domingo, 11 de outubro de 2020

Qual é o segredo da Weg, a 'fábrica de bilionários?(Estado, 11 10 2020)


Qual é o segredo da Weg, a 'fábrica de bilionários?

Ilha de prosperidade na indústria brasileira, empresa de SC criada com capital equivalente a três Fuscas hoje vale mais de R$ 150 bi

domingo, 11 de outubro de 2020 


  O Estado de S. Paulo  / Economia


Fernando Scheller


Dos 33 novos bilionários brasileiros, segundo a mais recente lista divulgada pela revista Forbes, quase um terço dez - estão ligados à gigante industrial catarinense Weg. A empresa familiar, fundada por três descendentes de alemães em 1961, agora tem 13 herdeiros no seleto clube do bilhão. Essa ascensão está relacionada à impressionante valorização das ações da empresa nos últimos 12 meses, que supera a marca de 240% e elevou seu valor de mercado para mais de R$ 150 bilhões.


Mas qual é, afinal, o segredo da Weg? Há tempos a companhia é considerada um investimento seguro, por seus sólidos e constantes resultados, mas de um ano para cá o mercado financeiro despertou de vez para seus predicados. Apesar da pandemia do novo coronavírus, o papel da Weg subiu 120% neste ano, de acordo com a Economática, liderando a lista de companhias com maior valorização no Ibovespa, principal índice de ações da B3, a Bolsa paulista (veja quadro abaixo).


A inclusão dos herdeiros dos fundadores na lista de bilionários tem razão de ser. Apesar de estar listada na Bolsa desde 1971, quase dois terços da Weg continuam a pertencer, direta e indiretamente, aos familiares de Werner Ricardo Voigt, Eggon João da Silva e Geraldo Werninghaus (os três já falecidos). Inicialmente criada como Eletromotores Jaraguá - referência a Jaraguá do Sul, cidade que até hoje abriga sua matriz -, alguns anos depois a empresa recebeu o nome atual, Weg, aproveitando as iniciais dos nomes dos fundadores. Weg também quer dizer "caminho" em alemão.


A Weg é constantemente citada como um "oásis" de prosperidade no cada vez mais combalido setor industrial brasileiro. Em recente entrevista ao Estadão, o presidente da Itaúsa, Alfredo Setubal, classificou a empresa como uma "outlier" - um ponto fora da curva. Reconhecida nos quesitos cultura organizacional, recursos humanos e inovação, a Weg se viu beneficiada por uma confluência de fatores positivos em meio à turbulência da covid-19.


Segundo a analista Thais Cascello, do Itaú BBA, a companhia mostrou resiliência à crise no segundo trimestre por ter sido beneficiada pela performance do negócio internacional, especial- mente em produtos de "ciclo longo", como motores para indústrias e usinas produtoras de energia. Com 61% da receita arrecadada fora do País, a companhia viu sua receita em real ser inflada pela recente disparada do dólar. Resultado: a geração de caixa atingiu R$ 732 milhões, alta de 36% em relação ao mesmo período de 2019.


Em recente relatório, o Itaú BBA redobra a aposta nesse ciclo positivo para os resultados do terceiro trimestre. O banco coloca a Weg como provável líder em resultados entre julho e setembro e menciona que a empresa pode bater recordes no período. Isso porque outros fatores favoráveis se somam ao quadro do trimestre anterior. "As vendas dos produtos de ciclo curto da Weg, como motores para linha branca e tintas e vernizes para o setor de construção, parece ter tido uma recuperação em V", explica Thais.


Trajetória. E pensar que tudo começou com três carros velhos. Os fundadores da Weg começaram a empresa com um capital equivalente a três Fuscas cada um entrou com um capital que, à época, comprava uma unidade do mais popular dos automóveis do Brasil. A companhia já começou fabricando motores - um dos carros-chefes de seu portfólio até hoje - e, mesmo em meio ao milagre econômico brasileiro, partiu para as exportações em 1970.


Os primeiros passos foram dados nos vizinhos Argentina e Paraguai. Aos poucos, a experiência se estendeu para outras regiões, ganhando velocidade a partir dos anos 2000. Ao fim de 2019, a companhia tinha 58% de seus negócios fora do País. Além de vender produtos fabricados por aqui, a empresa abriu indústrias em mais de uma dezena de mercados, com China e México (responsável por atender o mercado dos EUA) como os mais relevantes. Hoje, a Weg tem 30 mil funcionários pelo mundo, sendo 12 mil no Brasil.


