domingo, 19 de junho de 2022
sexta-feira, 3 de junho de 2022
A crise energética atual vem sendo construída há tempos(Décio Oddone, Broadcast Energia)
Décio Oddone: A crise energética atual vem sendo construída há tempos
Antes do advento do shale, os ciclos de preço de petróleo eram longos, estimulando a indústria a buscar projetos de exploração em áreas de fronteira, de longo prazo de maturação. A produção no shale enterrou a teoria do peak oil, que indicava que o produto ia ficar cada vez mais escasso, com preços mais altos. Possibilitou aumentos rápidos na produção. Sem necessidade de exploração, reduziu a duração dos ciclos e aumentou a volatilidade das cotações.
Quando o preço despencou em 2014, as companhias cortaram investimentos, particularmente em bacias de fronteira. A questão climática acendeu os debates sobre o futuro da demanda. Pressões governamentais e sociais levaram empresas e instituições a reduzirem investimentos e financiamentos para a indústria.
Surgiu, então, a pandemia, a destruição da demanda e uma redução maior ainda dos aportes em petróleo e gás, pois ganhou força a crença que o consumo de hidrocarbonetos deveria cair, fazendo com que a transição fosse rápida.
No entanto, a realidade não se comportou como imaginavam muitos formuladores de políticas e formadores de opinião. Justamente quando a demanda começou a voltar, uma combinação de diminuição de oferta de renováveis, por mudança no padrão de ventos no Mar do Norte, com decisões políticas, erros de planejamento e redução de investimentos levou a um aumento no preço da energia na Europa.
O carvão e o gás passaram a ser mais demandados para gerar eletricidade, impactando o petróleo. A demanda começou a voltar com o fim da fase aguda da pandemia. Os preços explodiram, a ponto de surgir na Europa a expressão "heat or eat" (aquecer ou comer) para exemplificar a dificuldade das famílias em pagar a conta de energia. A produção industrial foi afetada.
Para piorar, houve a invasão da Ucrânia e as sanções à Rússia. Além do preço do carvão, gás e petróleo, o dos derivados, especialmente do diesel, também subiu muito. A falta de diesel começou a se delinear quando o preço do gás natural subiu na Europa no inverno passado, forçando as refinarias a baixarem o seu uso para gerar o hidrogênio utilizado na redução do teor de enxofre. Daí em diante, com a retomada pós-pandemia e a guerra, a situação foi se agravando. A ponto de se transferir para o outro lado do Atlântico.
A Rússia responde por cerca de um quarto das exportações globais de diesel. Além disso, refinarias localizadas no leste europeu processam petróleo russo e exportam diesel. Sem falar nos subprodutos importados por refinarias da Europa ocidental para produzir o insumo. Por isso, as medidas tomadas após o início da guerra tiveram um impacto forte no mercado. O preço do diesel, do querosene de aviação, um produto similar, e da gasolina bateram recorde nos EUA, subindo bem mais que o petróleo em função do aumento das margens de refino causado pelo fechamento de refinarias nos EUA e na Europa.
Ainda assim, a situação não reflete o que pode ocorrer se as sanções contra o petróleo russo forem efetivamente implementadas e a China levantar os lockdowns adotados para prevenir surtos de covid-19. Pode haver um movimento relevante no mercado, da ordem de uns 3 a 5 milhões de barris por dia, entre redução da oferta russa e volta da demanda chinesa, indicando que os próximos meses serão de volatilidade no mercado.
Em função disso, pode haver um aumento ainda maior dos custos da energia. E como a Rússia e a Ucrânia são importantes exportadores de milho, trigo e fertilizantes, também pode haver subida no preço dos alimentos. Isso tudo pode levar a mais inflação, insegurança energética e alimentar, aumento da desigualdade e insatisfação popular. O mundo tem tempos difíceis pela frente.
A visão eurocêntrica de uma transição energética rápida e com redução do uso de hidrocarbonetos ficou para trás. Trazia um equívoco conceitual. Desde o início da revolução industrial, quando a biomassa deixou de ser a principal origem da energia, nunca uma fonte foi substituída por outra. O carvão, o petróleo, o gás, a energia nuclear e as renováveis se desenvolveram ampliando a oferta, tanto que hoje, em termos absolutos, a biomassa é mais consumida que antes da revolução industrial. A oferta de energia abundante e acessível que permitiu a criação do mundo moderno e contemporâneo precisa continuar, ou o mundo continuará convivendo com mais de um bilhão de pessoas sem acesso à eletricidade.
