terça-feira, 24 de janeiro de 2017

A cidade europeia que enriquece inventando notícias – e influenciando eleições

http://www.bbc.com/portuguese/internacional-38206498

Emma Jane Kirby Da BBC News 12 dezembro 2016

Boa parte dos sites de notícias falsas que pipocaram durante as eleições americanas foram criados em uma pequena cidade na Macedônia onde adolescentes publicam histórias sensacionalistas para ganhar dinheiro com publicidade.
Um deles é Goran (nome fictício), que parece bem jovem durante nossa entrevista e usa um paletó azul e uma camisa branca, o que dá um ar de uniforme escolar.
Mas é essa não é a imagem que o jovem universitário de 19 anos quer passar. 
"Os americanos amaram nossas histórias e queremos tirar dinheiro disso", diz ele, fazendo questão de deixar o relógio de marca à mostra. "Quem se importa se são verdadeiras ou falsas?"
Ele é apenas um entre centenas de outros adolescentes da Macedônia que trabalham em empresas caseiras na pequena cidade de Veles, de onde saíram várias notícias favoráveis a Donald Trump durante as eleições nos Estados Unidos.
Goran começou a publicar histórias sensacionalistas, geralmente plágios de sites americanos de direita, há poucos meses.
Depois de copiar e colar vários artigos, ele criou manchetes chamativas, pagou ao Facebook para compartilhá-las com americanos sedentos por notícias sobre Trump e quando essas pessoas clicararam, curtiram e compartilharam suas histórias, ele começou a ganhar dinheiro com as publicidades em seu site.
Goran diz ter trabalhado escrevendo histórias mentirosas durante apenas um mês, pelo qual recebeu 1,8 mil euros (R$ 6,6 mil). Mas ele conta que os colegas chegam a ganhar milhares de euros por dia. 
Quando questionado se existe uma preocupação de que as notícias falsas podem ter influenciado as eleições nos Estados Unidos injustamente, ele ri. 
"Os adolescentes na nossa cidade não se importam como os americanos votam", diz ele. "Eles só estão satisfeitos por fazer dinheiro e comprar roupas e bebidas caras!"
A "corrida do ouro digital" certamente impactou a economia de Veles, onde o salário médio é de apenas 350 euros (R$ 1,3 mil) mensais. Há carros novos pela cidade e os bares estão cheios de jovens bebendo coquetéis extravagantes.
Quando era parte da antiga Iugoslávia, a cidade era chamada de Titov Veles em homenagem ao presidente Josip Tito - hoje ela tem o apelido irônico de Trump Veles. 
Do lado de fora do portão da escola, todos os adolescentes admitem conhecer alguém envolvido nos sites ou ter o seu próprio "negócio". Um jovem com o rosto coberto de acne diz trabalhar oito horas por noite em seu site depois da escola. 
Veicular notícias falsas em sites de notícias não é ilegal, mas a prática de enganar leitores não está livre de ser considerada uma fraude. Mas não para o prefeito Slavco Chediev.
"Não há dinheiro sujo em Veles", disse ele à BBC, acrescentando que se orgulha da influência dos que chamou de "empreendedores" de sua cidade sobre as eleições nos EUA. 
Segundo Ubavka Janevska, uma experiente jornalista investigativa, há ao menos sete equipes organizadas trabalhando com desinformação online, e ela calcula que outras centenas de adolescentes trabalhem individualmente.
"Eu me preocupo com a moral dos jovens em Veles", disse à BBC. "Desde as eleições nos EUA, eles só pensam em mentir e ganhar dinheiro fácil com mentira
"Temos eleições parlamentares aqui na Macedônia em dezembro e eu achei três domínios falsos registrados na Sérvia e na Croácia. Esses sites estão espalhando mentiras sobre o partido de oposição, o que pode prejudicar a campanha seriamente", afirma.
Goran diz ter desistido das notícias falsas agora, apesar de ter deixado escapar que acabou de comprar um novo laptop. Questionado sobre o que sua mãe diria sobre seu negócio online, ele reage em choque. "Você acha que se o seu filho ganhasse 30 mil euros por mês você acharia isso um problema?", questiona.
"Por favor, você ficaria feliz, você ficaria...", diz ele, procurando pela palavra certa. "Incrédula?", sugiro."

