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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017
O problema é esse louco do Trump (Francisco Escorsim)
O Líbano já foi a “Suíça do Oriente Médio”; Beirute, a “Paris do Oriente Médio”. Ainda bem que o que aconteceu lá jamais acontecerá à Suíça e Paris originais, certo?
O Líbano conquistou sua independência em 1943, abraçando um ideário querido para muitos ocidentais de hoje. Nasceu como um país multicultural, aberto, tolerante. Muçulmanos de outros países enviavam seus filhos para estudar nas universidades libanesas, as melhores do Oriente Médio. Na economia, era uma espécie de capital bancária da região, uma “Suíça do Oriente Médio”, como era visto; no turismo, tinha em Beirute a chamada “Paris do Oriente Médio”. Era lindo, como caetanaria Gilberto Gil.Era um país de maioria cristã naquela época: em torno de 54%, seguida dos muçulmanos, que, porém, tornaram-se maioria em pouco tempo. Primeiro, pela natalidade. Homens muçulmanos tinham mais de uma esposa e era comum terem dez ou mais filhos, enquanto o restante da população nem de longe chegava a esse número. Não demorou e já na década de 1960 eram maioria. Segundo, pela aceitação de refugiados. No início dos anos 1970, refugiados palestinos vindos da Jordânia, principalmente, foram recebidos no país, no que ficou conhecido como a “Terceira Onda de Refugiados”. Nenhum outro país os aceitou, nem mesmo os de maioria muçulmana – como hoje acontece também com os refugiados sírios, a propósito.
A partir dali, as coisas começaram a mudar. Brigitte Gabriel, famosa jornalista e escritora libanesa, nascida em 1964, conta que a partir da entrada desses refugiados os muçulmanos declararam guerra aos cristãos e uma guerra civil estourou no país em 1975, quando um refugiado palestino invadiu uma igreja durante uma missa de domingo, atirando sem olhar a quem, matando quatro pessoas e ferindo mais de 100. Brigitte, que era cristã, foi morar com seus pais num abrigo antibombas. Não tinham eletricidade, comida, nem água. Para conseguir comida e água precisavam sair do abrigo com muito cuidado, pois os muçulmanos espalharam franco-atiradores por toda a região, esperando os cristãos escondidos saírem para matá-los. Eles tinham de rastejar para chegar a uma fonte de água e ir encontrando alguma comida pelo caminho. Toda vez, antes de sair, se despediam uns dos outros, porque não sabiam se voltariam.
Quando eram descobertos, sofriam todo tipo de horror. Há relatos de bebês tendo uma perna amarrada na mãe e outra perna amarrada no pai, que eram obrigados a caminhar em direções opostas até que a criança fosse rasgada ao meio. Nas igrejas, defecavam e urinavam nos altares, limpando-se com a Bíblia, antes de incendiarem tudo. Brigitte só sobreviveu porque Israel veio em auxílio, conquistando a cidade em que se encontrava escondida com sua família. É com base na sua experiência pessoal e trabalho de pesquisa e estudo que publicou dois livros considerados best-sellers: Because They Hate (“Porque eles odeiam”) e They Must Be Stopped (“Eles têm de ser contidos”) – nenhum deles traduzido ainda. É consultada constantemente pela imprensa, seja de direita, como a Fox News, seja de esquerda, como a CNN, e defende as medidas tomadas por Donald Trump contra a imigração ilegal e o terrorismo islâmico.
A guerra civil libanesa durou até 1990. Desde então a paz na região é tão sólida quanto no restante do Oriente Médio. Não há mais Suíça nem Paris do Oriente Médio, nem perspectiva de isso voltar a acontecer. Ainda bem que isso jamais acontecerá à Suíça e Paris originais, pois, mesmo que um dia os muçulmanos se tornem maioria na Europa, jamais começarão uma guerra contra quem não é muçulmano. Eles aprenderão com nosso multiculturalismo, vocês verão. O problema é esse louco do Trump. Esse não dá pra tolerar.
Link: http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/colunistas/francisco-escorsim/o-problema-e-esse-louco-do-trump-84mcw2iea82sv7tpetwa4jnx8
As mentiras de Trump (J. Bradford DeLong, Economia, Universidade da Califórnia - Berkeley)
Tradução de Sergio Blum, Estado de São Paulo, 06/02/17
Copyright: Project Syndicate, 2017. www.project-syndicate.org
Em recente ensaio na "Vox" descrevendo minha posição sobre a emergente política comercial do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, salientei que um acordo comercial "ruim", como o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) é responsável apenas por uma extremamente pequena fração da perda de empregos nos últimos 30 anos. Apenas 0,1 ponto percentual da queda de 21,4 pontos percentuais na participação do setor de manufatura durante esse período é atribuível ao Nafta, que entrou em vigor em dezembro de 1993.
Meio século atrás, a economia americana assegurava uma abundância de empregos em manufatura a uma força de trabalho bem preparada para ocupá-los. Hoje, muitas dessas oportunidades secaram. Esse é, sem dúvida, um problema significativo; mas qualquer pessoa que afirme que o colapso do emprego no setor de manufatura americano resultou de acordos comerciais "ruins" está dizendo tolice.
Os fatos sobre o declínio do emprego no setor de manufatura americano são evidentes; não há "alternativas". Os culpados são, fundamentalmente, o crescimento da produtividade e a demanda limitada, que reduziram a participação dos trabalhadores fora do setor agrícola na indústria manufatureira de 30% na década de 1960 para 12% uma geração mais tarde.
As prioridades da política econômica de Trump (estímulo fiscal, corte de impostos corporativos e taxação de importações) pressionarão o Fed a elevar os juros e apenas fortalecerão o dólar. É uma mensagem clara aos fabricantes nacionais: vocês não são desejados
Essa participação caiu ainda mais, para 9%, devido a políticas macroeconômicas equivocadas, especialmente durante a era Reagan, quando o déficit orçamentário e a política monetária excessivamente rígida fizeram com que o dólar subisse, prejudicando a competitividade. Após esse período, os Estados Unidos abdicaram de seu papel de exportador líquido de capital e finanças, e as economias menos desenvolvidas tornaram-se fontes líquidas de recursos para investimento. Finalmente, o crescimento extraordinariamente rápido da China fez com que a proporção do emprego no setor de manufatura caísse para 8,7%; o Nafta levou-o para 8,6%.
Eu havia prometido ao editor-chefe da "Vox", Ezra Klein, um ensaio de 5 mil palavras sobre esse assunto no fim de setembro. Acabei entregando 8 mil palavras no fim de janeiro, mas o ensaio ainda não exprimiu tudo o que eu desejava. Resumidamente, argumentei que "maus" acordos comerciais são irrelevantes quanto ao problema da diminuição das oportunidades econômicas, e descrevi como a política de comércio - na realidade, a política industrial - americana deveria abordar a questão da manufatura.
Tentei também explicar por que certos círculos, tanto da esquerda como da direita, há muito só falam do comércio. Na realidade, desde 1993 tenho indagado a dirigentes sindicais, membros do Congresso e lobistas que se opuseram a acordos comerciais por que não aplicam o mesmo nível de energia a outras questões importantes - entre elas, muitas onde um terreno comum poderia facilmente ser encontrado.
Essa oposição intransigente persiste até hoje como um mistério para mim. A melhor explicação parcial que já vi começa com a cruel observação do filósofo Ernest Gellner sobre os acadêmicos de esquerda. Segundo Gellner, eles foram atropelados pela história quando a política de nacionalismo e etnicidade começou a tomar o lugar dos esforços de organização política centrados em classes. Os políticos que procuram aproveitar a energia populista o fazem fomentando um antagonismo aos estrangeiros, em perigoso pacto com o diabo.
