quarta-feira, 14 de junho de 2017

Too big to fail - Alexandre Schwartsman

FOLHA DE S. PAULO - 14/06/2017
Em nome de evitar aprofundar uma crise (no caso, política), o TSE abriu as portas para o risco moral



"Too big to fail" (grande demais para quebrar) é um problema que frequentemente nos atormenta.Há menos de dez anos, em meio à crise deflagrada pela falência da Lehman Brothers, vimos os mesmos que haviam tomado a decisão de não resgatar aquele banco serem forçados a mudar de posição e adotar, a contragosto, medidas que possibilitaram a sobrevivência do sistema financeiro.
A decisão foi justificada então como necessária para evitar que a crise se tornasse ainda mais profunda e, da forma como vejo, isso muito provavelmente era verdadeiro. Caso outras instituições tivessem quebrado na esteira da Lehman, a contração de crédito seria ainda mais profunda e a Grande Recessão de 2008-2009 poderia rivalizar com a Grande Depressão dos anos 1930.
Isso dito, se houve benefícios associados à decisão de resgatar bancos e assemelhados, houve também custos, alguns dos quais não imediatamente visíveis.
Em particular, ficou claro que não há como bancos centrais e Tesouros Nacionais se comprometerem a não resgatar instituições "grandes demais para quebrar". Ao contrário de Odisseu, que se amarrou ao mastro de sua nave para não sucumbir ao canto das sereias, a crise revelou que as cordas são bem mais frágeis do que gostaríamos.
Sabendo disso, não é difícil concluir que instituições "grandes demais para quebrar" tenderão a tomar mais risco do que fariam caso não houvesse a possibilidade de resgate. Não é posição diferente, por exemplo, de um trapezista que, sabendo da existência de uma rede de segurança, escolhe saltos mais arriscados do que faria na ausência dessa rede.
Em economês, isso é definido como um problema de "risco moral" ("moral hazard"), no caso um problema de assimetria de informações em que as autoridades não conseguem monitorar perfeitamente o comportamento de certos agentes. Assim, ao socializar o risco, fazem com que instituições assumam mais risco do que o saudável.
Longa introdução à parte, meu tema hoje não é o risco que o sistema financeiro possa estar acumulando em razão desse problema, mas sim a decisão do TSE, que, mesmo em face de provas inegáveis de corrupção e abuso de poder nas eleições de 2014, se entregou a piruetas de fazer inveja a nosso trapezista imaginário para absolver a chapa Dilma-Temer, decisão saudada por silêncio ensurdecedor tanto da situação como da oposição.
Segundo o ministro Gilmar Mendes, a cassação da chapa "lançaria o país em quadro de incógnita". Ainda que tenha tentado vestir a decisão com uma roupagem técnica, o veredito do TSE muito provavelmente resultou da percepção da enorme desordem política que se seguiria à cassação, caso o STF mantivesse a condenação.
Trata-se do mesmo problema apresentado acima. Em nome de evitar aprofundar uma crise (no caso, política), o TSE abriu as portas para o risco moral: na certeza de que dificilmente serão punidos, candidatos não terão freios para toda espécie de abuso.
Note-se que essa piora institucional é apenas mais uma num quadro de deterioração persistente, que abarca desde a falência das regras de conduta fiscal (como mudanças casuísticas na Lei de Diretrizes Orçamentárias) até a própria governança do país, expressa na corrupção generalizada.
Em tal contexto, apenas o Brasil não parece ser "grande demais para quebrar"...




http://www1.folha.uol.com.br/colunas/alexandreschwartsman/2017/06/1892642-decisao-do-tse-abre-as-portas-para-toda-especie-de-abuso.shtml

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segunda-feira, 12 de junho de 2017

Economista é punido por exigir que equipe escreva melhor (Financial Times)

