terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Mercado hesita em prever IPCA na meta, indica Focus

Mercado hesita em prever IPCA na meta, indica Focus

Ana Conceição - VALOR ECONÔMICO -SP  (03/01/2017)

As expectativas dos participantes do mercado para a inflação em 2017 têm custado a cair, mas é crescente, embora ainda pequena, a fatia daqueles que esperam que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) chegue à meta de 4,5% neste ano, de acordo com dados divulgados ontem pelo Banco Central, no boletim Focus. O boletim, com base nas expectativas da semana terminada em 30 de dezembro, mostrou que a mediana das projeções para o IPCA em 2017 subiu de 4,85% para 4,87%, após ter registrado queda de 0,05 ponto percentual na semana anterior. Foi a primeira alta desde o fim de agosto, quando saiu de 5,12% para 5,14%. Desde então, a previsão oscilou entre períodos de queda e de estabilidade. A projeção para 12 meses também subiu, de 4,77% para 4,80%.
Desta forma, ao menos no momento, as expectativas do mercado ainda não convergem à meta perseguida pela autoridade monetária para 2017. Isso pode ser visto de forma mais clara em outro material do BC que mostra a distribuição da frequência das expectativas de inflação no Focus.
Apenas 10% dos participantes da pesquisa esperam que o IPCA chegue à meta este ano. Essa parcela, contudo, é crescente. A proporção era de 5% em 31 de outubro, continuou neste patamar um mês depois, em novembro, e cresceu para 10% em 30 de dezembro.
Foi justamente entre novembro e dezembro que a inflação surpreendeu positivamente. Nesse período, o IBGE divulgou o IPCA mais baixo para o mês de novembro desde 1998, de 0,18% e, depois, o IPCA-15 mais baixo para meses de dezembro também desde 1998, de 0,19%.
Esses resultados contribuíram para jogar as expectativas de inflação de 2016 para baixo do teto da meta, de 6,5% - no Focus de ontem a mediana caiu para 6,38% - e também amenizaram as previsões para 2017, mas com menos força.
Os gráficos de distribuição de frequência indicam que a parcela dos que estimam o IPCA em torno de 5,1% ainda predomina, embora tenha caído. Entre o fim de outubro e o de novembro, pouco mais de 45% esperavam a inflação nesse nível, fatia que em 30 de dezembro foi reduzida para 40%.
Vale lembrar que no Relatório Trimestral de Inflação, divulgado em 22 de dezembro, o BC manteve a projeção de um IPCA de 4,4% neste ano, mas pressupondo uma Selic em 13,75%, nível atual, e um câmbio de R$ 3,40. A questão é que a Selic deve cair para algo em torno de 10% a 10,25% até o fim deste ano, segundo as projeções do mercado. E, em um cenário como esse, a inflação cairia a 4,7% em 2017 e 4,5% em 2018, segundo o RTI.
Como a data de corte do RTI foi 9 de dezembro, o relatório não levou em conta o IPCA-15 de dezembro, que, para alguns analistas, poderia ter marcado a inflexão entre o período de inflação resistente à atividade econômica para outro em que responde mais fortemente à recessão. Para o mercado, o Produto Interno Bruto (PIB) levou um tombo de 3,49% no ano passado e deve crescer apenas 0,50% em 2017, segundo o último Focus.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Itaipu bate recorde em 12/2016 e tem produção histórica de 103,09 milhões de MWh

Itaipu bate recorde em 12/2016

 Itaipu fecha ano batendo recorde em dezembro e tem produção histórica de 103,09 milhões de MWh