Mas, de novo, essa é apenas uma explicação parcial e, em última análise, inadequada.
Quanto à política industrial, o economista Stephen S Cohen e eu argumentamos em nosso livro de 2016, "Concrete Economics", que as autoridades governamentais deveriam reconhecer e aproveitar-se das comunidades interconectadas de produtores americanos e seu profundo conhecimento institucional das práticas de engenharia. Além disso, os Estados Unidos deveriam começar a fazer o que países ricos deveriam fazer: exportar capital e gerar superávit comercial para financiar a industrialização em regiões subdesenvolvidas do mundo.
Como observaram Larry Summers e Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, é quase como se a estratégia econômica de Trump - se podemos assim qualificar suas declarações vagas e vacilantes - foi concebida para reduzir ainda mais o emprego industrial nos EUA. As prioridades da política econômica de Trump - estímulo fiscal, cortes de impostos corporativos, possivelmente um imposto de "ajuste de fronteira" sobre as importações, pressionando o Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA) a elevar os juros - apenas fortalecerão o dólar. E isso envia uma mensagem clara aos fabricantes nacionais: vocês não são desejados.
Trump, naturalmente, não responsabilizará suas próprias políticas incoerentes e contraproducentes pela alta do dólar. Ele culpará a China e o México - e ele não estará sozinho. Nos Estados Unidos hoje, analistas de esquerda estão tão interessados quanto Donald Trump em atribuir ao México a culpa por todo o declínio no emprego industrial nas últimas três décadas.
Esse é um grande problema para os Estados Unidos e para o mundo. Dada a política chauvinista que muitas vezes acompanha o protecionismo - e que são um pilar da marca Trump - pode-se mesmo dizer que é um problema "grandioso".
Copyright: Project Syndicate, 2017. www.project-syndicate.org
Em recente ensaio na "Vox" descrevendo minha posição sobre a emergente política comercial do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, salientei que um acordo comercial "ruim", como o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) é responsável apenas por uma extremamente pequena fração da perda de empregos nos últimos 30 anos. Apenas 0,1 ponto percentual da queda de 21,4 pontos percentuais na participação do setor de manufatura durante esse período é atribuível ao Nafta, que entrou em vigor em dezembro de 1993.
Meio século atrás, a economia americana assegurava uma abundância de empregos em manufatura a uma força de trabalho bem preparada para ocupá-los. Hoje, muitas dessas oportunidades secaram. Esse é, sem dúvida, um problema significativo; mas qualquer pessoa que afirme que o colapso do emprego no setor de manufatura americano resultou de acordos comerciais "ruins" está dizendo tolice.
Os fatos sobre o declínio do emprego no setor de manufatura americano são evidentes; não há "alternativas". Os culpados são, fundamentalmente, o crescimento da produtividade e a demanda limitada, que reduziram a participação dos trabalhadores fora do setor agrícola na indústria manufatureira de 30% na década de 1960 para 12% uma geração mais tarde.
As prioridades da política econômica de Trump (estímulo fiscal, corte de impostos corporativos e taxação de importações) pressionarão o Fed a elevar os juros e apenas fortalecerão o dólar. É uma mensagem clara aos fabricantes nacionais: vocês não são desejados
Essa participação caiu ainda mais, para 9%, devido a políticas macroeconômicas equivocadas, especialmente durante a era Reagan, quando o déficit orçamentário e a política monetária excessivamente rígida fizeram com que o dólar subisse, prejudicando a competitividade. Após esse período, os Estados Unidos abdicaram de seu papel de exportador líquido de capital e finanças, e as economias menos desenvolvidas tornaram-se fontes líquidas de recursos para investimento. Finalmente, o crescimento extraordinariamente rápido da China fez com que a proporção do emprego no setor de manufatura caísse para 8,7%; o Nafta levou-o para 8,6%.
Eu havia prometido ao editor-chefe da "Vox", Ezra Klein, um ensaio de 5 mil palavras sobre esse assunto no fim de setembro. Acabei entregando 8 mil palavras no fim de janeiro, mas o ensaio ainda não exprimiu tudo o que eu desejava. Resumidamente, argumentei que "maus" acordos comerciais são irrelevantes quanto ao problema da diminuição das oportunidades econômicas, e descrevi como a política de comércio - na realidade, a política industrial - americana deveria abordar a questão da manufatura.
Tentei também explicar por que certos círculos, tanto da esquerda como da direita, há muito só falam do comércio. Na realidade, desde 1993 tenho indagado a dirigentes sindicais, membros do Congresso e lobistas que se opuseram a acordos comerciais por que não aplicam o mesmo nível de energia a outras questões importantes - entre elas, muitas onde um terreno comum poderia facilmente ser encontrado.
Essa oposição intransigente persiste até hoje como um mistério para mim. A melhor explicação parcial que já vi começa com a cruel observação do filósofo Ernest Gellner sobre os acadêmicos de esquerda. Segundo Gellner, eles foram atropelados pela história quando a política de nacionalismo e etnicidade começou a tomar o lugar dos esforços de organização política centrados em classes. Os políticos que procuram aproveitar a energia populista o fazem fomentando um antagonismo aos estrangeiros, em perigoso pacto com o diabo.
Mas, de novo, essa é apenas uma explicação parcial e, em última análise, inadequada.
Quanto à política industrial, o economista Stephen S Cohen e eu argumentamos em nosso livro de 2016, "Concrete Economics", que as autoridades governamentais deveriam reconhecer e aproveitar-se das comunidades interconectadas de produtores americanos e seu profundo conhecimento institucional das práticas de engenharia. Além disso, os Estados Unidos deveriam começar a fazer o que países ricos deveriam fazer: exportar capital e gerar superávit comercial para financiar a industrialização em regiões subdesenvolvidas do mundo.
Como observaram Larry Summers e Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, é quase como se a estratégia econômica de Trump - se podemos assim qualificar suas declarações vagas e vacilantes - foi concebida para reduzir ainda mais o emprego industrial nos EUA. As prioridades da política econômica de Trump - estímulo fiscal, cortes de impostos corporativos, possivelmente um imposto de "ajuste de fronteira" sobre as importações, pressionando o Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA) a elevar os juros - apenas fortalecerão o dólar. E isso envia uma mensagem clara aos fabricantes nacionais: vocês não são desejados.
Trump, naturalmente, não responsabilizará suas próprias políticas incoerentes e contraproducentes pela alta do dólar. Ele culpará a China e o México - e ele não estará sozinho. Nos Estados Unidos hoje, analistas de esquerda estão tão interessados quanto Donald Trump em atribuir ao México a culpa por todo o declínio no emprego industrial nas últimas três décadas.
Esse é um grande problema para os Estados Unidos e para o mundo. Dada a política chauvinista que muitas vezes acompanha o protecionismo - e que são um pilar da marca Trump - pode-se mesmo dizer que é um problema "grandioso".
Metafísica dos ossos (Sérgio Alcides, por José Castello)
Gazeta do POVO - 13/04/2013
http://www.gazetadopovo.com.br/caderno-g/colunistas/jose-castello/metafisica-dos-ossos-dyjf6v5qtqfld8vnl3fj9engu
Desde que escrevi o prefácio para a nova edição das 200 Crônicas Escolhidas de Rubem Braga (Record, edição comemorativa do centenário de nascimento do cronista, que acaba de chegar às livrarias), não consigo mais parar de reler o autor. Na semana passada, preparando-me para uma mesa de debates sobre sua obra na série Prosa na Livrarias – que dividi com Joaquim Ferreira dos Santos e Mauro Ventura, no Rio de Janeiro – passei a devorar suas crônicas ainda com mais avidez. Com uma fome interminável.