Lucy Kellaway, colunista do "Financial Times
É a história mais triste que li em muito tempo. O economista-chefe do Banco Mundial ordenou ao seu staff que escrevesse de maneira mais clara, fosse sucinto nas apresentações e que todos os relatórios fossem curtos e compreensíveis. Em vez de ser enaltecido por sua coragem, Paul Romer foi punido como um herege e afastado de suas funções executivas. Sua história parece uma versão corporativa do martírio de Joana D´Arc. Só tenho um problema com Romer. Entre seus decretos havia uma imposição à citação da palavra "e", exigindo que um relatório oficial não tivesse mais do que 2,6% delas. É um pouco estranho perseguir essa conjunção comum, que tem a vantagem de ser útil, clara e curta, quando há por aí palavras como alavancar, gerar, jornada, diálogo, plataforma, vigoroso e milhares de outras - que não são nada dessas coisas.
Mesmo assim, quando a "Stanford Literary Lab" publicou um "paper" em 2015 analisando os relatórios do Banco Mundial, a palavra "e" não foi poupada. Os autores observaram que seu uso quase dobrou nos 70 anos anteriores e citaram, em tom de brincadeira, passagens em que substantivos horríveis e não relacionados foram colados a séries de conjunções.
Mas será que a culpa é realmente dessa pequena palavra? Ao longo da última semana, mergulhei em muitos textos, a começar com o trabalho de Martin Wolf, que escreve tão claro quanto qualquer economista com quem já me deparei. De fato, em sua última coluna, meu computador contou uma porcentagem admiravelmente modesta de 2,5% de "es". Em seguida, estudei uma coluna da Janan Ganesh, um homem cuja prosa é bastante admirada. Ele se saiu ainda melhor, com 2%.
Depois disso, ampliei meu leque e baixei da internet o "Rei Lear" inteiro, para descobrir que Shakespeare usou meros 19 "es" a cada mil palavras. Quando você considera que a maioria delas se trata de marcações cênicas - "Entram Kent e Gloucester" -, a verdadeira contagem é ainda menor.
Eu estava para concluir que Romer estava bêbado ou coisa assim, quando resolvi analisar minha própria escrita e descobri que na coluna da semana passada eu usei vergonhosas 30 vezes a palavra "e" por mil palavras. Romer teria ficado desesperado.
Em um esforço derradeiro para provar que ele está errado, examinei "Orgulho e Preconceito", o romance mais elegante da escritora mais elegante do idioma inglês. Baixei um capítulo aleatoriamente e, bingo: Jane Austen usou a enorme quantidade de 3,8% de "es".
No momento em que eu fazia isso, em um palco do Hay Literary Festival um ex-vice-presidente do Banco da Inglaterra dizia a uma plateia que para fazer seus economistas escreverem de maneira inteligível, o banco os fez estudar a obra de Dr. Seuss. Ao saber disso, fui direto para "O Gato do Chapéu" e para a minha alegria, encontrei "es" por toda parte - 46 por 1.000 palavras.
Isso prova que o "e" é um problema somente quando ele espicha os textos ou quando gera confusão. Dr. Seuss pode se dar ao luxo de usá-lo aos montes porque seu texto é bem enxuto. Em apenas 1.620 palavras ele conta uma história mais surpreendente e memorável do que qualquer coisa que houver em um relatório de banco.
Mas mesmo que os economistas fossem forçados e usar menos palavras, isso não solucionaria o problema. Longo quase sempre significa ruim, mas curto não quer dizer necessariamente bom. Um dos piores textos que li na semana passada foi uma carta que Alex Cruz, presidente da British Airways, enviou aos membros do Executive Club depois que um problema na área de tecnologia da informação deixou 75.000 passageiros retidos em aeroportos.
Ela tinha apenas 421 palavras e começa bem simples: "Eu queria entrar em contato pessoalmente para pedir desculpas". Embora nada especial, enquanto um e-mail de massa produzido por um robô, ele não poderia ser mais impessoal.
Além de ser simples e curto, um bom texto precisa ser sincero. Olhei para o texto de "Rei Lear" que baixei da internet e li na tela as linhas finais do Duque de Albay: [precisamos] "Falar o que sentimos, e não o que deveríamos dizer". Mas mesmo isso não vai ajudar os economistas. A compulsão por escrever baboseiras cheias de pompa é grande demais para que uma imersão rápida em Shakespeare ou Dr. Seuss possa mudar isso.
Qualquer economista dirá a você que a melhor maneira de mudar de comportamento é mudar os incentivos. Isso significa promover aqueles que escrevem bem. Não significa punir alguém que tentou fazer seus colegas escreverem textos que as pessoas possam querer ler.
@economia

