sábado, 10 de abril de 2021

Morre Alfredo Bosi, o maior crítico literário do Brasil(Carta Capital, 8 4 21)

EDITORIAL - Perda irreparável

quinta-feira, 8 de abril de 2021 


 

Revista Carta Capital  / Editorial

Mino Carta


Morre Alfredo Bosi, o maior crítico literário do Brasil





Quanta falta vai fazer Alfredo Bosi para o Brasil e para mim, especificamente. Foi o grande crítico literário do País até sua morte, por Covid, dia 7 de abril de 2021, em São Paulo, aos 84 anos. De verdade, eu já sabia que ele se despedira da vida muito antes, quando do falecimento da sua mulher, Ecléa, quatro anos atrás. Professora do Instituto de Psicologia da USP, era a sua companheira inseparável, desde quando ambos passaram dois anos em Florença, graças a uma bolsa de estudos concedida pelo governo italiano no começo dos anos 60. Lembro-me dele para sempre na calçada de uma rua do bairro paulistano do Itaim, à porta de um restaurante, onde almoçaríamos juntos para falar do meu penúltimo livro, O Brasil, publicado em 2013 pela Editora Record.





Veio ao meu encontro com um sorriso que nele era inconfundível, miúdo e elegante. Ousadamente eu submetera a minha obra ao seu crivo agudíssimo e, ao cabo, ele decidiu escrever uma carta para desenvolver a sua análise com a pronta cortesia, que nele era típica. Não resisto à tentação de citar o que disse em um momento da missiva: “O narrador nunca deixa de pontuar o cafonismo kitsh colado ao grã-finismo paulista, figurado pelo ponto de vista de um anarcossocialista aristocrático e renascentista chamado Mino Carta. (...) Qual é o desígnio do texto? Levar ao ridículo a nossa burguesia arrivista e puni-la metodicamente, mas sem nenhuma esperança de corrigi-la”.





Nasceu ali, entre uma garfada e outra de um peixe assado debaixo do sal, uma amizade muito sólida, iluminada pelos versos de Giacomo Leopardi e pelo pensamento de Antonio Gramsci, autores que conhecíamos literalmente de cor. Lembro de um jantar na minha casa, em que começamos a recitar em coro um poema de Leopardi, intitulado O Infinito.­ Infelizmente, o nosso tempo foi breve, mas tive a ventura de conhecer Ecléa, que o acompanhava a vários encontros noturnos à beira de garrafas ilustres. Noitadas memoráveis marcadas pelas afinidades eletivas. Alfredo era um especialista em literatura italiana, que lecionou por um bom tempo na USP, mas foi ainda um estudioso atilado da literatura brasileira, que também lecionou no Departamento de Letras Clássicas e ­Vernáculas da FFLCH desde 1970. A sua vocação de professor mereceu-lhe inúmeras honrarias no Brasil e mundo afora.





Dois filhos nasceram do casamento feliz, Viviana e José Alfredo. Ao me apresentar a filha, ele me disse, comovido: “É a cara da Ecléa”. Depois da morte da esposa vivia recluso, mas ainda assim consegui encontrá-lo algumas vezes para o meu enlevo, pois com ele sempre havia o que aprender em torno de argumentos que nos empolgavam a ambos. Personagem più unico che raro, conforme soletra uma típica expressão italiana. 



sexta-feira, 9 de abril de 2021

As Forças Armadas da cleptocracia e a preservação da democracia(Simon Schwartzman, 9 4 21)

 

A doença As Forças Armadas da cleptocracia e a preservação da democracia


sexta-feira, 9 de abril de 2021 


 

O Estado de S. Paulo  / Espaço Aberto

Simon Schwartzman


Um tema importante, mas pouco estudado nas ciências sociais, é o das causas e efeitos da cleptocracia, termo de origem grega que significa, literalmente, governo de ladrões. Em todos os regimes políticos, democráticos ou autoritários, os governantes e seus apoiadores se beneficiam de seus cargos. Mas o que marca a cleptocracia é a pilhagem sistemática dos recursos públicos em benefício dos governantes e seus familiares, atropelando as instituições ou manipulando-as a seu favor. Os cleptocratas têm muito pouco apoio na sociedade, no entanto, conseguem se manter por longo tempo no poder. Como isso é possível?