Foi quase uma intoxicação – mas que doença saudável é o vício em grandes escritores! Enquanto relia Braga, atravessei um tanto intrigado os poemas de Sérgio Alcides, reunidos em seu novo livro, Píer (Editora 34). Poemas desafiadores, que me pediam, desde os primeiros versos, um posto de observação – um píer – desde onde eu pudesse contemplá-los com mais lucidez.
Eis que encontro em Braga a plataforma que buscava. Ela me aparece na crônica “O Mistério da Poesia”, de 1949. “Aqui me debruço ainda uma vez sobre o mistério da poesia”, o cronista anuncia. Lê inspirado pela leitura de dois versos de um poeta boliviano, cujo nome não pode recordar. Dizem: “Trabajar era Bueno em El Sur.../ Cortar los árboles, hacer canoas de los troncos”. Versos simples, que falam do homem, da natureza e do modo como o trabalho os integra. Mas que, decidiu Braga, guardam um mistério.
“De onde vem o efeito poético?”, ele se pergunta. Responde: “Talvez o que impressione seja mesmo isso: essa faculdade de dar um sentido solene e alto às palavras de todo dia”. É o que faz Sérgio Alcides em seu luminoso Píer. Para ler seus poemas, preciso me equilibrar sobre eles – e felizmente encontrei em Braga um cais acolhedor. Já na abertura, Alcides nos oferece uma definição imprevista da poesia: “Poeira que está caindo,/ cobrindo as mercadorias”. Como ele nos diz também, o poeta se limita a “arranhar” o mundo, “o mundo menos real/ – mas real – da circunstância”. Não “se aprofunda”. Permanece em sua plataforma, ou não chega a escrever.
A circunstância: eis o nome que Alcides dá ao que Braga chama de “palavras de todo dia”. O banal, o comum, o transitório – tudo aquilo que, a princípio, parece resistir à poesia e que, contudo, justamente porque resiste, consegue abrigá-la. Para o poeta, a poesia contamina o mundo – do mesmo modo que me contaminei com as crônicas de Braga. Diz Sérgio Alcides: “Não há corpos, não há tempo/ fora desta mancha gráfica,/ página estreita virando,/ escrita sombra de sonho,/ curva de interrogação”. A poesia se origina do espanto que é divisar o mundo um pouco mais acima do que, na verdade, ele está. Em capturá-lo no píer da página estreita.
Essa elevação é uma estratégia, com a qual o poeta amansa o bicho escuro e “profundo” que traz dentro de si. Não conhece o bicho que o habita, mas o alisa (arranha) e dele se aproxima. É verdade: vivemos, talvez hoje mais que nunca, em um mundo tolo. Alcides o descreve: “De uma montanha-delivery,/ nasce um ridículo Mickey/ a pilha, que, made in China/ tomba tocando tambor”. Contra este mundo – “onde pasta o gado idiota/ que não dá leite, só arrobas” – a poesia promove uma espécie de repuxão. A própria web (“arroba”) pode ser sua arma: por que não?
Mas – em pleno sol, em pleno cais – não precisamos ser graves. A gravidade, diz o poeta, não está nas coisas, mas em nossa mente. “A gravidade está no pensamento que, situado na cabeça,/ empurra devagar o vulto dos sintomas para baixo”. Braga deplora a crença de que, quando turvamos um pouco as águas, elas se tornam mais profundas”. Reclama: “Não faltam poetas modernos que procuram este mistério (da poesia) enunciando coisas obscuras”. Da claridade de um píer, mostra-nos Sérgio Alcides, podemos arrancar, tantas vezes, mais potência. Muitos insistem em acreditar que não – e repetem o mesmo engano daqueles que pensam que das crônicas, como as de Rubem Braga, só tiramos futilidades.
O pensamento mais complexo, muitas vezes, está na superfície. Escreve Alcides: “Lá vem o beduíno: sou eu? Seu turbante/ é meu pensamento dando voltas, em branco”. O tédio, a assepsia, o branco, que em geral desprezamos como inúteis, podem gerar o imprevisto. E então Alcides nos apresenta a realidade mais dura: a de que não existem ideias soltas, “imateriais”. “Só os/ ossos – os hóspedes involuntários – perpetuam/ em suspenso os nossos mais prudentes pensamentos”. Ao perfurar um poema, ultrapassadas a carne e a paixão, chegamos ao osso, isto é, à ideia dura, a “ideia coisa”, última região em nosso interior em que o pensamento ainda se comprime.
“A vida é só um episódio na história dos ossos”, escreve Sérgio Alcides, levando-nos a recordar dos bilhões de anos que o planeta Terra viveu sem necessitar de nossa existência. Também a poesia, para além da carne, insiste nos ossos que, sozinhos, “cuidam desanimados de si”. Nessa altura, Alcides e Braga se encontram em uma suave, mas desafiadora, metafísica das coisas que – uma vez que a morte é inevitável – se transforma em uma metafísica dos ossos.
Para além do corpo, não há o espírito, mas o osso. Tanto o espírito, como o pensamento, ainda são parte do corpo vivo e não existem sem ele. Finda a vida, restam os ossos, com sua metafísica fria e sem eloquência. Resta algo que já não está mais no homem, mas além do homem. Escreve Alcides: “Os ossos são desumanos./ Lê-se neles apenas o presente, que branqueja”. Lê-se o mesmo, o imóvel, enquanto o humano é diferença e movimento.
Escreve ainda Alcides: “Não leio nos ossos o futuro, que só pode/ ser lido nas vísceras”. O futuro só se inscreve na sujeira, na respiração desordenada, nos fluidos repulsivos, no resfolegar. Nos ossos, o poeta lê um presente perpétuo, que na verdade mata o presente, pois este é sempre desmentido. Conhecia Rubem Braga muito bem esses movimentos mínimos com que a vida se perpetua. O poeta, dizia Braga, quer muito pouco. Cultiva só o “desejo de fazer alguma coisa simples, honrada e bela, e imaginar que já se fez”. Algo tão estreito – como um píer – mas que ainda assim consegue nos sustentar.
@literatura
http://www.gazetadopovo.com.br/caderno-g/colunistas/jose-castello/metafisica-dos-ossos-dyjf6v5qtqfld8vnl3fj9engu
Desde que escrevi o prefácio para a nova edição das 200 Crônicas Escolhidas de Rubem Braga (Record, edição comemorativa do centenário de nascimento do cronista, que acaba de chegar às livrarias), não consigo mais parar de reler o autor. Na semana passada, preparando-me para uma mesa de debates sobre sua obra na série Prosa na Livrarias – que dividi com Joaquim Ferreira dos Santos e Mauro Ventura, no Rio de Janeiro – passei a devorar suas crônicas ainda com mais avidez. Com uma fome interminável.
Foi quase uma intoxicação – mas que doença saudável é o vício em grandes escritores! Enquanto relia Braga, atravessei um tanto intrigado os poemas de Sérgio Alcides, reunidos em seu novo livro, Píer (Editora 34). Poemas desafiadores, que me pediam, desde os primeiros versos, um posto de observação – um píer – desde onde eu pudesse contemplá-los com mais lucidez.
Eis que encontro em Braga a plataforma que buscava. Ela me aparece na crônica “O Mistério da Poesia”, de 1949. “Aqui me debruço ainda uma vez sobre o mistério da poesia”, o cronista anuncia. Lê inspirado pela leitura de dois versos de um poeta boliviano, cujo nome não pode recordar. Dizem: “Trabajar era Bueno em El Sur.../ Cortar los árboles, hacer canoas de los troncos”. Versos simples, que falam do homem, da natureza e do modo como o trabalho os integra. Mas que, decidiu Braga, guardam um mistério.