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Gestão ativa ensaia retomada com era Trump (Robin Wigglesworth, Financial Times)

VALOR ECONÔMICO - 23/01/2017

"Retorno é uma boa palavra, rapaz", observou o ator Mickey Rourke, após viver um lutador afastado reconduzido a um renascimento na carreira. Será que 2017 poderá ser o ano em que os profissionais que garimpam ações poderão dizer o mesmo?
O ambiente pós-crise financeira tem sido cruel com a gestão ativa de investimentos, principalmente ações. A maioria das gestoras de carteiras não tem conseguido superar seus benchmarks mesmo sem descontar os custos. Isso acelera o movimento sísmico do investidor para veículos de investimento baratos, passivos, como os fundos de índice (ETFs, em inglês, os fundos negociados em bolsa).
A melhora de desempenho das gestoras de fundos de ações americanas observada no segundo semestre de 2016, aprimorou apenas cosmeticamente a aparência do que foi o monstro do ano. Savita Subramanian, do Bank of America, estima que apenas 19% delas superaram seus índices, percentual ainda pior que os 41% de 2015. Além disso, as retiradas alcançaram sua maior alta do pós-crise, enquanto os ingressos nos ETFs somaram, em média, US$ 1 bilhão ao dia, em termos mundiais - mais que US$ 12,3 mil por segundo, mesmo com o dia a mais do ano bissexto.
Mas finalmente há alguma luz no fim do túnel. Crescem as esperanças de que 2017 vai trazer de volta o brilho da tradicional gestão ativa. A expectativa é de que mais volatilidade e maior dispersão entre as ações e os mercados individuais permitirão que gestoras qualificadas brilhem mais prontamente. De fato, quase dois terços dos clientes consultados pela Tabb no ano passado consideram que a gestão ativa vai usufruir de um renascimento no novo ambiente de mercado com Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, que parece mais propício aos gestores ativos.
Em relatório intitulado "Making Active Management Great Again" ("Tornando a Gestão Ativa Grande de Novo"), que toma de empréstimo o slogan de campanha de Trump, o estrategista Jonathan Golub, do RBC, argumenta que as "investidas" do gestor ativo comum - como inclinar-se em favor de companhias menores e de ações mais baratas, e evitar empresas sólidas, de crescimento lento e generosas em dividendos que estavam a todo o vapor nos últimos anos - farão uma reaparição neste ano.
A queda das taxas de administração vai ajudar bastante. A concorrência dos veículos passivos baratos obrigou a maioria das gestoras a reduzir preços, o que facilita para os fundos superarem os índices após os descontos.
As relações de custo médias dos fundos americanos de ações caíram a partir dos cerca de US$ 0,99 para cada US$ 100 investidos, observados em 2000, para US$ 0,68 em 2015, e para o fundo de bônus médio de US$ 0,76 para US$ 0,54, de acordo com a associação nacional de fundos Investment Company Institute. E a maioria das gestoras de fundos ainda consegue superar o desempenho do mercado antes das taxas.
Os céticos poderão enfatizar que a volta da gestão ativa já foi anunciada muitas vezes. A volatilidade, que supostamente separa o joio do trigo, em vez disso, atrapalhou mesmo os maiores nomes do setor. Ponderado pelos ativos, o fundo de hedge médio ganhou menos que 3% no ano passado, de acordo com a empresa de pesquisa Hedge Fund Research, e os estrategistas do Bank of America não encontraram qualquer prova de que a alta das taxas de juros ou o aumento da volatilidade contribua para que os fundos mútuos tenham melhor desempenho.
Mesmo após a alta de muitos dos papéis preferidos pelos fundos no final de 2016, o simples ato de comprar ações das dez empresas menos requisitadas pelos fundos no início de 2016 - de acordo com o medido por suas carteiras - teria levado a um ganho 13,4% para um investidor em 2016, enquanto que as dez escolhas mais frequentes desses gestores subiram só 5,9%. Este é, pelo menos, o terceiro ano consecutivo em que teria valido a pena fazer o contrário do que fizeram os gestores ativos de ações, observa Savita.
Além disso, está longe de ser certeza que o novo ambiente será tão mais propício à gestão ativa de ações. Muitas gestoras esperam que a ascensão dos veículos de investimento passivo, como os ETFs, leve à perda de eficiência dos mercados, com mais distorções das quais elas possam se aproveitar.
Mas Michael Mauboussin, do Credit Suisse, mostra-se cético. Argumenta em nota que as gestoras de fundos ativos que foram obrigadas a sair foram, provavelmente, as mais fracas, o que deve, na verdade, dificultar ainda mais a tarefa de superar o mercado.
"Os investidores que se retiram das gestoras ativas são, provavelmente, menos bem-informados do que os que ficam. Isso equivale aos jogadores fracos que saem da mesa de pôquer", escreve ele. "Uma vez que vencedores precisam de perdedores, isso pode tornar o mercado ainda mais eficiente, e portanto menos atraente, para os que ficam."
Um novo ano deve ser um tempo de esperança, mas os especialistas em cinema se lembram que a carreira de Rourke voltou a estacionar logo após seu papel no filme "O Lutador", de Darren Aronofsky. Às vezes, uma reaparição mostra ser apenas um fenômeno transitório em uma trajetória firmemente decrescente.