A usina hidrelétrica de Itaipu fechou 2016 com uma produção histórica de 103.098.366 de megawatts-hora (MWh) e estabeleceu uma nova marca mundial. A usina que não para de surpreender finalizou o ano como começou: batendo recordes. A binacional registrou o melhor dezembro de todos os tempos. No mês passado foram produzidos quase 8,9 milhões de MWh.
A produção histórica de Itaipu é registrada num início de verão bastante quente, quando a sensação térmica em algumas cidades do Sudeste do Brasil e em Assunção, no Paraguai, bateu na casa dos 50 graus Celsius. No pico do calor, a usina brasileiro-paraguaia tem garantido o suprimento de energia e a demanda de ponta para os mercados dos dois países.
Os 103,09 milhões de MWh gerados por Itaipu, que agora em 2016 voltou a ser líder anual de geração de energia elétrica à frente de Três Gargantas - que detinha o título desde 2014, com 98,8 milhões de MWh - seria suficiente para atender o Brasil por dois meses e 18 dias; o Paraguai por sete anos e três meses; a região Sudeste do Brasil por cinco meses; a cidade de São Paulo por três anos e cinco meses; a cidade do Rio de Janeiro por cinco anos e oito meses; ou ainda a cidade de Salvador por 26 anos e seis meses.A América Latina inteira seria suprida com eletricidade por 35 dias.
Recorde após recorde
Em doze meses, Itaipu teve recorde de geração em sete: melhores janeiro, fevereiro, maio, junho, outubro, novembro e também dezembro. Já abril, julho, agosto e setembro ficaram em segunda posição no ranking mensal histórico, enquanto março ficou em terceiro lugar.
Com desempenho espetacular dia após dia, já no começo do ano se acenava a possibilidade de chegar em 2016 à meta inédita dos 100 milhões de MWh anuais estipulada em 2012 pelo diretor-geral brasileiro da usina, Jorge Samek. Só não se sabia que esse valor seria superado em mais de 3 milhões de MWh.
“O recorde mostra a maturidade de Itaipu, que no auge da produção e produtividade, se prepara para uma nova etapa a partir de 2017. Mais uma vez, a usina demonstrou sua solidez para contribuir de forma eficiente no desenvolvimento do Brasil e Paraguai”, afirmou Samek.
28 milhões a mais do que o previsto
Nem mesmo os mais otimistas poderiam imaginar que a usina alcançaria uma meta tão audaciosa, superando em mais de 28 milhões de MWh a energia garantida de 75 milhões de MWh prevista no Tratado que deu origem à binacional.
Auge da produção
Foi um ano sem precedentes para a operação da usina, que chegou aos 32 anos e sete meses de funcionamento, no auge da produção, com inúmeros recordes, reassumindo a liderança mundial de geração anual de energia, com mais de 4 milhões de MWh de vantagem sobre a hidrelétrica chinesa Três Gargantas.

Participação maior no mercado
O aumento da produção elevou a participação de Itaipu no mercado brasileiro de eletricidade em 2 pontos percentuais, subindo de 14,6% em 2015 para 16,8% este ano. No Sul, Sudeste e Centro-Oeste, região de maior consumo de energia elétrica no Brasil, a participação da binacional cresceu de 19,3% para 22,4%, um incremento de 3 pontos percentuais.
 

Menos energia cara
O aumento da produção de Itaipu também impulsionou em 2016 a participação das hidrelétricas no parque gerador nacional. Com a maior utilização de energia hídrica, que é mais limpa e barata, o acionamento das termoelétricas foi reduzido. Outro aspecto positivo é o aumento do valor do repasse dos royalties, que ficará em torno de 15%. De 1985 até 2013, a empresa pagou cerca de US$ 10 bilhões em royalties ao Brasil e ao Paraguai.

