segunda-feira, 9 de maio de 2022
domingo, 8 de maio de 2022
Mãe é quem fica(Cora Coralina)
Cora Coralina
Mãe é quem fica.
Depois que todos vão.
Depois que a luz apaga.
Depois que todos dormem.
Mãe fica.
Às vezes não fica em presença física.
Mas mãe sempre fica.
Uma vez que você tenha um filho, nunca mais seu coração estará inteiramente onde você estiver.
Uma parte sempre fica.
Fica neles.
Se eles comeram.
Se dormiram na hora certa.
Se brincaram como deveriam.
Se a professora da escola é gentil.
Se o amiguinho parou de bater.
Se o pai lembrou de dar o remédio.
Mãe fica.
Fica entalada no escorregador do espaço kids, pra brincar com a cria. Fica espremida no canto da cama de madrugada pra se certificar que a tosse melhorou.
Fica com o resto da comida do filho, pra não perder mais tempo cozinhando.
É quando a gente fica que nasce a mãe.
Na presença inteira.
No olhar atento.
Nos braços que embalam.
No colo que acolhe.
Mãe é quem fica.
Quando o chão some sob os pés.
Quando todo mundo vai embora.
Quando as certezas se desfazem.
Mãe fica.
Mãe é a teimosia do amor, que insiste em permanecer e ocupar todos os cantos.
É caminho de cura.
Nada jamais será mais transformador do que amar um filho.
E nada jamais será mais fortalecedor que ser amado por uma mãe.
É porque a mãe fica, que o filho vai.
E no filho que vai, sempre fica um pouco da mãe:
Em um jeito peculiar de dobrar as roupas.
Na mania de empilhar a louça só do lado esquerdo da pia.
No hábito de sempre avisar que está entrando no banho.
Na compaixão pelos outros.
No olhar sensivel.
Na força pra lutar.
No coração do filho, mãe fica.
quinta-feira, 28 de abril de 2022
Baixa produtividade também é fruto da cultura empresarial (Décio Oddone, Broadcast Energia)
Décio Oddone: A baixa produtividade também é fruto da cultura empresarial
A economia nacional convive com o chamado custo Brasil: a inflação mais elevada, a volatilidade do câmbio, a alta carga tributária, a complexa estrutura das regras trabalhistas e fiscais, a demora nos processos regulatórios e de licenciamento, a dificuldade em contratar funcionários com o adequado grau de escolaridade, conhecimento e experiência. São problemas objetivos que afetam a produtividade, sobre os quais os gestores das empresas não têm influência direta. Essas questões são muito conhecidas e debatidas, mas soluções definitivas parecem distantes. As responsabilidades pelas ações de melhoria recaem sobre os ombros dos governantes.
No entanto, os baixos ganhos de produtividade que experimentamos nas últimas décadas não são fruto apenas de questões estruturais, que dependem de decisões políticas. Existem aspectos menos discutidos da nossa realidade e cultura corporativa que podem ser influenciados pela atuação de líderes empresariais. Um bom exemplo são questões comportamentais, como a valorização das estruturas organizacionais pesadas e do status e o gosto por normas e regras complexas.
Muitos gestores apreciam organogramas vistosos, com excesso de subordinados, como se o poder de um gerente dependesse do tamanho do grupo que administra. Outros buscam a independência dentro da empresa e tentam criar a sua própria equipe de apoio. Não importa se replicando posições que já existem na companhia, aumentando os custos e diminuindo a eficiência e a produtividade da própria organização.
O excesso de assessores, seguranças, secretárias, carros e motoristas e o abuso na utilização de cartões de crédito empresariais e de viagens em aviões privados são usados como demonstrações de poder. Representam os chamados "agency costs", ou custos do agente, mencionados na literatura especializada, presentes no mundo todo, mas particularmente valorizados por alguns aqui. Resultam em gastos que executivos não assumiriam na conta pessoal, mas lutam para conquistar, ou facilmente aprovam, quando a despesa é corporativa.
O maior problema, possivelmente, na regulação e nas empresas, talvez seja os padrões técnicos demasiadamente exigentes e as normas e regras complexas e custosas. Enquanto outras culturas valorizam a simplicidade, no âmbito público e privado, optamos por soluções complicadas, mesmo para problemas básicos. Valorizamos a adoção e a multiplicação de padrões e limitações. Chegamos até a combinar, em algumas regulações, restrições adotadas em diferentes países.