Cerca de 20 anos atrás, Daron Acemoglu, economista de origem turca que ficou famoso por combinar a análise econômica com a história e as ciências políticas, tratou de responder a essa pergunta, que é mais atual do que nunca, sobretudo no Brasil (*). Ele tomou como exemplo os casos extremos do Congo, com Joseph Mobutu, e da República Dominicana, com Rafael Trujillo, que governaram por décadas e arruinaram seus países, mas o modelo que desenvolveu é de aplicação muito mais ampla.


O que permite que a cleptocracia se estabeleça e se mantenha, diz Acemoglu, é a debilidade das instituições de um país. "Quando as instituições são fortes", diz ele, "os cidadãos punem os políticos retirando-os do poder; quando as instituições são fracas, os políticos punem os cidadãos que não os apoiam. Quando as instituições são fortes, os políticos competem pelo apoio e endosso de grupos de interesse; quando as instituições são fracas, os políticos criam e controlam os grupos de interesse. Quando as instituições são fortes, os cidadãos exigem direitos; quando as instituições são fracas, os cidadãos imploram por favores".


Na cleptocracia todos perdem, exceto os cleptocratas, mas os diferentes setores da sociedade não conseguem se organizar para tirá-los do poder porque eles usam a conhecida tática de dividir para reinar. Pensemos em dois partidos que poderiam unir-se para derrotar os cleptocratas na próxima eleição. Antes que se juntem, o governo chama um deles, oferece vantagens e benefícios e ameaça punir quem ficar contra. Entre o medo e a ganância, o apoio é dado e o governo se mantém. No dia a dia, a técnica funciona trocando constantemente ministros e altos funcionários, provocando insegurança e fazendo as autoridades serem leais aos governantes, e não às responsabilidades e aos fins das instituições em que trabalham.


Existem algumas condições para que esse jogo de dividir para reinar tenha sucesso. A primeira é quando os setores mais organizados da sociedade só conseguem pensar no curto prazo, porque não acreditam na estabilidade das instituições políticas e econômicas. Entre o ganho imediato de um privilégio concedido ou bom negócio feito hoje com o governo e um ganho futuro de uma eventual vitória eleitoral e a economia prosperando, apostam no ganho imediato. O segundo é quando os governantes conseguem concentrar recursos significativos em suas mãos, seja porque recebem ajuda internacional, ou porque se beneficiam dos lucros da exportação de alguns produtos de grande valor, ou porque podem canalizar para si o dinheiro de impostos, ou emitir dinheiro novo. O terceiro é quando a economia é pouco produtiva, o que faz que os benefícios vindos dos favores do governo sejam muito mais valorizados do que os da atividade econômica e profissional independente. O último é quando os diferentes grupos de interes- se na sociedade são igualmente débeis em sua capacidade de se organizar e mobilizar recursos, o que faz que nenhum deles seja capaz, sozinho, de desafiar e ganhar numa disputa com os tecnocratas.


Existem outros dois fatores que contribuem para a permanência das cleptocracias. Um é quando o poder político está concentrado numa pessoa, mais do que num cargo ou numa instituição. Com isso, em eventual conflito entre os interesses do governante e as regras institucionais, prevalecem os primeiros. O outro é quando a sociedade é muito desigual, permitindo que um pequeno grupo mantenha seus privilégios, cooptando parte dos setores mais pobres distribuindo migalhas.


