (SP), onde leciona na Universidade Santa Cecília, chama a atenção para outro tema cuja gratidão em muito se relaciona: epigenética, ou seja, modificações do genoma herdadas pelas próximas gerações, mas sem qualquer alteração da sequência do DNA. Em termos práticos, alguém que nasce e cresce em um ambiente no qual a gratidão permeia a vida de todos tem uma tendência maior de experimentar os efeitos positivos desse sentimento. Da mesma forma, acontecimentos negativos ou traumáticos também são transmitidos e impactam a vida de uma pessoa mesmo antes de ela nascer. “Está comprovado que três gerações de descendentes daqueles que sofreram os terrores nazistas nos campos de concentração têm 78% mais propensão a ter depressão do que aqueles que não passaram por tal trauma. Como isso pode ter perdurado por tantas gerações?”, questiona Champlin. “Você recebe essas informações por algo que eu poderia chamar de memória ancestral, espiritual, dessa consciência que habita fora do corpo”, acredita o especialista. Gratidão é amor, compaixão e tolerância, e está mais do que claro que bons atos levarão a outros bons atos. Além disso, seu exercício promove efeitos bioquímicos benéficos para todos – e não só pra gente mesmo. Mas, ainda assim, caso você, leitor, tenha dificuldade de se conectar com o ato de graça com todas as coisas, Champlin estimula a prática da meditação, seja de qual tipo for, para abrir esse espaço interno e fazer a conexão. “É demonstrado cientificamente que os efeitos da meditação no corpo vão muito além do relaxamento e geram em qualquer pessoa uma ampliação da tolerância, da compaixão e, por causa disso, a ampliação também da gratidão”, diz. Como sugestão também, quanto mais se estiver em um ambiente rodeado por pessoas positivas, mais provável que se ativem no cérebro as mesmas redes neurais da positividade. Portanto, é imprescindível que a gente esteja sempre em busca de bons livros, boas músicas, boas notícias, influenciando assim nosso ser e como nossa genética se expressa. “Só no fortalecimento do novo você pode construir uma nova personalidade e uma diferente realidade pessoal”, reforça Wallace Liimaa. Olhar para todos os lados de uma situação e enxergar a graça no que não era visível antes também se mostra fundamental. A educadora Carolina Bergier conta, por exemplo, que recentemente, conversando com amigas, ela falava sobre uma questão muito desafiadora em sua vida, com a qual não sabia lidar direito. E foi em meio à conversa que ela notou que deveria ver um outro lado da questão. “Percebi que havia outros caminhos e ângulos de olhar para aquela falta que estava sentindo e que já existia algo naquela situação que estava completo. E, quando consegui perceber o que estava completo, ver que a vida estava perfeita e entrar nesse estado de gratidão, soube com mais amorosidade lidar com aquela questão e assim celebrar.” E como o neurologista Oliver Sacks escreveu no ensaio Shabat, o último texto de sua obra Gratidão, e publicado poucas semanas antes de morrer, com a gratidão podemos “alcançar a sensação de paz dentro de nós mesmos”. Que a gente siga, então, sendo grato.



GUSTAVO RANIERI é jornalista e expressa gratidão pela sua família, pelo convite para escrever esta reportagem e pelo que aprendeu com ela.

@filosofia


Ozires Silva: "Estamos criando uma verdadeira tragédia para o nosso futuro"

Governo deveria ser o catalisador do sucesso da sociedade, e não o "atrito", diz fundador da Embraer; "onde estão os nossos líderes? Já esta provado que não estão em Brasília"
Thiago Salomão, 26 jul, 2016 08h30

SÃO PAULO - O bordão "Brasil é o país do futuro" nasceu com uma visão promissora para o País, mas logo tornou-se o "lugar comum" para concluir a ideia de que não conseguimos evoluir em certos aspectos e ficamos esperando por um futuro que nunca chega. E se depender das políticas adotadas pelo nosso governo no campo educacional, estamos fadados a ficar cada vez mais atrasados do resto do mundo. Essa visão é de ninguém menos que Ozires Silva, 85 anos, fundador da Embraer (EMBR3) e que "venceu na vida" principalmente graças aos esforços pessoais nos estudos - o que torna essa análise ainda mais preocupante.

"A magia da transformação passa pela educação. Basta ver o que aconteceu com a China e a Coreia do Sul nas últimas décadas. Aqui não temos isso: o Governo Federal não tem e nunca teve um plano para mudar isso. Estamos criando uma verdadeira tragédia para o nosso futuro e para as gerações de nossos netos", disse Ozires em almoço palestra promovido pela OEB (Ordem dos Economistas do Brasil), realizado no começo de julho no Terraço Itália, em São Paulo.

Por cerca de 40 minutos, ele explicou por que o Brasil está ficando - e deverá ficar - cada vez mais para trás na esteira da evolução do mundo e apontou como a falta de líderes em Brasília é determinante para nos manter nesse atoleiro. Como um ótimo contador de histórias, Ozires ainda narrou toda a trajetória da Embraer, desde a fundação até a posição mundial de destaque, comovendo os ouvintes mas ao mesmo tempo mostrando o quão difícil é criar tecnologia dentro de um país tão acostumado a produzir commodities.