Presidente da Weg há 12 anos, Harry Schmelzer Júnior trabalha na companhia desde 1980. O executivo explica que a companhia deve muito do que é hoje à atuação internacional: essa aposta não só abriu novos mercados, mas - mais importante deu à Weg acesso a conhecimento e tecnologias que não existiam por aqui.


"A gente sabia que, para brigar com nossas concorrentes, precisávamos ter um produto de qualidade global", afirma Schmelzer Júnior. Ele lembra que a companhia investe 2,5% de sua receita líquida anual em pesquisa e desenvolvimento.


Outra característica da Weg, segundo analistas, é a consistência da operação. E isso se reflete em uma longeva equipe de executivos que, assim como o atual presidente, foi criada dentro de casa. Em 59 anos, a empresa teve só três presidentes: o cofundador Eggon João da Silva, seu filho Décio da Silva e, agora, Schmelzer Júnior. "De todos os meus executivos internacionais da área industrial, nesses 40 anos de Weg, só um pediu demissão para ir trabalhar em outro lugar", orgulha-se Schmelzer.


E o que mantém a equipe motivada? Segundo "seu" Eggon, morto em 2015, são as oportunidades. Para gerar desafios e inovar, ele pregava que a empresa não poderia se restringir - deveria buscar sempre crescer e abrir fronteiras. "A inovação não vem da máquina, vem das pessoas", costumava dizer.


Longevidade


"De todos os meus executivos internacionais da área industrial, nesses 40 anos de Weg, só um pediu demissão para ir trabalhar em outro lugar."


Harry Schmelzer Júnior PRESIDENTE DA WEG, QUE TRABALHA NA EMPRESA DESDE 1980


Gigante mira energia limpa e digitalização


A estratégia de crescimento da * Weg sempre priorizou a absorção de tecnologia e a criação de novos negócios correlatos à atividade principal.


Seguindo as necessidades de seus clientes em motores, a em- presa catarinense se tornou também uma força na área de geração de energia, que hoje representa mais de um terço de sua receita total. De olho nesse potencial, a companhia faz agora uma nova grande aposta, com investimentos em fontes alternativas de geração de eletricidade.


De acordo com o presidente da Weg, Harry Schmelzer Júnior, a companhia começou a atuar nessa linha com as PCHs ( pequenas centrais hidrelétricas), passou a fornecer equipamentos para energia eólica e também a produzir painéis solares. Agora, conta o executivo, está de olho em tecnologias que ainda não fazem parte do "mainstream" da cadeia energética: o armazenamento de energia em baterias e a geração a partir da queima do lixo.


A transformação dos rejeitos que se acumulam em lixões no Brasil em energia é um projeto possível com a transformação dos resíduos sólidos urbanos em gás - o projeto foi lançado pelo braço de energia da Weg em 2019 e será viabilizado em parceria com governos. Já as baterias são uma forma de a empresa conservar a energia que hoje é produzida por parques eólicos e solares, mas acaba desperdiçada quando o sistema não consegue absorver a oferta.


Dentro da proposta de buscar segmentos correlatos, a companhia também anunciou recentemente sua entrada no desenvolvimento de motores elétricos para veículos.


"No nosso caso, o nosso foco é a tração elétrica para veículos utilitários, como caminhões e ônibus. Além disso, também estamos trabalhando na criação de uma infraestrutura para abastecimento de carros elétricos", diz Schmelzer Júnior.


Aquisições na pandemia. Outras duas novas frentes são a automação e a digitalização de processos - sempre com prioridade para a área industrial.


"A Weg é uma empresa que, de tempos em tempos, se reinventa. Vinte anos atrás começou a investir no setor de energia, que hoje é um de seus principais negócios. Ela está sempre buscando a inovação - e tem um balanço que permite esse investimento", explica Thais Cascello, analista do Itaú BBA.


Essa característica pôde ser percebida em plena pandemia de covid-19, quando a empresa anunciou duas aquisições. Em questão de semanas, entre junho e julho, comprou duas startups paulistas voltadas a diferentes aplicações de inteligência artificial a processos industriais: a Mvisia e a BirminD


Apetite


"Vinte anos atrás, começou a investir no setor de energia, hoje de seus principais negócios. Ela está sempre buscando inovação."


