quinta-feira, 21 de maio de 2020

O que não se diz sobre a pandemia(Valor, 21 5 2020)



Por Marcelo Carnielo - O que não se diz sobre a pandemia

Quinta-feira, 21 de Maio de 2020 - 00:18

Valor Econômico  / Opinião

Por Marcelo Carnielo

Problemas da saúde existem desde sempre, só tornaram-se mais evidentes.

Ao ler as publicações diariamente sobre a covid-19 e os seus efeitos no sistema de saúde brasileiro, tenho a impressão de que todo o caos no setor é provocado por essa doença. Parece- me que esquecemos que o sistema público de saúde sempre esteve em crise, desde que nasceu e que as UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) sempre estiveram lotadas. Em 106 UTIs adultas analisadas pela Planisa nos últimos três anos, a ocupação média foi de 90%, isto é, dentro do limite de ocupação destas unidades, muito embora alguns possam questionar que o limite seria 100%, o que é impraticável.

Muito se fala da possibilidade de se escolher qual paciente irá utilizar um leito de UTI e qual não. Desde sempre, nos rincões deste país, muitas crianças nascem precisando de leitos de UTI Neonatal, mas do local de nascimento até a UTI Neonatal mais próxima, a algumas centenas de quilômetros, essa criança, apesar de tudo, nem foi submetida à escolha: morreu, morre e provavelmente continuará morrendo. A verdade é dolorida, mas aqui no Brasil e no mundo não há e não haverá recursos para todos, portanto, as escolhas acontecem desde sempre, o problema é que, muitas vezes, elas são péssimas, baseadas em questões políticas e outras.

Ainda, sabidamente muitos pacientes ocupam indevidamente leitos de UTI, especialmente na esfera privada, onde os ganhos financeiros nestas unidades são reais, resultado de um modelo de remuneração que coloca o hospital, as fontes pagadoras e os próprios médicos no centro do cuidado, enquanto deveria ser o paciente. Muito embora o SUS remunere R$ 508,63 por uma diária nível III e custe as unidades hospitalares, nestas 106 UTIs adultas estudadas, em média R$ 1.934.

Apesar do subfinanciamento e de todos os avanços do SUS, além da gestão de excelência e inquestionável de muitos hospitais públicos e privados (filantrópicos e não filantrópicos), alguns comparáveis aos melhores hospitais do mundo, o sistema de saúde como um todo tem muito a melhorar.

Estima-se que pelo menos 10% dos pacientes internados no Brasil são por condições sensíveis à atenção primária, isto é, poderiam ser tratados na assistência básica e, segundo estudo da consultoria IAG Brasil, 80% dos pacientes do SUS permanecem internados além do necessário. Com isso, além de onerar os cofres públicos, prejudica a oferta de leitos e, consequentemente, aumenta significativamente o desperdício dos recursos da saúde.

Em estudo conduzido pela Planisa em uma unidade hospitalar com mais de 500 leitos, registrou- se excedente de diária acima de R$ 4 mil por mês, que consumiram mais de R$ 5 milhões mensais desnecessariamente. Então, ao invés de pensarmos somente em ampliação de leitos, que requer investimento e tempo, que tal pensarmos em utilizar melhor os leitos que já existem?

Agora, por exemplo, com a covid- 19, muitos hospitais de campanha se espalham pelo país. Longe de se avaliar aqui os custos e a efetividade destes hospitais, mas por que não se contratam primeiramente os leitos já existentes em hospitais privados, provavelmente mais baratos e que já possuem estrutura e profissionais capacitados? Afinal, o problema de atendimento não termina com a disponibilização do leito e do respirador, mas sim com a alta do paciente e, para que isso ocorra, a capacitação e habilidade dos profissionais de saúde são fatores imprescindíveis.

Soma-se a isso, pacientes submetidos a cirurgias que não precisavam ou que poderiam ser realizadas em centros cirúrgicos-ambulatoriais, os erros assistenciais, as reinternações por recaídas, as fraudes, entre outros. O médico Claudio Lottemberg e outros autores, em seu livro “A revolução digital na saúde”, afirma que levantamentos indicam que cerca de 60% das cirurgias realizadas não seriam necessárias. Estima-se que os desperdícios da saúde brasileira sejam ao redor de R$ 22 bilhões a cada ano, o que nos coloca na 51ª posição, entre 56, no índice da Bloomberg.

Outro fenômeno que observamos com a covid-19, principalmente na esfera privada, é a ociosidade das unidades de emergência, que quase que milagrosamente ficaram vazias. Diante disto, pergunto: os pacientes não estão ficando mais doentes? Ou utilizavam- se da emergência de forma ambulatorial? Já sabemos que alguns pacientes graves adoecem em casa com medo de ir à emergência por causa da covid-19, mas de modo geral, quanto dinheiro é consumido nas emergências desnecessariamente? Haja vista que são unidades caras e que não deveriam receber pacientes com necessidades ambulatoriais.

