quarta-feira, 26 de agosto de 2020
terça-feira, 25 de agosto de 2020
‘Forward guidance’ é tão eficaz quanto juro(Valor, 25 8 2020)
‘Forward guidance’ é tão eficaz quanto juro, diz estudo do BC
terça-feira, 25 de agosto de 2020
Valor Econômico / Finanças
Alex Ribeiro
O uso da comunicação pelos Bancos Centrais — o chamado “forward guidance” — é tão eficaz para atingir os seus objetivos para estimular a economia e levar a inflação para a meta quanto a ferramenta tradicional da taxa de juros de curto prazo.
É o que mostra um trabalho para discussão do Banco Central, elaborado pelo economista Leonardo Nogueira Ferreira. Embora contenha a ressalva de que o texto não expressa, necessariamente, a visão do BC, o estudo vem a público num momento em que a autoridade monetária começa a usar o forward guidance como instrumento auxiliar de política monetária.
Já havia uma extensa pesquisa acadêmica que mostra que a comunicação de política monetária dos bancos centrais é capaz de influenciar a curva de juros futuros. Ferreira dá um passo além, verificando o quanto mudanças na curva de juros futuros afetam variáveis macroeconômicas.
Sua constatação, com base em dados dos EUA, é que, se um forward guidance levar a uma mudança de 0,08 ponto percentual na curva de juros futuros para o prazo de dois anos, a produção industrial será afetada, em média, em mais de 0,2 ponto percentual. Testes adicionais feitos pelo economista compararam o efeito do forward guidance com os tradicionais movimentos de taxa de juros feitos pelos BCs.
“Os resultados mostram que os efeitos do forward guidance podem ser pelo menos tão fortes quanto os efeitos da política monetária convencional”, afirma Ferreira, no estudo “Forward Guidance Matters: Disentangling Monetary Policy Shocks” (numa tradução livre, Orientação Futura Importa: Separando Choques de Política Monetária).
Em reunião no começo do mês, o Banco Central fez uso pela primeira vez, na gestão Roberto Campos Neto, de um forward guidance. O BC cortou os juros em 0,25 ponto percentual, para 2% ao ano, e concluiu que era necessário mais estímulos para levar a inflação para as metas. Por isso, anunciou que não subirá os juros, e poderá baixá-los, enquanto as projeções de inflação do BC e as expectativas de mercado não se aproximarem das metas.
Quando um banco central utiliza um forward guidance, ele está usando a comunicação para influenciar a curva de juros futuros — que, por sua vez, influencia decisões de consumo e investimento. No dia seguinte ao anúncio do forward guidance, os contratos de juros DI com vencimento em 2022 caíram de 2,77% pra 2,6%. Mas, nos dias seguintes, voltaram a subir, devido a riscos fiscais.
Embora a intuição sobre o forward guidance pareça algo simples, medir o efeito de um forward guidance é considerado um grande desafio entre os especialistas. A metodologia usada por Ferreira utiliza as surpresas nos preços de contratos futuros ao redor do anúncio do comitê de política monetária do Fed (Federal Reserve, o banco central americano). Ele usa uma janela de tempo pequena para separar o efeito do comunicado do Fed nas expectativas de taxas de juros das demais coisas acontecendo na economia — como uma estatística ou informação nova — que também afetam as expectativas de taxas de juros.
terça-feira, 25 de agosto de 2020
Valor Econômico / Finanças
Alex Ribeiro
O uso da comunicação pelos Bancos Centrais — o chamado “forward guidance” — é tão eficaz para atingir os seus objetivos para estimular a economia e levar a inflação para a meta quanto a ferramenta tradicional da taxa de juros de curto prazo.
É o que mostra um trabalho para discussão do Banco Central, elaborado pelo economista Leonardo Nogueira Ferreira. Embora contenha a ressalva de que o texto não expressa, necessariamente, a visão do BC, o estudo vem a público num momento em que a autoridade monetária começa a usar o forward guidance como instrumento auxiliar de política monetária.
Já havia uma extensa pesquisa acadêmica que mostra que a comunicação de política monetária dos bancos centrais é capaz de influenciar a curva de juros futuros. Ferreira dá um passo além, verificando o quanto mudanças na curva de juros futuros afetam variáveis macroeconômicas.