Vídeo: Brasil, aqui tudo acaba em baião de dois

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domingo, 11 de junho de 2017

O cerco aos bancos - Celso Ming

Até agora, os bancos escaparam da Operação Lava Jato, mas alguma coisa está para sair. Sem mais delongas, vamos ao principal: ninguém precisa sacar seu dinheiro por isso. Não há nada especialmente errado com o sistema bancário em si.
A emissão da Medida Provisória 784 na última quinta-feira, com objetivo de permitir novo enquadramento dos bancos, nada tem a ver com lavagem de dinheiro, corrupção e coisas assim.
Apenas atualiza o arsenal do Banco Central, que tem por obrigação fiscalizar e supervisionar a atuação dos bancos.
Mas vamos por partes.
A suspeita de que há bancos sob a mira da Operação Lava Jato não é invenção de paranoicos. A esta Coluna, o procurador da força-tarefa Roberson Pozzobon admitiu que existem investigações que vêm fazendo o cerco a instituições bancárias. No ano passado, reportagem do Estadão já apontava que cerca de 13 delas estavam sob investigação por lavagem de dinheiro em transações que envolveram o Grupo Schahin e a Petrobrás. Mas os bancos, que passaram incólumes pela Lava Jato, agora podem ocupar o papel central antes desempenhado pelas empreiteiras.
Outro procedimento da força-tarefa fareja possíveis fraudes e falhas no sistema do Bradesco. A história volta aos primórdios da Lava Jato, que envolvem o operador Fernando Soares. Baiano, como é conhecido, teria pago em 2012, por meio do Bradesco, R$ 220 mil de propinas para o ex-diretor da Petrobrás Nestor Cerveró, na compra de uma Land Rover.
O Supremo Tribunal Federal pode oferecer um remédio amargo ao Sistema Financeiro Nacional (SFN). Em petição, o ministro Fachin, relator da Lava Jato, pediu à Justiça Federal do Paraná que investigue a transferência parcial do setor de Operações Estruturadas da Odebrecht, conhecido como departamento de propinas, para a República Dominicana. Como tem sido divulgado, os investigadores da Lava Jato querem saber se agentes bancários burlaram regras do SFN ao longo da movimentação de recursos por meio desse braço da Odebrecht.
E quando o ex-ministro da Fazenda do primeiro governo Lula Antônio Palocci avisou que se dispunha a fazer delação premiada que daria assunto para mais um ano na Lava Jato, foi interpretado como interessado em expor a atuação de determinados bancos.
Operações de lavagem de dinheiro são regidas por lei especial (a 9.613, de 1998) que nada tem a ver com a atuação do Banco Central. Cabe ao Ministério da Fazenda, por meio do Coaf, e à Justiça comum julgar tais desvios.
A medida provisória apenas atualiza procedimentos adotados pelo Banco Central na tarefa de supervisionar bancos, corretoras e a Comissão de Valores Mobiliários. A lei anterior é da Reforma Bancária de 1964. A punição máxima aos bancos nos casos de infração na concessão de créditos ou observância de determinações reguladoras lá exposta era pagamento de multa de R$ 250 mil, de longe insuficiente para desestimular desvios do tipo. (Agora, as multas podem alcançar R$ 2 bilhões.) Em outras palavras, o que está sob investigação são transgressões na área de lavagem de dinheiro. Não há nada que transpire falta de saúde do sistema financeiro brasileiro. / COM RAQUEL BRANDÃO E AMANDA PUPO, ESPECIAL PARA "O ESTADO"