O pagamento pela exploração da água para a geração de energia, está previsto no Anexo C do Tratado de Itaipu. No lado brasileiro, os recursos beneficiam 16 municípios, sendo 15 no Estado do Paraná e um no Mato Grosso do Sul. Os royalties são aplicados na melhoria da qualidade de vida da população, nas áreas de educação, saúde, moradia e saneamento básico.
E o futuro?
Com 20 unidades geradoras e 14 mil MW de potência instalada, Itaipu está no limite da sua capacidade física e no auge da produção. Segundo o diretor-geral brasileiro, Jorge Samek, agora é planejar o futuro. Para garantir que nos próximos 50 anos a usina mantenha o desempenho que teve nestas primeiras três décadas, será colocado em execução um plano ambicioso de atualização das unidades geradoras. Com investimentos previstos de US$ 500 milhões, o processo de modernização deve levar pelo menos dez anos, conciliando produção otimizada, manutenções preventivas e atualização tecnológica.  
“O plano foi construído nos últimos cinco anos, por equipes brasileiras e paraguaias, com a contribuição da primeira geração de engenheiros da Itaipu, engenheiros que conhecem a usina, sua operação e manutenção. A ideia é manter a usina competitiva até o próximo século”, disse Samek.
Como Itaipu chegou aos 103,09 milhões de MWh?
Segundo o superintendente de Operação, Celso Torino, não há uma resposta simples para essa pergunta. “É uma soma de ações que vêm sendo adotadas por pessoas capacitadas que estão ou estiveram na Itaipu desde seu início. Um aperfeiçoamento natural e acumulativo dos cuidados com as pessoas, com o meio ambiente, com a barragem, com as instalações e, finalmente, com o nosso propósito comum e binacional, que é a otimização sistemática da produtividade e da produção de energia para o Brasil e Paraguai.” 

Eficiência
Outro destaque de Itaipu nos últimos anos tem sido o desempenho operacional (que mede a produção obtida e a produção máxima ideal). O índice em 2016 foi de 96,2%. Isto é, muito próximo do ideal. Segundo Torino, padrão tão elevado de produtividade somente foi possível com um altíssimo nível de competência e integração dos profissionais da empresa, em especial da área técnica, assim como na gestão da produção e do suprimento com os parceiros brasileiros Eletrobras, Furnas, Copel e ONS e paraguaio Ande.
Progressão da produção desde 1984
No primeiro ano de operação, em maio de 1984, Itaipu gerou 276.529 MWh. No ano seguinte, esse volume subiu para 6.327.274 MWh. Ainda na década de 1980, chegou a produzir 47.229.655 MWh.
Em 1995, pela primeira vez, Itaipu ultrapassou o previsto no Tratado que de origem à usina. Foram 77.212.396 MWh naquele ano. Em 1999, a usina superou a marca dos 90 milhões de MWh, com um total de 90.001.900 MWh.
Em 2001, mesmo com uma das piores secas de todos os tempos, a produção ficou em 79.307.075 MWh. Em 2002, ainda sob os efeitos da estiagem prolongada, a geração total fechou em 82.914.269 MWh. Em 2006, Itaipu voltou a produzir acima de 90 milhões, com 92.689.936 MWh.
Em 2008, já finalizado o projeto, que previa 20 unidades geradoras (em 2007 foram instaladas as últimas duas, aumentando a capacidade instalada de 12,6 mil MW para 14 MW), a usina registrou uma produção excepcional de 94.684.781 MWh, seu recorde até então. Esta produção só seria superada em 2012, quando Itaipu atingiu 98.287.128 MWh. Naquele ano, a diretoria estabeleceu como desafio a meta de 100 milhões de MWh.
Já no ano seguinte, em 2013, veio o novo recorde: 98.630.035 MWh. Em 2014, no entanto, a seca que o Brasil enfrentou também afetou a usina. Foi a maior estiagem dos últimos 40 anos, reduzindo a capacidade de praticamente todas as hidrelétricas do País. Itaipu voltou a gerar menos de 90 milhões de MWh -  a binacional gerou 87.795.393 MWh mas com um desempenho operacional de 99,3%, o melhor de sua história.Em 2015, ainda sob efeitos da seca, atendeu o sistemas brasileiro e paraguaio com 89.215.404 MWh.

