quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Economia? para crescer mais - infraestrutura (Mário Mesquita)

VALOR ECONÔMICO - 16/02/2017
Este início de ano tem sido marcado por certa melhora no sentimento e nas avaliações de analistas e investidores quanto às perspectivas imediatas da economia brasileira. 
A combinação de inflação e taxa de juros em queda está influenciando positivamente a atitude de empresários e consumidores, como sugerem índices de confiança recém-divulgados, a atividade na indústria parou de encolher e a expectativa de uma super-safra anima o interior do país.
 Os economistas do Itaú Unibanco trabalham com uma projeção de crescimento de 1% esse ano, acima do consenso do mercado (0,5%, segundo o relatório Focus, do BC, no final de janeiro), mas este pode começar a se deslocar para cima.
Essa incipiente (e ainda sujeita a reversões) mudança de humor não se estende à avaliações de médio prazo - no momento, estimamos que o crescimento potencial da economia não passa de 2% (e muitos analistas acham que seria até menor do que isso). Uma das razões para esse pessimismo estrutural é a baixa taxa de investimento da economia, uma média de 19,4% do PIB nos últimos dez anos, frente aos 22,5% na média dos outros países da região e 31,3% nos mercados emergentes. Evidentemente, como mencionado em coluna anterior, esta taxa de crescimento é insuficiente para colocar o Brasil em rota de convergência para o padrão de vida observado nas economias avançadas - afirmando de forma simples, com um crescimento potencial de 2% o país estará condenado à estagnação relativa.
O atual governo, bem como o anterior, não se mostra satisfeito com essa situação e, também como o que o precedeu, aponta a infraestrutura como área mais promissora para alavancar o crescimento de curto e médio prazo da economia. A vantagem da atual administração é uma atitude menos preconceituosa ante o setor privado, com o aparente abandono da malfadada prática de tabelamento de taxas de retorno e da ênfase no protagonismo estatal.
A forma mais direta de oferecer proteção cambial aos investidores é indexar as tarifas ou pedágio à taxa de câmbio
A opção pelo crescimento guiado pelo Estado parece desprezar evidências históricas, que demonstram a capacidade da iniciativa privada de liderar o processo de investimento também no campo da infraestrutura.
O curioso é que essas evidências são tão abundantes quanto antigas. O excelente "The Pursuit of Glory: Europe 1648-1815", do antigo professor de Cambridge, Tim Blanning, conta como o investimento privado levou, a partir da aprovação pelo parlamento dos "Turnpike Acts", no final do século XVII, a uma explosão da construção de estradas pedagiadas por empresários privados. Esse processo levou à formação de um espaço econômico nacional - o que favoreceu a revolução industrial inglesa - e a uma drástica diminuição da duração das viagens dentro do Reino Unido: o tempo de viagem entre Londres e Bath caiu de 50 horas em 1700 para 40 em 1750 e "apenas" 16 horas em 1800, ainda antes da explosão do transporte ferroviário, que viria nos anos 1840, ao passo que as viagens até Edimburgo tiveram redução de 256 para 150 e, finalmente, 60 horas nesse período.
As estradas britânicas privadas não necessariamente eram as melhores do ponto de vista técnico - os franceses tinham (como ainda têm) engenheiros de mais alta qualidade -, mas eram as mais eficientes do ponto de vista econômico, visto que sua construção seguia o princípio da maximização de lucros. A Espanha também tinha algumas estradas de boa qualidade, mas, para o azar da sua economia, estas visavam mais facilitar os deslocamentos da família real entre seus diversos palácios do que o transporte de mercadorias.
Talvez o melhor contra-exemplo citado por Blanning se refira à Sicília. Na década de 1770, o governo local indicou um engenheiro militar para planejar uma estrada entre Palermo e Catânia. O encarregado sequer completou o plano, pois não conseguiu administrar as pressões por parte das diversas autoridades e da nobreza, que insistiam que a estrada passasse por suas respectivas localidades ou propriedades, ziguezagueando pela ilha, o que inviabilizou o desenho de um trajeto minimamente racional entre as citadas cidades.
A superação do preconceito anti-lucro é um avanço. Mas dificuldades persistem. Além da questão das fontes de financiamento, grandes empresas multinacionais de infraestrutura têm manifestado duas preocupações com certa frequência. Uma parece ser passível de solução relativamente simples, a outra vai requerer um pouco mais de criatividade.
A primeira refere-se à proteção cambial. Quem investe em euros, dólares ou ienes quer ser remunerado nessas moedas, não em reais. A forma mais direta e simples de oferecer proteção cambial aos investidores é indexar as tarifas ou pedágio, de forma adequadamente suavizada, por meio de médias móveis longas, à taxa de câmbio. Para quem se assusta com isso, vale lembrar que os preços dos combustíveis e a energia elétrica de Itaipu já são dolarizados. Vale notar também que projetos de infraestrutura voltados ao comércio internacional de bens e serviços, como certas estradas, portos e aeroportos, tendem a ter receitas sensíveis aos movimentos cambiais. A saída pela dolarização (com a devida cautela) atenderia muitos projetos de infraestrutura, ainda que não todos.
O outro problema é setorial. O segmento de construção pesada, que ofereceria parceiros nacionais para os investidores externos em infraestrutura, encontra-se em boa medida fragilizado pelos efeitos das atuais (e bem-vindas) investigações sobre corrupção. Será necessário, portanto, trabalhar para trazer novos atores para o setor, como empresas de construção que trabalham em outros segmentos, ou mesmo financiar a formação de novas companhias, com novas práticas e nova governança, mas que se beneficiem do capital humano, os engenheiros e técnicos, que existem nas empresas antigas.
Sem enfrentar esses problemas, mesmo que a questão do financiamento seja equacionada, nosso setor de infraestrutura corre o risco de, apesar de enorme demanda não atendida, ficar parado no tempo, como a Sicília setecentista.
Mario Mesquita é economista-chefe do Itaú Unibanco