Para os que conseguem acompanhar, Acemoglu e seus colaboradores apresentam um modelo matemático que mostra de forma precisa como a cleptocracia funciona e se mantém. Aqui basta dizer que uma consequência grave da cleptocracia é o ataque permanente às instituições existentes, não só do Executivo, mas também do Judiciário e do Legislativo, que acabam por perder legitimidade e autonomia. O resultado é a desorganização da economia, o empobrecimento da sociedade e o aumento da insegurança, fatores que, por sua vez, facilitam a permanência dos cleptocratas no poder. Mobutu, Trujillo, Stroessner e tantos outros mostram que quando a cleptocracia domina é muito difícil se livrar dela. Mas ela pode ser entendida também como uma doença que vai crescendo aos poucos e precisa ser debelada antes que seja tarde demais.


(*) Acemoglu, Daron, Thierry Verdier e James A Robinson Kleptocracy and divide-and-rule: A model of personal rule. Journal of the European Economic Association, 2 (2-3), pp 162-92, 2004.


SOCIÓLOGO, É MEMBRO DA ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS


Ela vai crescendo aos poucos e precisa ser debelada antes que seja tarde demais



quinta-feira, 8 de abril de 2021

Sistemas de Eclusas Canadá


 


O gigantesco sistema de eclusas do Canal Welland, no Canadá 🇨🇦! O canal conecta o Lago Ontário e o Lago Erie, e possui 42 km de extensão. Ele forma uma seção importante do canal marítimo do sistema hidroviário do rio São Lourenço e dos Grandes Lagos, permitindo que os navios subam e descam a Escarpa do Niágara e contornem as Cataratas do Niágara. O nome atualmente se refere ao quarto canal, três canais anteriores e muito menores atendendo a mesma rota também são conhecidos como Welland, mas desativados para grandes navios.
A construção do canal atual começou em 1913, mas os trabalhos foram suspensos de 1916 a 1919 devido à falta de trabalhadores durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e foi concluído e inaugurado em 6 de agosto de 1932. Existem oito eclusas, sete na Escarpa do Niágara e a oitava, uma eclusa de segurança, em Port Colborne para se ajustar à variação da profundidade da água no Lago Erie. A profundidade é de 7,6 m, com eclusas de 233,5 m de comprimento por 24,4 m de largura.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Alerta vermelho nas favelas(Estado, 7 4 2021)

 Alerta vermelho nas favelas


quarta-feira, 7 de abril de 2021 - 04:02


 

O Estado de S. Paulo  / Notas e Informações

Em 2021 as favelas foram colhidas por uma tempestade perfeita: escalada do contágio; recrudescimento das medidas restritivas; redução das oportunidades de trabalho e renda; inflação da cesta básica; e fim do auxílio emergencial. Some-se a isso a queda brusca nas doações. No pior momento da pandemia, as populações das favelas, já de per si mais vulneráveis às infecções e às retrações econômicas, estão amargando a fome.


"Os dados são hoje os mais preocupantes desde o início da pandemia", alertou o presidente do Instituto Locomotiva e Fundador da Data Favela, Renato Meirelles, "seja no número de pessoas sem poupança, seja no número de pessoas com falta de dinheiro para comprar comida, seja na redução do número de refeições".


Levantamento do Locomotiva em parceria com a Central Única das Favelas (Cufa) mostrou que nas últimas semanas 68% dos moradores das favelas não tiveram dinheiro para comprar comida. Mais de 70% das famílias estão sobrevivendo com menos da metade da renda de antes da pandemia e 93% dos moradores não têm nenhum dinheiro guardado.


Além disso, sofrem riscos sanitários maiores: 33% estão procurando seguir as medidas de prevenção, mas nem sempre conseguem, e 30% não conseguem, a imensa maioria porque precisa ganhar o pão de cada dia nas ruas. Dos entrevistados, 75% tiveram de fechar o próprio negócio ou deixar de fazer bicos por causa da crise, e desses, mais da metade ficou sem trabalhar cinco meses ou mais. Estima-se que o número de contágios nas favelas seja o dobro em relação a regiões mais nobres.