As cicatrizes do confinamento de descendentes de japoneses nos EUA durante a 2ª Guerra



As cicatrizes do confinamento de descendentes de japoneses nos EUA durante a 2ª Guerra

Mariko Oi BBC News  1 janeiro 2017

http://www.bbc.com/portuguese/internacional-38440118


Image copyright Dorothea Lange Image caption Descendentes de japoneses fazem fila para jantar em um campo de concentração em San Bruno, na Califórnia .
 

O ataque a Pearl Harbor moldou a vida dos japoneses-americanos muito depois da Segunda Guerra Mundial ter terminado. Enquanto o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, visitava na semana passada o local, que fica no Havaí, o tratamento dado a esse grupo durante o conflito continuava a ressoar na paisagem política.
Em maio, Abe e o presidente dos EUA, Barack Obama, estiveram juntos em Hiroshima e fizeram história: Obama tornou-se o primeiro presidente norte-americano a visitar o local do ataque atômico. Na última terça-feira, eles voltaram a se reunir em uma visita histórica a Pearl Harbor.
Quando os japoneses atacaram a base naval norte-americana em 7 de dezembro de 1941, o resto do mundo já estava em guerra. Pouco depois, os EUA se juntaram às forças aliadas.
Mais de 50 milhões de soldados e civis foram mortos, tornando o conflito militar no mais letal da história.


Image copyright Dorothea Lange Image caption Ordens de exclusão distribuídas na Califórnia, dirigindo a remoção das pessoas de ascendência japonesa.

Mas depois de Pearl Harbor houve consequências para outro grupo: cidadãos americanos de ascendência japonesa.
"A raça japonesa é uma raça inimiga", escreveu o tenente-general John DeWitt no Relatório Final - Evacuação Japonesa da Costa Oeste, 1942.
"Enquanto muitos japoneses de segunda e terceira geração nascidos em solo americano, possuídos de cidadania americana, tornaram-se 'americanizados', as tensões raciais não estão diluídas".
Em fevereiro de 1942, o Presidente Franklin Roosevelt emitiu a Ordem Executiva 9066, enviando 120 mil pessoas da costa oeste dos EUA para campos de concentração por causa de sua origem étnica. Dois terços deles nasceram na América.
Havia dez campos pelos Estados Unidos. Em média, os internos japoneses-americanos passavam três anos atrás de cercas de arame farpado.

Image copyright Dorothea Lange Image caption Família Mochida espera por um ônibus de evacuação em Hayward, Califórnia, em 1942.

Seu encarceramento é relativamente bem conhecido, mas suas lutas não terminaram aí, especialmente para os japoneses-americanos como Lawson Iichiro Sakai, que tinha 18 anos em 1941.
"Tentei me alistar na Marinha dos EUA com três de meus colegas de classe brancos. Eles foram aceitos, mas eu não fui", disse.
"Eu disse 'Por que não? Sou um americano.' Mas eles disseram que eu era um alienígena inimigo, então não era mais um cidadão americano."
"Realmente me senti sendo rejeitado pelo meu próprio país", lembrou o veterano de 93 anos. 

Image copyright Lawson Ichiro Sakai Image caption Iichiro Sakai foi inicialmente rejeitado pelo Exército dos EUA apesar de ser um americano. 