Thais Cascello ANALISTA DO ITAÚ BBA


FONTE: ECONOMATICA


sábado, 10 de outubro de 2020

Lixo em Singapura


 

Memória de infecção passada(Fernando Reinach, Estado, 10 10 2020)

 

FERNANDO REINACH - Memória de infecção passada

COLUNISTAS

sábado, 10 de outubro de 2020

 

O Estado de S. Paulo  / 


Pessoas infectadas pelo SarsC0V-2 reagem de maneira diferente. Algumas vencem o vírus sem apresentar sintomas, outras acabam entubadas em uma UTI e morrem. No último mês foram descobertas algumas das razões que levam pessoas ao hospital, como a presença de anticorpos contra citocinas ou a incapacidade de produzir algumas citocinas. Esses fenômenos explicam aproximadamente 15% dos casos graves. Na outra ponta, foram propostas razões para pessoas terem casos leves, entre eles a possibilidade de terem sido infectadas no passado pelos outros coronavírus, aqueles primos do SarsCoV-2 que causam parte dos resfriados. A ideia por trás dessa teoria é que nosso sistema imune, por ter na sua memória imunológica lembranças dessas infecções, teria uma maior capacidade de reagir ao novo coronavírus. Pois bem, agora as células que guardam essa memória foram encontradas e caracterizadas em pessoas que nunca tiveram contato com o Sars-CoV-2.


Parte da memória do sistema imune reside em um tipo de linfócito T. Os linfócitos são células vivas que se dividem e seus descendentes podem permanecer no corpo de uma pessoa por anos ou mesmo décadas depois de a pessoa ser infectada por um vírus. Cada pessoa possui uma coleção desse tipo de células T. Cada membro dessa coleção guarda a memória de infecções passadas na forma de receptores (como se fosse uma fechadura) que ficam na sua superfície. Essa "fechadura" (chamado T cell receptor) pode ser destrancada por uma "chave" específica. E essas chaves são pedaços do vírus que infectou a pessoa. Assim, quando alguém foi infectado, ou vacinado, contra o sarampo por exemplo, vai ter linfócitos T que reconhecem, cada um, um pedaço diferente do vírus do sarampo. Por esse motivo, para saber se uma pessoa está preparada para combater um vírus basta pegar os linfócitos T da pessoa e colocá-los na presença de um pedaço do vírus. Se os linfócitos T com a "fechadura" correta estiverem presentes, a "chave" se liga a eles e se dividem loucamente.


O que os cientistas fizeram agora foi pegar no freezer linfócitos T que haviam sido congelados muito antes de o Sars-CoV-2 aparecer na China. Em seguida produziram artificialmente um enorme conjunto de "chaves", cada uma com uma parte do Sars-CoV-2, e misturaram essas "chaves" (na verdade são peptídeos com pedaços das sequências das proteínas do Sars-CoV2) com os linfócitos T dessas pessoas em um meio de cultura. O que eles observaram foi o aparecimento de muitas colônias de linfócitos T ativados. Ou seja, essas pessoas que nunca haviam encontrado o Sars-CoV-2 tinham linfócitos T que reconheciam essas "chaves". Como isso era possível?


Numa segunda fase, os cientistas testaram cada uma das "chaves" separadamente e desse modo puderam identificar as "chaves" baseadas no SarsCoV-2 que funcionavam na ativação dos linfócitos T. Aí então eles se perguntaram: se essas chaves feitas de pedaços de Sars-CoV-2 funcionam nas "fechaduras" desses linfócitos T, então essa pessoa já deve ter sido infectada por um vírus que produz uma "chave" parecida. E embarcaram na busca. Os resultados dessas buscas foram chaves produzidas por outros coronavírus, como HCoV-OC43, HCoV229E, HCoV-NL63, e HCoV-HKUi.


Se isso é verdade, quando as pessoas são infectadas por qualquer um desses vírus, que causam resfriados leves, essas pessoas produzem linfócitos T com "fechaduras" que podem ser abertas com as "chaves" desses vírus ou as "chaves" do SARS-CoV-2.


Em suma essas pessoas, muito antes do aparecimento do novo coronavírus já tinham em sua memória imunológica a capacidade de, reconhecendo as "chaves" do SARS-CoV-2, iniciar a proliferação de seus linfócitos T e assim combatê-lo. É provavelmente por esse motivo que apresentem casos leves da doença ou mesmo sejam assintomáticas. Essas pessoas têm a memória de infecções passadas.