Alternativa ao BRT

O BRT matou uma pista dos carros, mas a solução de Hong Kong não!

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domingo, 22 de janeiro de 2017

Itália admite atentado no caso Mattei (FSP - 22/11/1997)

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1997/11/22/mundo/9.html

DA REDAÇÃO
A Itália é um país cheio de mistérios, costumam dizer os italianos. Desde ontem, porém, passou a ter um mistério a menos. A Justiça confirmou que foi um atentado a bomba que matou, em 1962, o empresário Enrico Mattei.
Nascido em uma família pobre, Mattei fez carreira em empresas do setor petrolífero e chegou à presidência do ENI, o conglomerado energético estatal italiano.
Considerado o melhor administrador da Itália à época, ele passou a denunciar o virtual monopólio de empresas norte-americanas no comércio do petróleo com os países do Oriente Médio.
Em 27 de outubro de 1962, ele voltava de uma viagem a Catania (na Sicília, sul do país) quando seu avião caiu. Além dele, morreram o piloto e um jornalista americano, que o acompanhava.
No início das investigações, um agricultor disse ter visto o avião explodir no ar. Em seu depoimento oficial à Justiça, porém, ele negou essa versão.
A conclusão do inquérito apontou que uma falha mecânica provocara a queda do aparelho.
O incidente se tornou mais um daqueles que todo italiano afirma que não ocorreu de acordo com a versão oficial.
Em 1972, o filme "O Caso Mattei", do italiano Francesco Rosi, apontava para um grande conluio entre políticos, militares e serviços secretos envolvidos nesse mistério. O filme acabou vencendo o festival de Cannes daquele ano.
Dois anos atrás, uma revelação levou à reabertura das investigações. O mafioso arrependido Tommaso Buscetta afirmou que a Máfia siciliana tinha explodido o avião de Mattei, a pedido de mafiosos americanos.
Segundo Buscetta, Mattei estaria prejudicando interesses americanos no Oriente Médio.
A Procuradoria da República de Pavia, no norte da Itália, perto de onde caiu o avião, reabriu o inquérito.
O principal passo foi exumar a ossada de Mattei. Nos ossos, foram identificados traços de explosivos.
Confirmado o atentado, os procuradores italianos pretendem agora processar o agricultor que mudou seu depoimento e saber porque ele fez isso.
"Enrico incomodava as companhias petrolíferas internacionais, mas incomodava também porque criava trabalho, tinha idéias novas e pensava grande", disse seu irmão Umberto, 84, ao jornal romano "La Repubblica".
Umberto não pretende continuar as investigações do caso para tentar identificar quem matou seu irmão e quem abafou as investigações à época. "Depois de 35 anos, o que esperam descobrir?" 