Quando os militares precisaram de mais soldados e abriram o alistamento aos japoneses-americanos em março de 1943, Sakai imediatamente se ofereceu.
Mais de 30 mil homens japoneses-americanos passaram a servir no Exército dos EUA. Muitos eram parte de uma unidade segregada conhecida como a 442ª Equipe de Combate Regimental.
Sob o slogan da unidade de "Go for broke!" (Vá com tudo!), eles foram enviados para algumas das batalhas mais duras.
A 442ª atacou Itália e França, e teve uma taxa de acidentes excepcionalmente elevada. O próprio Sakai foi ferido quatro vezes e recebeu uma Estrela de Bronze e um Coração Violeta, conderações militares.
Sakai disse que não se ressente com os militares dos EUA por enviarem repetidamente sua unidade para regiões perigosas.
"Você pode culpar os generais por usarem o melhor que tinham?" ele disse. "Ninguém quer morrer, e ninguém quer ver seus homens morrerem, mas nós estávamos tentando ganhar a guerra. A essa altura, nós já tínhamos provado que éramos americanos leais."
Quando a 442ª retornou aos EUA em julho 1946, o presidente Harry Truman falou do trabalho da unidade em uma cerimônia na Casa Branca. Em um discurso, ele disse aos veteranos: "Vocês combateram não somente o inimigo, mas o preconceito - e vocês ganharam."
Para continuar provando sua lealdade aos EUA, alguns japoneses americanos trabalharam como tradutores no Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente, comumente conhecido como o Tribunal de Tóquio, criado para julgar os líderes do Japão por crimes de guerra.
David Akira Itami se ofereceu ao Exército americano depois de passar um ano em um campo de concentração. Ele estava ligado à inteligência do Exército, traduzindo documentos japoneses, antes de ser enviado para o Japão como oficial da ocupação pós-guerra liderada pelos EUA.


Image copyright AFP Image caption Translators for the International Military Tribunal for the Far East were torn between their two motherlands .

 Havia poucas pessoas que pudessem falar inglês e japonês em 1946, de modo que o trabalho de Itami era assegurar-se de que os intérpretes fossem precisos. No registro de julgamento, ele tentou deixar os generais japoneses terminassem suas frases antes de serem interrompidos.
Mas as experiências de Itami podem ter tido um preço. Ele tirou a própria vida aos 39 anos em 1950, pouco depois do fim dos julgamentos.
O tratamento dos japoneses-americanos durante a Segunda Guerra Mundial foi denunciado pelo presidente Ronald Reagan em 1988 como "uma política motivada por preconceito racial, histeria de guerra e um fracasso da liderança política".
Ele assinou a Lei de Liberdades Civis para compensar mais de 100 mil pessoas de ascendência japonesa que foram presas em campos de concentração.
Mas no mês passado, Carl Higbie, apoiador do presidente eleito Donald Trump, disse que o internamento de guerra dos japoneses-americanos é um "precedente" para um registro de todos os imigrantes de países onde grupos terroristas estão ativos, uma medida que iria afetar largamente os imigrantes mulçumanos-americanos.

Image copyright Mike Honda Image caption O congressista Mike Honda e seu pai quando sua família vivia encarceirada em um campo no Colorado.

O congressista japonês-americano Mike Honda, que foi enviado para um campo quando criança, disse que as observações são "mais do que perturbadoras".
"Isso é ódio, não política", disse o congressista de 75 anos de idade em um comunicado. "Essa política de registro de uma minoria nos reduz, colocando nosso futuro nas mãos de um intolerante de mentalidade restrita dos anos 40."
"Ninguém deve passar pelo que minha família e 120 mil pessoas inocentes sofreram, independentemente de sua raça ou religião ou de qualquer outra forma que eles escolheriam para tentar dividir-nos."
Em uma entrevista à BBC, o congressista disse esperar que Trump "prove que as pessoas estão erradas fazendo uma declaração clara".
"Mas suas escolhas de gabinete até agora me deixam nervoso", disse Honda. "Ele pode ser influenciado por aqueles com opiniões mais extremas que selecionou para ser parte de sua administração."

