quinta-feira, 2 de julho de 2020

Artigo interessante do NYT sobre a NBA





Grande concurso Nescau


Interiores de igrejas


Destruição ambiental eleva pressão externa contra Brasil(Editorial, Valor, 2 7 2020)

Destruição ambiental eleva pressão externa contra Brasil

Quinta-feira, 2 de Julho de 2020 

Valor Econômico  /

Cenário Político-Econômico: Colunistas
O cerco contra a destruição ambiental no Brasil está se fechando. O mais recente episódio, não o único nem o mais eloquente, foi a decisão do presidente da França, Emmanuel Macron, de protelar a aprovação do acordo da União Europeia com o Mercosul, e de impedir acertos com quem não respeitar o Acordo de Paris. No mesmo dia, 265 organizações civis da Europa e América Latina denunciaram o governo brasileiro por agressões ao ambiente e aos direitos humanos.

Depois de sua conduta execrável em relação ao maior desmatamento na Amazônia em dez anos, em 2019 (10,1 mil km2 ) e refutar os fatos, demitindo cientistas que os divulgaram, o governo Bolsonaro diminuiu sua exposição na área. Isso não significou que suas ações contra o ambiente cessaram, apenas que seguem agora em silêncio, tão longe dos olhos públicos quanto possível. A ideia de “passar a boiada” enquanto as atenções estiverem voltadas para a covid-19 explicita um programa de governo.

Salles, que teve sigilo bancário de seu escritório de advocacia quebrado em investigação por suposto enriquecimento ilícito enquanto foi secretário do governador Geraldo Alckmin, desestruturou os órgãos como ICMBio e Ibama, militarizou as direções regionais ou as entrega a neófitos, agora indicados pelo Centrão. Anteontem foi nomeado como superintendente do Ibama em Santa Catarina, um administrador de empresas que desde 2014 está com bens bloqueados pela Justiça devido a ação pública por improbidade administrativa pelo Ministério Público (O Estado de S. Paulo, 1-7).

Os holofotes foram deslocados para o vice-presidente Hamilton Mourão, que chefia desde abril um Conselho da Amazônia composto por 19 militares, sem membros do Ibama e da Funai. Mourão recorreu à Garantia da Lei e da Ordem para realizar algumas incursões contra o desmatamento na região, com os órgãos ligados ao ambiente subordinados ao comando militar. As impressões de fiscais que participaram das primeiras ações são negativas e não afastam a impressão de que seriam “para inglês ver”.

Outras ações destrutivas seguem o curso parlamentar, como o projeto que permite a mineração em terras indígenas e o lamentável projeto de regularização de terras, batizada de MP da grilagem. A MP caiu, tornou-se projeto de lei e tramita no Congresso, sem perspectiva de que os interesses de preservação ambiental sejam respeitados.

Enquanto isso, o desmatamento na Amazônia Legal não dá tréguas. Dados preliminares apontam que o recorde de 2019 pode ser igualado ou superado. No ano até maio foram emitidos alertas de desmate envolvendo 2.032 km2 , um crescimento de 34,5% sobre igual período de 2019.

A mensagem dada de várias formas por Salles e pelo presidente Jair Bolsonaro, de que não se oporão a atividades de exploração nocivas ao ambiente, foi entendida por garimpeiros, grileiros e empresários inescrupulosos, e estimularam o desmatamento. Ele está espalhado por todos os biomas. Medido pelos avisos de desmate do sistema Deter, neste ano até junho, o Cerrado é a região mais atingida (34,1%), à frente da Amazônia (32,1%). Em ambos, o Mato Grosso se aproxima rapidamente do Pará na liderança da motosserra.

O presidente Jair Bolsonaro disse que a pressão externa se deve à “desinformação”. A blague faz pouco da tendência global por maior rigor na regulação ambiental sobre comércio e investimentos, que pode seguir um atalho com a pandemia. Esse consenso que se forma, por motivos legítimos, favorece disfarces protecionistas, como os da França. Macron deu declarações duras após perder eleições em algumas das principais cidades francesas para os verdes, em ascensão em toda a Europa. Merkel, cujo governo está na vanguarda do combate ao aquecimento global, assumiu ontem a presidência rotativa da UE.

