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terça-feira, 28 de setembro de 2021

Leandro Karnal - A biblioteca do fim do mundo?

 Leandro Karnal - A biblioteca do fim do mundo?

domingo, 26 de setembro de 2021 


 

O Estado de S. Paulo  / Na Quarentena

Leandro Karnal


O tema começa comigo. Cheguei a ter mais de dez mil livros. Uma vida comprando, ganhando e escrevendo tomos e mais tomos. Foram guardados com zelo e cresceram como coelhos libidinosos e férteis. Usaram as estantes, invadiram a parte inferior da cama, acumularam-se na escrivaninha. Foram se erguendo em torres. Não importava quão amplo era o espaço para o qual eu me mudava: os livros zombavam da minha ascensão geográfica e superpovoavam o novo território. Houve um dia, há alguns anos, que eu decidi não morar mais em um sebo.


Havia uma novidade além da falta de espaço. Eu contei quantas vezes eu tinha aberto os dicionários físicos nos últimos anos. Escrevo consultando todo tipo de glossário, léxico e referências, pois tenho dúvidas a todo instante. Percebi, porém, que só utilizava versões virtuais. E lá estavam eles, os solenes dicionários da língua portuguesa e de outras línguas, enfileirados, volumosos e com seu poder magnético para poeira. Tomei a decisão e doei 17 deles para


bibliotecas públicas. Mantive os mais antigos, como o Dicionário Analógico do Pe. Carlos Spitzer e os velhos volumes do Caldas Aulete. Reduzi de 27 Bíblias para 6. Doei todos os atlas, inumeráveis. Golpe de misericórdia, esvaziei minha sala da Unicamp e repassei milhares de volumes sobre História da América para pesquisadores da área. Que sigam iluminando outros como a mim foram luz contra minha ignorância. Que sirvam a mais gente. A minha biblioteca foi evaporada pela mudança tecnológica e bibliográfica.


Há três anos eu estava na British Library de Londres. De repente, eu percebi algo naquele novo prédio ao lado da estação Saint Pancras (São Pancrácio). Nos andares que percorri, todos estavam estudando com seus computadores, ninguém com livros. O volume físico existia naquele espaço, todavia todos queriam o Wi-Fi, o aquecimento e, talvez, acesso aos volumes digitalizados de quando em vez.


Por séculos, uma biblioteca foi um coroamento da civilização. Existiam nas sedes do império, como a já citada Britânica, a de Paris ou a do Congresso, em Washington. A destruição de uma grande coleção de livros era chorada por séculos. O Nome da Rosa, de Umberto Eco, ficcionaliza a tragédia de uma imensa torre-biblioteca em chamas. Queimar]livros é o sinônimo máximo da barbárie. O poeta Heinrich Heine profetizou que aqueles que ateassem fogo a obras publicadas acabariam queimando pessoas. Inquisidores haviam feito isso. Nazistas reforçaram a veracidade profética da frase.


O incêndio da biblioteca de Alexandria é um debate. Fogo ateado por Júlio César ao afirmar seu poder no delta do Nilo? Por cristãos? Por islâmicos? Temos relatos tão variados que podemos considerar viável a hipótese de que a acusação do incêndio seja uma peça de propaganda contra algum inimigo. Derek Flower estudou a biblioteca supostamente incendiada, desde seus relatos eruditos da antiguidade (Biblioteca de Alexandria, ed. Nova Alexandria) até hoje, com o novo prédio do governo egípcio. Lilia M. Schwarcz pesquisou outra biblioteca seminal, desta vez no Brasil: em A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis (Companhia das Letras), pode-se descobrir como a Real Coleção de Livros de Portugal atravessou o oceano e gerou a atual Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro.


Devastadas por tragédias como terremotos, destruídas por fanáticos, atacadas nas guerras: as bibliotecas são frágeis. Lembro-me de outro belíssimo espaço de livros no Brasil para indicar mais uma análise: o Real Gabinete Português de Leitura. É um dos lugares mais lindos do mundo para contemplar o amor da civilização aos livros impressos. Prédio lindo por fora e impactante por dentro. Fui muitas vezes. Entram e saem pessoas, fotografam. . . e vão embora. Virou um imenso wall paper ou um fundo de selfie. . . Sim, há leitores, claro, porém em número muito menor. Não queimamos mais bibliotecas, apenas não ligamos muito para elas, ao passo que postamos e postamos e postamos. Curiosamente, nas mãos de todos nós, estão bibliotecas inteiras, as maiores que o mundo já viu. Cada celular acessa edições completas e de domínio público da Divina Comédia ou de qualquer obra de Machado de Assis. Tudo o que já foi escrito e impresso pode ser verificado ao toque de um dedo. À memória de um bom celular e o auxílio da Nuvem, essa entidade nova e onisciente, transformam cada proprietário de um smartphone em um possuidor do saber universal para preencher muitas vidas.