Agronegócio volta a investir para produzir safra recorde

VALOR ECONÔMICO -SP  (2/1/17) - Fernando Lopes

Agronegócio volta a investir para produzir safra recorde

Fortalecidos por preços mais elevados das commodities e pelo câmbio favorável às exportações em boa parte do ano, produtores rurais retomaram no ano passado os investimentos em busca de aumento da safra e ganhos de eficiência. Em 2015, o setor agrícola havia cortado aportes mesmo em insumos básicos, mas nos últimos meses, apesar da queda do Produto Interno Bruto e da quebra das colheitas de grãos e de café conilon, a situação mudou. São vários os indicadores dessa retomada, que ajuda a confirmar as projeções de uma excelente colheita. O país se prepara para colher uma safra recorde de mais de 210 milhões de toneladas de grãos em 2016/17, quase 15% superior ao volume registrado em 2015/16.
Está havendo, por exemplo, maior liberação de recursos para investimentos no setor. Segundo o Banco Central, foram R$ 13,9 bilhões entre 1º julho, quando entrou em vigor o Plano Safra 2016/17, até o fim de novembro, 5,3% mais que no mesmo período do ciclo anterior. O aumento foi puxado pela tomada de recursos do Moderfrota, linha destinada à aquisição de máquinas agrícolas.
Outro movimento significativo foi a expansão na venda de tratadores e colheitadeiras, que aumentou quase 20% entre julho e novembro em relação ao mesmo período de 2015, segundo a Anfavea. A entidade prevê que a recuperação terá prosseguimento neste início de 2017, sobretudo na área de colheitadeiras. Também cresceram as vendas de fertilizantes, que chegaram a 31,4 milhões de toneladas nos 11 primeiros meses de 2016, 11,4% mais que no mesmo período de 2015, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda).
A retomada dos investimentos ainda ocorre de forma desigual, conforme o segmento. Até porque houve também setores em que se constatou aumento no endividamento, redução nas margens de lucro e pedidos de recuperação judicial de agroindústrias. Embora concentrados em seus alicerces, os gastos setoriais até surpreenderam por terem conseguido estimular inovações.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Cinema e Música: O que houve, Srta. Simone? (Alexandre Ferraz Bazzan)

O que houve srta simone?


Pobre, negra, mulher. As três qualidades serviram para que um dos gênios da música no século 20 fosse discriminado, abusado, relegado à solidão e eventualmente ao esquecimento. Foi também o que a obrigou a lutar e buscar sua identidade que, ironicamente, começou a ser formada quando ela se viu obrigada a trocar de nome. Eunice Waymon passou a atender por Nina Simone depois de ser rejeitada em uma escola de música por sua cor. Precisando ganhar dinheiro, a menina começou a tocar piano em bares e não queria que a mãe descobrisse.





Com tantas opressões, sua maior tristeza em vida foi não ter sido a primeira pianista clássica negra. Quando ela realizou seu primeiro concerto no Carnegie Hall, em Nova York, um espetáculo organizado por seu marido e empresário, ela lamentou não tocar Bach ou Brahms. O marido, por sinal, se tornou a grande paixão, empresário, o arquiteto de uma carreira brilhante e seu capataz. Ele não só fazia Nina trabalhar ininterruptamente, como também batia e abusava da pianista.

A senhorita Simone, entretanto, não estava disposta a se vitimizar e foi quando ela tomou  frente nos movimentos de direitos civis que ela transcendeu a arte, mas também foi o período em que foi mais atacada. As rádios devolviam os singles de Mississipi Goddam partidos ao meio e se recusavam a executar a canção de protesto mais corajosa do momento. Todos pareciam gostar de Nina quando ela era a doce menina com dedos mágicos que voavam pelo teclado, mas não ficavam tão felizes quando a voz forte levantava problemas que a sociedade insistia em varrer para baixo do tapete. Sem aceitar passivamente os abusos, ela chegou a dizer para Martin Luther King Jr: “Doutor King, eu não sou não-violenta”.
A fúria ao cantar diminuiu justamente após a morte de King e foi substituída por tristeza com o assassinato de tantos que ansiavam igualdade nos anos 1960.

Ao calar essas pessoas, o mundo acabou por afastar Nina do piano. Quando resolveu voltar a dedilhar com toda sua graça, a imagem de uma das maiores artistas tocando em um bar parecia boa demais para ser verdade. Em Paris, ela se tornou figura constante em casas noturnas onde tocava por 300 dólares. Ela só se reergueria posteriormente com a ajuda de amigos. A carreira voltaria a decolar com My Baby Just Cares For Me, mas a tristeza, o olhar duro e a solidão na intimidade permaneceriam até o fim da vida. Talvez por isso ela despedaçava com frequência as pessoas que compareciam a seus shows.