Normas de engenharia, de segurança e de operação são mais numerosas, sofisticadas e conservadoras que as aplicadas em culturas de viés mais pragmático. Não faltam exemplos de regras que impedem o uso no Brasil de equipamentos e técnicas aceitos em países mais desenvolvidos. A desnecessária busca da excelência em atividades operacionais acaba prejudicando o alcance da eficiência. A excelência é fundamental em campos como a pesquisa, a saúde e a educação, não em atividades operacionais ou industriais, em que a melhoria da competitividade deve ser o alvo. Tudo isso produz aumentos de custos, que muitas vezes são percebidos erroneamente como melhorias.
Padrões, normas, regras e limitações são necessários, especialmente em atividades complexas, mas devem ser simples. Não devem inibir boas iniciativas, nem impedir que as equipes trabalhem com agilidade e flexibilidade. O mesmo gosto pela complexidade se percebe na construção e manutenção de instalações produtivas. Basta visitar plantas industriais no Brasil e nos Estados Unidos ou na Alemanha, por exemplo, para perceber a diferença. Onde colocamos asfalto encontramos cascalhos. Em lugar dos jardins que vemos em muitas instalações aqui encontramos grama ou terra nua por lá. Essas práticas aumentam os custos de execução de investimentos e de manutenção de ativos.
Também há os que resistem em aplicar a meritocracia e a responsabilização por resultados. Que preferem exaltar o igualitarismo e têm dificuldade em reconhecer e valorizar o mérito e o desempenho individual, preferindo assumir que a contribuição de todos para o alcance de resultados positivos é sempre a mesma, ou em estabelecer metas de rentabilidade e premiações por resultados. Que acham mais simples definir objetivos ligados a parâmetros operacionais. E que, na comunicação com a força de trabalho, evitam mencionar rentabilidade e retorno sobre o capital empregado, como se buscar gerar valor fosse pecado. Gostam de falar em crescimento, sustentabilidade, inovação, criatividade, busca da excelência, reinvestimento dos lucros. Mas não explicitam que, sem eficiência, rentabilidade e sustentabilidade financeira, uma companhia, mesmo estatal, não pode crescer, ser criativa, inovadora, sustentável. Sem sucesso econômico-financeiro, uma empresa não cria, nem inova. Não será ambiental nem socialmente responsável. Acaba fechando e eliminando empregos, ou repassando os custos para o contribuinte, quando é controlada pelo Estado.
Nesses tempos do politicamente correto e da preocupação com os aspectos ESG (meio ambiente, social e governança) dos negócios, pode parecer inadequado expressar alguns desses conceitos. Só pode parecer. Algumas das empresas mais bem sucedidas do Brasil aplicam ideias alinhadas com as apresentadas aqui. Não surpreende que a valorização da simplicidade, o corte de custos e a eficiência tragam bons resultados. O que falta para que outras companhias sigam o mesmo caminho? Os exemplos estão aí e são conhecidos. Não basta reclamar e lutar para que o ambiente econômico melhore, que a regulação e as normas de responsabilidade do poder público sejam simplificadas e que os trâmites burocráticos sejam agilizados. Executivos que não encontrarem coragem para enfrentar o corporativismo e o excesso de complexidade incrustrados nas suas próprias organizações terão que conviver com contínuos aumentos de custo e redução da competitividade. Não terão bons resultados para mostrar. E não poderão dizer que a culpa é só do ambiente político e econômico.
*Décio Fabrício Oddone da Costa é CEO da Enauta S.A. Escreve mensalmente para o Broadcast Energia. Este artigo representa exclusivamente a visão do autor.
Broadcast Energia
sexta-feira, 15 de abril de 2022
quinta-feira, 31 de março de 2022
TODO FILHO É PAI DA MORTE DE SEU PAI
TODO FILHO É PAI DA MORTE DE SEU PAI*
" Há uma quebra na história familiar onde as idades se acumulam e se sobrepõem e a ordem natural não tem sentido: é quando o filho se torna pai de seu pai.
É quando o pai envelhece e começa a trotear como se estivesse dentro de uma névoa. Lento, devagar, impreciso.
É quando aquele pai que segurava com força nossa mão já não tem como se levantar sozinho. É quando aquele pai, outrora firme e intransponível, enfraquece de vez e demora o dobro da respiração para sair de seu lugar.
É quando aquele pai, que antigamente mandava e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura onde é a porta e onde é a janela - tudo é corredor, tudo é longe.
É quando aquele pai, antes disposto e trabalhador, fracassa ao tirar sua própria roupa e não lembrará de seus remédios.
E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão trocar de papel e aceitar que somos responsáveis por aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende de nossa vida para morrer em paz.
Todo filho é pai da morte de seu pai.
Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja curiosamente nossa última gravidez. Nosso último ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos foram confiados ao longo de décadas, de retribuir o amor com a amizade da escolta.
E assim como mudamos a casa para atender nossos bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos alterar a rotina dos móveis para criar os nossos pais.
Uma das primeiras transformações acontece no banheiro.
Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra no box do chuveiro.
A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é inaugurar um cotovelo das águas.
Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um temporal para os pés idosos de nossos protetores. Não podemos abandoná-los em nenhum momento, inventaremos nossos braços nas paredes.
A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados, sob a forma de corrimões.
Pois envelhecer é andar de mãos dadas com os objetos, envelhecer é subir escada mesmo sem degraus.
Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e preocupação. Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros frustrados. Como não previmos que os pais adoecem e precisariam da gente?
Nos arrependeremos dos sofás, das estátuas e do acesso caracol, nos arrependeremos de cada obstáculo e tapete.
E feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte, e triste do filho que aparece somente no enterro e não se despede um pouco por dia.
Meu amigo José Klein acompanhou o pai até seus derradeiros minutos.
No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama para a maca, buscando repor os lençóis, quando Zé gritou de sua cadeira:e
— Deixa que eu ajudo.
Reuniu suas forças e pegou pela primeira vez seu pai no colo.
Colocou o rosto de seu pai contra seu peito.
Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo câncer: pequeno, enrugado, frágil, tremendo.
Ficou segurando um bom tempo, um tempo equivalente à sua infância, um tempo equivalente à sua adolescência, um bom tempo, um tempo interminável.
Embalou o pai de um lado para o outro.
Aninhou o pai.
Acalmou o pai.
E apenas dizia, sussurrado:
— Estou aqui, estou aqui, pai!
O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua vida é que seu filho está ali. "
(Autor desconhecido)
quarta-feira, 23 de março de 2022
China Faces Worst Crop Conditions Ever Due to Climate Change(Bloomberg News, 23 3 22)
China Faces Worst Crop Conditions Ever Due to Climate Change
The country’s agriculture minister said last year’s record-breaking floods have created “big difficulties” with food production
Harvested rice is deposited in a grain hauler tractor in Shanghai.Photographer: Qilai Shen/Bloomberg
Bloomberg News
23 de março de 2022 00:00 BRT
More extreme weather caused by rising global temperatures — compounded by geopolitical turmoil and the pandemic — is hindering China’s effort to ensure food supplies for its 1.4 billion population.
President Xi Jinping has made food security a priority for the world’s second-biggest economy, an effort to meet the soaring demand that’s pushed imports of corn, soybeans and wheat to record levels, making Beijing increasingly vulnerable to trade tensions and supply shocks. At the same time, climate change-induced disasters have caused widespread crop damage and shrunk the amount of arable land, making it harder to boost local production.
Tang Renjian, the country’s agriculture minister, brought up the threat at a high-profile government meeting in Beijing this month. “China faces big difficulties in food production because of the unusual floods last autumn,” he told reporters. “Many faming experts and technicians told us that crop conditions this year could be the worst in history.”
More than 860 people died or went missing in natural disasters last year, which damaged almost 30 million acres of crops. Record-breaking rains in the central province of Henan in July alone damaged 2.1 million acres of farmland. The floods delayed planting on more than 18 million acres of land, about one-third of China’s total winter wheat acreage. The amount of first- and second-grade crops, where there are more than 2.7 million seedlings on every acre of land, fell by more than 20% this year compared with normal years.
Climate change hurts China’s pursuit of food security in two ways, according to Zhang Zhaoxin, a researcher with the agricultural ministry. More frequent extreme weather events are already lowering crop yields. Meanwhile, increasingly unpredictable seasons can undermine farmers’ confidence and potentially worsen the sector’s existing labor shortage.
Farmers in northern China are used to droughts, not floods, Zhang said. In many of the regions that were affected by torrential rain last year, farmers couldn’t harvest their corn because their machinery couldn’t handle the water. There wasn’t enough infrastructure such as pipes and systems to drain the field in time.
Those issues are set to get more serious as the planet warms. Seasonal droughts will reduce yields of China’s three major staple foods — rice, wheat and corn — by 8% by the end of the decade, according to World Resources Institute. In the longer term, climate change also means rising coastal waters along the long and low eastern coal could further stress the agricultural industry.
“As climate change continues to intensify in coming years, weather events are going to have a greater and greater impact on agricultural productivity,” said Even Pay, an agricultural analyst with Trivium. Ramping up imports isn’t a viable alternative, she added, pointing out that global warming makes food cultivation more challenging globally. “Climate change felt in the rest of the world could also impact China’s food security,” she said.
