sábado, 17 de abril de 2021

Infectado e agora protegido(Fernando Reinach, Estado, 17 4 21)

FERNANDO REINACH - Infectado e agora protegido


sábado, 17 de abril de 2021 


 

O Estado de S. Paulo  / Metrópole

Em janeiro de 2021 quase 30% tada pelo vírus Sars-CoV-2 da população da cidade de São Paulo já havia sido infec( www.monitoramentocovid19.org ). Na coleta que se inicia semana que vem teremos este número atualizado. Não é difícil de imaginar que ele pode estar se aproximando dos 45%. Isto é importante pois, agora, um estudo feito na Inglaterra demonstrou que pessoas já infectadas pelo vírus estão protegidas de uma nova infecção.


Essas pessoas têm um risco 84% menor de serem infectadas novamente quando comparadas com pessoas que não foram infectadas. Esse nível de proteção é equivalente ao obtido com o uso das vacinas.


Em março de 2020, quando planejamos o estudo, ainda não existiam vacinas e acreditávamos que monitorando o número de infectados ao longo do tempo teríamos uma ideia do número de pessoas já resistentes ao vírus. Isto porque na maioria das infecções virais as pessoas desenvolvem algum nível de resistência a uma nova infecção.


O problema é que essa hipótese ainda não havia sido demonstrada para o Sars-CoV-2. Durante este último ano muitas dúvidas foram levantadas a respeito dessa hipótese: testes de baixa qualidade indicavam que a quantidade de anticorpos baixava rapidamente, começaram a surgir casos esporádicos de reinfecção e, mais recentemente, surgiu a possibilidade de as novas variedades do vírus serem capazes de escapar totalmente dessa proteção. Grande parte desses argumentos foi por água abaixo com as conclusões do estudo agora publicado.


Foram recrutados 26.661 voluntários entre trabalhadores da saúde na Inglaterra, sendo que 86% deles lidavam diretamente com pacientes de covid-19. Desse grupo, 17.383 ainda não haviam sido infectados pelo SarsCoV-2 com base em testes que detectavam anticorpos contra o vírus; e 8.278 haviam contraído o vírus e se curado.


O recrutamento acabou no início da segunda onda na Inglaterra, em 31 de dezembro de 2020, provocada pela nova variante. Os voluntários foram monitorados até o início de fevereiro deste ano. Os cientistas mediram quão mais frequente era a infecção por Sars-CoV-2 nas pessoas que ainda não haviam sido infectadas, quando comparadas com as pessoas que já ha- viam sido infectadas.


Foram observadas 7,6 reinfecções para cada 100 mil pessoas entre os que possuíam anticorpos (os já infectados e curados) e 57,3 infecções por 100 mil pessoas entre os que ainda não haviam sido infectados; um número 7,6 vezes maior. A partir desses dados foi possível determinar que uma infecção prévia diminui o risco de contrair a doença em 84%. Essa proteção dura seguramente mais de sete meses.


Esses resultados demonstram que ser infectado pelo Sars-CoV-2 protege as pessoas de uma nova infecção, da mesma forma que as melhores vacinas. É claro que as pessoas que foram infectadas correram o risco de morrer ou ter sequelas, o que não existe com as pessoas que foram vacinadas. Também ainda é possível que essa proteção pode vir a ser menor frente a outras variedades, mas tudo indica que parte dessa proteção é duradoura.


Esse resultado demonstra que provavelmente 30% da população de São Paulo já está protegida, ao menos parcialmente, de uma nova infecção. Como a fração da população infectada na cidade está crescendo rapidamente é muito provável que nos próximos meses mais pessoas estarão protegidas por uma infecção anterior do que pelas vacinas.


A comprovação de que pessoas infectadas se tornam resistentes comprova nossa hipótese inicial, de que medindo o número de infectados, e somando esse número aos vacinados, talvez seja possível estimar quando atingiremos o nível de imunidade coletiva necessária para controlar a pandemia em São Paulo.


Somando já infectados aos já vacinados se pode estimar quando SP atingirá imunidade




quinta-feira, 15 de abril de 2021

Vem aí a moeda digital(Celso Ming, Estado, 15 4 21)

 CELSO MING - Vem aí a moeda digital


quinta-feira, 15 de abril de 2021


 

O Estado de S. Paulo  / Economia

Segunda-feira, em evento promovido pelo Banco de Espanha, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, informou que em breve dará notícias sobre a criação de moeda digital no Brasil.