Das famílias faveladas, 82% dependem de doação para se alimentar. Mas, assim como o prolongamento da pandemia levou a população a uma certa resignação e ao relaxamento do isolamento social, passado o pânico inicial, as doações também caíram dramaticamente.


Dados da Associação Brasileira dos Captadores de Recursos mostram que o volume acumulado de doações relacionadas à covid saltou de R$ 0,45 bilhão em abril, R$ 6,56 bilhões em fevereiro para R$ 6,3 bilhões em agosto. Desde então a curva se achatou. O número de doadores, que em maio chegou a 189 mil, despencou, e em dezembro foi de 5 mil.


A iniciativa Mãe da Favela, por exemplo, atendeu em 2020 5 mil favelas distribuindo 1,3 milhão de cestas básicas. Na segunda onda de covid, a queda nas doações foi de 90%. Lideranças comunitárias de Paraisópolis, em São Paulo, que chegaram a distribuir 10 mil "quentinhas" por dia, hoje distribuem entre 500 e 800. O coletivo carioca A Rocinha Resiste, que em 2020 distribuía regularmente cestas básicas para 1,5 mil famílias, conseguiu fazer uma distribuição extra de frango no Natal, e, desde então, mais nada.


Enquanto a população testemunha aflita o horror dos profissionais de saúde tendo de escolher quem será ou não entubado, nas favelas muitas entidades filantrópicas têm de escolher a qual família doar comida, e muitas famílias têm de escolher entre o almoço e o jantar - quando têm essa escolha.


Desservidas desde sempre pelo Poder Público, as favelas estão habituadas a criar redes de solidariedade para ter acesso à internet, saneamento, saúde e educação. Segundo a Cufa, 96% das pessoas que receberam auxílio emergencial compraram comida para amigos e parentes. Como disse Meirelles, "é comum nas pesquisas ouvir a frase: nas favelas se o seu vizinho tem comida, ninguém passa fome, no sentido de que elas dividem o pouco que têm". Mas agora, nem esse pouco elas têm. A média de refeições diárias das comunidades, que em agosto estava em 2,4, não chegou em fevereiro a 2 (1,9). "Tem dias que dá até briga na fila da marmita", disse ao Estado a líder comunitária Antonia Cleide Alves.


A retomada do auxílio emergencial, retardada pela incúria do Poder Público, deve trazer um alívio mínimo. Mas assim como o Brasil enfrenta uma segunda onda ainda maior de covid, precisará de uma segunda onda maior de solidariedade. E tal como as novas cepas do vírus, as novas variantes da cidadania precisarão ser muito mais fortes e contagiosas.


Com a demora ao auxílio emergencial e queda nas doações, as favelas pedem socorro



terça-feira, 6 de abril de 2021

Branco dribla a Covid(Alvaro Costa e Silva, FSP, 6 4 21)

Branco dribla a Covid


terça-feira, 6 de abril de 2021 


 

Folha de S. Paulo  / Opinião

Álvaro Costa e Silva


rio de janeiro Disseram que ele estava acabado. Disseram que ele estava velho e gordo. Disseram que ele já não era o mesmo. Mas Branco deu de novo a volta por cima. Depois de ficar internado com Covid por 18 dias, o craque saiu do hospital e passou ao lado da família a Páscoa e seu aniversário de 57 anos, comemorado no domingo (4).


Na Copa do México, Branco sofreu o pênalti que Zico perdeu, e acabamos desclassificados diante da França. Na da Itália, bebeu a "água batizada" oferecida pelo massagista argentino na partida em que fomos derrotados pelo time de Maradona. Ninguém acreditou quando ele disse que se sentiu tonto. Para a torcida, era desculpa de perdedor. O Mundial dos Estados Unidos era sua última chance para se sagrar campeão.