Temos tudo ao alcance do indicador. Como o Deus barbudo do teto da Capela Sistina, estendo meu braço e surge não um novo Adão, todavia toda a humanidade e seu saber. Amparado pelos anjos chamados conexão, serafins de bites e querubins de memória, posso ler ou até ordenar que minha biblioteca manual fale por si, caso meus olhos fiquem exauridos. Nunca conseguimos tanto. Jamais fomos tão longe. Resta uma melancolia como se cumpríssemos o poema de T. S. Eliot de um mundo que expira 'não com uma explosão, mas com um suspiro'. Talvez seja uma notificação de que há mensagem, mais do que um poético suspiro. Querida leitora e estimado leitor: como anda sua biblioteca? PS: Dia 30 de setembro é dia de São Jerônimo, padroeiro de tradutores, secretários e. . . de todas as bibliotecárias e bibliotecários do mundo.


"Cada proprietário de smartphone se torna um possuidor do saber universal"


É HISTORIADOR, ESCRITOR, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, AUTOR DE 'A CORAGEM DA ESPERANÇA, ENTRE OUTROS

domingo, 27 de junho de 2021

O tempo entre as doses(Fernando Reinach, Estado, 26 6 21)

 O tempo entre as doses

sábado, 26 de junho de 2021 


 

O Estado de S. Paulo  / Metrópole

FERNANDO REINACH N


Aos trancos e barrancos, a velocidade da vacinação no Brasil está aumentando. Os governos estão prometendo vacinar uma fração cada vez maior da população em prazos cada vez mais curtos. Essa é uma ótima notícia, mas infelizmente o foco tem sido ministrara primeira do se e não completar a imunização com duas doses. A quantidade de pessoas vacinadas com uma dose já é quase três vezes maior que as vacinadas com duas e a diferença vem aumentando.


O aumento do tempo entre doses foi uma iniciativa do Reino Unido logo no início da vacinação. Mas por lá já perceberam que essa estratégia não é a mais adequada para lidar com as novas variantes, principalmente a Delta que surgiu na Índia. Vou tentar explicar as razões.


As vacinas funcionam porque forçam nosso sistema imune a entrar em contato com fragmentos do vírus incapazes de causar a doença. Após a injeção, nosso corpo produz uma resposta imune que combate rapidamente o vírus. Todas as vacinas disponíveis usam fragmentos do vírus original (e não de variantes) para induzir a resposta imune. As mais efetivas têm taxas de proteção que beiram 95% contra o vírus original. Acontece que o vírus está se modificando e as novas variantes estão ficando diferentes da linhagem original usada para produzir as vacinas. Nessas condições, a proteção que as


vacinas fornecem contra as novas variantes depende de nossa resposta imune (induzida contra o vírus original) ser capaz de reconhecer essas variantes e combatê-las.


Quando os resultados dos estudos de fase 3 das primeiras vacinas indicaram que elas tinham eficácias muito altas após as duas doses, os ingleses decidiram que em vez de utilizar 3a 4 semanas entre as doses, as vacinas de alta eficácia poderiam ser ministradas com uma maior separação entre as do


ses. Alógica era que uma dose ministrada em um número maior de pessoas seria mais eficiente no contro leda pandemia que duas doses ministradas em um número menor de pessoas. Assim foi feito e inicialmente funcionou.


Com essa estratégia, o Reino Unido conseguiu rapidamente vacinar quase 60% da população com a primeira dose, atrasando a segunda. Mas logo surgiu a primeira variante, infecciosa e causadora de uma doença mais séria, e os cientistas ingleses perceberam o risco de adiar a proteção máxima obtida somente com as duas doses. Após um longo debate, mudaram a estratégia e começaram a acelerar a aplicação da segunda dose. Essa foi uma decisão correta, pois agora a variante Delta, da Índia, chegou ao Reino Unido e em poucas semanas se tornou responsável por 99% dos casos. Quando os cientistas estudaram a proteção oferecida pelas vacinas de alta eficácia contra a variante Delta, observaram que uma única dose produz uma proteção muito limitada contra essa variante e agora as duas doses são essenciais.