Agora, além da necessidade de maior inclusão energética nos países menos desenvolvidos, ganhou força a preocupação com a segurança energética na Europa. Assim, líderes políticos têm o desafio de criar as condições para uma transição menos custosa, mais realista e com aumento da oferta, garantindo a segurança e a inclusão energéticas.
O Brasil tem enormes oportunidades nesse novo mundo, pois conta com condições para produzir mais energias renováveis, petróleo, gás, proteínas e commodities minerais e agrícolas. Mas precisa abandonar ideias ultrapassadas. A situação mudou nas últimas décadas. Nos anos 1970, o País importava petróleo e alimentos. Um aumento no preço das commodities tinha impacto duplo, na balança de pagamentos e na inflação. O Brasil empobrecia quando as commodities se valorizavam. Agora, não mais. Uma valorização das commodities é benéfica para a balança de pagamentos e para a arrecadação fiscal. Provoca mais inflação, é verdade, mas uma correta aplicação dos excedentes gerados pode mitigar o efeito nos brasileiros menos favorecidos.
Para transformar recursos em riquezas, o Brasil precisa desenvolver uma estratégia eficiente de desenvolvimento. Necessita investimentos. Para isso, as regras devem ser estáveis, claras e simples. Os preços devem seguir o mercado. A conjuntura que se formou pós-pandemia traz mais uma oportunidade. Ou o País abandona discussões decorrentes de pensamentos superados ou continuará cada vez mais distante do futuro que tanto almeja atingir, mas que, por culpa própria, nunca alcança.
*Décio Fabrício Oddone da Costa é CEO da Enauta S.A. Escreve mensalmente para o Broadcast Energia. Este artigo representa exclusivamente a visão do autor.
Broadcast Energia
segunda-feira, 9 de maio de 2022
domingo, 8 de maio de 2022
Mãe é quem fica(Cora Coralina)
Cora Coralina
Mãe é quem fica.
Depois que todos vão.
Depois que a luz apaga.
Depois que todos dormem.
Mãe fica.
Às vezes não fica em presença física.
Mas mãe sempre fica.
Uma vez que você tenha um filho, nunca mais seu coração estará inteiramente onde você estiver.
Uma parte sempre fica.
Fica neles.
Se eles comeram.
Se dormiram na hora certa.
Se brincaram como deveriam.
Se a professora da escola é gentil.
Se o amiguinho parou de bater.
Se o pai lembrou de dar o remédio.
Mãe fica.
Fica entalada no escorregador do espaço kids, pra brincar com a cria. Fica espremida no canto da cama de madrugada pra se certificar que a tosse melhorou.
Fica com o resto da comida do filho, pra não perder mais tempo cozinhando.
É quando a gente fica que nasce a mãe.
Na presença inteira.
No olhar atento.
Nos braços que embalam.
No colo que acolhe.
Mãe é quem fica.
Quando o chão some sob os pés.
Quando todo mundo vai embora.
Quando as certezas se desfazem.
Mãe fica.
Mãe é a teimosia do amor, que insiste em permanecer e ocupar todos os cantos.
É caminho de cura.
Nada jamais será mais transformador do que amar um filho.
E nada jamais será mais fortalecedor que ser amado por uma mãe.
É porque a mãe fica, que o filho vai.
E no filho que vai, sempre fica um pouco da mãe:
Em um jeito peculiar de dobrar as roupas.
Na mania de empilhar a louça só do lado esquerdo da pia.
No hábito de sempre avisar que está entrando no banho.
Na compaixão pelos outros.
No olhar sensivel.
Na força pra lutar.
No coração do filho, mãe fica.
quinta-feira, 28 de abril de 2022
Baixa produtividade também é fruto da cultura empresarial (Décio Oddone, Broadcast Energia)
Décio Oddone: A baixa produtividade também é fruto da cultura empresarial
A economia nacional convive com o chamado custo Brasil: a inflação mais elevada, a volatilidade do câmbio, a alta carga tributária, a complexa estrutura das regras trabalhistas e fiscais, a demora nos processos regulatórios e de licenciamento, a dificuldade em contratar funcionários com o adequado grau de escolaridade, conhecimento e experiência. São problemas objetivos que afetam a produtividade, sobre os quais os gestores das empresas não têm influência direta. Essas questões são muito conhecidas e debatidas, mas soluções definitivas parecem distantes. As responsabilidades pelas ações de melhoria recaem sobre os ombros dos governantes.