“De onde vem o efeito poético?”, ele se pergunta. Responde: “Talvez o que impressione seja mesmo isso: essa faculdade de dar um sentido solene e alto às palavras de todo dia”. É o que faz Sérgio Alcides em seu luminoso Píer. Para ler seus poemas, preciso me equilibrar sobre eles – e felizmente encontrei em Braga um cais acolhedor. Já na abertura, Alcides nos oferece uma definição imprevista da poesia: “Poeira que está caindo,/ cobrindo as mercadorias”. Como ele nos diz também, o poeta se limita a “arranhar” o mundo, “o mundo menos real/ – mas real – da circunstância”. Não “se aprofunda”. Permanece em sua plataforma, ou não chega a escrever.
A circunstância: eis o nome que Alcides dá ao que Braga chama de “palavras de todo dia”. O banal, o comum, o transitório – tudo aquilo que, a princípio, parece resistir à poesia e que, contudo, justamente porque resiste, consegue abrigá-la. Para o poeta, a poesia contamina o mundo – do mesmo modo que me contaminei com as crônicas de Braga. Diz Sérgio Alcides: “Não há corpos, não há tempo/ fora desta mancha gráfica,/ página estreita virando,/ escrita sombra de sonho,/ curva de interrogação”. A poesia se origina do espanto que é divisar o mundo um pouco mais acima do que, na verdade, ele está. Em capturá-lo no píer da página estreita.
Essa elevação é uma estratégia, com a qual o poeta amansa o bicho escuro e “profundo” que traz dentro de si. Não conhece o bicho que o habita, mas o alisa (arranha) e dele se aproxima. É verdade: vivemos, talvez hoje mais que nunca, em um mundo tolo. Alcides o descreve: “De uma montanha-delivery,/ nasce um ridículo Mickey/ a pilha, que, made in China/ tomba tocando tambor”. Contra este mundo – “onde pasta o gado idiota/ que não dá leite, só arrobas” – a poesia promove uma espécie de repuxão. A própria web (“arroba”) pode ser sua arma: por que não?
Mas – em pleno sol, em pleno cais – não precisamos ser graves. A gravidade, diz o poeta, não está nas coisas, mas em nossa mente. “A gravidade está no pensamento que, situado na cabeça,/ empurra devagar o vulto dos sintomas para baixo”. Braga deplora a crença de que, quando turvamos um pouco as águas, elas se tornam mais profundas”. Reclama: “Não faltam poetas modernos que procuram este mistério (da poesia) enunciando coisas obscuras”. Da claridade de um píer, mostra-nos Sérgio Alcides, podemos arrancar, tantas vezes, mais potência. Muitos insistem em acreditar que não – e repetem o mesmo engano daqueles que pensam que das crônicas, como as de Rubem Braga, só tiramos futilidades.
O pensamento mais complexo, muitas vezes, está na superfície. Escreve Alcides: “Lá vem o beduíno: sou eu? Seu turbante/ é meu pensamento dando voltas, em branco”. O tédio, a assepsia, o branco, que em geral desprezamos como inúteis, podem gerar o imprevisto. E então Alcides nos apresenta a realidade mais dura: a de que não existem ideias soltas, “imateriais”. “Só os/ ossos – os hóspedes involuntários – perpetuam/ em suspenso os nossos mais prudentes pensamentos”. Ao perfurar um poema, ultrapassadas a carne e a paixão, chegamos ao osso, isto é, à ideia dura, a “ideia coisa”, última região em nosso interior em que o pensamento ainda se comprime.
“A vida é só um episódio na história dos ossos”, escreve Sérgio Alcides, levando-nos a recordar dos bilhões de anos que o planeta Terra viveu sem necessitar de nossa existência. Também a poesia, para além da carne, insiste nos ossos que, sozinhos, “cuidam desanimados de si”. Nessa altura, Alcides e Braga se encontram em uma suave, mas desafiadora, metafísica das coisas que – uma vez que a morte é inevitável – se transforma em uma metafísica dos ossos.
Para além do corpo, não há o espírito, mas o osso. Tanto o espírito, como o pensamento, ainda são parte do corpo vivo e não existem sem ele. Finda a vida, restam os ossos, com sua metafísica fria e sem eloquência. Resta algo que já não está mais no homem, mas além do homem. Escreve Alcides: “Os ossos são desumanos./ Lê-se neles apenas o presente, que branqueja”. Lê-se o mesmo, o imóvel, enquanto o humano é diferença e movimento.
Escreve ainda Alcides: “Não leio nos ossos o futuro, que só pode/ ser lido nas vísceras”. O futuro só se inscreve na sujeira, na respiração desordenada, nos fluidos repulsivos, no resfolegar. Nos ossos, o poeta lê um presente perpétuo, que na verdade mata o presente, pois este é sempre desmentido. Conhecia Rubem Braga muito bem esses movimentos mínimos com que a vida se perpetua. O poeta, dizia Braga, quer muito pouco. Cultiva só o “desejo de fazer alguma coisa simples, honrada e bela, e imaginar que já se fez”. Algo tão estreito – como um píer – mas que ainda assim consegue nos sustentar.
domingo, 5 de fevereiro de 2017
Imaginário sobre o Brasil no exterior permanece estereotipado (Daniel Buarque)
FSP - DANIEL BUARQUE ilustração ALEX KIDD 05/02/2017
RESUMO: Texto mostra como o imaginário estrangeiro sobre o Brasil não sofreu mudanças significativas desde o retrato feito pelos primeiros viajantes, no século 16. Sensualidade e exuberância natural continuam a ser as linhas mestras, agora acrescidas do diagnóstico de um ator político irrelevante na cena global.
http://m.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/02/1855524-imaginario-sobre-o-brasil-no-exterior-permance-marcado-por-estereotipos.shtml
A
Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos do Rio em 2016, dois eventos
pensados para projetar internacionalmente a imagem de um Brasil moderno e em
plena ascensão, acabaram atropelados pela realidade da crise no país. Mesmo que
ambos tenham sido relativamente bem-sucedidos, sem registros de incidentes
graves, a cobertura das competições acabou revelando o quanto o resto do mundo
ainda vê o Brasil sob o prisma de clichês e estereótipos, alguns deles formados
há séculos.
Um
levantamento realizado em 2014 no King's College de Londres revelou que 80% dos
registros da imprensa internacional usaram lugares-comuns para descrever o
país-sede da Copa. Outra pesquisa, feita na Universidade Goldsmith, mostrou que
a rede britânica BBC quadruplicou as menções ao Brasil durante a competição,
mas que o teor das notícias era predominantemente negativo, enfatizando os
problemas do país.
O
"Brazil bashing" (expressão em inglês que denota críticas incisivas e
reincidentes) se repetiu em 2016, quando a Olimpíada foi com frequência
descrita como uma grande festa que visaria a ofuscar as falhas de organização e
de estrutura da cidade-sede.
Por
mais que os dois eventos globais possam ser enquadrados em uma tentativa
moderna de trabalhar a marca internacional do Brasil e de promover sua
reputação no exterior, muito do que se pensa a respeito do país no resto do
mundo está preso a concepções talhadas séculos atrás.
Alguns
desses clichês, como o do espírito festeiro, surgiram apenas em meados do
século passado, enquanto o Brasil desenvolvia e consolidava sua identidade
nacional, mas estudos recentes na academia europeia indicam que parte das imagens
mais fortes do país no exterior nos dias atuais começou a integrar o repertório
do Velho Mundo desde pouco tempo depois da chegada dos portugueses por aqui,
nos séculos 16 e 17.
Segundo
pesquisadores que estudam alguns dos primeiros relatos a descrever o país, é
possível ver desde aquela época a construção da representação do Brasil que se
consolidou e que persiste até hoje.