Essas descobertas demonstram que o vírus se altera rapidamente, as novas variantes se espalham rapidamente e as estratégias utilizadas com sucesso em um dado momento podem levar ao fracasso alguns meses depois. O que sabemos hoje é que duas doses das vacinas de alta eficácia como AstraZeneca, Pfizer e Moderna, são capazes de nos proteger de todas a variantes que já surgiram. Por quanto tempo isso será verdade é uma incógnita.


No Brasil, como não somos capazes de monitorar as variantes que estão circulando, a estratégia de aumentar o tempo entre as doses é arriscada e pode retardar o controle da pandemia. É bom lembrar que o objetivo deve ser vacinar o mais rapidamente possível a população com duas doses, utilizando de preferência vacinas de alta eficácia. Como sempre o Brasil é lento, chega tarde à festa, e paga um preço por sua incompetência.


O objetivo deve ser vacinar o mais rapidamente possível a população com duas doses


É BIÓLOGO, PHD EM BIOLOGIA CELULAR E MOLECULAR PELA CORNELL UNIVERSITY E AUTOR DE A CHEGADA DO NOVO CORONAVÍRUS NO BRASIL; FOLHA DE LÓTUS, ES


CORREGADOR DE MOSQUITO, ; E A LONGA MARCHA DOS GRILOS CANIBAIS

segunda-feira, 29 de março de 2021

Rabino Bonder lança livro sobre casamento, cabala, -sexo e reflete sobre pandemia(Estado, 29 3 21)


 Hoje está todo mundo mal sexualmente, reflete rabino Bonder ao lançar livro sobre cabala e sexo

MARCH 29, 2021


Rabino não ortodoxo em exercício há mais tempo em solo brasileiro, Nilton Bonder transcende as fronteiras do judaísmo. Com mais de um milhão de livros vendidos, consultado por Luciano Huck e outros famosos, lança, neste mês, Cabala e a Arte de Apropriação do Sexo, pela editora Rocco.


Bonder vê erotismo na genuína vontade de construir uma vida a dois – desde ter filhos, cachorros ou apenas momentos para constar em álbum de família – o que chama de nubilidade. “Há um desacolhimento no casamento, mas ele nunca perdeu o seu erotismo”, afirma, relativizando a sexualidade moderna e o estilo de vida que celebra a busca pelo prazer sexual. No livro, ele usa histórias e parábolas para ajudar as pessoas a se fazerem perguntas melhores e a se localizarem no xadrez de suas relações pessoais. “Já vi esse tabuleiro sendo jogado por muita gente.”


Para ele, hoje quem está no lugar de sair pelo mundo em busca de parceiros está mal. Quem está casado também vive situações exageradas, porque está preso em casa, com outra pessoa que tem hábitos, maneiras de ser diferentes. “Na pandemia, tudo fica exacerbado. Então, todo mundo está mal sexualmente”. Mas ele entende, porém, que “passar ao largo do sexo não atende a natureza”.


O rabino vê o sucesso da cabala como resultado da grande demanda das pessoas por significado profundo em suas vidas. “As pessoas estão preocupadas com libido e gênero, liberdade para o gênero e para libido. O nosso mundo não vive bem a sexualidade, apesar das pessoas transarem muito mais ou nem sei se transam. E existem tantas outras possibilidades de viver isso virtualmente, sozinho, dá menos trabalho, custa menos, tem menos chance de dar problema”.


Na congregação que lidera no Rio, onde homens e mulheres desempenham papéis semelhantes no serviço religioso, acumula a experiência de lidar com casais em todas as fases: os que vivem a epifania do sim que sela o enlace; os que passam pela crise de meia-idade; os já nos dissabores da separação e ainda aqueles que perderam o cônjuge após uma vida inteira. A seguir, os principais trechos da entrevista à repórter Paula Bonelli, por videoconferência.


Sexo tem a ver com religião? Como seria isso?