Em 1994, Branco retornou ao clube onde vivera suas maiores glórias, o Fluminense, após sete anos na Europa - e eu fazia a cobertura das Laranjeiras para o Jornal do Brasil. Fim de treino, ele me levou num canto e disse: "O Oldemário sabe se eu vou ou não à Copa. Você pode perguntar?". Explica-se: o repórter Oldemário Touguinhó era unha e carne com Carlos Alberto Parreira. Uma amizade tão íntima que a relação de trabalho muitas vezes se invertia: era o técnico da seleção brasileira quem telefonava ao jornal para dar informações.


O lendário jornalista desconversou: "Fala pro seu camarada que ele está pensando que eu posso tudo. Não é assim não". Dias depois me passou a curta mensagem que repassei ao Branco com as mesmas palavras: "Vai. Mas na reserva do Leo", referindo-me a Leonardo, lateral esquerdo revelado no Flamengo.


O resto é história das Copas do Mundo. Coma cotovelada e a expulsão de Leonardo no jogo contra os EUA, a seleção ganhou novo titular para pegar os holandeses nas quartas-de-final. O "velhinho" cavou uma falta e mandou um canhotaço para fazer 3 a 2. Branco foi enfim tetracampeão. E agora penta.

Até metade dos intubados por covid tem insuficiência renal e precisa de dialise(Estado, 6 4 21)

Até metade dos intubados por covid tem insuficiência renal e precisa de dialise

Doença causada pelo novo coronavírus leva a lesões nos rins e dano pode ser irreversível, uma vez que há reação exacerbada do sistema imunológico, o que pode afetar o funcionamento de órgãos vitais e levar à morte; HCor aumentou o número de equipamentos em uso

terça-feira, 6 de abril de 2021 


 


Paula Felix


Possível desdobramento em pessoas com covid-19 que evoluíram para quadros graves e foram intubadas, as lesões nos rins têm feito com que até metade desses pacientes apresente insuficiência renal e precise de diálise, segundo a Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN). No HCor, o parque de equipamentos para o procedimento foi ampliado na pandemia para atender à demanda da Unidade de Terapia Intensiva (UTI).


"Quem vai precisar fazer diálise faz intubado. Sabemos que 5% dos pacientes têm formas graves, que precisam intubar. Quando o quadro é muito grave, o paciente pode ter lesões renais e precisar de hemodiálise porque o rim para de funcionar", diz Osvaldo Merege, presidente da SBN. Segundo ele, essa situação atinge até metade dos pacientes graves. "Em porcentagem, dos 5% que estão intubados, 2,5% estão precisando. Temos casos de hospitais fazendo diálise em 30%, 40% e até em metade dos intubados."


O dano ao órgão pode ser causado por um evento grave que acomete algumas pessoas com a covid-19, a tempestade de citocinas, reação exacerbada do sistema imunológico que pode afetar o funcionamento de órgãos vitais e levar à morte. Sepse e a ação do vírus no órgão também podem estar ligadas a casos.


No fim de março do ano passado, o pediatra intensivista Nelson Horigoshi, de 65 anos, teve covid-19 após ir a um encontro de família. "Uma pessoa estava infectada. Seis pessoas pegaram e eu fui o único internado. E fiquei em estado grave. Fiquei intubado por dez dias e precisei fazer algumas sessões de hemodiálise. Quando meu rim começou a responder, consegui me livrar. Ao todo, foram 20 dias na UTI e 20 no quarto."


Líder médica da Nefrologia do HCor, Leda Lotaif diz que o hospital aumentou o parque de equipamentos já no ano passado por ter notado que havia casos de insuficiência renal relatados por outros países. Eram oito equipamentos, passou para dez, chegou a 15 e deve receber mais quatro nos próximos dias. Com a variante P.1, há uma percepção de que os casos passaram a ocorrer com mais frequência. "Não temos sequenciado esses pacientes, mas com a P.1, aparentemente, é uma doença mais grave, que evolui rapidamente e dá mais insuficiência renal. Tivemos um aumento de pacientes com necessidade de diálise e tem mais pacientes jovens, na casa dos 30 a 50 anos. Definitivamente é uma cepa mais grave."