Sua constatação, com base em dados dos EUA, é que, se um forward guidance levar a uma mudança de 0,08 ponto percentual na curva de juros futuros para o prazo de dois anos, a produção industrial será afetada, em média, em mais de 0,2 ponto percentual. Testes adicionais feitos pelo economista compararam o efeito do forward guidance com os tradicionais movimentos de taxa de juros feitos pelos BCs.
“Os resultados mostram que os efeitos do forward guidance podem ser pelo menos tão fortes quanto os efeitos da política monetária convencional”, afirma Ferreira, no estudo “Forward Guidance Matters: Disentangling Monetary Policy Shocks” (numa tradução livre, Orientação Futura Importa: Separando Choques de Política Monetária).
Em reunião no começo do mês, o Banco Central fez uso pela primeira vez, na gestão Roberto Campos Neto, de um forward guidance. O BC cortou os juros em 0,25 ponto percentual, para 2% ao ano, e concluiu que era necessário mais estímulos para levar a inflação para as metas. Por isso, anunciou que não subirá os juros, e poderá baixá-los, enquanto as projeções de inflação do BC e as expectativas de mercado não se aproximarem das metas.
Quando um banco central utiliza um forward guidance, ele está usando a comunicação para influenciar a curva de juros futuros — que, por sua vez, influencia decisões de consumo e investimento. No dia seguinte ao anúncio do forward guidance, os contratos de juros DI com vencimento em 2022 caíram de 2,77% pra 2,6%. Mas, nos dias seguintes, voltaram a subir, devido a riscos fiscais.
Embora a intuição sobre o forward guidance pareça algo simples, medir o efeito de um forward guidance é considerado um grande desafio entre os especialistas. A metodologia usada por Ferreira utiliza as surpresas nos preços de contratos futuros ao redor do anúncio do comitê de política monetária do Fed (Federal Reserve, o banco central americano). Ele usa uma janela de tempo pequena para separar o efeito do comunicado do Fed nas expectativas de taxas de juros das demais coisas acontecendo na economia — como uma estatística ou informação nova — que também afetam as expectativas de taxas de juros.
Morte anunciada(Ana Carla Abrão, Economia, Estado, 25 8 2020)
ANA CARLA ABRÃO - Morte anunciada
terça-feira, 25 de agosto de 2020
O Estado de S. Paulo / Economia
O Tesouro Nacional divulgou dados fechados de 2019. Nenhuma o Boletim de Finanças dos Entes Subnacionais com os surpresa. O excelente e extenso trabalho dá um alento ao iniciar o relatório com uma notícia positiva, um resultado primário melhor no geral. Mas a alegria dura pouco pois basta olhar no detalhe as linhas de receitas e despesas para entender que os problemas continuam todos lá. E continuarão piorando caso não se mude a rota que vimos trilhando há anos.
Pelo lado da receita primária dos Estados chama a atenção o aumento de 7,6% na arrecadação de 2019 em relação a 2018, principalmente se comparado ao crescimento de 4% nas despesas. Em parte fruto de uma tímida recuperação econômica, em outra parte graças à maior eficiência na arrecadação - onde atuam em conjunto algumas reduções nos benefícios fiscais e um combate mais firme à sonegação.
Mas há que se reconhecer também a ajuda da União que fez crescer as transferências para os entes federados em 7,7%. Foi esse significativo ganho real nas linhas de receita que garantiu a melhora do resultado primário.
As notícias positivas param aí. Os Estados continuaram, conforme esperado na ausência de uma reforma administrativa ampla, na sua trajetória crescente de gastos com a folha de pessoal que, juntamente com o crescimento de outras despesas correntes, aprofundou a tendência negativa das despesas com investimentos. Nos últimos 9 anos o crescimento médio real na despesa bruta de pessoal foi de 10,87%. Em 2019 o crescimento nominal foi de 5,1%, mantendo a tendência de aumento real. Considerando que foram poucos os Estados que concederam aumentos salariais no ano passado, o crescimento é majoritariamente explicado pelos dispositivos de promoções e progressões automáticas e incorporações de gratificações, anuênios, quinquênios, sextas partes, etc, abundantes nas diversas leis de carreiras estaduais. Chega-se assim a uma participação de 55% da despesa de pessoal na despesa total desses entes. Se olharmos um pouquinho mais atentamente, incorporando na conta os penduricalhos que alguns olhos turvos dos órgãos de controle teimam em acreditar serem gastos com custeio, chegamos próximos aos 70%. Número que continuará aumentando, apesar da proibição de aumentos salariais, mas graças ao veto parcial do presidente Bolsonaro e que passaria desapercebido não fosse o alerta de Daniel Duque, do Centro de Liderança Pública - CLP, publicado ontem pelo Valor Econômico.