Tudo. Eu sei que a gente tem muito essa noção que vem do celibato, de que o sacerdote tem que ficar longe da sexualidade para poder ser uma pessoa espiritualizada, mas isso não tem nada a ver com a tradição judaica. O rabino é obrigado, literalmente, a ter uma vida sexual. A obrigatoriedade de satisfazer o seu parceiro é parte do vínculo do casamento. Claro que a conotação muitas vezes é ligada à maternidade, à procriação, não tanto nessa mentalidade moderna de sexo livre para aproveitar a vida. Mas está contemplado ali que é desumano ao ser humano não ter uma dimensão de sexualidade saudável.


Seria porque é próprio do humano não querer ficar só, procurando o sexo então com o fim de mitigar a solidão?


Um pedaço da sexualidade é isso. Eu estou tentando trazer alguns elementos que são bastante novos. A sexualidade tem quatro componentes: a libido, a intimidade, gênero e um quarto que é da ordem espiritual, a nubilidade, que seria traduzido como casamento, mas é mais profundo porque é um lugar onde você deseja construir alguma coisa permanente com o parceiro, onde você quer ancorar filhos, uma casa, um futuro, mais segurança de contar com alguém. Essas quatro dimensões são eróticas. O gênero é a escolha deliberada de quem é seu parceiro e que passa a fronteira do sexo binário. E a nubilidade é um elemento bastante novo de olhar, o desejo de se casar é erótico.


O modelo do casamento vive sendo questionado.


O gênero é questionado pelos mais conservadores. Os mais liberais questionam normalmente a nubilidade, dizendo que ninguém precisa mais disso, que são construções do passado, uma maneira de oprimir. Ou as pessoas que simplesmente querem dizer, “eu não quero ter filhos, quero viver, ser solteiro, essa é minha escolha”. O mundo hoje tem uma questão com a nubilidade. Tão grave no sentido oposto, de desacolhimento do casamento, mas a nubilidade nunca perdeu o seu erotismo.


O que acontece quando as pessoas se casam e não são núbeis?


Elas não estão tendo literalmente prazer em se entregar daquela maneira, em querer fazer essa aposta, não têm tesão nisso, vão começar a contrapor dizendo “caramba, por conta do casamento agora vou ter que conter a minha libido, vou ter que segurar outras coisas que eu gostava de fazer. Esse casamento terá muita dificuldade de sobreviver com o passar do tempo. A característica da nubilidade não é tanto o parceiro ser bonito, ser gostoso, tem prazer nos aspectos espirituais, mas é tão prazerosa do ponto de vista do gozo nos seus aspectos espirituais como é fisicamente a libido.


O casamento estaria então mais ligado à procriação, ao afeto ou ao prazer?


A sexualidade é a maneira pela qual a natureza faz você querer sexo. A natureza quer. Assim como a natureza quer que você tenha fome e coma, e fique vivo, a natureza quer que você goste de sexo, que sexo esteja presente.

Muitos estão preocupados, cansados, vivendo ao largo do sexo. As pessoas estão doentes?

Não, doentes não, a gente tem que cuidar, porque a sexualidade está ligada à mãe natureza. Ela é conectada com a alegria, com a ambição. Se não cuidar da sua sexualidade, você deprime.


Nessa sua reflexão, o prazer erótico não se limita ou não à relação sexual?


Existem casais que às vezes tem pouca sexualidade libidinal nesse lugar físico, então têm relações físicas uma vez por mês, semestre, na última década, mas muitos casais têm prazer erótico, excitação núbios. O indivíduo que transa toda noite, ele olha para esse casal e diz, “coitados deles”. Mas talvez eles tenham uma relação de sexualidade mais adequada e extremamente ativa, porque ali existem aspectos de intimidade muito mais ricos.


Existem diferentes maneiras de construir o desejo sexual?


Sim, vai construir pela ambição, o desejo de achar que um parceiro que seja esse sócio sexual da sua existência. Isso é recorrente. Tem pessoas que se rebelam, pensam não vou cair nessa armadilha.


O que acontece na pandemia com os dois desejos, o de estar junto e o sexual?


A pandemia é um momento grave, em que todo mundo ficou restrito, limitado, em carência total. Quem está nesse lugar de sair pelo mundo em busca de parceiros está mal. O lugar das nubilidades ficou muito exagerado. Os aspectos negativos, o fato de ter que morar com alguém que tem hábitos, tem maneiras de ser diferentes, e você tem que acomodar. Tudo isso fica exacerbado. Então todo mundo está mal sexualmente.


O casamento oferece uma identidade?