Morre no Rio o compositor Tibério Gaspar

RIO - Morreu nesta quarta-feira, 15, no Rio, o compositor Tibério Gaspar, autor de sucessos da MPB como Sá Marina, BR-3 e Teletema (parcerias com Antonio Adolfo). Ele estava internado no Hospital Miguel Couto desde que teve um mal súbito há cerca de 15 dias.
A carreira do violonista e letrista carioca começou nos anos 1960, na era dos festivais, com Antonio Adolfo. À época, era professor de matemática, enquanto Adolfo já trabalhava como pianista. O primeiro grande sucesso da dupla foi "Sá Marina", gravada por Wilson Simonal, e que acabou sendo um dos maiores hits do cantor. 
"Teletema" viria em 1970, defendida por Evinha na Olimpíada da Canção de Atenas, na Grécia. No mesmo ano, os dois venceram o V Festival Internacional da Canção com BR-3, interpretada por Tony Tornado, Trio Ternura e Quarteto Osmar Milito. 

Em cinco décadas de atividade, Tibério foi gravado por Stevie Wonder, Elis Regina, Tim Maia, Erasmo Carlos, entre muitos outros intérpretes. Ele fez trilhas sonoras para novelas da TV Globo e para a TV Manchete, além de jingles, e trabalhou na produção de discos e de campanhas publicitárias.
Nesta noite, Antonio Adolfo fez um tributo ao amigo no Facebook: "Vamos ficar com a lembrança de Tibério, amigo de todas as horas, grande poeta, compositor, e tantas outras qualidades: justiça, raça, fibra, carisma, dedicação ao próximo. Gostaria de ter sua poesia para poder escrever coisas mais bonitas e profundas, como as que você sempre escreveu e mereceu. Fique com Deus, amigo. Muitas saudades já apertam nossos corações. Que esteja partindo para uma muito melhor."
Evinha também publicou uma homenagem : "Quem sabe a claridade do sol revelará um mundo bom, um mundo de paz, um mundo melhor, um mundo de amor! Luz em sua caminhada, amigo Tiba!"

http://cultura.estadao.com.br/noticias/musica,morre-no-rio-o-compositor-tiberio-gaspar,70001667413

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Agonia grega - Monica De Bolle