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sexta-feira, 9 de junho de 2017

Cinema e política: A anatomia dos acontecimentos



A anatomia dos acontecimentos

VLADIMIR SAFATLE (09/06/2017 02h50)

"Na minha opinião, eles querem se libertar de toda a velharia e tornar-se disponíveis para algo de novo que ainda não sabem bem o que será. Não querem ser pegos de surpresa. Meu fotógrafo, por exemplo, recusa-se a se engajar, mas não é um amoral, um insensível, e eu o olho com simpatia; recusa-se a se engajar porque quer se manter disponível para algo que virá, que ainda não existe". Este é o cineasta italiano Michelangelo Antonioni falando sobre Thomas, o fotógrafo de moda personagem de "Blow-up: Depois Daquele Beijo" (1966), um de seus mais conhecidos filmes e, certamente, um dos mais importantes filmes da história do cinema.

Este depoimento encontra-se em um entrevista dada por Antonioni a Alberto Moravia à época do lançamento do filme. Ela faz parte do recém-lançado "Aventura Antonioni" (ed. Voa!, 720 págs.).

O livro é uma extensa compilação de textos escritos por Antonioni, além de entrevistas e críticas feitas à época (principalmente na imprensa italiana) sobre cada um dos seus 15 filmes. Dentre tal material, há textos preciosos de Roland Barthes, Italo Calvino, Alberto Moravia, Pier Paolo Pasolini, Wim Wenders, Giulio Carlo Argan. Há ainda uma entrevista realizada por Jean-Luc Godard.

Diante desta verdadeira reconstrução do horizonte de debates em torno da obra de Antonioni emerge os eixos principais de suas questões e sensibilidade.

Muito já se falou sobre uma espécie de "retorno à interioridade" que seria característica dos filmes de Antonioni com seus personagens em fuga, seus casais em crises mudas e em desabamentos imperceptíveis, sujeitos tocados em "suas relações epidérmicas com o mundo".

Assim, contra o ímpeto documental do neorrealismo italiano, Antonioni seria aquele que teria dito: "Porque hoje, num clima normalizado –bem ou mal, pouco importa– o que conta não é tanto a relação do indivíduo com o meio ambiente, mas o indivíduo em si, em toda sua complexa e inquietante verdade".

Mas a leitura de "Aventura Antonioni" demonstra como esta dicotomia não se sustenta. Pois a verdadeira questão de Antonioni é: o que é, de fato, um acontecimento, como ele é vivenciado pelos sujeitos, como ele opera? Ou seja, o que de fato nos revoluciona? Thomas (David Hemmings) recusa-se a se engajar não porque ele seja alguém perdido na frivolidade do mundo glamorizado das imagens, mas porque ele espera por um acontecimento. Sua câmera fotográfica procura alguma forma de choque, seja vindo da sexualidade, seja vindo do tempo incontado dos gestos fortuitos que se captam no exterior. E em um destes gestos ele encontra algo. Ele vê uma jovem mulher (Vanessa Redgrave) em um flerte aparente com um homem mais velho em um parque. Esta é a primeira mulher que se recusará a ser fotografada por ele, que exigirá os filmes das fotos que ele tirou sem permissão, que lhe seduzirá para desaparecer de seu sistema de imagens.

O resto da história, todos os cinéfilos conhecem. Thomas descobrirá as marcas de um assassinato ao ampliar as fotos, ele verá o corpo morto a noite, mas este corpo desaparecerá, sem deixar rastos. Pois, como dirá Antonioni: "não se penetra nos fatos com a reportagem". Não se descreve acontecimentos como se estivéssemos diante de uma linguagem descritiva de jornal. Por isto, aquele acontecimento continuará para ele impenetrável, como se fosse um jogo jogado com uma bola que, para ele, é inexistente. Até que ele aprenda, ao final, a pegar a bola que parecia inexistente.