O plano verde da Comissão Europeia caminha para impor compensações tarifárias sobre países que desrespeitam esforços para redução de emissões de carbono. Carta enviada a 8 embaixadas brasileiras por fundos que administram US$ 4 trilhões em ativos afirma que as atitudes do governo em relação ao ambiente “elevam os riscos de reputação, operacionais e regulatórios de seus clientes”. Parlamentos da Holanda e Áustria alegaram o desastre ambiental para rejeitar o acordo com o Mercosul. Uma vitória democrata, expelindo Donald Trump do poder dos EUA, trará mais um poderoso foco de atrito com o Brasil. Por inúmeros motivos, seria importante começar, ainda que tarde, a fazer a coisa certa.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Arte 3D na areia


A Era do Obscurantismo(Tiago Cavalcanti, Valor, 1 7 2020)

A Era do Obscurantismo


Quarta-feira, 1 de Julho de 2020 

Valor Econômico  / Opinião


Tiago Cavalcanti

Temos cada vez mais informações para fazer análises científicas. O novo petróleo, como dizem alguns, são os dados. Na área de estudos econômicos, o campo que mais cresce é o de análise de dados. Deveríamos abraçar a ideia do uso de dados para desenhar nossas políticas com responsabilidade, principalmente em um momento emergencial como a pandemia atual. Porém não parece ser a ideia de alguns governantes atualmente.

Donald Trump praticamente ignorou a pandemia até 15 de março. Em vários momentos, ele falou que o vírus iria desaparecer com o verão no Hemisfério Norte e até especulou sobre a injeção de água sanitária para prevenir o novo coronavírus. Isso gerou um aumento significativo de procuras e compras na internet por desinfetantes nos Estados Unidos. Recentemente, Trump sugeriu diminuir a testagem da covid-19 nos Estados Unidos, já que com mais testes há mais casos. Os Estados Unidos têm mais de 129 mil mortes por covid-19 e cerca de 389 mortes por um milhão de habitantes.

Na Alemanha, ao contrário, onde a pandemia chegou mais cedo, o governo agiu rapidamente para conter o contágio da covid-19, utilizando a ferramenta de testes e monitoramento, assim podendo proteger os mais vulneráveis. O país liderado por Angela Merkel tem 108 mortes por um milhão de habitantes. A recessão da economia parece bem menos severa na terra do universalista Goethe do que na do nacionalista Whitman.

Jair Bolsonaro, seguiu o obscurantismo trumpista. No lugar de comunicar com clareza sobre o problema a ser enfrentado e unir o país, fez o cálculo político para não ser culpado pela crise econômica que resultaria da pandemia, sem ou com lockdown, talvez com intensidades diferentes. Resolveu então criticar publicamente as medidas de distanciamento social implementadas pelos Estados e municípios.

Além de minimizar os efeitos da doença, Bolsonaro demitiu dois ministros da saúde durante a pandemia e fez demonstrações contra o distanciamento social. Não é por acaso que o Brasil tem hoje quase 60 mil mortes por covid-19 confirmadas e está no epicentro da pandemia. A economia brasileira encontra-se em recessão e sem perspectiva de recuperação no curto prazo.

Os apoiadores incondicionais do presidente argumentam que os números de mortes por covid-19 estão sobre-estimados. Alegam que os governadores e prefeitos da oposição, por questões políticas e com o objetivo de atingir a popularidade do Bolsonaro, inflam os números e colocam qualquer tipo de óbito como morte por covid-19.

O brasileiro Thomas Fujiwara, professor de economia da Universidade de Princeton, mostra que não é bem assim. Em vez de usar casos pontuais que são instrumentos de proliferação de falsas verdades nas redes sociais, Fujiwara utiliza dados de cartórios para 17 cidades brasileiras com mais de um milhão de habitantes e estima o número de mortes excessivas — o número de mortes acima da média usual — entre 25 de março e 27 de maio deste ano.