Tudo isso está no documentário O Que Houve, Srta. Simone?

2016, além do sufoco - CELSO MING


Veículo: O ESTADO DE S. PAULO - SP
Editoria: ECONOMIA E NEGÓCIOS
Autor(a): CELSO MING - CELSO MING
Tipo: Coluna
Veiculação: 01/01/2017
Página: A16
Assunto: POLÍTICA, GESTÃO PÚBLICA E ADMIN.


2016, além do sufoco - CELSO MING

O sufoco da crise de 2016 foi ampliado pela "sensação térmica" de um sufoco ainda maior.
O afundamento do PIB (projeção de acúmulo de queda de 7,29% nos últimos 2 anos); o desemprego recorde, que junto com os desalentados (os que nem se dispõem a procurar trabalho) alcançam 14 milhões; a grande desordem das contas públicas; os Estados em estado de calamidade financeira ou à beira disso; a escalada do endividamento das famílias e das empresas; a bagunça na área política; as lamban- ças do Judiciário; e, ainda, o estrago provocado pelas delações premiadas da Operação Lava Jato passaram a sensação de que esta é a maior crise da economia do Brasil moderno.
Na verdade, não é. Qualquer uma das crises dos anos 80 foi mais profunda e mais destrutiva do que esta. E agora é preciso evocar Nelson Rodrigues para quem uma verdade dita apenas uma vez permanece rigorosamente inédita. Por isso, convém dizer de outro jeito o que já foi comentado aqui em outras Colunas.
Esta é uma crise profunda que, no entanto, não repetiu três enormes problemas que aconteceram no passado. A infla- ção, por exemplo, está sob controle e vai convergindo para a meta. Nas crises dos anos 80, aproximou-se dos 100% ao mês, a ponto de ter sido preciso submeter o País a cinco reformas monetárias que cortaram zeros do valor nominal da moeda.
Desta vez, também não há corrida ao dólar, como naqueles tempos. As contas externas, embora não inteiramente equilibradas, não preocupam. E há o colchão de US$ 370 bilhões em reservas externas, o equivalente a 30 meses de importação. Também não há bancos à beira do precipício.
O sistema financeiro está saudá- vel, ninguém perde o sono, como ao longo da década de 80, com a ameaça de quebra do banco a que tenham sido confiadas as reservas financeiras da família.
Hoje, a área política é o caos que todos presenciam, mas pelo menos a ordem interna não está sendo garantida pelas botas dos militares, como de 1964 a 1985. Além disso, grande avanço sobre as crises anteriores, o agronegócio vai disparando, o pré-sal depende apenas de leilões de área para deslanchar e está aberta a porta para novas contratações de serviços públicos em infraestrutura, principalmente de rodovias, portos, aeroportos e saneamento.
No entanto, embora não esteja sendo a crise mais braba da história, problemas enormes estão para ser equacionados sem que estejam garantidas bases políticas para isso.

A bagunça fiscal continuará sendo a mãe de todos os problemas. Ainda não está equacionada a situação dos Estados, a reforma da Previdência vai exigir enorme energia política, ninguém sabe como serão enfrentadas as consequências das delações premiadas, cujo conteúdo deverá ser conhecido nas próximas semanas. O Supremo, do qual se esperava o exercício competente do poder moderador, parece palco armado para performances de atores mais sequiosos por aplausos do que pela defesa do interesse público.
E ainda há a levar em conta as incertezas que vêm de 2016 e que tomam conta do cenário externo. Ninguém sabe o que será o governo Trump; o Brexit e os movimentos de rejeição aos imigrantes amea- çam dividir a Europa.
Enfim, 2016 semeou incertezas e insegurança. E não só no Brasil.