Dá uma identidade, dá raízes, e dá continuidade, ancestralidade. Porque pare para pensar o que vai acontecer com esse todo mundo dizendo “eu cuido de mim, tá muito bom, deixa comigo…” Não tem ancestralidade. Todo mundo nasce de alguém, mas não tem esse lugar que era das fotografias da vovó e do vovô. Quando tem filhos, dentro dessa construção, você entrega para eles uma riqueza de propósitos, tem ramificações por todas as áreas da vida. Há uma riqueza gigantesca nessas construções de nubilidade.


E o que você acha desse consumo da cabala hoje, o qual às vezes não é muito espiritual, é uma coisa meio da moda?


A cabala virou Coca-Cola, Pepsi-Cola, entendeu? Existe uma demanda real, não quero menosprezar essas experiências, mas existe uma demanda das pessoas por propósito, por significado nas suas vidas, até porque o individualismo empobreceu as pessoas e elas não se dão conta disso.

sábado, 24 de outubro de 2020

É positivo o decreto que separa alunos com deficiência?(FSP, 24 10 2020)

É positivo o decreto do governo que possibilita separar alunos com deficiência em escolas especiais?


sábado, 24 de outubro de 2020 


  

Folha de S. Paulo  / Opinião


Não Retrocesso de décadas


Segregar é ignorar potenciais e limitar o desenvolvimento como ser humano


José de Araújo Neto Psicólogo, é fundador e presidente da AME (Associação Amigos Metroviários dos Excepcionais), entidade que há 30 anos realiza ações e projetos voltados à inclusão social


O decreto 10.502, publicado pelo governo federal no final de setembro, foi uma covardia e uma grande injustiça cometida contra as pessoas com deficiência no Brasil.


Construído na surdina e sob a influência de interesses estranhos aos anseios dessa população, o documento representa um escandaloso retrocesso frente aos esforços de inclusão empreendidos por diferentes atores ao longo dos últimos anos. Com o objetivo de instituir uma nova Política Nacional de Educação Especial, o decreto resgata visões e práticas ultrapassadas que desrespeitam os direitos humanos e são flagrantemente inconstitucionais. Em vez de estimular a inclusão das pessoas com deficiência, a adoção dos princípios contidos no texto vai ampliar a exclusão e o preconceito sofridos diariamente por elas.


Da forma como foi assinado, o decreto 10.502 se contrapõe às políticas inclusivas inscritas na Constituição de 1988, que assegura a todos os brasileiros o direito universal à educação, sem distinção de qualquer natureza. Além do texto constitucional, o documento viola também a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, aprovada no âmbito das Nações Unidas em 2007 e transformada em lei no Brasil por meio do decreto 6.949, de 25 de agosto de 2009.


Como se não bastasse, anova abordagem sugerida contraria todos os consensos pedagógicos e científicos a respeito da educação das pessoas com deficiência. Nos últimos anos, a sociedade global evoluiu muito no entendimento dessa questão, e hoje podemos afirmar com segurança que a educação de crianças e adultos com qualquer deficiência, seja física ou intelectual, deve acontecer nas escolas regulares e nas mesmas classes dos demais alunos.


Sob o falso argumento da "liberdade de escolha", os que se dizem favoráveis ao decreto parecem ignorar o histórico de discriminação e segregação que temos combatido por décadas. Impermeáveis aos argumentos amparados por fatos, dados e evidências, eles esquecem dos tempos em que havia resistência das escolas para aceitar alunos com deficiência. Graças à mobilização social, à pressão dos especialistas e ao reconhecimento das autoridades, traduzido em leis e regulamentações, essas barreiras vêm sendo progressivamente quebradas, com resultados positivos não apenas para as pessoas com deficiência, mas também para suas famílias, suas escolas, seus colegas e o conjunto da sociedade.


Hoje, perto de 90% dos estudantes com deficiência ou transtornos de desenvolvimento estudam em escolas regulares. Esse índice só pôde ser alcançado a partir da adoção de políticas públicas inclusivas nas redes de ensino comum. Chega a ser desumano propor tamanho retrocesso em uma área em que, apesar dos percalços, temos sido muito bem-sucedidos.


Ultimamente temos visto inúmeras iniciativas destinadas a valorizar a diversidade e a representatividade de minorias nas empresas. Ora, promover a inclusão das pessoas com deficiência faz parte desse mesmo processo. Sabemos que a jornada é longa, trabalhosa e requer esforços de todos. Por isso mesmo é inadmissível retroceder.