A combinação desse movimento crescente e contínuo de gastos de pessoal com uma renúncia fiscal que atinge em média 16,8% do total arrecadado com o ICMS nos Estados - dos quais 65% concedidos por tempo indeterminado - expõe o óbvio: a variável de ajuste nos Estados continua sendo o investimento público, sacrificando a população e promovendo a deterioração da infraestrutura Brasil a fora. Afinal, a contrapartida nessa contabilidade perversa foi a redução de 24,7% dos investimentos em relação à receita corrente líquida, consolidando ausência de capacidade financeira dos Estados e sua dependência de fontes externas. Estas, por sua vez, seriam uma solução alternativa se houvesse capacidade de endividamento, o que não é o caso para a maior parte deles.
Finalmente, o Boletim traz para reflexão alguns números interessantes (senão absurdos). Os Estados atualmente mantêm 263 empresas estatais, das quais 43% estão declaradas como dependentes. Ou seja, conforme definido em Resolução do Senado Federal, há 114 que em 2019 "receberam recursos do seu controlador destinados ao pagamento de despesas com pessoal, de custeio em geral ou de capital, excluídos, neste último caso, aqueles provenientes de aumento de participação acionária, e tenha, no exercício corrente, autorização orçamentária para recebimento de recursos financeiros com idêntica finalidade". Essas empresas consumiram liquidamente R$ 4,8 bilhões de reais em 2019, teoricamente - considerando o que determina a Constituição Federal - exercendo atividades que atendam "aos imperativos da segurança nacional ou a relevante interesse coletivo, conforme definidos em lei". Será mesmo?
A publicação do Tesouro Nacional é um compêndio que se lido com a mesma atenção com que foi elaborado nos apresenta o problema, mas também as soluções. Nas entrelinhas estão implícitas aquelas que são as únicas ações capazes de evitar o colapso fiscal dos entes subnacionais: uma reforma administrativa que reconstrua as relações entre servidores e Estado e garanta melhora dos serviços públicos e redução das despesas de pessoal; uma reforma tributária ampla, que elimine as diversas distorções de um sistema regressivo e traga ganhos de eficiência econômica; um programa de privatizações que permita que o Estado brasileiro - em todos os seus níveis - esteja focado em prover serviços melhores e uma rede de proteção social eficaz. Os números de 2020 estarão confusos em função da pandemia, mas os problemas voltarão com ainda mais força em 2021 evidenciando os governadores que entenderam a mensagem - e já estão agindo - e aqueles que não. Até porque, qualquer caminho que não seja esse nos manterá na rota do colapso. E, como Santiago Nasar de Gabriel García Marques, cuja morte foi premeditada e tão amplamente anunciada, a morte dos Estados não será evitada.
OLHO: Os Estados continuaram na sua trajetória crescente de gastos com a folha de pessoal
segunda-feira, 24 de agosto de 2020
Português, a língua do P
O PORTUGUÊS É O ÚNICO IDIOMA EM QUE SE PODE ESCREVER UM TEXTO SÓ COM A LETRA P.
PODEMOS PARTIR?
Pedro Paulo Pereira Pinto, pequeno pintor português, pintava portas, paredes, portais. Porém, pediu para parar porque preferiu pintar panfletos. Partindo para Piracicaba, pintou prateleiras para poder progredir. Posteriormente, partiu para Pirapora. Pernoitando, prosseguiu para Paranavaí, pois pretendia praticar pinturas para pessoas pobres. Porém, pouco praticou, porque Padre Paulo pediu para pintar panelas, porém posteriormente pintou pratos para poder pagar promessas.