MAIS INFORMAÇÕES: SELECTIVE AND CROSS-REACTIVE SARS-COV-2 T CELL EPITOPES IN UNEXPOSED HUMANS. SCIENCE VOL 370, PÁG. 89 (2020)


Biólogo, PHD EM BIOLOGIA CELULAR E MOLECULAR PELA CORNELL UNIVERSITY E AUTOR DE A CHEGADA DO NOVO CORONAVÍRUS NO BRASIL; FOLHA DE LóTUS, ESCORREGADOR DE MOSQUITO; E A LONGA MARCHA DOS GRILOS CANIBAIS


Células que guardam memória da infecção foram localizadas em quem nunca teve a covid

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Riscos e fraquezas segundo o FMI(Estado, 9 10 2020)

 Riscos e fraquezas segundo o FMI


sexta-feira, 9 de outubro de 2020


  

O Estado de S. Paulo  

Desemprego elevado, economia travada, baixo investimento e enorme dívida pública são projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) para o Brasil nos próximos cinco anos. O quadro será pior, se faltar confiança no manejo das contas públicas e o País afundar numa crise fiscal. A reação do governo à pandemia foi "rápida e substancial" e perdas maiores foram evitadas. Apesar disso, o Produto Interno Bruto (PIB) deve encolher 5,8% em 2020. A expansão de 2,8% estimada para 2021 será insuficiente, portanto, para a volta ao patamar anterior à crise. Pelo menos a política emergencial deste ano é descrita de forma positiva, na declaração recém-divulgada pela equipe técnica do Fundo. Os próximos anos são outra história.


Equipes do FMI visitam regularmente países-membros para examinar suas condições e perspectivas econômicas. O trabalho envolve contatos com fontes oficiais, do setor privado e da academia. Os governos autorizam, normalmente, a divulgação das conclusões.


É preciso levar a sério as avaliações, alertas e projeções contidos nesse novo documento, embora seja uma prévia de um relatório muito mais amplo. Os primeiros parágrafos são até generosos, ao descrever o Brasil, no começo de 2020, como um país em posição para decolagem.


Com a pandemia, as prioridades mudaram. A ação oficial é bem avaliada: evitou uma recessão mais profunda, estabilizou o setor financeiro e amorteceu os efeitos da crise sobre os mais vulneráveis. Mas as medidas emergenciais tiveram custo enorme e agravaram o desajuste das contas públicas. O estado de calamidade reconhecido pelo Congresso acabará, no entanto, em dezembro. Será preciso retomar a arrumação fiscal - e a partir de um quadro bem pior que o de antes da pandemia.


Encerrado o estímulo fiscal, o papel de reanimar a economia ficará para a política monetária. Haverá, segundo os técnicos do FMI, margem para novos cortes de juros, se a inflação e as expectativas de alta de preços continuarem abaixo da meta.


Também será essencial avançar na execução da pauta de reformas, cumprir o programa de privatizações e concessões, finalizar os acordos comerciais com a União Europeia e com outros parceiros e concluir a adesão ao acordo de compras governamentais da Organização Mundial do Comércio (OMC).


A lista de recomendações pode parecer muito razoável e até óbvia, mas falta saber se o presidente estará disposto a fazer o necessário para segui-la.


Acordos comerciais podem hoje implicar compromissos ambientais fora dos padrões do presidente Jair Bolsonaro. Isso explica os impasses com a União Europeia. Problemas semelhantes podem surgir em outras negociações.


Além disso, a diplomacia brasileira, incluída a comercial, tem sido moldada pelos interesses e padrões do presidente Donald Trump. Estarão as autoridades de Brasília preparadas para avaliar e talvez seguir a pauta sugerida pelo FMI?


Mas um tropeço pode ocorrer antes de se cuidar dessas questões de longo prazo. Um risco muito importante, segundo a equipe, é a "vulnerabilidade a choques de confiança" associados ao "nível elevado da dívida pública". Segundo as projeções agora divulgadas, a dívida chegará neste ano a 99% do PIB, baterá em 100% em 2021 e ficará pouco acima disso nos anos seguintes.


A insegurança em relação à política fiscal e, portanto, à evolução da dívida, tem sido visível nas oscilações do dólar e dos juros futuros. As manobras do Executivo para ajustar o Orçamento de 2021 aos interesses eleitorais do presidente realimentam no dia a dia as desconfianças de investidores e analistas.