O
exotismo e uma visão preconceituosa e superficial do Brasil como uma nação
aquém do desenvolvimento alcançado pelo Ocidente, bem como a associação do país
a noções como a de sensualidade, são percebidos pelo professor da Universidade
de Leiden, na Holanda, Michiel van Groesen, e pela pesquisadora brasileira
Vivien Kogut Lessa de Sá, da Universidade de Cambridge. Ambos estudam relatos
de europeus sobre o perímetro tropical nos primeiros séculos após a chegada dos
portugueses.
"Existe
uma dicotomia na forma como os europeus veem o Brasil atualmente",
explicou Van Groesen, autor do livro recém-lançado "Amsterdam's Atlantic:
Print Culture and the Making of Dutch Brazil" (Atlântico de Amsterdã: a
cultura impressa e a construção do Brasil holandês, University of Pennsylvania
Press), em entrevista à Folha. "Eles acreditam ter superado o
colonialismo, se acham modernos e ocidentalizados, enquanto o Brasil e o resto
da América Latina não lhes parecem bem preparados para o futuro", disse.
A
avaliação do pesquisador holandês se assemelha ao que sugerem estudos
internacionais sobre a reputação global do Brasil. Segundo as principais pesquisas
de "nation branding", como o Nation Brands Index e o ranking Best
Country, o país costuma ser bem avaliado em tópicos ligados a cultura,
sociedade, opções de turismo e lazer. O calcanhar de Aquiles está no
reconhecimento externo como nação séria, com relevância política e econômica
para o resto do planeta. Trata-se de um país "decorativo", nos termos
de um dos principais pesquisadores do tema, Simon Anholt.
Segundo
Van Groesen, o que se viu na imprensa europeia nos últimos dez anos é uma
confirmação disso. "São reportagens sobre corrupção, sobre a Copa do Mundo
não ter sido concebida de forma apropriada, sobre a Olimpíada desorganizada no
Rio. Essas ideias superficiais dominam a forma como os holandeses pensam o
Brasil", explicou. Para ele, é uma questão que vai além da ideia de
estereótipo; incorre-se pura e simplesmente no preconceito.
Van
Groesen aponta como marco zero da difusão desse equívoco as publicações da
imprensa europeia do século 17, sobre as quais se debruça há uma década –e que
deram origem ao livro que acaba de publicar. Ele estudou as descrições do
Brasil antes, durante e depois do período em que os holandeses dominaram o
Nordeste do país, entre 1630 e 1654.
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alex kidd/Folhapress
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A
Holanda invadiu o Brasil por conta da disputa geopolítica durante sua guerra
contra a Espanha (então unida a Portugal). Navios do país zarparam para a
América orientados por conhecimentos sobre o território recém-descoberto
sacados sobretudo de relatos de franceses. Depois que conquistaram o Nordeste
brasileiro, no entanto, os holandeses buscaram conhecer o território melhor e
divulgar pelo resto da Europa o que descobriam na colônia.
"Eles
se interessavam extremamente pelas oportunidades que a paisagem local oferecia,
pela vegetação exótica, pelo potencial medicinal que poderia ser encontrado no
Brasil. Esse é o tipo de coisa que começa a chamar a atenção depois que a
disputa militar se consolida", diz Van Groesen.
BRASIL
NU
O
realce dado ao exotismo quando se perfila o Brasil na Europa prevalece até
hoje, segundo a professora Lessa de Sá, e já aparecia nos primeiros relatos de
portugueses e ingleses em viagem ao Brasil dos séculos 16 e 17.
"Hoje
ainda se salienta a 'proverbial beleza das mulheres brasileiras', a afabilidade
e a espontaneidade do povo, um ar singularmente relaxado e as onipresentes
belezas naturais. Ao lado disso, há um subtexto de bestialidade, de
primitivismo, que inspira encantamento e repulsa ao mesmo tempo", explica.
Para
ela, destacam-se as ideias batidas da hipersensualidade e da sexualidade, da
falta de vergonha, da extroversão alegre, de um certo descontrole, que aparece
desde a carta de Pero Vaz de Caminha. "Ficou um estereótipo que se
retroalimenta. Nos primeiros relatos, há uma ênfase enorme na
sensualidade", diz.
A
raiz desse arquétipo reside no choque produzido pelo encontro entre os europeus
e os habitantes da América tropical. A nudez do indígena, explica Lessa de Sá,
surpreende e deixa sua marca na forma como o Brasil é interpretado pelo resto
do mundo desde então.
Isso
acontece porque os europeus da época tinham no vestuário não apenas algo que
servia para "cobrir as vergonhas" mas o maior indicador de
identidade. "Para os europeus, uma sociedade despida significava uma
sociedade em que estavam ausentes os principais elementos ordenadores:
hierarquia, riqueza, controle", explica ela. A roupa designava gênero,
classe, profissão, nacionalidade, status social e idade.
"É
sintomático que esta seja a primeira impressão dos índios que se acha em quase
todos os relatos, desde Colombo: as primeiras palavras sobre os indígenas serão
sempre 'andam nus', seguidas da cor da pele.
Fica aí impressa, até hoje, a imagem de que uma das maiores características da América tropical é precisamente o seu despudor", afirma a professora.
Fica aí impressa, até hoje, a imagem de que uma das maiores características da América tropical é precisamente o seu despudor", afirma a professora.
Lessa
de Sá desenvolve há quase dez anos pesquisas que resultaram na coletânea de 12
relatos de viajantes ingleses que estiveram no Brasil entre os séculos 16 e 17
e descrevem o país nascente. O título do trabalho, ainda sem editora, é
"Viajantes Ingleses no Brasil: 1526-1608".
A
maioria desses relatos permanece desconhecida do público brasileiro. São cartas,
diários e outros depoimentos que descrevem o país e deixam entrever muito sobre
a forma de pensar e ver o mundo do próprio autor, enquanto ele narra eventos e
descreve características da nova terra.
Segundo
a pesquisadora brasileira, a imagem do Brasil transmitida pelos ingleses dessa
época se ancorava na riqueza natural da terra e no exotismo dos indígenas. Em
seguida, a tônica passa a ser o capital, leia-se, as promessas de riqueza no
comércio do açúcar e as notícias vagas sobre possibilidades de ouro –culminando
em uma atitude predatória, frequentemente acompanhada de verdadeiro ódio aos
portugueses, vistos como indignos de serem "donos da terra".
"Ao
contrário de outros relatos europeus dessa época muito mais conhecidos entre
nós, esses não envolvem uma leitura religiosa daquilo que é testemunhado",
compara a pesquisadora.
MÍDIA
EUROPEIA
Os
relatos produzidos por viajantes nos dois primeiros séculos após a chegada ao
Brasil gozavam de forte apelo junto ao público europeu, segundo Van Groesen.
Apesar de os megaeventos esportivos dos últimos anos serem tratados como uma
tentativa de atrair os holofotes de uma mídia internacional nem sempre
interessada pelo que acontece no Brasil, ele lembra que o país já havia sido
foco importante da imprensa europeia no período colonial.
"Se
você mencionasse a palavra Brasil entre os anos 1630 e 1650, todo mundo sabia
que fazia parte de uma grande disputa geopolítica entre protestantes e
católicos que vinha acontecendo na Europa havia décadas", diz o professor.
A
invasão do Nordeste pelos holandeses ensejou uma cobertura frenética sobre o
Brasil Colônia na imprensa baseada em Amsterdã. Como a cidade na época era um
dos centros de irradiação de conhecimento para a Europa, as descrições sobre o
Brasil ganhavam o continente. "Nos anos 1630, a cobertura holandesa
sobre o país era traduzida para o francês, para o alemão e para o inglês,
levando a história a uma audiência mais ampla", conta Van Groesen.