O ESTADO DE S. PAULO  - 15/02/2017
Segundo os dicionários, agonia é a fase que precede imediatamente a morte, caracterizada pela perda gradual ou súbita das funções vitais. Agonia pode também ser definida como tormento ou angústia difíceis de aguentar por muito tempo. Passados sete anos da eclosão, a crise grega acaba de entrar em novo estado de agonia. Difícil saber se dessa vez trata-se do estado que precede a separação do resto da zona do euro, ou se é mais uma instância de angústia nesses sete longos anos em que pouco progresso houve.
O FMI declarou recentemente que a dívida grega é "altamente insustentável".
De acordo com o vernáculo da instituição para caracterizar as trajetórias das dívidas de um país, elas podem ser sustentáveis, fronteiriçamente sustentáveis ("borderline sustainable"), insustentáveis, ou altamente insustentáveis ("highly unsustainable").
Se o leitor que acaba de passar os olhos nessas linhas encontrou nas nomenclaturas dose exemplar de vagueza, advirto que o "fundês" - idioma corrente da instituição situada em Washington - é proposital.
Países com dívidas "altamente insustentáveis" são aqueles para os quais o FMI julga ser inevitável uma reestruturação.
A Grécia concluiu operação de reestruturação da dívida pública em 2012, com modesta redução do valor presente da dívida, o que, à época se dizia, elevava o risco de que reestruturações futuras. Cinco anos depois, o problema é pior.
A dívida da Grécia, hoje, soma ¤ 326 bilhões, ou aproximadamente 180% do PIB. Cerca de ¤ 226 bilhões - ou uns 30% do total da dívida pública - é devido aos seguintes credores: o Fundo de Estabilidade Financeira Europeu (EFSF) e seu sucessor, o Mecanismo de Estabilidade Europeu (ESM); ao Banco Central Europeu; aos governos da zona do euro. Aos credores privados, a Grécia deve ¤ 40 bilhões, enquanto ao FMI, suas obrigações somam ¤ 19 bilhões, ou uns 6% da dívida total. Nova reetruturação da dívida grega recairia, principalmente, sobre os governos da zona do euro e sobre as principais instituições da união monetária.
Não surpreende, portanto, que os governos europeus tenham expressado visão oposta à do FMI, insistindo que a dívida grega não é tão insustentável assim, que "altamente insustentável" é um exagero.
Além de divergirem sobre o grau de insustentabilidade, FMI e governos europeus têm posições para lá de diferentes em relação ao que a Grécia é capaz em termos de ajustes fiscais. Diz o FMI que o país mediterrâneo não tem capacidade de gerar superávits primários superiores a 1,5% do PIB, o que não produziria uma queda da dívida ao longo do tempo. Na contramão, a Comissão Europeia insiste que a Grécia pode produzir superávit de 3,5% do PIB até 2018, e de sustentá-lo nesse nível por um tempo, o que levaria a uma queda da razão dívida/PIB ao longo dos próximos muitos anos. No cerne dessa divergência estão hipóteses acerca da capacidade política de gerar vultosos superávits por anos a fio. Alguns governos europeus argumentam ser isso possível.
O FMI, profundo conhecedor do fenômeno conhecido como "fadiga do ajuste" que costuma se apoderar de países que tentam o caminho da austeridade extrema por tempo indeterminado em meio a condições econômicas precárias, não considera plausível o cenário da Comissão Europeia. Está, portanto, dado o impasse.
Contudo, uma vez que são os governos europeus os principais credores da Grécia, o mais provável é que sejam vitoriosos ao perseverar no caminho de maior agonia, elevando as chances de que o divórcio se dê em algum momento, quando a população não mais aguentar. Os tempos não são auspiciosos para tal desenlace, isto é, uma fragmentação ainda que amplamente esperada da zona do euro abalaria ainda mais o bloco no mundo pós-Brexit, com Trump, e contenciosas eleições na França, na Itália, e na Alemanha em 2017.
Não tenho escrito sobre o Brasil - voltarei a analisar as agruras nacionais em breve. Deixo aqui o alerta: a agonia da Grécia traz valiosas lições para nós. Os abalos europeus em mundo desorientado trazem possíveis choques para nós. O otimismo brasileiro está para lá de exagerado.
Mas, talvez seja apenas alegria de carnaval.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Newton Mendonça, parceiro de Tom Jobim (Mauro Ferreira)

Nascido há 90 anos, como Tom Jobim, Newton Mendonça tem obra imortal

Discos inéditos, reportagens retrospectivas nos cadernos culturais de grandes jornais e saudações em redes sociais lembraram os 90 anos de nascimento de Antonio Carlos Jobim (1927 – 1994), justa e devidamente celebrados em 25 de janeiro desde ano de 2017. Também nascido há 90 anos, no domingo pré-carnavalesco de 14 de fevereiro de 1927, Newton Ferreira de Mendonça – ou simplesmente Newton Mendonça, como foi conhecido artisticamente na década de 1950 este compositor e pianista carioca – também merece todas as saudações pelos 90 anos que poderia estar completando hoje, 14 de fevereiro de 2017, se não tivesse saído precocemente de cena na noite de 22 de novembro de 1960, vítima de infarto, aos jovens 33 anos, quando estava no auge da criatividade.