Outros números no fim do relatório também justificam inquietações. Segundo as projeções, o PIB crescerá 2,8% em 2021, 2,3% em 2022 e ficará no ritmo de 2,2% nos três anos seguintes. O investimento produtivo seguirá muito baixo. O detalhe mais importante, já presente em outras projeções do FMI, é o baixo potencial de crescimento percebido no Brasil e confirmado nos últimos anos. Não há, ainda, por que traçar uma perspectiva melhor - e esse é o grande recado dos números.


"Reação à crise foi boa, mas potencial produtivo segue baixo, avaliam os técnicos "

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

O rei do futebol(CB, 7 10 2020)

 

Severino Francisco - O rei do futebol

COLUNISTAS

quarta-feira, 7 de outubro de 2020 


  

Correio Braziliense  / Cidades


por Severino Francisco >> severinofrancisco.df@dabr.com.br


Pelé comemora 80 anos neste mês de outubro, e a polêmica sobre quem foi o maior jogador de futebol de todos os tempos permanece acesa. Os hermanos argentinos defendem, desgrenhadamente, Maradona e Messi. Pois, eu queria dar um pequeno depoimento.


Quando eu tinha 14 anos, morava em São Paulo, queria ser jogador de futebol e disputava peladas o dia inteiro na rua da Vila Guarany, bairro Jabaquara, na vã esperança de me tornar um craque apenas pelo esforço. Comecei a torcer pelo Corinthians por causa de Rivellino, um rapaz que aplicava o drible do elástico e desferia bombas com a perna esquerda. Naquele tempo, o Santos ostentava um esquadrão de cobras, com Pelé, Carlos Alberto, Lima, Toninho, Clodoaldo e Edu, entre outros.


Eu tinha um amigo um pouco mais velho, parceiro das peladas, que era santista doente. Assistia aos jogos do Santos nos estádios e voltava alucinado, narrando as diabruras que Pelé fazia em campo. Sorria com a boca, os olhos, os braços e as mãos quando reconstituía o jogo, lance a lance. Sempre me convidava para ir aos estádios, mas o meu pai era pastor presbiteriano e não deixava. Futebol era uma festa pagã, coisa do diabo.


No entanto, sou insistente, aos poucos, consegui convencer meu pai a me autorizar a ver o clássico Santos e Corinthians, no Morumbi. De um lado Pelé, o rei do futebol, e de outro, Rivellino, o reizinho do Parque São Jorge. A semana anterior ao jogo foi de contagem regressiva dramática, tensa e angustiada. Finalmente, veio o grande dia.


Logo que chegamos ao Morumbi, tomei contato com a energia enlouquecedora da torcida corinthiana. Ela dava gritos de tremer o concreto do estádio: "Corinthians! Corinthians..." O jogo ao vivo é completamente diverso daquele transmitido pela televisão ou pelo videotape. Os preparativos aumentam a dramaticidade.


Mas, enfim, a bola rolou. Está valendo. Esperava, ansiosamente, as jogadas de Pelé. No entanto, nos primeiros minutos, ele não viu a cor da bola. O beque Luiz Carlos, do Corinthians, antecipava todas e não deixava Pelé jogar. Passaram-se 10 minutos, 20 minutos, e nada. Estava começando a ficar decepcionado. Era esse o rei do futebol?


Pelé era o grande ausente da partida. Mas, aos 25 minutos do primeiro tempo, Toninho cruzou da esquerda para Pelé, dentro da área do Corinthians. O camisa 10 do Santos ameaçou dar o bote, recuou e, na velocidade do instinto, aplicou um chapéu duplo em Ditão e Luiz Carlos, e fuzilou para as redes. É uma jogada tão rápida, com o ritmo de fugacidade da luz, que mesmo no videotape fica difícil acompanhar o que aconteceu.


Soube que era gol de Pelé porque vi a rede corinthiana balançar e a torcida do Timão xingar o camisa 10 santista com os mais cabeludos vocábulos da língua portuguesa. É um daqueles lances de futebol-arte para emoldurar e colocar na parede. Pelé ainda recebeu passe de Edu e fez outro gol. Ele fazia coisas tão fantásticas que só são possíveis nos joguinhos de videogame. Quem não acreditar, veja o documentário Isto é Pelé.


O jogo terminou 3 para o Santos e 1 para o Corinthians. Em apenas duas jogadas, Pelé acabou com a partida. Naquele dia, entendi porque Pelé era o rei do futebol. Que me desculpem os hermanos, Maradona e Messi podem ser condes, viscondes, barões, marqueses, duques ou arquiduques. Mas o rei do futebol é mesmo Pelé.