É assim que os personagens de Antonioni se movem. Para quem os vê, eles parecem se mover lentamente. Mas, para eles próprios, eles estão em linhas de fuga, em desaparecimento e em outras estratégias que visam quebrar os círculos de alienação por meio de uma recomposição de suas sensibilidades.

Eles estão em irreversível afastamento da ordem da reprodução material da vida social, como Giuliana (Monica Vitti), a mulher do industrial de "Deserto Rosso" que vaga diante de paisagens de um mundo do trabalho desolado, mas com uma certa beleza melancólica. Vaga como quem diz que irá abandonar este mundo mesmo que, para isto, ela tenha que flertar com a neurose. Foi assim que Antonioni construiu as imagens de um outro engajamento, uma engajamento com o caráter disruptivo dos acontecimentos.

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Governo fortalece BC para delação de Palocci

GABRIELA VALENTE valente@bsb.oglobo.com.br

Banco Central terá mais instrumentos para combater irregularidades e poderá fazer acordo de leniência


Segundo fonte, o BC precisa estar preparado porque 'ninguém sabe o que está por vir' O governo deu mais poderes ao Banco Central (BC) e à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para fiscalizar e punir infrações no mercado financeiro. As novas regras foram criadas por medida provisória e têm por objetivo proteger o sistema financeiro dos efeitos das denúncias que devem vir à tona na iminente delação do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, que pode envolver o BTG. A CVM e o Banco Central poderão, a partir de agora, fazer acordos de leniência. E as multas máximas aplicadas foram elevadas para até R$ 2 bilhões. -BRASÍLIA- Em meio ao desgaste da delação da JBS e buscando se preparar para o que pode vir nos relatos do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, o governo editou ontem uma medida provisória (MP) que aumenta os poderes do Banco Central (BC) e da Comissão de Valores Mobiliários (CVM, o órgão que regula o mercado de capitais). O governo elevou as multas máximas para bancos que cometerem infração de R$ 250 mil para R$ 2 bilhões, como havia antecipado O GLOBO em abril. Mas as mudanças vão além: a MP cria acordo de leniência para instituições financeiras e ainda permite que o BC possa firmar negociações como o Termo de Ajustamento de Conduta, que já é usado pelo Tribunal de Contas da União.
Os últimos detalhes foram acertados, na terça-feira, em reunião entre o presidente Michel Temer e o chefe do BC, Ilan Goldfajn. Foram discutidas, ainda, estratégias para a aprovação da matéria no Congresso Nacional.
A iminência da delação de Palocci também está no radar do BC, que quer proteger o sistema financeiro dos impactos que, teme-se, esta poderá causar nos bancos. A equipe econômica ainda se prepara para fatos novos que podem surgir sobre a relação entre o governo e o banco BTG Pactual, de André Esteves, nos últimos anos.
- Ninguém sabe ao certo o que está por vir. O Banco Central tem de estar preparado para tudo - falou uma alta fonte da equipe econômica.
Apesar das mudanças, as multas só valem para delitos cometidos a partir da edição da MP, ou seja, a partir de ontem. No entanto, dá mais poderes para as autoridades investigarem fatos ocorridos no passado, como os possíveis ganhos obtidos pela JBS no mercado financeiro dias antes da divulgação da gravação feita pelo dono da JBS, Joesley Batista, de sua conversa com o presidente Temer. FISCALIZAÇÃO MAIS ÁGIL Com a medida, o BC ganha alguns instrumentos para apertar a fiscalização. Passa a dispor do Termo de Compromisso, que representa um canal para a solução de controvérsias, nos mesmos moldes já adotados no exterior. A expectativa é que a fiscalização fique mais ágil. Isso deve acelerar a adoção de medidas corretivas, inclusive a indenização de prejuízos.