Esse
vívido interesse seria impulsionado pelas mãos de Maurício de Nassau, que
governou a província holandesa baseada em Pernambuco. "Ele queria que sua
visão positiva sobre o Brasil se espalhasse, e foi muito eficiente em fazer
isso não apenas na Holanda, mas em toda a Europa, por meio de pinturas,
descrições e tratados científicos."
A
parte intrigante –e decepcionante– dessa história, pondera o professor, é que
os europeus não estavam tão interessados nos habitantes indígenas dos trópicos,
em seus hábitos e práticas. Antes de tudo, viam o Brasil como um mero objeto a
ser explorado. Por isso é que os relatos pesavam a mão no exotismo, deixando de
lado menções a temas mais candentes da realidade local.
"Os
europeus não se interessavam em discutir a ascensão do tráfico de escravos, que
também é parte da história do Brasil Holandês. Essas reportagens, sobre
africanos e indígenas, não achamos na mídia holandesa da época", afirma
Van Groesen. "Já vemos ali os primórdios de uma concepção que privilegiava
os interesses europeus nas Américas, com silêncio significativo em relação a partes
da história tidas como dolorosas ou desumanas demais –ou simplesmente
irrelevantes."
Apesar
da ampla cobertura da imprensa holandesa por mais de duas décadas no século 17
e do trabalho de divulgação de Nassau, a Holanda não tardou em apagar de sua história
o período em que dominou o Nordeste –era uma forma de fugir da vergonha da
derrota para os portugueses e de esconder o que foi visto como um vexame, nas
palavras de Van Groesen.
"O
que mais encontro é a ignorância. Os holandeses hoje sabem muito pouco sobre o
Brasil, então a imagem não é muito bem definida. Além disso, veem a América
Latina como um território desprovido de proeminência na órbita política
internacional."
PRECONCEITO
A
desinformação a respeito da realidade brasileira e a combinação tóxica daquela
com o preconceito pautariam por séculos a conformação da "marca
Brasil".
Muito
antes de pesquisas do que se chama hoje de "nation branding" sobre a
reputação dos países no resto do mundo, os primeiros levantamentos realizados
nos Estados Unidos a respeito do Brasil e da América Latina, nos anos 1930 e
1940, aferiram "desconhecimento e ignorância impressionantes" a
respeito dos vizinhos de continente, segundo um relatório da época.
Com
o passar do tempo, as informações sobre o Brasil começaram a se espalhar com
mais celeridade –mas a intensificação desse fluxo não foi capaz de desarmar de
todo a coleção de clichês.
Segundo
o historiador britânico Leslie Bethell, a difusão de informações sobre o Brasil
cresceu no século 19 porque a divulgação internacional foi alçada a prioridade
do Império; a independência do gigante sul-americano precisava ser alardeada
nos quatro cantos do mundo.
Em
um estudo sobre o que se conhecia do Brasil no mundo no século 19, Bethell
indica que relatos de diplomatas, oficiais navais, naturalistas, exploradores,
missionários, jornalistas e viajantes que passavam pelo país se disseminavam em
forma de livros pela Europa e pelos Estados Unidos.
Enquanto
o pintor francês Jean-Baptiste Debret se consolidava na Europa como o principal
artista a retratar essas terras com seus volumes de "viagens pitorescas e
históricas", nos anos 1830, naturalistas como Alfred Russel Wallace e
Henry Walter Bates se empenhavam em ir além das cidades costeiras para conhecer
o lado mais selvagem da floresta na Amazônia.
Além
desses textos, a segunda metade dos anos 1800 foi marcada por participações
brasileiras em exposições internacionais, que buscavam vender ao mundo os
contornos de um país moderno –ainda assim, a natureza e o apelo exótico eram os
trunfos dos pavilhões tupiniquins.
O
Brasil esteve representado em Londres em 1862, em Paris em 1867, em Viena em
1873, na Filadélfia em 1876 e de volta a Paris em 1889, meses antes da
Proclamação da República.
Segundo
Bethell, nesta última o Brasil se apresentou como "grande império da
América do Sul" e foi tratado como uma nação "civilizada e
progressista", se comparada à realidade que existia então nos Estados
Unidos.
As
exposições, especialmente a de Paris em 1889, acabavam reciclando imagens
gastas do Brasil, mas o país ficava longe do tratamento depreciativo reservado
a colônias europeias, segundo a pesquisadora Heloisa Barbuy, da USP. Em vez de
ser associado a uma nação de humanos em estado primitivo, o Brasil era tratado
como um futuro gigante da economia mundial. Daí vêm os primeiros esboços da
ideia do Brasil como um "país do futuro".
A
virada para o século 20 também ampliou o espectro de olhares estrangeiros sobre
o Brasil; os EUA, ator então ascendente na cena global, também davam seus
pitacos.
Exemplo
disso foi "Nas Selvas do Brasil" (1914), livro escrito pelo
ex-presidente norte-americano Theodore Roosevelt, que embarcou numa expedição
científica de quase dois meses pela floresta tropical, acompanhando o coronel
Cândido Rondon. Ele buscava justamente o exotismo da selva inexplorada.
Na
obra, é possível perceber uma mistura entre a narrativa do Brasil exótico e uma
mais nova, de um Brasil moderno. Se por um lado o ex-presidente trata a grande
incidência de cobras venenosas como algo marcante no país, por outro ele
ressalta que já havia em São Paulo um instituto de pesquisas especializado em
desenvolver antídotos ao veneno desses répteis (o atual Butantan).
Ainda
assim, são os relatos da natureza insólita e selvagem que dominam o livro.
"Nenhum homem civilizado, nenhum homem branco, havia jamais navegado por
este rio ou visto o país pelo qual estávamos passando", contaria mais
tarde, ecoando o tom de desbravador dos primeiros relatos de europeus que
haviam chegado ao Brasil no século 16.
As
pesquisas de opinião pública sobre a América Latina realizadas décadas mais
tarde nos EUA ajudariam o governo local a definir políticas públicas para a
região vizinha –especialmente por conta da crescente ameaça da Segunda Guerra
Mundial. A mais reveladora dessas sondagens tentava descobrir o que os
norte-americanos pensavam e sabiam a respeito do resto do continente. Foram
ouvidas 4.220 pessoas em dezembro de 1940.
Quase
um terço dos entrevistados se disse incapaz de citar o nome de qualquer país da
América Latina. Entre os que conheciam os países do continente, o Brasil era o
mais mencionado –escolha de 43% dos ouvidos.
Além
do desconhecimento, a pesquisa mostrou a incidência de forte preconceito. Os
americanos "têm a ideia de que todos os sul-americanos são meio índios e
dormem a tarde inteira. Eles não percebem que os países têm vida industrial.
Imagino que a maioria das pessoas pensa que os sul-americanos dançam rumba em
vez de trabalhar", escreveu Hadley Cantril, um dos pesquisadores envolvidos
no projeto.
Cantril
se dizia preocupado com o arquétipo "altamente negativo" que os
americanos associavam aos vizinhos: "Algo como uma pitada de gigolô com
muitos elementos de preguiça, analfabetismo, atraso cultural e falta de
higiene".
Na
época, os próprios pesquisadores recomendavam um trabalho de comunicação de
massa para ajudar a divulgar informações e conhecimento sobre o continente.
No
século 21, a
hipertrofia da comunicação de massa diminuiu o nível de ignorância global a
respeito do Brasil. Nos últimos anos, o país tem aparecido em torno da 20ª
colocação em rankings que apontam as nações mais conhecidas e admiradas do
mundo, com base em pesquisas de opinião pública. Essa afeição internacional, no
entanto, ainda se apoia em um conjunto de estereótipos mais ou menos incômodos.