Há tempo que os brasileiros já vêm tendo contato com algum tipo de moeda ou quase moeda digital. O exemplo mais conhecido e mais antigo é o dos pontos de milhagem (pontos de fidelidade). Outro caso é o das criptomoedas, cujo melhor exemplo é o bitcoin.


Em 2019, o Facebook anunciou a criação de uma moeda digital global, inicialmente chamada 'libra', que, no final de 2020, foi rebatizada como 'diem'. Essa moeda seria partilhada por outras 27 big techs como Visa, Mastercard, Spotify e Uber. Mas as duas primeiras não chegam a desempenhar as funções de moeda de fato. Podem servir para pagar determinados produtos e serviços, mas não servem nem como medida de valor nem como reserva de valor, ou porque têm cotação restrita (caso dos pontos de milhagem) ou porque seu preço está sujeito a enormes volatilidades, como acontece com o bitcoin. Quanto ao projeto do Facebook, nada ainda a dizer. Sua circulação segue em avaliação.


Algumas dessas moedas digitais vêm tendo larga aceitação porque sua criação e, principalmente, sua posse e estocagem são feitas com sólidas garantias.


No caso das criptomoedas, as transferências desses ativos de pessoa para pessoa contam com uma base de dados de registro permanente à prova de ação de violações, mais conhecido como sistema blockchain.


Em janeiro de 2017, o estoque de criptomoedas foi avaliado em US$ 18 bilhões. Dois anos depois, passou a US$ 287 bilhões, como aponta estudo da OCDE, de fevereiro deste ano.


Por enquanto, correspondem a uma fração insignificante dos meios de pagamento em circulação no mundo, mas sua aceitação foi suficiente para avisar os bancos centrais de que essas moedas podem se expandir exponencialmente. Assim, trazem o risco de que os bancos centrais percam capacidade de criação e de administração de uma moeda nacional.


Mais do que isso, em caso de crise sistêmica e choque de desconfiança, as autoridades não estariam em condições de intervir e de evitar desastres.


Há alguns anos, especialistas de todo o planeta vêm estudando a criação de moedas digitais a serem administradas por bancos centrais, já conhecida pela sigla em inglês CBDC (Central Bank Digital Currency). Estão fadadas a substituir tanto o meio circulante (papel-moeda e moedas metálicas) quanto a chamada moeda contábil. Até agora, nenhum banco centra as emitiu. Mas estão em curso projetos-piloto, na China, na Suécia, no Uruguai, Bahamas e Caribe Oriental.


Não há informações sobre as características da CBDC que o Banco Central do Brasil está preparando, mas já se sabe sobre algumas consequências que advirão de sua emissão em larga escala, não só no Brasil mas em toda parte.


A mais importante delas é a de que o saldo pertencente a um correntista deverá ser um endereço eletrônico controlado por um banco central. Nessas condições, pagamentos e transferências deverão dispensar a intermediação de instituições financeiras e baratear substancialmente essas operações. Hoje, as transferências internacionais são caras, em média de 7% por remessa, demoradas demais e pouco eficientes. Os bancos que já vêm perdendo espaço na ocupação do mercado financeiro, deverão perder ainda mais.


Pode-se imaginar, também, a forte redução dos custos de manipulação de moedas digitais, principalmente quando comparados com os de lidar com papel-moeda convencional, que exige armazenamento e transporte com alto grau de segurança, manipulação complicada e necessidade de substituição das notas avariadas por novas.


Outra consequência, as autoridades de qualquer país estarão em condições de controlar todos os fluxos de moeda e, portanto, também as tentativas de lavagem de dinheiro, de financiamento do narcotráfico ou de comércio clandestino de armamentos. Nessas condições, as chamadas transações anônimas podem estar com os dias contados.


Terceira consequência, aumentará a importância do uso das redes sociais nas transações financeiras. O projeto da moeda digital privada, o 'diem', do Facebook, daria acesso imediato a quase3 bilhões de pessoas, já demonstrara essa importância.


Para total confiabilidade na moeda digital, duas exigências são impreteríveis: uma sólida infraestrutura que permita um sistema de pagamentos globais confiável e uma rede muito mais eficiente de internet do que a que se tem hoje.