Em alguns casos, são notórias as subnotificações de mortes por covid-19. Em Manaus, Fujiwara mostra que o número de mortes acima da média usual para o período em análise foi de 3.106 mortes, enquanto os óbitos registrados de covid-19 na cidade foram de 1.272. Já para o município do Rio de Janeiro, há para o período o registro de 4.961 mortes além da média para outros anos, mas apenas 3.135 mortes por covid-19. Ou seja, mesmo para Estados e cidades geridas por políticos da oposição ao Bolsonaro, o número de mortes pela covid-19 indica ser subnotificado.

Esperamos que as evidências possam mudar crenças e falsas narrativas. Em livro recente, Joel Mokyr, um dos principais historiadores econômicos da atualidade, escreve sobre a importância de empreendedores culturais para o progresso da ciência e para a inovação tecnológica. Tais empreendedores são pessoas que conseguem influenciar outras e mudar o pensamento vigente. Não é tarefa trivial quando as crenças em certas ideias são fortes e interesses políticos e econômicos estão em jogo.

Charles Darwin é um bom exemplo de um empreendedor cultural. Com uma análise científica rigorosa para a época, Darwin estabeleceu a teoria da evolução das espécies, segundo a qual a diversidade biológica é consequência de um processo de seleção natural no qual os organismos vivos se adaptam às mudanças no seu ambiente.

Darwin mudou o pensamento vigente até então sobre a origem das espécies, que antes era baseado no criacionismo. A teoria de Darwin é hoje aceita pela quase totalidade dos biólogos, sendo inclusive corroborada por evidências baseadas em achados arqueológicos, testes de DNA e experimentos controlados. A teoria da evolução das espécies se tornou uma das ideias mais revolucionárias de todos os tempos.

Apesar das mais amplas evidências, segundo pesquisa de opinião do instituto Gallup de 2019, cerca de 40% dos americanos acreditam que Deus criou o homem na presente forma e assim negam categoricamente a teoria da evolução de Darwin.

Um empreendedor cultural atual é Raj Chetty, economista da universidade de Harvard e impressionante comunicador. Chetty, junto com colaboradores, criou o Opportunity Insights Economic Tracker, uma plataforma com estatísticas detalhadas de consumo, emprego e outras variáveis que medem a atividade econômica em tempo real e a nível de bairros nos Estados Unidos.

As ricas evidências produzidas pelo time de Chetty sugerem que a pandemia gerou uma contração forte no consumo das pessoas de renda mais elevada, principalmente de serviços que requerem contato pessoal. Isso levou a uma forte queda de receita em vários negócios, que tiveram que demitir parte de sua mão de obra ou entraram em falência.

Por outro lado, medidas de reabertura da economia em algumas cidades americanas tiveram pouco ou quase nenhum impacto nos gastos das famílias mais pobres e, assim, na lucratividade dos negócios que supriam produtos e serviços para esses mercados.

Parece que o medo do contágio da covid-19, e não as ordens dos governos determinando o fechamento da economia, foi o principal causador da recessão econômica atual. Estudos similares precisam ser feitos no Brasil. Devemos lutar para que as evidências empíricas e científicas guiem as políticas públicas, de forma que as missões sociais do Chetty e de outros economistas não sejam tão difíceis de compreensão como a de Charles Darwin.