Confira abaixo os principais destaques do discurso de Ozires Silva:

A magia da educação e a "herança maldita" do Brasil
A magia da transformação passa pela educação. Basta ver o que aconteceu com a China e a Coreia do Sul nas últimas décadas. Em 1988, eu, juntamente com outras personalidades mundiais da época, fomos chamados por Peter Druker, que havia sido contratado pelo governo chinês para criar um projeto de conquista do mercado mundial. Hoje vemos onde ela chegou. Isso mostra a importância de ter líderes, pois eles que guiarão as pessoas a fazerem algo em conjunto que resultará em um bem comum.

Aqui no Brasil não temos isso: o Governo Federal não tem e nunca teve um plano para mudar isso. Estamos criando uma verdadeira tragedia para o nosso futuro e para as gerações de nossos filhos. Sem dúvida nenhuma não chegaríamos onde chegamos [com a Embraer] sem educação. Inovação é fundamental. O problema é que o Brasil não está preparado para assumir os riscos de criar algo novo. Se não assumirmos isso, o futuro de nossos filhos estará em risco.

Nossos líderes não estão em Brasília
No passado, os líderes mudaram o mundo. E continuarão fazendo isso. Dai eu pergunto: onde estão os nossos líderes? Já esta provado que não estão em Brasília. O governo brasileiro não tem funcionado como um catalisador do sucesso da população, ele tem sido um atrito. Os líderes são sempre necessários. Então, seja um deles: ao invés de esperar alguém, seja você a mudança. Precisamos confiar em nós mesmos.

A "triste" semelhança entre brasileiros e chineses
Os países emergentes estão encontrando seu caminho, hoje em dia produtos coreanos e chineses estão no mundo todo, mas nosso produto não. Não há produtos brasileiros nas ruas e cidades do mundo. O Brasileiro é igual o chinês: o chinês só compra produto chinês; o brasileiro também. Oportunidades estão aí e precisam ser aproveitadas, mas sem marca e sem propriedade intelectual não vamos evoluir.

Vendemos barato, compramos caro; como fechar a conta?
O mundo está menor, cada vez mais globalizado, mas não estamos aproveitando as novas tecnologias que surgem. São raras as inovações no Brasil, e uma das razoes é a dificuldade de levantar capital de risco para aplicar e gerar valor, e não apenas aplicar para gerar retorno financeiro. Os empreendedores precisam disso para ter sucesso. Mas infelizmente ainda somos uma terra de commodities. Estamos vendendo barato e comprando caro. No longo prazo, essa conta fecha?

Embraer: do sonho de criança ao "dia de sorte"
Em 1945, quando tinha 14 anos, eu e o Zico [amigo de Ozires que ajudou a idealizar a Embraer, mas que morreu em 1955 em um acidente aéreo] frequentávamos o Aeroclube da minha cidade natal, Bauru. Nós discutíamos por que os aviões do aeroclube tinha que ser todos importados dos EUA. Em 1906 Santos Dummont deu seu primeiro voo, então por que 40 anos depois não tínhamos nossos próprios aviões? Além disso, o Brasil sempre foi um país continental e estava em crescimento, o que criava a necessidade de mobilidade. Havia também sinais de globalização, ou seja, poderíamos fazer aviões no Brasil e vender em outros lugares.

Como não havia graduação em aeronáutica, entramos na FAB (Força Aérea Brasileira) via concurso em 1946. Em 1950, foi criado o ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), onde poderíamos ter a base de estudo. Mas eu só consegui a bolsa para ser engenheiro em 1962. Me formei aos 32 anos. Agora que eu tenho a qualificação correta, não podia ficar de braço cruzado: no ano seguinte, montei uma equipe de engenheiros para colocar de pé a seguinte ideia: criar aviões que poderiam atender a demanda regional de voos. Muitas cidades menores não tinham a infraesturtura para receber aviões muito grandes, e por isso essas cidades estavam perdendo serviço regular mesmo com o crescimento da economia do País como um todo. Nosso projeto era provar ser possível um avião pousar numa pista pequena.

Sofremos com a baixa credibilidade: o estrangeiro não queria colocar dinheiro nesse projeto, enquanto o governo rejeitou a ideia de uma sociedade mista e disse que algo desse porte tinha que ficar com a iniciativa privada. Até que surgiu o que eu gosto de chamar de "dia de sorte": era domingo, 20 de abril de 1969. Presidente da República [Artur da Costa e Silva] estava indo para Guaratinguetá e havia uma comitiva enorme para recebê-lo, mas por causa de uma neblina, ele teve que ir pra São José dos Campos. Eu e minha equipe estávamos trabalhando naquele domingo. Então como não tinha ninguém lá par recebê-lo, eu tive que fazer isso sozinho. Era a minha chance de de fazer uma "lavagem cerebral"e convencê-lo a criar uma estatal de fabricante de aviões. E ele acreditou: em 19 de agosto de 1969, foi criada a Embraer.

Hoje, voamos em 90 países, e o curioso é que foi esse o número que "chutei" em 1969 quando o presidente me perguntou quantos países eu achava que teriam interesses em nossos aviões.
Ozires Silva: "Estamos criando uma verdadeira tragédia para o nosso futuro" - InfoMoney
Veja mais em: http://www.infomoney.com.br/embraer/noticia/5321191/ozires-silva-estamos-criando-uma-verdadeira-tragedia-para-nosso-futuro

http://www.infomoney.com.br/embraer/noticia/5321191/ozires-silva-estamos-criando-uma-verdadeira-tragedia-para-nosso-futuro
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Queima de fogos: dia do Monte Fuji



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