.
Pálido, porém perseverante, preferiu partir para Portugal para pedir permissão para papai para permanecer praticando pinturas, preferindo, portanto, Paris. Partindo para Paris, passou pelos Pirineus, pois pretendia pintá-los. Pareciam plácidos, porém, pesaroso, percebeu penhascos pedregosos, preferindo pintá-los parcialmente, pois perigosas pedras pareciam precipitar-se principalmente pelo Pico, porque pastores passavam pelas picadas para pedirem pousada, provocando provavelmente pequenas perfurações, pois, pelo passo percorriam, permanentemente, possantes potrancas. Pisando Paris, pediu permissão para pintar palácios pomposos, procurando pontos pitorescos, pois, para pintar pobreza, precisaria percorrer pontos perigosos, pestilentos, perniciosos, preferindo Pedro Paulo precaver-se. Profundas privações passou Pedro Paulo. Pensava poder prosseguir pintando, porém, pretas previsões passavam pelo pensamento, provocando profundos pesares, principalmente por pretender partir prontamente para Portugal. Povo previdente! Pensava Pedro Paulo… "Preciso partir para Portugal porque pedem para prestigiar patrícios, pintando principais portos portugueses".
.
Passando pela principal praça parisiense, partindo para Portugal, pediu para pintar pequenos pássaros pretos. Pintou, prostrou perante políticos, populares, pobres, pedintes. - "Paris! Paris!" Proferiu Pedro Paulo. -"Parto, porém penso pintá-la permanentemente, pois pretendo progredir".
Pisando Portugal, Pedro Paulo procurou pelos pais, porém, Papai Procópio partira para Província. Pedindo provisões, partiu prontamente, pois precisava pedir permissão para Papai Procópio para prosseguir praticando pinturas. Profundamente pálido, perfez percurso percorrido pelo pai. Pedindo permissão, penetrou pelo portão principal. Porém, Papai Procópio puxando-o pelo pescoço proferiu: -Pediste permissão para praticar pintura, porém, praticando, pintas pior. Primo Pinduca pintou perfeitamente prima Petúnia. Porque pintas porcarias? -Papai, proferiu Pedro Paulo, pinto porque permitiste, porém preferindo, poderei procurar profissão própria para poder provar perseverança, pois pretendo permanecer por Portugal. Pegando Pedro Paulo pelo pulso, penetrou pelo patamar, procurando pelos pertences, partiu prontamente, pois pretendia pôr Pedro Paulo para praticar profissão perfeita: pedreiro! Passando pela ponte precisaram pescar para poderem prosseguir peregrinando. Primeiro, pegaram peixes pequenos, porém, passando pouco prazo, pegaram pacus, piaparas, pirarucus. Partindo pela picada próxima, pois pretendiam pernoitar pertinho, para procurar primo Péricles primeiro.
Podem Partilhar!
Quais os riscos de aplicar em cooperativa de crédito?(Valor, 24 8 2020)
Quais os riscos de aplicar em cooperativa de crédito?
segunda-feira, 24 de agosto de 2020
Valor Econômico / Valor Investe
Hugo Ferraz
Com essa crise, gostaria de saber se corro risco aplicando dinheiro em uma cooperativa de crédito. Hugo Ferraz, CFP, responde:
Prezado leitor, Antes de responder sua pergunta, pensando em quem ainda não conhece uma cooperativa de crédito, o melhor é explicar o que é esse tipo de instituição.
Uma cooperativa de crédito, assim como um banco comercial, é uma instituição que pratica a intermediação financeira, captando depósitos e oferecendo linhas de crédito. Além disso, oferece produtos e serviços: consórcios, seguros, cartões, fundos de investimento, boletos e conta corrente, entre outros.
Por serem classificadas como instituições financeiras, as cooperativas são supervisionadas pelo Banco Central e seguem as mesmas normas que os bancos comerciais. Todas as exigências que um banco deve cumprir para mitigar seus riscos, normatizadas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), também se aplicam às cooperativas de crédito, trazendo segurança para seus clientes.