-- With assistance by John Liu and Karoline Kan
sábado, 19 de março de 2022
Como a matemática pode predizer o futuro(Folha de S. Paulo, 19 3 22)
Como a matemática pode predizer o futuro
sábado, 19 de março de 2022
Jornal Folha de S. Paulo | Folha Corrida | Murilo Bomfim
A quem pertence o futuro? Para a ciência, à matemática -ela nos oferece algumas formas de predição, sobretudo por meio das probabilidades. Um exemplo clássico é o jogo de cara ou coroa: ao lançar uma moeda para o alto cem vezes, espera-se que, em metade das ocasiões, ela caia com o lado cara para cima (e, na outra metade, o lado coroa, é claro).
Sabe-se, no entanto, que essa previsão não é muito precisa. Se de fato se lançasse a moeda uma centena de vezes, talvez o lado cara aparecesse em 46 das ocasiões. Ou em 58. Essa variação também não escapa à matemática: é analisada pela chamada distribuição normal. O conceito é bem ilustrado por um gráfico -a curva de Gauss- que mostra, nesse exemplo, as oscilações mais prováveis da moeda (por exemplo, quarenta caras e sessenta coroas) e as mais improváveis (como oitenta caras e vinte coroas).
Mas prever a face aparente da moeda não é tão difícil, afinal as opções são apenas duas. Como antever o comportamento de sistemas mais complexos, que dependem de muitas variáveis, como o organismo humano ou uma colônia de bactérias? Essa é a pergunta que orienta a pesquisa do matemático Dirk Erhard.
Apaixonado por probabilidade, o próprio Erhard foge à curva de Gauss: são raros os matemáticos medalhistas em salto de trampolim. Nascido e criado em Berlim, aos sete anos ele foi descoberto por um caça-talentos de ginástica olímpica. Depois de quase uma década de treinamentos intensos, o jovem percebeu que o sonho de ser campeão mundial em trampolim seria eternamente um sonho. 'Eu não era ruim, mas sabia que não era bom o suficiente para chegar ao topo', lembra o alemão. Entre os 11 ? 0S 17 anos, ele chegou a ser pentacampeão da modalidade na Alemanha -ele diz, porém, que a categoria juvenil não revela muito sobre o potencial do atleta.
Com baixas chances de se tornar um ginasta de sucesso, ele apostou suas fichas namatemática. Erhard é tão improvável que, nos primeiros anos de graduação, não gostava de probabilidade. À época, tinha afinidade mesmo com análise funcional - disciplina que trata do estudo das funções. Em um intercâmbio em Paris, o rapaz deu sorte: teve aulas com um ótimo professor, que explicava, justamente, as intersecções entre a análise funcional e a probabilidade. 'Foi a melhor disciplina que tive na vida, ensinada de uma maneira fácil de entender', lembra o matemático, que ãg top por seguir carreira acadêmica na área.
Entre mestrado, doutorado e programas de pós-doutorado, Erhard passou pela Alemanha, França, Holanda e Inglaterra, até finalmente chegar ao atual trabalho de professor na Universidade
Federal da Bahia -a ideia era ficar mais perto da família da esposa baiana, por quem se apaixonou nas andanças europeias. Mesmo morando em vários países, o matemático se dedicou a uma mesma investigação: tornar predições mais simples, principalmente de sistemas complexos. Em vez de analisar lançamentos de moeda, Erharâ se concentra em sistemas com diversas partículas que interagem entre si e apresentam comportamentos diferentes em pontos distintos do tempo e do espaço.
A pesquisa ainda tem caráter teórico, mas mostra seu potencial quando aplicada a situações práticas, ainda que hipotéticas. Um exemplo seria um lago amplo e profundo, onde peixes se reproduzem e, para isso, precisam de uma temperatura ideal. Em cada ponto do lago, a temperatura vai ser um pouco diferente, influenciada por variáveis como profundidade, incidência do sol, presença de cardumes. Erhard trabalha na criação de um modelo matemático que facilite a previsão da temperatura nas diferentes regiões do lago.
Enquanto o alemão investiga o movimento de partículas, ao menos uma possibilidade mais concreta de aplicação de seus estudos já esteve em pauta. 'Há alguns meses, tive uma conversa com um grupo de físicos que buscam entender mais sobre o cérebro humano', conta Erhard. Se será possível prever comportamentos do cérebro, ainda não se sabe -mas, se depender do matemático, a probabilidade é grande.