COMENTARISTA DE ECONOMIA




quarta-feira, 14 de abril de 2021

150 anos da 'Revolução Marginalista(Hélio Beltrão, FSP, 14 4 21)

150 anos da 'Revolução Marginalista'


quarta-feira, 14 de abril de 2021 


 

Folha de S. Paulo  / Mercado

Helio Beltrão


Contribuição de Menger fundou a Escola Austríaca e é o pilar da economia contemporânea


Este ano de 2021 representa o sesquicentenário da chamada 'revolução marginalista' na ciência econômica, que suplantou a Escola Clássica e deu origem à escola neoclássica e à Escola Austríaca de Economia.


A efeméride se refere à articulação independente e quase simultânea -por Carl Menger, William Stanley Jevons e Léon Walras- dos princípios da utilidade marginal decrescente e da teoria subjetiva do valor, pilares centrais da atual mainstream (a ciência econômica mais ensinada nas universidades ao redor do mundo).


Durante milênios, pensadores como Platão, Copérnico e Adam Smith fracassaram em explicar o paradoxo do valor: por que uma garrafa d'água vale menos no mercado do que um quilate de diamante, que é menos importante e útil que a água? Os pensadores estavam aprisionados à convicção de que o valor de um bem deveria guardar relação umbilical com sua utilidade.


Menger demonstrou que a satisfação propiciada por uma unidade de um bem é avaliada pelo indivíduo, subjetivamente, segundo a utilidade daquela unidade concreta (a unidade 'marginal') adquirida.


Não está em jogo passar a vida toda sem água ou sem diamante, caso em que a água valeria todo o dinheiro do mundo. Na prática do dia a dia, o indivíduo normalmente já tem acesso a água. Portanto, a utilidade de uma garrafa adicional é pequena, ao passo que a utilidade de um diamante pode lhe parecer alta, em particular se não possuir nenhum.


A adoção do subjetivismo e do individualismo metodológicos descritos acima inverteu a seta causal defendida pela Escola Clássica. Na visão do clássico David Ricardo, a causalidade no valor dos bens se dava no mesmo sentido que a produção. Recursos naturais (ex: minério, carbono) são usados para produzir bens intermediários (ex: aço, alumínio), que, por sua vez, são transformados em um bem final (ex: smartphone) que atende às necessidades do consumidor.


Para Ricardo, o valor dos recursos naturais determinava o dos bens intermediários, que, por sua vez, determinava o valor do bem final que o consumidor comprava. Derivou daí a teoria ricardiana de que o valor é atrelado ao custo de produção, que Karl Marx adotou para sua teoria do valor-trabalho.


Ambas as teorias foram refutadas pela revolução marginalista. Em 1871, em seu 'Grundsatze' ('Princípios'), Menger demonstrou que a seta causal era a oposta: a partida do processo é a determinação (inter)subjetiva do valor do bem final pelos consumidores.


Por outras palavras, o valor não tem a ver com o custo, com o trabalho envolvido, ou com as propriedades inerentes do bem, mas é determinado por sua utilidade marginal para o consumidor. A partir daí, os preços dos bens intermediários e dos recursos naturais são derivados (ou 'imputados'), sucessivamente ao longo da cadeia, de trás para a frente, a partir da avaliação do bem final pelo consumidor.


No nascimento, em 1871, a Escola Austríaca e a escola neoclássica pareciam dividir a mesma forma de ver o mundo. Com o tempo, ficou aparente que o ramo neoclássico considera a economia uma ciência exata e a Escola Austríaca julga o ser humano, imperfeito e temperamental, como ponto primeiro e central de todo o processo econômico.


São visões irreconciliáveis, refletidas em diferentes métodos para conduzir a ciência. A maior parte das contribuições da Escola Austríaca foi incorporada ao mainstream. Mas a diferença de visões persiste e não foi totalmente resolvida.


Apesar de a Escola Austríaca ser minoritária comparada aos neoclássicos, é a escola econômica mais antiga e a que mais cresce no mundo desde a falência da Curva de Philips, nos anos 1970, processo acelerado a partir da crise de 2008.


Depois de 150 anos da 'Revolução Marginalista', Menger vive, e seu método para as ciências sociais ainda procura uma refutação.



Cenário Político-Econômico: Colunistas