De modo geral, o sistema de saúde brasileiro é desconectado. Apesar dos esforços, ainda é desafiador a organização da rede de assistência no país. Espera-se que as plataformas com dados de pacientes da rede pública e suplementar possam convergir e se relacionar entre si algum dia, para quem sabe, por exemplo, o tão esperado prontuário eletrônico de saúde se torne realidade, algo essencial para gerar ganhos importantes de eficiência.

Como se não bastasse, vivemos emum país de imensa desigualdade social. Dentro da cidade de São Paulo, a expectativa de vida ao morrer de um morador da região da Paulista é 79,4 anos, enquanto a média de idade ao morrer de um morador no Jardim Angela é 55,7 anos, conforme mostra o Mapa da Desigualdade da Rede Nossa São Paulo. Soma-se a isso o envelhecimento acelerado da população brasileira, as causas externas (violência) e a incidência de doenças infectocontagiosas. Em 2019, o país registrou crescimento de 488% nos casos de dengue, comparando com 2018, segundo dados do Ministério da Saúde.

Portanto, os nossos problemas não estão somente na troca do ministro, na argumentação de insuficiência de leitos ou de equipamentos de proteção individual (EPI), muitos estão aí desde sempre. A única diferença é que com a covid-19 todas essas questões tornaram-se mais evidentes.

Cabe aqui comentar que não estou diminuindo a gravidade da covid-19, apenas reforçando que o sistema de saúde como um todo sempre teve muitos desafios. Cabe talvez, agora, à luz da covid-19, avançar mais rapidamente.

"Levantamentos indicam que cerca de 60% das cirurgias realizadas não seriam necessárias. Estima-se que os desperdícios da saúde brasileira sejam ao redor de R$ 22 bilhões a cada ano, o que nos coloca na 51ª posição, entre 56 países no índice da Bloomberg"

Marcelo Carnielo é diretor técnico da Planisa e especialista em administração hospitalar e gestão de custos e finanças


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quarta-feira, 20 de maio de 2020

Matemagica


I can get no...


Estado com menos mortes, MS descarta afrouxar isolamento(Valor, 20 5 2020)

Estado com menos mortes, MS descarta afrouxar isolamento

Entrevista Azambuja pede fim de excessos de ‘todos os lados’ e diz que não concederá reajuste a funcionalismo
Quarta-feira, 20 de Maio de 2020
Com 642 casos confirmados e 16 mortes, menor incidência entre todos os Estados do país na pandemia, Mato Grosso do Sul descarta afrouxar a política de isolamento social diante dos bons resultados. As aulas na rede escolar tiveram retorno adiado desta semana para 30 de junho e o funcionalismo ainda não tem data para voltar do regime de teletrabalho.

“A economia nós conseguimos recuperar. Vidas perdidas, não”, diz o governador Reinaldo Azambuja (PSDB). Dos 296 leitos de UTI disponíveis para o tratamento da doença, oito estão ocupados. Um hospital de campanha ficou pronto, mas não teve necessidade de inauguração. Com a autoridade de quem ostenta esses indicadores, o tucano afirma que não é hora de flexibilizar protocolos e defende “unidade” no combate à covid-19.

Por unidade, ele entende que é preciso conter o “radicalismo” e que “chega de apontar o certo e o errado”, em referência ao presidente Jair Bolsonaro, mas também a outros governadores. “Meu finado pai ensinava: vamos desarmar os espíritos”, disse o governador, que está no segundo mandato, em entrevista telefônica ao Valor .

Valor: Mato Grosso do Sul tem o menor número de casos e de mortes no país. A que o sr. atribui isso?

Reinaldo Azambuja: O mais importante foi termos montado um centro de operações em 31 de janeiro. Conseguimos frear muito a disseminação do vírus por causa do isolamento desde março. Antevíamos o risco de um problema grande e colocamos várias secretarias para trabalhar em conjunto na questão sanitária. Ampliamos em 43% a disponibilidade de UTIs, implantamos teletrabalho no funcionalismo, suspendemos aulas presenciais, criamos uma plataforma digital para oferecer 70 serviços aos cidadãos. Também instalamos 17 barreiras sanitárias nas divisas do Estado e fechamos fronteiras com Bolívia e Paraguai, além da suspensão de visitas aos presídios.

Valor: Como estão os indicadores de ocupação das UTIs?

Azambuja: Estamos com 613 casos confirmados — há 25 pessoas internadas — e 16 óbitos. Temos 296 leitos de UTI disponíveis na rede pública e na rede privada que contratamos. Desses, oito estão ocupados hoje. Ainda é uma situação relativamente confortável, mas com trajetória ascendente. Há um total de 800 leitos clínicos. Temos um hospital de campanha pronto em Campo Grande, ao lado do hospital regional de referência, mas só vamos colocá-lo em funcionamento quando atingirmos 70% de ocupação.

Valor: O sr. considera a situação sob controle no Estado?