No hospital, segundo Leda, entre 35% e 40% dos pacientes em UTI necessitam fazer o procedimento. "Temos pacientes que já receberam alta e os que ficaram com alguma sequela no rim e vão ter de fazer acompanhamento com nefrologista. Os rins são órgãos vitais e as pessoas não têm tanta noção até o momento em que alguém na família passa a ter insuficiência renal. Eles mantêm o equilíbrio hídrico, são importantes para a saúde óssea e produzem hormônios que estimulam a medula óssea a produzir os gló- bulos vermelhos. As pessoas devem se poupar de ter uma doença dessas."


Imposto. A Associação Brasileira dos Centros de Diálise e Transplante (ABCDT) diz que as unidades que realizam diálise foram prejudicadas pela reforma tributária feita pela gestão estadual, que tirou a isenção do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) para medicamentos e insumos. "A maioria das clínicas é privada, mas atende pacientes do SUS. Quando tem aumento do tributo, é repassado para clínica de diálise", afirma o médico nefrologista Marcos Alexandre Vieira, presidente da ABCDT.


Segundo ele, o setor já vem sofrendo com aumentos durante a pandemia. "São medicamentos de alta tecnologia, existem soluções para filtrar o sangue e o maquinário. Só pelo aumento do dólar, está tendo aumento do preço dos produtos e ainda terá o tributo de 18%." Vieira diz que a entidade tenta se reunir com o governo para reverter a situação.


Em nota, a Secretaria de Estado da Fazenda informou que pacientes atendidos pelo SUS não serão afetados pela medida. "As entidades que representam o setor de saúde particular foram recebidas em reuniões e ouvidas pelo governo nos últimos meses. A elas foi explicado de maneira clara e objetiva que a prioridade do governo, neste momento de pandemia, é garantir o atendimento gratuito à população mais carente. Importante lembrar que o ajuste é temporário, válido por 24 meses."


Relato "A parte cardiológica foi a que reverteu mais rápido. O pulmão demorou três meses para normalizar, mas tenho um pouco de fadiga até hoje. Tenho insônia e o rim demorou a melhorar. Este mês foi o primeiro que tive o exame do rim com resultado normal.


É uma doença terrível." Nelson Horigoshi PEDIATRA INTENSIVISTA


PARA ENTENDER


O efeito entre os doentes crônicos De acordo com o presidente da Sociedade de Nefrologia, Osvaldo Merege, alguns pacientes se recuperam, mas há casos de pessoas que acabam evoluindo para doença renal crônica. No entanto, ainda não há registro de sobrecarga no serviço por causa da chegada das pessoas que superaram a covid-19 e ficaram com sequelas nos rins. "Não tem impacto para os crônicos, porque são máquinas usadas para os casos agudos. No paciente renal crônico, a diálise é programada. Mas o número de casos agudos aumentou muito nessa nova variante e com casos graves até entre os mais jovens."


Merege diz que, atualmente, há 144,5 mil pacientes renais crônicos em diálise no Brasil e a covid-19 é perigosa para este grupo. "Na população em geral, a mortalidade por covid é de 2,3%. Na população que faz diálise, 30% dos que pegam covid acabam morrendo. Por isso, seria importante priorizar a vacina para esses pacientes."


FONTES: LEDA LOTAIF, LÍDER MÉDICA DA NEFROLOGIA DO HCOR; ORGANIZAÇÃO


PAN-AMERICANA DA SAÚDE (OPAS)


Banco Central - Perfil 3: Reforma Tributária


sábado, 3 de abril de 2021

A Coronavac no Chile(Fernando Reinach, Estado, 3 4 2021)

FERNANDO REINACH - A Coronavac no Chile


sábado, 3 de abril de 2021 


 

O Estado de S. Paulo  / Metrópole

FERNANDO REINACH


Considerando que milhões de pessoas já foram vacinadas com a Coronavac, é preocupante que os resultados do ensaio clínico feito no Brasil ainda não tenham sido publicados. Agora pesquisadores do Chile e da Sinovac publicaram os resultados interinos coletados no estudo de fase 3 realizado no Chile.