@política @Itália

O fator agro - Celso Ming (Estado de SP - 22/01/17)

O Brasil já produz uma tonelada de grãos por habitante. É o quinto dos líderes da produção agrícola no mundo nesse quesito, depois da Argentina, Austrália, Canadá e Estados Unidos. (Veja tabela no Confira.) Quando as estatísticas focam a produção de grãos, pode ficar a impressão de que a agricultura brasileira se concentra apenas em soja, milho, arroz, feijão e outras oleaginosas.
O setor ainda é grande produtor mundial de cana-de-açúcar, café, algodão, batata, silvicultura e ainda conta com as frutas, as hortaliças e todos os ramos da pecuária e da avicultura.
Quem fica nas cidades e só vê tragédias pela TV pode ficar com a impressão de que continua tudo muito ruim na economia brasileira. E, no entanto, o agronegócio está bombando.
Produzirá neste ano cerca de 215 milhões de toneladas de grãos, aumento de 15% em relação à produção anterior.
A vantagem adicional é a de que os preços estão, em geral, melhores do que os do ano passado. Isso significa que grande massa adicional de renda deverá irrigar o País a partir do interior.
As primeiras estimativas da Conab são de que as safras que começam agora deverão injetar neste ano quase R$ 200 bilhões na economia.
Quem argumenta que, do ponto de vista do PIB, essa boa notícia é pouco relevante, na medida em que a agricultura pesa apenas alguma coisa mais do que 5% da renda nacional, deixa de prestar atenção para o fato de que a participação da indústria de transformação mal ultrapassa os 11%. O setor de mais expressão no PIB é o dos serviços, com 72% do total.
O bom momento do agronegócio arrasta consigo também boa parte do setor de serviços na medida em que se apoia e, ao mesmo tempo, apoia a infraestrutura, o comércio, transportes, fornecimento de sementes, fertilizantes, defensivos, equipamentos, máquinas, etc.
A atual expansão do setor acontece com duas principais características: grande aumento da produtividade e utilização intensiva de tecnologia de ponta.
Em 1990, o Brasil produzia 57 milhões de toneladas de grãos em 37 milhões de hectares, ou 1,52 tonelada por hectare. Neste ano, deverá produzir 3,7 vezes mais com a utilização de apenas 1,6 vez hectares a mais. (Veja ao lado o gráfico sobre o avanço da produtividade.) Esses números são a principal resposta contra aqueles que vêm afirmando que o aumento da produção agrícola vem sendo feito à custa do desmatamento e da deterioração ambiental.
O incremento da tecnologia acontece em todos os subsetores, no preparo da terra, na produção de sementes, no cultivo e monitoramento da plantação, irrigação, na colheita, transporte e armazenamento das safras. Cada vez mais o agricultor brasileiro utiliza equipamentos de última geração, que vão de semeadeiras georreferenciadas à utilização de drones para controle de doenças e pragas.
Alguns economistas temem que o sucesso do agronegócio acabe por transformar a economia brasileira num fazendão atrasado, pela baixa agregação de valor de sua produção. Está acontecendo o contrário.
CONFIRA.
Aí está a produção de grãos por habitantes entre os maiores produtores do mundo, segundo o departamento de agricultura norte-americano (o USDA).
l O fator Trump.
Não está tudo claro para o futuro do agronegócio do Brasil. Desta vez, a incerteza maior não tem a ver com as condições climáticas nem com o comportamento dos preços. A maior incerteza para a agricultura tem a mesma fonte das incertezas para as demais áreas da economia. Ninguém sabe o que, na prática, será a política econômica e comercial de Trump.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Tempos sombrios no Supremo - Carlos Roberto Siqueira Castro