DANIEL BUARQUE, 35, é jornalista da Folha
ALEX KIDD, 31, designer da Folha, escreve no blog 120 BPM.
Colagens a partir de obras de Albert Eckhout
@política
Sobre Trump - Muros e Bárbaros (Leandro Karnal)
Estado de São Paulo - 05/02/2017
Há muitos divisores físicos na História. Todos são de memória infeliz e inúteis
Troia era muito próspera. Para preservar sua riqueza, ergueu muros altos. A obra teve divinos feitores: Apolo e Posídon. Divergências sobre o pagamento levaram a desgraça para o povo e para a família real. Anos depois, os gregos conquistaram a cidade inexpugnável com a artimanha do cavalo de madeira. A orgulhosa Ílion caiu com seus muros intactos.
Constantinopla foi construída em um ponto privilegiado entre Europa e Ásia. O comércio enriqueceu a cidade. Desde o começo, ela foi fortificada. O sistema de muralhas em desnível era extraordinário. Foi sendo reforçado e melhorado nos mil anos seguintes. A extensa proteção ainda contava com muralhas junto ao mar e poderosa corrente para impedir a passagem de navios pelos estreitos. O surgimento da pólvora para fins militares foi fatal para a defesa. Poucas semanas após ter completado 21 anos, o sultão Maomé II entrou triunfante em Santa Sofia. As fortificações bizantinas tinham ficado obsoletas.
Há muros altos na China desde antes do período imperial. O imperador Qin Shi Huang (século 3.º a.C.) unificou o país e deu à cidade de Xian sua atração principal: os guerreiros de terracota. Ele decidiu ligar os muitos muros reais e fazer a primeira muralha imperial.
A chamada muralha da China é uma obra com muitos perfis arquitetônicos. A parte mais visitada, hoje, é próxima a Pequim. Aquela parte é fruto do esforço restaurador da dinastia Ming (séculos 14 ao 17).
Depois de um início de expansão cujo símbolo são as fabulosas viagens do almirante Zeng He ao Ocidente, os imperadores, aconselhados por eunucos confucionistas, encerraram a fase de pensar para fora e passaram a pensar para dentro. Depois de navegar boa parte do Índico, chegando ao Mar Vermelho e a Moçambique, os chineses se ensimesmavam uma vez mais: não acreditavam ter visto nada melhor do que eles mesmos fora de seus territórios. Para que viajar? Para que se abrir ao mundo? Ressuscitam o esforço de restaurar as muralhas com pedras para impedir a invasão dos bárbaros. Os Mings deixaram de se considerar como potência ofensiva e adotaram atitude defensiva. As antigas muralhas não tinham detido a invasão mongol. As novas e restauradas não conseguiram deter os grupos da Mandchúria que derrubaram o último soberano nacional chinês e instauraram o poder estrangeiro sobre o Império do Meio.
A muralha da China teve efeitos muito variados. O primeiro deles foi absorver recursos do império, especialmente no período Ming. O segundo foi transmitir a falsa sensação de segurança. Podemos existir longe dos estrangeiros, pensava, satisfeita, a elite da Cidade Proibida. A única grande consequência que a muralha não conseguiu apresentar foi aquela que tinha definido sua gênese: livrar o império de bárbaros.
Vitoriosa na Grande Guerra, a França manteve parte do seu alto comando. Marechais carregados de medalhas e de experiência pensaram em um sistema de defesa grandioso. Se as trincheiras tinham marcado o conflito de 1914-1918, é óbvio que um sistema industrial e perfeito de trincheiras salvaria o povo francês do conflito que se avizinhava. “Excelente ideia”, deve ter dito um ancião ao outro em Paris.
Surgiu a linha Maginot. Túneis, casamatas de concreto, trilhos, depósitos: a extensa rede defensiva era perfeita. Ela pode ser visitada hoje, quase intacta. A opinião pública foi convencida que valia a pena investir grande parte da receita francesa na concepção. A cabeça de parte dos dirigentes políticos e militares da França voltava-se para 1914. A guerra de 1939 seria de aviões e de tanques. O ataque nazista pelas Ardenas foi uma surpresa. A linha Maginot foi um caríssimo elefante branco. Em 1940, a França caiu. A ideia fora inútil. Jogar na retranca, mais uma vez, demonstrou ser tática duvidosa.
Em agosto de 1961, tentando estancar o fluxo migratório para o Ocidente, o governo da Alemanha Oriental/URSS ordenou a construção do Muro de Berlim. O mundo que deveria ser o paraíso dos trabalhadores não conseguia convencer seus habitantes a permanecerem no Éden. A cidade foi dividida.
O Muro de Berlim custou muitas vidas. Foi o símbolo do fracasso socialista. O democrata Kennedy fez discurso se identificando com os berlinenses oprimidos. O republicano Reagan pediu de forma direta: “Secretário-geral Gorbachev, se o senhor busca a paz, se busca prosperidade para a União Soviética e o Leste Europeu (...), derrube este muro”. O símbolo caiu em 1989 e, com ele, o socialismo histórico da URSS e do Leste Europeu.
Há muitos outros divisores físicos na História. Todos foram e são de memória infeliz e inúteis. Eles reconhecem o fracasso de um sistema e simbolizam o colapso das pontes. Muros enriquecem empreiteiros e empobrecem ideias e humanidade.
Visitei muitas vezes a muralha da China, as ruínas de Troia, estive em Istambul, vi Berlim e conheci linha Maginot. Nestes lugares há o eco do desejo de deter os bárbaros e o registro do fracasso do intento. Seria irônico repetir Reagan, o neoliberal, o republicano conservador, o garoto-propaganda do capitalismo de livre mercado contra seu colega de partido: “Tear down this wall, Mr Trump”. Bom domingo a todos vocês!
Há muitos divisores físicos na História. Todos são de memória infeliz e inúteis
Troia era muito próspera. Para preservar sua riqueza, ergueu muros altos. A obra teve divinos feitores: Apolo e Posídon. Divergências sobre o pagamento levaram a desgraça para o povo e para a família real. Anos depois, os gregos conquistaram a cidade inexpugnável com a artimanha do cavalo de madeira. A orgulhosa Ílion caiu com seus muros intactos.
Constantinopla foi construída em um ponto privilegiado entre Europa e Ásia. O comércio enriqueceu a cidade. Desde o começo, ela foi fortificada. O sistema de muralhas em desnível era extraordinário. Foi sendo reforçado e melhorado nos mil anos seguintes. A extensa proteção ainda contava com muralhas junto ao mar e poderosa corrente para impedir a passagem de navios pelos estreitos. O surgimento da pólvora para fins militares foi fatal para a defesa. Poucas semanas após ter completado 21 anos, o sultão Maomé II entrou triunfante em Santa Sofia. As fortificações bizantinas tinham ficado obsoletas.
Há muros altos na China desde antes do período imperial. O imperador Qin Shi Huang (século 3.º a.C.) unificou o país e deu à cidade de Xian sua atração principal: os guerreiros de terracota. Ele decidiu ligar os muitos muros reais e fazer a primeira muralha imperial.
A chamada muralha da China é uma obra com muitos perfis arquitetônicos. A parte mais visitada, hoje, é próxima a Pequim. Aquela parte é fruto do esforço restaurador da dinastia Ming (séculos 14 ao 17).