O estudo descreve a segurança da vacina e a resposta imune dos vacinados. Ele é pequeno, ainda não foi revisado por pares, mas indica o que devemos esperar dos resultados obtidos no Brasil. Ele contém dados sobre a resposta imune dos vacinados, algo que o Butantan ainda não divulgou.


O estudo envolve 434 pessoas, mas os estudos de imunogenicidade foram feitos em só 190 voluntários. Desses, 173 tinham de 18 a 59 anos e 17 tinham 60 anos ou mais. Entre os mais jovens, 132 receberam a Coronavac e 41, um placebo. Entre os mais velhos, 14 receberam a vacina e 3, um placebo.


O resultado que chama a atenção é que a Coronavac não gera anticorpos contra a proteína N, apesar de essa proteína estar presente na vacina. Esses anticorpos são produzidos em abundância quando as pessoas são infectadas pelo Sars-CoV-2.


Anticorpos contra a proteína N são os anticorpos medidos nos ensaios sorológicos para saber se uma pessoa já foi infectada. Não se sabe o papel des- ses anticorpos na proteção contra o vírus. De prático, isso significa que os testes sorológicos de rotina não são capazes de identificar pessoas que tomaram a Coronavac.


O segundo resultado se refere aos anticorpos gerados contra o RDB (o Receptor Binding Domain), que é a ponta da espícula do coronavírus, a parte que ele usa para se ligar às células humanas. Os cientistas acreditam que esses são os anticorpos mais importantes, pois um subgrupo desses anticor- pos é capaz de bloquear a entrada do vírus na célula humana. As vacinas da Moderna e Pfizer são desenhadas para gerar esse tipo de anticorpo.


A boa notícia é que a Coronavac induz a produção desses anticorpos tanto em pessoas mais jovens (18-59) quanto nas mais idosas (60 ou mais).


Os jovens produzem esses anticorpos após a 1ª dose, mas os mais velhos somente a partir da 2ª dose. A quantidade desses anticorpos é alta (eles podem ser detectados mesmo após diluir o soro mil vezes), mas bem menor que a gerada nas vacinas de mRNA.


Finalmente, os cientistas mediram a presença de anticorpos neutralizantes, aqueles que são capazes de bloquear a entrada do vírus na célula humana. A Coronavac também é capaz de gerar esses anticorpos tanto em jovens como em pessoas mais velhas, mas a quantidade gerada é muito baixa pois eles deixam de ser detectados se o soro for diluído mais do que 16 vezes.


Os cientistas tentaram medir a resposta das células T em pessoas vacinadas, mas os resultados, apesar de positivos, não parecem ser suficientes para concluir que a Coronavac produz uma resposta celular potente.


A conclusão é de que os vacinados no Chile com a Coronavac possuem os anticorpos necessários para combater o Sars-CoV-2, mas em baixa quantidade, o que está de acordo com a baixa eficácia da vacina (50%). Essa baixa quantidade de anticorpos também deixa em aberto a possibilidade de a Coronavac ser menos eficaz, ou mesmo ineficaz, contra as novas variantes.


De qualquer modo, a Coronavac é segura e, apesar dessas características, deve ser tomada por todos assim que possível. No futuro, ela provavelmente ser á substituída por vacinas que oferecem maior proteção.


Vacinados no Chile possuem os anticorpos para combater o vírus, mas em baixa quantidade


MAIS INFORMAÇÕES: INTERIM REPORT: SAFETY AND IMMUNOGENICITY OF AN INACTIVATED VACCINE AGAINS SARSCOV-2 IN HEALTHY CHILEAN ADULTS IN A PHASE 3 CLINICAL TRIAL MEDRXIV- doi;org/10.1101/2021.03.31.21.254494