No entanto, os baixos ganhos de produtividade que experimentamos nas últimas décadas não são fruto apenas de questões estruturais, que dependem de decisões políticas. Existem aspectos menos discutidos da nossa realidade e cultura corporativa que podem ser influenciados pela atuação de líderes empresariais. Um bom exemplo são questões comportamentais, como a valorização das estruturas organizacionais pesadas e do status e o gosto por normas e regras complexas.
Muitos gestores apreciam organogramas vistosos, com excesso de subordinados, como se o poder de um gerente dependesse do tamanho do grupo que administra. Outros buscam a independência dentro da empresa e tentam criar a sua própria equipe de apoio. Não importa se replicando posições que já existem na companhia, aumentando os custos e diminuindo a eficiência e a produtividade da própria organização.
O excesso de assessores, seguranças, secretárias, carros e motoristas e o abuso na utilização de cartões de crédito empresariais e de viagens em aviões privados são usados como demonstrações de poder. Representam os chamados "agency costs", ou custos do agente, mencionados na literatura especializada, presentes no mundo todo, mas particularmente valorizados por alguns aqui. Resultam em gastos que executivos não assumiriam na conta pessoal, mas lutam para conquistar, ou facilmente aprovam, quando a despesa é corporativa.
O maior problema, possivelmente, na regulação e nas empresas, talvez seja os padrões técnicos demasiadamente exigentes e as normas e regras complexas e custosas. Enquanto outras culturas valorizam a simplicidade, no âmbito público e privado, optamos por soluções complicadas, mesmo para problemas básicos. Valorizamos a adoção e a multiplicação de padrões e limitações. Chegamos até a combinar, em algumas regulações, restrições adotadas em diferentes países.
Normas de engenharia, de segurança e de operação são mais numerosas, sofisticadas e conservadoras que as aplicadas em culturas de viés mais pragmático. Não faltam exemplos de regras que impedem o uso no Brasil de equipamentos e técnicas aceitos em países mais desenvolvidos. A desnecessária busca da excelência em atividades operacionais acaba prejudicando o alcance da eficiência. A excelência é fundamental em campos como a pesquisa, a saúde e a educação, não em atividades operacionais ou industriais, em que a melhoria da competitividade deve ser o alvo. Tudo isso produz aumentos de custos, que muitas vezes são percebidos erroneamente como melhorias.
Padrões, normas, regras e limitações são necessários, especialmente em atividades complexas, mas devem ser simples. Não devem inibir boas iniciativas, nem impedir que as equipes trabalhem com agilidade e flexibilidade. O mesmo gosto pela complexidade se percebe na construção e manutenção de instalações produtivas. Basta visitar plantas industriais no Brasil e nos Estados Unidos ou na Alemanha, por exemplo, para perceber a diferença. Onde colocamos asfalto encontramos cascalhos. Em lugar dos jardins que vemos em muitas instalações aqui encontramos grama ou terra nua por lá. Essas práticas aumentam os custos de execução de investimentos e de manutenção de ativos.
Também há os que resistem em aplicar a meritocracia e a responsabilização por resultados. Que preferem exaltar o igualitarismo e têm dificuldade em reconhecer e valorizar o mérito e o desempenho individual, preferindo assumir que a contribuição de todos para o alcance de resultados positivos é sempre a mesma, ou em estabelecer metas de rentabilidade e premiações por resultados. Que acham mais simples definir objetivos ligados a parâmetros operacionais. E que, na comunicação com a força de trabalho, evitam mencionar rentabilidade e retorno sobre o capital empregado, como se buscar gerar valor fosse pecado. Gostam de falar em crescimento, sustentabilidade, inovação, criatividade, busca da excelência, reinvestimento dos lucros. Mas não explicitam que, sem eficiência, rentabilidade e sustentabilidade financeira, uma companhia, mesmo estatal, não pode crescer, ser criativa, inovadora, sustentável. Sem sucesso econômico-financeiro, uma empresa não cria, nem inova. Não será ambiental nem socialmente responsável. Acaba fechando e eliminando empregos, ou repassando os custos para o contribuinte, quando é controlada pelo Estado.