Segregar a pessoa com deficiência em escolas ditas especiais é ignorar o seu potencial, limitando o seu desenvolvimento como ser humano. A experiência recente é enriquecedora e tem contribuído para equiparar as oportunidades de acesso a uma educação de qualidade. Impedir que eles exerçam, na plenitude, seu direito à educação não é só errado: é cruel e desonesto.


Sob o falso argumento da "liberdade de escolha", os que se dizem favoráveis ao decreto parecem ignorar o histórico de discriminação e segregação que temos combatido por décadas. (...) Essas barreiras vêm sendo progressivamente quebradas, com resultados positivos não apenas para as pessoas com deficiência, mas também para suas famílias, suas escolas, seus colegas e o conjunto da sociedade


Sim Direito educacional


Falta de classes específicas marcou evasão escolar da comunidade surda


Patrícia Rezende Doutora em Educação pela UFSC, é professora associada do curso de pedagogia no Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines) e ativista surda pelas Escolas Bilíngues de Surdos; autora de 'Implante Coclear: normalização e resistência surda' (ed. CRV)


Qual o lugar de fala de quem responde "sim" à questão proposta? Sou professora, doutora em educação, uma das lideranças surdas de uma minoria linguística de nosso país. Um resgate histórico do que os surdos vivenciaram ao longo da última década explica o nosso "sim".


Na realização da Conae 2010 (Conferência Nacional de Educação), os seis delegados surdos, em um universo de mais de 3.000 delegados ouvintes, foram vaiados e tachados de segregadores quando apresentaram a proposta para que as escolas bilíngues de surdos fossem mantidas.


Esse não foi um episódio isolado. Sentimos o impacto das decisões unilaterais dos então dirigentes do MEC quando ameaçaram fechar o Ines (Instituto Nacional de Educação de Surdos), em 2011. Só não foi fechado porque o movimento surdo, no mesmo ano, marchou para Brasília em manifestação histórica. No Conade (Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência), protestamos contra a ameaça de fechamento do Ines e de várias escolas de surdos pelo Brasil afora.


Durante a tramitação do Plano Nacional de Educação (PNE), a comunidade surda pediu o apoio a diversos parlamentares para a inclusão de escolas e classes bilíngues de surdos no PNE. Sofremos boicotes e lobbies por parte dos inclusivistas e da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi/MEC).


Participamos de várias audiências públicas sobre o PNE. Paralelamente, em todos os estados e no DF, entregamos ao Ministério Público Federal uma carta-denúncia contra a então Secadi por ter promovido uma evasão escolar recorde dos alunos surdos, com fechamento de escolas e classes específicas, conforme demonstrado nos dados do censo escolar do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), de 2006 a 2010, fato ratificado pelo próprio Inep na redação do Enem, em 2017.


Por que a evasão escolar? Os alunos, ao se depararem com o fechamento de escolas e classes específicas, impostos pela política de educação inclusiva vigente, não se adaptaram à nova realidade, onde as aulas não são ministradas na língua de sinais.


O decreto 10.502 contempla nosso anseio por escolas e classes bilíngues de surdos, cuja língua de comunicação, instrução, ensino e interação é a libras (Li, da maioria dos surdos), e o português escrito (L2, dos surdos) é a língua dos materiais instrucionais. Estes são os melhores espaços acadêmicos para o aprendizado real. Promovem a formação da identidade linguística da comunidade surda, conforme emana a Convenção sobre Direitos das Pessoas com Deficiência.


Se a convenção nos garante o direito a uma educação condizente com nossa identidade linguística, por que esses espaços de aquisição linguística e convivência mútua entre os pares sinalizantes da língua de sinais têm sido rondados de segregação?


Os candidatos surdos, ao longo de vários anos de edição do Enem, reivindicaram a tradução das provas do certame em Libras, mas o Inep negou, por anos. Por isso, a Feneis (Federação N acionai de Educação e Integração dos Surdos) entrou com ação judicial em 2014. Fomos vitoriosos. A partir de 2017, as provas do Enem passaram a ser traduzidas em libras para os candidatos surdos.