Newton Mendonça foi um parceiro fundamental de Jobim, com quem compôs no segundo semestre de 1958 o dissonante samba que é carta de intenções da Bossa Nova – Desafinado (gravado ainda em 1958, mas lançado em disco em fevereiro de 1959) – e também o igualmente antológico Samba de uma nota só, lançado em 1960, ano da morte de Newton, mas esboçado desde 1954. Juntos, os parceiros fizeram um terceiro standard de alcance mundial, Meditação, lançado em 1959 em gravação da cantora Isaura Garcia (1919 – 1993).

Intérprete da gravação original de Desafinado, João Gilberto, o papa da Bossa, sabia da importância de Newton Mendonça. Jobim também valorizava a musicalidade do parceiro com quem compunha música e letra em pé de igualdade – musicalidade que Mendonça exibia quando, além do piano, também tocava violino, flauta e gaita. Por isso mesmo, nota desafinada da vida foi relegando Newton Mendonça a injusto e progressivo esquecimento. Houve uma biografia em 2001 – intitulada Caminhos cruzados, nome de outro clássico da parceria do compositor com Jobim, canção lançada em 1958 – e houve um ou outro tributo em disco ou artigo de jornal. Muito pouco para a dimensão da obra do compositor!

Pairou sempre a equivocada impressão de que Newton Mendonça foi um parceiro de Jobim menos importante do que o também fundamental Vinicius de Moraes (1913 – 1980) ou mesmo Chico Buarque. Uma injustiça, até pelo fato de Jobim ter começado a carreira de compositor ao lado de Mendonça quando os caminhos profissionais dos dois músicos se cruzaram em 1952 na boate carioca Posto Cinco. Em 1953, uma primeira parceria da afinada dupla, Incerteza, já chegou ao disco. Seguiram-se Teu castigo (gravada em 1955, mas lançada em 1956 na voz de Dalva de Oliveira), Foi a noite (1956, na voz da antenada Sylvia Telles) e Luar e batucada (1956, samba mais tradicional, também lançado por Sylvia Telles, também a intérprete original de Discussão em 1959), entre outras músicas.

Enfim, Newton Mendonça foi grande. Talvez tivesse até se tornado um gigante como Jobim se não tivesse saído de cena tão cedo, no auge do sucesso da parceria com o amigo. Afinal, o próprio Jobim, que inicialmente era somente compositor e músico, virou cantor a partir de 1963. Newton Mendonça não teve tempo para isso. Talvez fosse realmente desafinado para cantar até o samba histórico que fez com Jobim. Mas o fato é que, mesmo que a notória introspecção tenha dificultado a projeção do artista na década de 1950, Newton Mendonça jamais poderia ter permanecido à sombra de Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. Com Tom e como Vinicius, ele também construiu obra moderna e revolucionária que pôs o Brasil definitivamente no mapa múndi musical. Pois viva hoje e sempre Newton Mendonça, imortal compositor nascido há exatos 90 anos!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Os abrigos para o fim do mundo construídos para os super-ricos

BBC - 01/02/2017
O empresário americano Larry Hall sai do elevador e entra em um dos muitos apartamentos de seu recém-construído empreendimento imobiliário.
O espaço é mobiliado de maneira elegante. Hall diz que a qualidade do acabamento e a atenção aos detalhes têm de ser proporcionais à resposta entusiasmada de seus clientes.
"Tive clientes chorando de emoção quando visitaram", conta ele.
Mas há algo incomum nesses apartamentos. Eles estão muitos metros debaixo da terra, em um silo nuclear obsoleto, no meio do Estado americano do Kansas. Trata-se do Survival Condos. São bunkers de luxo para que, nas palavras de Hall, ricos e super-ricos possam não apenas se proteger em caso de uma hecatombe, mas dar prosseguimento a uma rotina bonne vivant.

"Queremos cuidar da proteção física, mas também do bem-estar mental das pessoas".