Valor Econômico - 03/03/2016
Gerou controvérsia a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) no habeas corpus 126.292 que, por maioria de sete votos a quatro, alterou a jurisprudência da Corte, para fins de considerar que o princípio da presunção de inocência, inscrito no art. 5º, LVII, da Constituição, não mais impede a antecipação do cumprimento da pena, ainda que na pendência de recursos extraordinário ou especial.
Em sendo assim, o trânsito em julgado da decisão condenatória, que traduz a certeza definitiva da culpabilidade, deixa de ser requisito para o início da execução da sentença criminal. Argumenta a maioria vencedora (ministros Teori Zavaski, Edson Fachin, Roberto Barroso, Luiz Fux, Carmen Lúcia e Gilmar Mendes) que a condenação em segundo grau de jurisdição é suficiente para definir a culpabilidade com base nas provas produzidas nas instâncias de origem. De outro lado, a minoria vencida (ministros Marco Aurélio, Celso de Mello, Ricardo Lewandowski e Rosa Weber) sustentou que a presunção de não culpabilidade há de subsistir até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória.
Penso que a melhor razão está com a facção vencida. A rigor, essa questão já havia sido enfrentada pelo STF no julgamento acerca da constitucionalidade da Lei da Ficha Limpa (LC 135/2010) pelas ADCs 29 e 30 e ADI 4578.
Não se ignore a situação deplorável do sistema prisional. Nossa população carcerária, segundo dados do CNJ, já atinge 711.463 presos
Naquela oportunidade, a Corte Suprema entendeu que a inelegibilidade pode ser declarada após decisão de órgão judicial colegiado, tendo em vista a proteção constitucional da probidade e da moralidade administrativa para o exercício do mandato, além da vedação ao abuso do poder econômico e político nas eleições. Esses princípios constitucionais serviram, mediante o esquema exegético da ponderação de interesses, para mitigar o postulado da presunção de inocência, sob pena de se conferir mandato eletivo a quem tenha atentado contra a legitimidade das eleições. Todavia, no caso das condenações criminais sem trânsito em julgado, nada há a ponderar, uma vez que a Constituição não condiciona a presunção de inocência a qualquer outro contra valor constitucional. De forma direta e categórica é vedada a execução provisória da pena, pois o que está em jogo é o bem maior da liberdade de ir e vir.
Releva contextualizar a divergência dos ministros do STF no atual quadro de crise que abala o nosso país. A secular deformação moral de nossas instituições, não apenas da classe política, mas também no espaço privado, se exasperou em meio a tantos escândalos (Mensalão, Lava-Jato, Operação Zelote), o que tem gerado a desilusão da população nos agentes do Estado e nas forças da sociedade civil para implementar pautas de comportamento ético e construtivo que engrandeçam a nação. A percepção popular é de que há corrupção por todos os lados e de que o Brasil está atolado num mar de lama.
O bombardeio diário de notícias cada vez piores gera reações revanchistas, o que trivializa as garantias constitucionais, com grave prejuízo para a cidadania. Nessa catarse de decepções acumuladas, o juiz Sérgio Moro e o "japonês da Polícia Federal" passam a ser estrelas no pódio do desencanto nacional. A instigação midiática dos instintos primitivos da vindita humana libera os ímpetos de ruptura com os ritos constitucionais democráticos. Faz com que a Constituição seja tratada como uma "soft law", manipulável ao sabor dos humores do dia. O STF, que é a última trincheira dos direitos humanos, não pode ser pautado pelo clamor das ruas ou pelo "xerifismo hollywoodiano". A ser assim, daqui a pouco irão pelo ralo na sanha acusatória, sob o aplauso das massas desiludidas, os princípios e valores do processo civilizatório, como o do contraditório, da ampla defesa, das prerrogativas dos advogados e da presunção de inocência. Cairemos no vale-tudo dos linchamentos liminares e dos pré-julgamentos pela mídia e redes sociais.
Algumas premissas objetivas devem ser consideradas nesse debate. O ordenamento jurídico já prevê as condições em que os suspeitos de práticas criminosas podem sofrer prisão temporária e preventiva, para resguardo da investigação criminal, da ordem pública e econômica. A interposição de recursos procrastinatórios já se acha inibida pela legislação processual e pela jurisprudência dos tribunais.
Além disso, a estatística demonstra que 25% dos julgamentos nos tribunais superiores reformam decisões das cortes de segunda instância. Assim, a prisão de réus antes do trânsito em julgado da condenação poderá ensejar indenizações a cargo do Estado no caso de absolvição final, como bem aventou o ministro Marco Aurélio, do STF. Por fim, não se ignore a situação deplorável do sistema prisional. Nossa população carcerária, segundo dados do CNJ, já atinge 711.463 presos, dos quais 147.937 em prisão domiciliar, que constitui a terceira maior do planeta. Estão disponíveis cerca de 1.430 unidades prisionais em todo o país. Em cada espaço reservado para dez presos agonizam quase o dobro. Sem esquecer que as prisões são horripilantes, onde tudo pode acontecer, menos a integridade física e moral dos detentos, muito menos a ressocialização dos apenados.
Carlos Roberto Siqueira Castro é professor titular de direito constitucional da UERJ, doutor em direito público e conselheiro federal da OAB.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Equipe de Trump é inexperiente, diz Rogoff (Valor Econômico)