Depois de um início de expansão cujo símbolo são as fabulosas viagens do almirante Zeng He ao Ocidente, os imperadores, aconselhados por eunucos confucionistas, encerraram a fase de pensar para fora e passaram a pensar para dentro. Depois de navegar boa parte do Índico, chegando ao Mar Vermelho e a Moçambique, os chineses se ensimesmavam uma vez mais: não acreditavam ter visto nada melhor do que eles mesmos fora de seus territórios. Para que viajar? Para que se abrir ao mundo? Ressuscitam o esforço de restaurar as muralhas com pedras para impedir a invasão dos bárbaros. Os Mings deixaram de se considerar como potência ofensiva e adotaram atitude defensiva. As antigas muralhas não tinham detido a invasão mongol. As novas e restauradas não conseguiram deter os grupos da Mandchúria que derrubaram o último soberano nacional chinês e instauraram o poder estrangeiro sobre o Império do Meio.
A muralha da China teve efeitos muito variados. O primeiro deles foi absorver recursos do império, especialmente no período Ming. O segundo foi transmitir a falsa sensação de segurança. Podemos existir longe dos estrangeiros, pensava, satisfeita, a elite da Cidade Proibida. A única grande consequência que a muralha não conseguiu apresentar foi aquela que tinha definido sua gênese: livrar o império de bárbaros.
Vitoriosa na Grande Guerra, a França manteve parte do seu alto comando. Marechais carregados de medalhas e de experiência pensaram em um sistema de defesa grandioso. Se as trincheiras tinham marcado o conflito de 1914-1918, é óbvio que um sistema industrial e perfeito de trincheiras salvaria o povo francês do conflito que se avizinhava. “Excelente ideia”, deve ter dito um ancião ao outro em Paris.
Surgiu a linha Maginot. Túneis, casamatas de concreto, trilhos, depósitos: a extensa rede defensiva era perfeita. Ela pode ser visitada hoje, quase intacta. A opinião pública foi convencida que valia a pena investir grande parte da receita francesa na concepção. A cabeça de parte dos dirigentes políticos e militares da França voltava-se para 1914. A guerra de 1939 seria de aviões e de tanques. O ataque nazista pelas Ardenas foi uma surpresa. A linha Maginot foi um caríssimo elefante branco. Em 1940, a França caiu. A ideia fora inútil. Jogar na retranca, mais uma vez, demonstrou ser tática duvidosa.
Em agosto de 1961, tentando estancar o fluxo migratório para o Ocidente, o governo da Alemanha Oriental/URSS ordenou a construção do Muro de Berlim. O mundo que deveria ser o paraíso dos trabalhadores não conseguia convencer seus habitantes a permanecerem no Éden. A cidade foi dividida.
O Muro de Berlim custou muitas vidas. Foi o símbolo do fracasso socialista. O democrata Kennedy fez discurso se identificando com os berlinenses oprimidos. O republicano Reagan pediu de forma direta: “Secretário-geral Gorbachev, se o senhor busca a paz, se busca prosperidade para a União Soviética e o Leste Europeu (...), derrube este muro”. O símbolo caiu em 1989 e, com ele, o socialismo histórico da URSS e do Leste Europeu.
Há muitos outros divisores físicos na História. Todos foram e são de memória infeliz e inúteis. Eles reconhecem o fracasso de um sistema e simbolizam o colapso das pontes. Muros enriquecem empreiteiros e empobrecem ideias e humanidade.
Visitei muitas vezes a muralha da China, as ruínas de Troia, estive em Istambul, vi Berlim e conheci linha Maginot. Nestes lugares há o eco do desejo de deter os bárbaros e o registro do fracasso do intento. Seria irônico repetir Reagan, o neoliberal, o republicano conservador, o garoto-propaganda do capitalismo de livre mercado contra seu colega de partido: “Tear down this wall, Mr Trump”. Bom domingo a todos vocês!
Brasil adora um atalho (Armínio Fraga)
FSP - 05/02/2017
O ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga é contra a discussão pública sobre a possível ineficácia dos juros no combate à inflação, iniciada no país pelo economista André Lara Resende.
"A sugestão encontrou terreno fértil no Brasil, que adora um atalho, e parece não ter aprendido com as lições do passado" diz Armínio.
★
Folha - Como o sr. avalia a tese de que a política monetária pode ser Ineficaz?
Armínio Fraga - O debate sobre a clara ligação entre as políticas monetária e fiscal não é novo. Vem desde a década de 1970. Mas há alguns anos começou uma rodada nova motivada pela situação inédita de persistência da inflação baixa a despeito de juros muito baixos, em alguns casos até negativos, nos países desenvolvidos. É um debate muito especializado, que está longe de levar a conclusões definitivas. Como diz um ditado, e sendo prático, essa discussão tem idéias boas que não são novas e idéias novas que não são boas.
Quais são essas idéias?
André [Lara Resende] foi provocativo ao sugerir que nos EUA talvez fizesse sentido subir juros para gerar um aumento da inflação. Embora ele não tenha feito uma prescrição, implicitamente sugeriu que tentar a política contrária, sendo mais agressivo com cortes de juros no Brasil, talvez levasse a uma queda da inflação. O problema é que essa sugestão encontrou terreno fértil no Brasil, que adora um atalho, e parece não ter aprendido com as lições do passado.
Por que o país adora atalhos?
É uma discussão antropológica, sociológica, que não é minha área. Mas acho que passa por características como o patrimonialismo, o jeitinho, o que Marcos Lisboa [presidente do Insper] tem chamado de país da meia-entrada. Todos querem manter privilégios que envolvem gastos públicos. Isso gera complacência com a inflação.
O que ficou mais chato com a sugestão foi parecer uma mágica nova. Criou um certo zum-zum-zum. Até recentemente, a inflação estava bem alta. Fazer a provocação pública agora, depois que a inflação já caiu bastante, é fácil.
Ainda que pese o fato de nossos juros serem historicamente muito altos, o Brasil tem inúmeros exemplos de que a política monetária funciona, embora a segmentação do mercado de crédito atrapalhe. Não digo que o debate não seja importante, sempre é. Mas a parte nova deveria ter ficado na academia.
Que lições temos de que a heterodoxla não funciona?
Temos muitas. Em nome da heterodoxia, o governo Dilma foi um fracasso estrondoso.
Mas a ideia de tentar uma coisa mais fácil, em vez de fazer um ajuste fiscal, não é nova. Em geral, vivemos com essa ilusão do atalho fácil há décadas. E isso não nos levou ao desenvolvimento. Pelo contrário, nossa renda per capita equivale a 20% da americana.
Isso está por trás das taxas de juros historicamente altas?
Há seis meses, estou fazendo uma pesquisa acadêmica detalhada com Tiago Berriel, economista da PUC-Rio que agora está no Banco Central, tentando justamente entender as razões disso. Devemos ter esse trabalho concluído em cerca de um ano. Mas o que dá para dizer é que passa por questões profundas de natureza fiscal e, em alguns momentos, cambial também.
O que provocou a recente queda da inflação no Brasil?
A política monetária e a recessão principalmente. Em alguma medida, os sinais de ajuste fiscal a longo prazo também contribuíram. No caso do Brasil hoje, caberia reforçar, com atraso, o ajuste fiscal para não sobrecarregar os juros e ajudar a reverter a expansão da dívida pública. O Banco Central, comandado pelo Ilan [Goldfajn], reagiu assim que pôde e reforçou o aperto monetário necessário. Mas teria sido bom que o governo tivesse feito, concomitantemente, um ajuste fiscal. Joaquim Levy [ministro da Fazenda em 2015] até tentou.
Só com o governo Temer veio esse sinal de compromisso, com a adoção do teto para o aumento dos gastos. O governo deveria estar fazendo um ajuste fiscal há bastante tempo. Não é para ter medo disso. Claro que existem questões de ordem política, causa desconforto, há setores que vão ser prejudicados e se sentir incomodados. Mas a verdade é que temos espaço para cortar gasto e subir imposto. Dada a situação, esses dois passos seriam bem-vindos.
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