Entrada do bunker
Image caption Larry Hall investiu dezenas de milhões de dólares no condomínio de luxo
Quando alguém se refere a "preparados", pessoas (americanas, sobretudo) que investem tempo e dinheiro tentando não serem pegas de surpresa por alguma catástrofe de proporções globais, a imagem clássica é a de indivíduos solitários, vivendo em condições austeras - pense em um indivíduo usando roupas camufladas e enchendo um porão com enlatados.O medo do apocalipse, porém, parece estar chegado às classes mais altas. Pelo menos a julgar por uma série de empreendimentos nos EUA e na Europa voltados a oferecer para super-ricos uma "chance de escapar do fim do mundo". A companhia americana Vivos, por exemplo, especializou-se em adaptar abrigos nucleares subterrâneos da época da Guerra Fria para as necessidades de consumidores em busca de sobrevivência com requinte.
Na Alemanha, a Vivos conta com o Europa One, aproveitando um bunker escavado no interior de uma montanha, que durante a Guerra Fria serviu de depósito de armas e munições do exército soviético. Em vez da aparência austera de instalação militar, o lugar agora conta com 34 aposentos que, segundo a empresa, oferecem proteção contra uma variedade de catástrofes (de desastres nucleares a terremotos). E sem perder o estilo.
Cada aposento tem 2.500m2 de área e poderá ser customizado pelos ocupantes. Nas áres comuns, haverá desde um festival de mimos como bares, restaurantes e canis a serviços como hospital, transporte e segurança. O preço é guardado a sete chaves, até porque os futuros ocupantes serão selecionados através de convites.
A Survival Condo, também aproveitou um resquício dos tempos em que americanos e russos temiam um holocausto nuclear, e a demanda por "preparados" mais endinheirados.
Embora promova o luxo das instalações de seu prédio de 15 andares, o grande chamariz da Survival Condo para seu condomínio de luxo é a robusteza do prédio, incluindo a redoma da cobertura, resistente a ventos de mais 800km/h, de acordo com a brochura eletrônica no site da empresa.

Quando Hall anunciou o empreendimento, o preço dos apartamentos começava em cerca de R$ 4,5 milhões. Ele diz ter vendido 11 dos 12 apartamentos postos à venda - isso porque uma das unidades é para ele e sua família.



Larry Hall, idealizador do Survival Condo
Image caption Larry Hall, idealizador do Survival Condo
"Muitos clientes não querem que os outros saibam que eles têm um bunker, pois pode provocar a mesma reação do que alguém dizer que viu um disco voador", explica o investidor. Um dos compradores, porém, falou à New Yorker. O empreendedor imobiliário Tyler Allen pagou US$ 3 milhões por um dos apartamentos. Teme conflitos sociais nos EUA e mesmo um surto do vírus Ebola. "Podem me chamar de maluco, mas estou tomando providências para proteger minha família".
Os ataques de 11 de setembro foram uma tragédia em que Hall enxergou uma oportunidade de negócios. Na época da tragédia, ele era um empreendedor digital e diversas empresas buscaram soluções para salvar seus dados em caso de ataque. Hall teve a ideia de criar um centro de processamento de dados que resistisse a ataques nucleares.



Interior de um dos apartamentos do Survival Condo
Image caption Interior de um dos apartamentos do Survival Condo
Clientes em potencial mostraram interesse pela ideia, que Hall logo ampliou para abrigos para seres humanos. A instalação no Kansas, desativada nos anos 60, era uma escolha óbvia diante do fato de já vir com proteção contra ataques nucleares, algo bastante cômodo diante dos custos assustadores de criação de um projeto do zero.
Interior de um dos apartamentos do Survival Condo
Image caption Super-ricos criaram nova demanda para serviços "pós-apocalípticos"
Hall, segundo estimativas da mídia americana, gastou dezenas de milhões de dólares para equipar o complexo com tudo o que há de mais moderno em termos de conforto e segurança. O prédio, por exemplo, tem capacidade para sobreviver cinco anos sem contato com o mundo exterior. E um exército particular é a garantia contra potenciais invasões - comunidades de "preparados" acusaram Hall de discriminação e prometeram insurgir contra o condomínio - a Vivos, por sinal, não se esqueceu deste mercado e conta com uma linha de bunkeres "populares", que podem ser instalados até em quintais (parecem mais contêineres que apartamentos de luxo, diga-se de passagem).