De Davos (Suíça) - 20/01/2017

No curto prazo, a política econômica de Donald Trump será boa para a economia mundial. Mas é difícil imaginar o que acontecerá depois, até por sua postura errática. Para os emergentes, o risco é claro, com quatro possíveis altas de juros, e não três, pelo Federal Reserve (Fed, BC dos EUA) durante 2017. É o que diz Kenneth Rogoff, professor de Harvard desde 1999 e ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) de 2001 a 2003, em entrevista ao Valor em Davos, onde não cessou de ser questionado sobre o futuro da economia americana e do mundo.
Principais trechos da entrevista. 
Valor: O que se deve esperar realmente de políticas de Donald Trump e seu impacto sobre emergentes?
Kenneth Rogoff: Todo mundo nos países emergentes está nervoso com relação à política comercial, como seus mercados vão ser afetados. Não acho que isso possa acontecer rapidamente. Penso que o crescimento dos EUA será realmente bastante bom nos próximos dois anos, em parte porque está bom agora mesmo, e demora um pouco para as coisas mudarem. Embora eu discorde com muitas de suas políticas, no curto prazo Trump poderá remover muitas regulações que Obama estabeleceu e isso terá efeito muito forte no lado da oferta. Deve ter estímulos, com efeito em 2018. O crescimento será muito bom. Por outro lado, as preocupações que tenho em relação aos mercados emergentes, particularmente aqueles sensíveis aos fluxos de capital, é que a taxa de juros dos EUA pode subir surpreendentemente rápido. Poderemos ver uma inflação mais alta. Estou esperando quatro altas de juros pelo Fed, não três, totalizando um ponto percentual e não acho que será realmente suficiente. A inflação pode estar subindo, o prêmio de risco pode estar aumentando, vamos ver...
Valor: O senhor acha que as políticas de Trump serão "sugar rush" - sente-se bem no momento, mas elas não fornecem alimento econômico de longo prazo?
Rogoff: Bem que gostaria que o problema fosse só isso. Estou mais nervoso com sua personalidade radical. Acho que a economia vai ter um bom desempenho agora. A desregulamentação tem efeito secundário na oferta que pode durar, não subestime isso. Todo mundo na imprensa parece concentrado nos cortes de impostos. Mas isso não teria um grande efeito. O grande efeito é proveniente da desregulamentação que pode ser muito mais positivo para os negócios e também estimular investimentos das empresas.
Valor: Trump prometeu reduzir taxa sobre a repatriação de US$ 2,6 trilhões de empresas americanas no exterior. Qual será o efeito?
Rogoff: Acredito que a repatriação terá um efeito muito temporário. O fato é que as corporações já têm muito dinheiro e eu realmente não vejo como isso poderia mudar muito para elas. Eles [na equipe Trump] estão falando sobre reformas fiscais corporativas muito mais fundamentais, e isso seria ótimo. Provavelmente ampliaria o déficit, mas a taxação sobre empresas nos EUA está virando um labirinto.
Valor: Qual o risco de uma guerra comercial?
Rogoff: Que há risco, há, sem dúvida. Trump tem uma equipe muito inexperiente. Não acho que eles entendem a política ou a economia global. Há algumas pessoas boas, mas não sei o quanto Trump os ouvirá. Eles [o governo] podem cometer erros. Pensam que podem ganhar uma guerra comercial com a China. Eles estão brincando. A China não se deixará intimidar.
Valor: No geral, o senhor é mais otimista ou pessimista sobre a economia mundial?
Rogoff: No curto prazo, o crescimento dos EUA pode ser muito útil para a economia global. A longo prazo, não vejo o que poderia ser diante da postura errática que Trump tem mostrado.
Valor: Ou seja, é bom se preparar também para o pior?
Rogoff: Definitivamente é um período de muito risco para se ter como líder do mundo livre alguém sem experiência, com uma personalidade muito volúvel e sem interesse na política. Ele é um grande comunicador, com sete anos de experiência em show de televisão e muito popular no Twitter. Mas estou nervoso.