Tiago Cavalcanti é professor de Economia da Universidade de Cambridge e da FGV-SP

Brasil deve lutar para que as evidências empíricas e científicas guiem as políticas públicas

Corrida pela vacina(Sérgio Cimerman, Estado, 1 7 2020)

SÉRGIO CIMERMAN - Corrida pela vacina

Quarta-feira, 1 de Julho de 2020 

O Estado de S. Paulo  / Metrópole

SÉRGIO CIMERMAN

Vacinas são, por definição, uma suspensão de microrganismos vivos atenuados ou mortos (bactérias e vírus) ou fração deles, administradas para induzir imunidade e assim prevenir doenças infecciosas. A maioria das vacinas tem seu desenvolvimento entre 5 e 20 anos para aplicabilidade em humanos e, assim, alcançar os resultados esperados. Isso foi evidenciado no caso de HPV, sarampo, poliomielite, dentre tantas outras. Mas há uma quantidade enorme de tentativas em descobrir uma vacina para HIV desde sua descoberta na década de 1980. Ainda esperamos e até agora há apenas drogas terapêuticas, que têm se mostrado efetivas.

Atentem para as dificuldades. Nosso Programa Nacional de Imunização (PNI) é um dos mais respeitados em nível mundial e oferta, gratuitamente, inúmeras vacinas. Com isso, diminuímos muitas infecções entre nós desde o nascimento. Mas, neste momento de pandemia, vivenciamos mortes em números expressivos e sem dispor de tratamentos eficazes, o que leva o pânico a parte da população que dispõe só das medidas de distanciamento social, máscaras e higienização das mãos para combater o novo vírus.

Há uma luz no horizonte: em junho houve coletiva de imprensa do governo de São Paulo sobre o acordo da vacina do laboratório chinês Sinovac-Biotech e o Instituto Butantã. Isso ocorrerá na fase 3, a mais importante do ponto de vista de eficácia e segurança. Não podemos inferir a certeza de sucesso, mas vemos a necessidade de se testes em voluntários sadios para que se possa alcançar índices superiores a 85% de eficácia e, assim, imunizar boa parte da população mundial.

Os critérios de inclusão estão sendo definidos junto aos centros investigadores, mas antes há processos, como aprovação junto à Anvisa e à Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) para que todas as formalidades sejam concretizadas e iniciemos a busca pelos 9 mil voluntários. Podemos adiantar que a administração deverá ser em duas doses, com intervalo de 14 dias, se levar em conta as duas fases prévias feitas na China. Nessas fases, os índices superaram 90% de eficácia. Se foram espelhados na fase 3 teremos sucesso em tempo recorde.

Há mais de cem estudos clínicos de vacinas de covid-19 em desenvolvimento, diz a Organização Mundial de Saúde (OMS). Esta vacina é uma das dez no mundo com chances reais de dar certo. Em fase 3, só esta e a da Universidade de Oxford em parceria com a Federal de São Paulo, que já inicia o recrutamento de 2 mil voluntários. Dentre os voluntários, deverão ser escolhidos prioritariamente profissionais da saúde na linha de frente da covid-19 em São Paulo e Rio.

Há diferenças de tecnologia: a do Butantã será de vírus inativado (modificado com partículas químicas ou calor, de tal modo que se torna incapaz de causar infecção) e terá investimento em torno de R$ 85 milhões. A outra vacina, que tem apoio da Fundação Lemann e teve anunciados também pelo governo federal investimentos dias atrás, considera no caso o uso de vetor viral não replicante (vírus como adenovírus é geneticamente modificado para produzir proteínas do coronavírus sendo enfraquecido e não causando doença). A semelhança é o término previsto para o primeiro semestre de 2021.

Temos de apoiar esses estudos e não criar conflitos políticos de qual será melhor ou pior. Temos de pensar na população, a despeito de vontades partidárias. Não podemos misturar política com saúde. Enquanto os resultados não são publicados, não devemos baixar a guarda e sim intensificar medidas preventivas. Vamos aguardar com ansiedade os resultados e, assim, colocar o Brasil no cenário mundial de pesquisa e desenvolvimento da ciência e o melhor de tudo: salvar vidas e retorno ao nosso cotidiano com segurança. Que a corrida da vacina seja promissora, efetiva e coroada de êxitos.

"Temos de pensar na população a despeito de vontades partidárias"

COORDENADOR CIENTÍFICO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE INFECTOLOGIA