Já o acordo de leniência poderá ser celebrado com pessoas físicas ou jurídicas. Ele abre espaço para os colaboradores conseguirem a redução ou até mesmo a extinção da pena.
A MP também prevê medidas coercitivas e preventivas, inclusive multa diária de até R$ 100 mil nos casos de não cumprimento das determinações do órgão supervisor. Os parâmetros e a gradação das penalidades serão objeto de regulamentação do BC, a ser divulgada nas próximas semanas.
Em 2010, o Banco Central percebeu que precisava reformular a lei para adequar-se a padrões internacionais. Dois anos depois, deu início às discussões. O projeto, no entanto, só ganhou corpo no ano passado, depois de Ilan assumir o comando do BC.
As novas regras processuais, o termo de compromisso, o acordo de leniência e as medidas coercitivas e acautelatórias passaram a valer a partir de ontem. Com a MP, o BC pode punir não apenas empresas independentes que prestam serviços para instituições financeiras, mas os próprios auditores. RECURSOS IRÃO PARA FUNDO Na Operação Greenfield, da Polícia Federal, que investigou o tráfico de influência em fundos de pensão, observou-se que muitos auditores haviam dado pareceres considerados temerários pela Justiça. Joesley Batista também foi alvo dessa operação.
O poder do BC também aumentou em relação a quem opõe embaraço à fiscalização. "Antes, só era considerado embaraço à fiscalização a negativa de atendimento às solicitações do BC. Pela MP, essa tipificação foi ampliada, passando a abranger, além da negativa de acesso a documentos e a dados, o descumprimento de prazos, forma e condições estabelecidas pelo BC", explicou a autarquia.
Além disso, o BC tipificou o que é infração grave. Entre elas, está causar dano à liquidez ou assumir risco incompatível com a estrutura patrimonial de uma instituição financeira. Outra é contribuir para gerar indisciplina no mercado ou afetar a estabilidade do sistema. E, ainda, provocar perda da confiança da população no uso de instrumentos financeiros.
As penalidades poderão ser cumulativas. O BC ainda poderá publicar a decisão de punir as instituições. Pela lei anterior, os detalhes não podiam ser dados.
O governo criou ainda o Fundo de Desenvolvimento do Sistema Financeiro Nacional e Inclusão Financeira. Os recursos eventualmente arrecadados com a celebração de termos de compromisso e em reparação a danos serão usados em projetos e atividades voltadas à manutenção da estabilidade do sistema financeiro.
ENTENDA AS PRINCIPAIS MUDANÇAS
MULTAS NO BANCO CENTRAL: O governo elevou o valor máximo para as multas a bancos que cometerem infração de R$ 250 mil para R$ 2 bilhões. 
MULTAS NA CVM: O montante máximo, que antes era de R$ 500 mil, agora poderá chegar a R$ 500 milhões, ou o dobro do valor da operação irregular, ou até 20% do faturamento da empresa, o que for maior. 
MULTA COMINATÓRIA: Éa penalidade aplicada pela CVM em caso de descumprimentos de ordens, como prestação de informações financeiras. Antes, era de R$ 1 mil por dia. Agora será de R$ 100 mil diários. 
ACORDO DE LENIÊNCIA: Tanto BC como CVM poderão fazer acordos de leniência com bancos e empresas infratoras, pelos quais os colaboradores gozam de redução das penas. No caso do Banco Central, isso também poderá ser feito com pessoas físicas. Na CVM, ainda falta regulamentação. 
TERMO DE AJUSTE: A exemplo do que já ocorre hoje no Tribunal de Contas da União, o BC poderá fazer termos de compromissos com os infratores, um canal para solução de controvérsias que agiliza punições e soluções. 
AUDITORES: A partir de agora, o Banco Central poderá punir não apenas auditorias independentes que prestam serviços a instituições financeiras, mas também os auditores.
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