Azambuja: Mato Grosso do Sul tem uma extensão territorial ampla e densidade demográfica baixa, com exceção de Campo Grande. Há cidades do interior que nos preocupam hoje mais do que a capital. Em Guia Lopes da Laguna, tivemos o maior volume de contaminados devido à contaminação em um frigorífico local. De uma população de 10 mil habitantes, 92 foram infectados. Muitos se contaminaram compartilhando tereré [espécie de chimarrão gelado típico da região]. Agora há “lockdown” e um controle muito restrito. Não proibimos atividades produtivas. Conseguimos montar protocolos de segurança no setor industrial e na agroindústria. Houve diminuição, mas não paralisia.

Valor: Com esses resultados, não seria viável afrouxar o isolamento?

Azambuja: Hoje mesmo [segunda-feira] tive reunião com o centro de operações especiais e nossa posição é de redobrar a cautela. A volta às aulas estava prevista para 18 de maio e acabamos de prorrogar para 30 de junho. Vamos manter a vigilância e o isolamento, especialmente por causa dos idosos. Se olharmos o mapa de óbitos em Mato Grosso do Sul, só temos duas pessoas abaixo de 60 anos — ambas com doenças pré-existentes.

Valor: Então não seria o caso de adotar um isolamento vertical?

Azambuja: Não é o caso de afrouxar os protocolos. Temos bons resultados. Ainda há lugares com crescimento exponencial [de casos]. Agora é hora de manter a vigilância e o isolamento.

Valor: Não é prolongar desnecessariamente o dano à economia?

Azambuja: O impacto para a economia é no mundo todo. Nenhum setor está saindo ileso. Talvez o agronegócio, com a alta do dólar e a busca por proteína, devido ao bom desempenho exportador. A economia nós conseguimos recuperar. Vidas perdidas, não. Meu foco é na saúde das pessoas.

Valor: Qual é o impacto fiscal da pandemia no Estado?

Azambuja: Vivemos à base de ICMS, que corresponde a 90% das receitas, com transferências muito pequenas do FPE (Fundo de Participação dos Estados). Restringimos contratos, diárias, progressões no funcionalismo para segurar a despesa. Em maio, devemos perder mais de R$ 100 milhões na comparação igual período do ano passado. Para 2020, no decreto de calamidade, projetamos R$ 900 milhões em perda de arrecadação.

Valor: O pacote do governo federal para socorrer Estados previa congelamento dos salários de servidores até o fim de 2021, mas o Congresso incluiu várias categorias como exceções. O presidente deve vetar isso, como pede Paulo Guedes?

Azambuja: É impossível, em um momento de todos darem sua cota de sacrifício, fazermos qualquer tipo de reajuste. Independentemente da sanção ou veto do presidente. Na maioria dos Estados, a despesa com pessoal já chega a 70%, o teto da Lei de Responsabilidade Fiscal. É impraticável ampliar gasto com queda de receitas.

Valor: O sr. está disposto a bancar o desgaste, em termos de popularidade, de não dar reajustes salariais ao funcionalismo, incluindo Polícia Militar e Bombeiros?

Azambuja: Não é questão de popularidade, é uma questão de consciência. Não tem outro jeito.

Valor: Como tem avaliado a atuação do presidente, que demite ministros e acirra conflitos políticos no meio do combate à pandemia?

Azambuja: É o momento de dialogar com todo mundo e buscar soluções comuns. Quanto menos conflito, mais assertividade nas ações de saúde. Se ficarmos na discussão sobre relaxar o isolamento, tem que isso ou tem que aquilo... Vamos seguir a orientação da ciência e nos pautarmos pelo pessoal de saúde. É preciso despolitizar. Tem excessos de todos os lados.

Valor: Isso inclui os governadores, incluindo João Doria, que aumentou as críticas a Bolsonaro?

Azambuja: Sou da teoria de que agora devemos ter unidade. Meu finado pai ensinava: vamos desarmar os espíritos. Não é hora de conflito. Chega de apontar o certo e o errado. Menos política e mais ação coordenada. Os Estados não têm capacidade de emitir moeda e precisam de apoio da União, que é quem pode aumentar o endividamento e socorrer o setor produtivo. O mais errado é antecipar o calendário eleitoral. Quando se estica demais a corda, acaba arrebentando e a população sai prejudicada.

Valor: Adianta um só lado pregar moderação? Todo domingo há manifestações radicais em Brasília, com participação do presidente...

Azambuja: Esse radicalismo só atrapalha. Não constrói nada. Temos mais de 16 mil mortos, uma curva ascendente, colapso chegando a entes federados. Precisamos de pacificação. Teremos uma videoconferência [quinta-feira] com o próprio Bolsonaro. Se andarmos numa pauta comum ao país, com Estados e municípios, vamos avançar juntos. Claro, isso depende de gesto do presidente.

Valor: O ex-ministro Mandetta, com a visibilidade que alcançou, poderia ter apoio do PSDB para sua sucessão no Mato Grosso do Sul?

Azambuja: Ele foi um bom secretário municipal em Campo Grande, um parceiro como deputado e ajudou na organização do nosso sistema de saúde como ministro. O DEM é um partido aliado na Assembleia e no governo. Tem o vicegovernador, que é secretário de Infraestrutura, mas essa construção não passa só por mim. Política você faz com o grupo. O Mandetta dialoga bem com o nosso grupo.