Olhando para trás e para a frente - SAMUEL PESSÔA

Data : 01/01/2017


Olhando para trás e para a frente - SAMUEL PESSÔA

Se Temer aprovar uns 3/4 da reforma da Previdência, o PIB crescerá 0,3% em 2017 e o dólar ficará em R$ 3,40
NA COLUNA de 10 de janeiro do ano passado, anotei que a hipótese básica de meu cenário para 2016 era que ele dependería pouco de haver ou não troca de Dilma por Temer. Considerava que nossos problemas estruturais eram graves demais para serem encaminhados rapidamente.
Projetei que o crescimento em 2016 seria negativo em 3%, com continuidade do ajuste externo e déficit de transações correntes de US$ 35 bilhões e com inflação de 7,5%. O câmbio de final de ano seria de R$ 4,60 por dólar.
A troca de governo mudou as expectativas, e o câmbio se valorizou. Em vez dos R$ 4,60, terminamos o ano com câmbio na casa de R$ 3,20. O câmbio 30% mais valorizado do que o previsto tirou 0,81 ponto percentual da inflação, sugerindo IPCA de 6,7%, em vez dos 7,5% projetados. Boa parte do erro de previsão da inflação -7,5%, no lugar dos 6,3% com que o ano deve fechar- deve-se ao erro no cenário de câmbio.
O ano se encerrará com déficit externo US$ 18 bilhões abaixo do previsto. A queda mais acentuada do investimento, que resultou num cenário de atividade pior do que o previsto (-3,5%, em vez de -3%), explica parte da diferença, mas não toda. A velocidade do ajustamento externo surpreendeu.
A grande incógnita em 2017 será a tramitação do projeto de reforma da Previdência. Se o governo conseguir aprovar tudo que enviou, teremos ao final de 2017 um país muito melhor. O desequilíbrio das contas previdenciárias é de longe nosso maior problema fiscal. Se houver essa surpresa positiva, haverá nova rodada de valorização do câmbio e aceleração dos investimentos, com crescimento mais forte da economia no segundo semestre e um ótimo carregamento estatístico dessa expansão para 2018.
Se Temer conseguir aprovar uns 3/4 do que enviou da reforma da Previdência, o câmbio no final de 2017 será de aproximadamente R$ 3,40 por dólar, com crescimento do PIB de 0,3% na média de 2017 ante a média de 2016. No último trimestre de 2017, ante o trimestre imediatamente anterior, a economia estará rodando a 2,7% ao ano. O carregamento para 2018 será bom, mas não ótimo.
Finalmente, se Temer não conseguir aprovar a reforma da Previdência, ou aprovar versão muito diluída, teremos nova rodada de depreciação da moeda e maior lentidão na retomada da economia. Poderemos ter crescimento negativo em 2017.
Considero mais provável o cenário de que Temer aprove 3/4, aproximadamente, da reforma da Previdência. 0 crescimento econômico será de 0,3%, a inflação, de 5%, e a Selic no final de ano estará na casa de 10,5%, com câmbio por volta de R$ 3,40 por dólar. Esse é o cenário central, contingente a um sucesso bastante satisfatório, mesmo que não total, na tramitação da reforma da Previdência.
Meu relativo otimismo com relação à aprovação da reforma da Previdência deve-se a dois motivos. Primeiro, há claros sinais de que Temer tem coordenado bastante bem sua base de sustentação. Segundo, a aprovação da reforma também interessa à esquerda. Se a reforma for aprovada, e a esquerda ganhar em 2018, seja com Lula ou com Ciro Gomes, colherá, como ocorreu com Lula, os efeitos benéficos das reformas estruturais feitas pelo grupo político adversário.
A todos, um ótimo 2017.
SAMUEL PESSOA, físico com doutorado em economia ambos pela USP, sócio da consultoria Reliance e pesquisador associado do Ibre-FGV. Escreve aos domingos na  FOLHA DE S. PAULO - SP