Nesses tempos do politicamente correto e da preocupação com os aspectos ESG (meio ambiente, social e governança) dos negócios, pode parecer inadequado expressar alguns desses conceitos. Só pode parecer. Algumas das empresas mais bem sucedidas do Brasil aplicam ideias alinhadas com as apresentadas aqui. Não surpreende que a valorização da simplicidade, o corte de custos e a eficiência tragam bons resultados. O que falta para que outras companhias sigam o mesmo caminho? Os exemplos estão aí e são conhecidos. Não basta reclamar e lutar para que o ambiente econômico melhore, que a regulação e as normas de responsabilidade do poder público sejam simplificadas e que os trâmites burocráticos sejam agilizados. Executivos que não encontrarem coragem para enfrentar o corporativismo e o excesso de complexidade incrustrados nas suas próprias organizações terão que conviver com contínuos aumentos de custo e redução da competitividade. Não terão bons resultados para mostrar. E não poderão dizer que a culpa é só do ambiente político e econômico.
*Décio Fabrício Oddone da Costa é CEO da Enauta S.A. Escreve mensalmente para o Broadcast Energia. Este artigo representa exclusivamente a visão do autor.
Broadcast Energia
sexta-feira, 15 de abril de 2022
quinta-feira, 31 de março de 2022
TODO FILHO É PAI DA MORTE DE SEU PAI
TODO FILHO É PAI DA MORTE DE SEU PAI*
" Há uma quebra na história familiar onde as idades se acumulam e se sobrepõem e a ordem natural não tem sentido: é quando o filho se torna pai de seu pai.
É quando o pai envelhece e começa a trotear como se estivesse dentro de uma névoa. Lento, devagar, impreciso.
É quando aquele pai que segurava com força nossa mão já não tem como se levantar sozinho. É quando aquele pai, outrora firme e intransponível, enfraquece de vez e demora o dobro da respiração para sair de seu lugar.
É quando aquele pai, que antigamente mandava e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura onde é a porta e onde é a janela - tudo é corredor, tudo é longe.
É quando aquele pai, antes disposto e trabalhador, fracassa ao tirar sua própria roupa e não lembrará de seus remédios.
E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão trocar de papel e aceitar que somos responsáveis por aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende de nossa vida para morrer em paz.
Todo filho é pai da morte de seu pai.
Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja curiosamente nossa última gravidez. Nosso último ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos foram confiados ao longo de décadas, de retribuir o amor com a amizade da escolta.
E assim como mudamos a casa para atender nossos bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos alterar a rotina dos móveis para criar os nossos pais.
Uma das primeiras transformações acontece no banheiro.
Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra no box do chuveiro.
A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é inaugurar um cotovelo das águas.
Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um temporal para os pés idosos de nossos protetores. Não podemos abandoná-los em nenhum momento, inventaremos nossos braços nas paredes.
A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados, sob a forma de corrimões.
Pois envelhecer é andar de mãos dadas com os objetos, envelhecer é subir escada mesmo sem degraus.
Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e preocupação. Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros frustrados. Como não previmos que os pais adoecem e precisariam da gente?
Nos arrependeremos dos sofás, das estátuas e do acesso caracol, nos arrependeremos de cada obstáculo e tapete.
E feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte, e triste do filho que aparece somente no enterro e não se despede um pouco por dia.
Meu amigo José Klein acompanhou o pai até seus derradeiros minutos.
No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama para a maca, buscando repor os lençóis, quando Zé gritou de sua cadeira:e
— Deixa que eu ajudo.
Reuniu suas forças e pegou pela primeira vez seu pai no colo.
Colocou o rosto de seu pai contra seu peito.
Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo câncer: pequeno, enrugado, frágil, tremendo.
Ficou segurando um bom tempo, um tempo equivalente à sua infância, um tempo equivalente à sua adolescência, um bom tempo, um tempo interminável.
Embalou o pai de um lado para o outro.
Aninhou o pai.
Acalmou o pai.
E apenas dizia, sussurrado:
— Estou aqui, estou aqui, pai!
O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua vida é que seu filho está ali. "
(Autor desconhecido)