Além disso, as cooperativas possuem a garantia de um fundo, o FGCoop, que é similar ao FGC (Fundo Garantidor de Crédito), que garante os depósitos de seus clientes. O valor máximo de garantia é de R$ 250 mil, somados todos os créditos de cada credor identificado pelo CPF ou CNPJ na mesma instituição associada.
Caso você tenha mais que R$ 250 mil aplicados, é muito importante analisar o risco de sua instituição. A maioria das grandes cooperativas possui rating atribuído por agências internacionais como Fitch, S&P Global e Moody ’s. Se não possuir, existe outra forma de analisar sua saúde financeira. As cooperativas disponibilizam aos associados os demonstrativos financeiros mensalmente e todo ano realizam assembleias para a apresentação e aprovação de suas contas.
Até agora falamos pela ótica do cliente. Mas é preciso mencionar que, do ponto de vista societário, existe uma diferença entre o banco e a cooperativa.
Ao abrir a conta num banco, você se torna cliente e passa a utilizar seus produtos e serviços, não tendo nenhum vínculo societário com ele. Caso queira ser sócio de um banco, deve fazer isso comprando ações (mercado de renda variável) e assim adquire direito a receber dividendos e ganhos (ou perdas) na comercialização dessas ações.
Já em uma cooperativa de crédito, de acordo com a legislação brasileira, para se ter uma conta necessariamente é preciso se tornar sócio dela. Como em qualquer empresa, quando você se torna sócio tem que aportar um capital social cujo valor varia de cooperativa para cooperativa, sendo em média de R$ 20 o valor inicial. Como sócio você passa a fazer jus ao resultado apurado.
Se uma cooperativa encerra o ano com lucro, ou sobras, como são chamadas, esse valor retorna aos seus associados de forma proporcional ao que cada um movimentou no decorrer do ano. Quanto mais se movimenta numa cooperativa, mais retorno dessas sobras se recebe. Agora, se ela encerra o ano com prejuízo, este também é dividido entre os associados.
Esse assunto gera muita dúvida e medo. Porém, existem alguns mecanismos que evitam que o associado arque com esses prejuízos. Toda cooperativa possui em seu patrimônio líquido o chamado “fundo de reserva”, que por força de lei é formado por meio da retenção de, pelo menos, 10% do lucro de cada ano. Esse fundo é criado e mantido para cobrir eventuais prejuízos. Não havendo fundo de reserva suficiente, existem alternativas. Uma delas, advinda da lei complementar 130 de 2009, é a possibilidade de o prejuízo ocorrido em um ano ser compensado por lucros de exercícios seguintes, favorecendo os associados por não precisarem arcar com esse prejuízo. Além disso, caso uma cooperativa obtenha prejuízos acima de seu fundo de reserva e perceba sua inviabilidade, pode haver incorporações, como nos bancos, quando uma cooperativa maior (e com melhor situação financeira) assume os ativos e passivos dessa cooperativa e seus associados não sofrem prejuízo.
Então, respondendo sua pergunta, o risco de se aplicar numa cooperativa de crédito é o mesmo de se aplicar em um banco comercial.
Hugo Ferraz é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar - Associação Brasileira de Planejadores Financeiros E-mail: hugoaferraz@hotmail.com.
domingo, 23 de agosto de 2020
Não culpem só a pandemia. O Brasil já ia muito mal(Estado, 23 8 2020)
Não culpem só a pandemia. O Brasil já ia muito mal
domingo, 23 de agosto de 2020 - 04:02
O Estado de S. Paulo / Espaço Aberto
Rolf Kuntz
A pandemia forçou o governo a cuidar da economia real e até dos pobres, mas falta um plano para consolidar a retomada, combiná-la com o conserto das contas públicas e, sobretudo, reconduzir o País ao desenvolvimento. Falta um governo do tipo necessário a um país emergente. O Brasil já ia muito mal antes do novo coronavírus. Com o desastre ocasionado pela covid-19, muita gente parece haver esquecido aquele quadro sombrio. O desafio imediato é sair do buraco e retomar as condições anteriores ao grande tombo. Mas o problema real é muito maior e qualquer discussão séria - sem populismo e sem jogadas eleitorais - tem de partir desse ponto. Para onde rumava o País antes da tragédia de 2020?