Piscina do bunker
Image caption Em vez de "contêiner reforçado", abrigos requintados contam com o luxo de uma piscina
Hall conta que clientes deixaram de ver os apartamentos apenas como uma espécie de "seguro de vida" e passaram a usar o complexo como residência de veraneio.
Steve Huffman, o fundador do site Reddit
Image caption Steve Huffman quer precisar apenas de óculos escuros em caso de emergência
Para os mais claustrofóbicos, uma opção parece ser manter distância dos principais centros de poder. Segundo a New Yorker, super-ricos americanos estão investindo na aquisição de terras na Nova Zelândia e mais de 13 mil cidadãos do país declararam interesse de emigrar junto às autoridade neozelandesas desde a eleição de Donald Trump, como parte de um programa de vistos de residência para investimentos mínimos de US$ 1 milhão. O país é geograficamente isolado o suficiente para acalmar os nervos de quem teme tempos turbulentos.
E outra medida de que super-ricos também contemplam o fim do mundo é que, na mesma reportagem da revista americana, o milionário Steve Huffman, fundador da rede social Reddit, conta ter feito uma cirurgia ocular corretora para sua miopia, em 2015, não por uma questão de estética ou praticidade. Huffman crê que uma visão melhor calibrada lhe dará mais chance de sobreviver ao terror.
"Se o mundo acabar ou tivermos problemas sérios, conseguir óculos ou lentes de contato será um senhor problema". 

http://www.bbc.com/portuguese/geral-38809611 

Da diabetes ao câncer: ítens do dia a dia que alteram seus hormônios silenciosamente

www.bbc.com : 12/02/2017


Garrafas de plástico são produzidas com bisfenol A, que podem provocar distúrbios hormonais.
Eles provocam distúrbios hormonais, mas estão escondidos em cosméticos, embalagens de alimentos e até em brinquedos. Por isso é quase impossível escapar deles no dia a dia.
Existem cerca de 800 compostos químicos suspeitos de interferir no sistema hormonal, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).
A maioria ainda está sendo submetida a mais estudos, mas a Comissão Europeia garante que pelo menos 66 destes compostos, como bisfenol A (BPA), dioxina, atrazina e vários ftalatos (BBP, DEHP, DOP e DBP), têm "clara evidência de pertubação da atividade endócrina".
Esse alerta fez parte de uma proposta divulgada ano passado pela OMS com o objetivo de regular seu uso.
Cada vez mais pesquisas com animais vinculam compostos como esses a prejuízos à saúde que vão desde a infertilidade ao risco de câncer.
Ainda faltam evidências em humanos. Por isso, essas substâncias continuam presentes em centenas de produtos de consumo diário.

Veja aqui a lista dos compostos citados pela Comissão Europeia:
Os ftalatos são usados, por exemplo, em produtos coloridos, como brinquedos infantis e sexuais, produtos de limpeza, como detergente, embalagens de alimento, produtos de beleza, como esmalte de unhas, sprays para o cabelo, loções de barbear, sabonetes, xampús, perfumes e outros produtos com fragância.
Outro exemplo é o bisfenol A (BPA), presente em garrafas de plástico ou latas, cosméticos, brinquedos, CDs e, até há pouco tempo, em mamadeiras.
Alguns compostos perderam o uso, como o ftalato DBP, que era um plastificante usado em vernizes de unha ou tintas de impressão. Mesmo assim, continuam provocando riscos à saúde, uma vez que, segundo a OMS, seus efeitos podem afetar várias gerações.
Exposição precoce gera risco para toda vida
Tanto animais como humanos são mais vulneráveis a esses compostos durante certos períodos do desenvolvimento como dentro do útero da mãe e na puberdade.
A OMS diz que os efeitos da exposição precoce ao composto podem se manifestar em qualquer momento da vida, através de câncer de mama e de próstata, infertilidade, puberdade precoce, obesidade, transtornos metabólicos e diabetes tipo 2.
Como minimizar a exposição
Hoje é difícil saber qual é a composição exata dos produtos que consumimos. Em 2015, a Agência Química Sueca analisou 112 brinquedos no país e descobriu que 15% deles tinham substâncias químicas proibidas.
No caso de produtos cosméticos e de higiene, os fabricantes não precisam incluí-los na lista de ingredientes dos produtos. Por isso, com frequência, o ftalatos estão "escondidos" atrás da palavra "fragrância".
Algumas dicas para evitar substâncias maléficas:
(1)Escolher cremes, detergentes e produtos "livres de fragrância" pode reduzir a exposição aos ftalatos.
(2) Priorizar materiais alternativos ao plástico, como a madeira, quando comprar brinquedos para as crianças.
(3) No caso de embalagens de comida, preferir vidro sobre latas, que costumam ser forradas com BPA, e plásticos.

Mas, segundo especialistas, há pouco a se fazer em nível individual. As principais mudanças deveriam surgir, dizem eles, da regulação da indústria, como restringindo o uso desses compostos químicos e buscando alternativas.