Sinais vitais do comércio e da indústria têm melhorado, mas em junho a produção industrial continuou abaixo do nível de fevereiro. Se tivesse voltado àquele nível, ainda estaria 16,6% abaixo do pico alcançado em maio de 2011. A partir desse topo o declínio da indústria, até a recessão de 2015-2016, é bem visível nas séries do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Houve alguma reação em 2017 e 2018, mas o impulso acabou no primeiro ano de mandato do presidente Jair Bolsonaro.
Depois de três anos de queda, a produção da indústria avançou 2,5% em 2017 e 1% em 2018, mas declinou 1,1% em 2019. Bolsonaro e equipe tiveram uma estreia desastrosa - mesmo sem contar a vergonha diplomática e o vexame da política ambiental. O produto interno bruto (PIB) cresceu 1,1% - menos que em cada um dos dois anos anteriores e o desemprego permaneceu na faixa de 12% a 13%. De novembro a fevereiro, antes, portanto, da nova crise, a produção industrial foi sempre menor que no mês correspondente do ano anterior.
Com a pandemia, a partir de março ficou menos visível a diferença entre os novos desafios econômicos e os velhos problemas estruturais, exceto pelos detalhes mais chocantes. Quando foi preciso pensar em prevenção, isolamento, contenção do contágio e, enfim, socorro aos mais vulneráveis, mais luz foi lançada sobre a pobreza extrema e as condições de saneamento e de habitação de milhões de famílias. Dados abstratos, como o coeficiente de Gini, transformaram-se de repente em cenas assustadoras ao vivo e em cores.
A desigualdade passou de mero indicador a fato escancarado. A realidade confirmou a advertência do Fundo Monetário Internacional (FMI): para executar as políticas emergenciais os governos latino-americanos precisariam chegar a segmentos sociais ainda intocados pelas políticas públicas. A experiência brasileira comprovou de forma chocante essa previsão.
Mas nem seria preciso chegar às cenas de pobreza extrema para perceber o enorme desafio. Bem antes da pandemia e da recessão no primeiro semestre de 2020, o desenvolvimento brasileiro havia sido travado. A baixa qualidade do emprego, a informalidade e os níveis escandalosos de pobreza eram os sinais mais claros da interrupção de um longo processo.
Tinha havido alguma redução da desigualdade nas últimas décadas e crescente inclusão, embora os indicadores sociais continuassem ruins. A crise da indústria, visível antes da recessão de 2015-2016, realçou problemas cada vez mais graves: baixa produtividade, formação deficiente de capital humano, pouca inovação, ampla predominância dos segmentos de baixa tecnologia e escassa competitividade.
Protecionismo excessivo e insuficiente participação nas cadeias globais foram facilmente identificados, há anos, como entraves importantes. Burocracia, insegurança jurídica, tributação disfuncional e financiamento escasso também têm sido apontados, há muito tempo, como obstáculos à eficiência e à competitividade.
No mesmo período o agronegócio brasileiro se consolidou como potência mundial. A trajetória começou há décadas. Foi essencial a ação do setor público, por meio do trabalho da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e de sua cooperação com outras instituições. Também houve boas estratégias de financiamento, de logística, de zoneamento e de difusão de tecnologia. Com eficiência, em 30 anos a produção cresceu muito mais que a área ocupada. Poupando terras, o agronegócio tem garantido a segurança externa da economia brasileira.
Por que a agropecuária cresceu e ocupou espaços no mercado global, enquanto a indústria, com exceção de alguns segmentos e grupos empresariais, emperrou e até regrediu? Como programar a retomada industrial? Como ordenar as ações? Essas perguntas poderiam abrir um reexame do crescimento, da modernização e das funções das políticas públicas.
É inútil propor esse tipo de assunto ao presidente Bolsonaro. Ele repassará a questão ao seu "posto Ipiranga", o ministro da Economia. Mas será uma surpresa se ele responder com algo diferente de seu discurso habitual. Aprovada a reforma da Previdência, ele se concentrou em duas missões, aparentemente essenciais, em sua opinião, para a prosperidade brasileira: eliminar os encargos da folha salarial e recriar com nova cara a CPMF. Para que complicar a conversa?
OLHO: A crise industrial começou no País bem antes de chegar a covid-19
Assinar:
Postagens (Atom)