Os surdos foram bem-sucedidos na realização das videoprovas do Enem em Libras, em 2017? Não! O problema não está na Libras, está no parco conhecimento adquirido pelos surdos, ao longo de uma educação escolar oferecida sob a imposição da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (2008), que desrespeitou nossos direitos linguísticos e prejudicou a aprendizagem e desenvolvimento escolar dos surdos. É hora de mudar e fazer valer nossos direitos linguísticos e educacionais.


O decreto 10.502 contempla nosso anseio por escolas e classes bilíngues de surdos. (...) Estes são os melhores espaços acadêmicos para o aprendizado real. Promovem a formação da identidade linguística da comunidade surda, conforme emana a Convenção sobre Direitos das Pessoas com Deficiência

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Pais neuróticos, crianças nervosas, pessoas em risco(Estado, 6 10 20)

 

Pais neuróticos, crianças nervosas, pessoas em risco

COLUNISTAS

terça-feira, 6 de outubro de 2020 


  

O Estado de S. Paulo  / Espaço Aberto


Ivone Zeger


A extensão da crise econômica provocada pela covid-19 e as medidas de isolamento para conter a pandemia são apenas parcialmente conhecidas até agora. Sabe-se, entretanto, que serão bem desastrosas. Por exemplo, cerca de 7,8 milhões de vagas de trabalho deixaram de existir no Brasil até maio, de acordo com o IBGE. Além da economia, outro aspecto que vem chamando a atenção de pesquisadores do momento atual é o número crescente de divórcios. As causas são até conhecidas: o convívio familiar intenso por causa do home office e das crianças sem aulas presenciais, as mudanças repentinas e forçadas de hábitos, o impedimento de passeios e viagens de férias. Para muitas pessoas, dizer que abriram as portas do inferno faz todo o sentido.


Esse contexto é como uma faísca incendiária em duas questões já polêmicas no dia a dia do Direito de Família: a obrigação de alimentos e a guarda dos filhos. De fato, a obrigação de alimentar os filhos é algo tão natural e óbvio e as leis que norteiam essa obrigação são tão explícitas que não deveria haver polêmica alguma. Quando há filhos, quem paga e o quanto paga de pensão alimentícia são determinações que devem constar nos acordos de divórcio ou dissolução de união estável. A pensão alimentícia deve cobrir todas as necessidades de crianças e jovens. Há tempos, cunhei a sigla Maltes, em que cada letra aponta uma necessidade, facilitando a compreensão da amplitude da pensão alimentícia: moradia, alimentação, lazer, transporte, educação e saúde. A obrigação prevalece até o jovem completar 21 anos ou com o término de curso superior, dependendo de acordos firmados.


Não é fácil definir acordos de pensão alimentícia quando um dos pais está desempregado ou sem recursos, mas a perda de emprego ou de contratos, no caso de autônomos, não isenta os pais da obrigatoriedade de prestar alimentos. Dos que têm essa responsabilidade espera-se que alguma reserva monetária tenha sido providenciada para dias mais difíceis. Afinal, casados ou não, morando com filhos ou não, a vida segue e as demandas dos filhos também. No Brasil, o direito de filhos menores a receber pensão alimentícia precisa da força da lei e, como se sabe, ainda que exista previsão de detenção para pais inadimplentes, os casos de não pagamento são recorrentes. No País o abandono afetivo e material dos filhos envolve o aspecto cultural e econômico. No contexto atual somam-se os fatores e a situação pode se agravar. Importante lembrar, também, que divórcios e separações demandam recursos extras para a montagem de outro lar, além de novo lote de contas para pagar.


Aos pais e mães que já estavam divorciados e estão fazendo contas que não fecham, ou seja, com dificuldades para pagar a obrigação alimentar, ou que perderam renda de fato e acreditam que o outro genitor esteja em situação financeira melhor, com perspectivas de ganhos mais seguras, é facultado recorrer ao pedido de revisão de pensão, com o objetivo de diminuir ou aumentar valores acordados.


Quanto à guarda das crianças, as duas modalidades mais comumente aplicadas são a unilateral - em que um dos genitores tem toda a responsabilidade legal sobre a criança e reside com ela - e a compartilhada, em que os dois genitores são os responsáveis legais e a criança tem residência fixa com um deles. Nas duas modalidades a criança convive com o outro genitor nos dias e horários acorda- dos. A questão é: como estipular e cumprir o regime de guarda, as datas e o horário de visitas ou convívio, em meio a um isolamento social em que um dos maiores problemas das famílias tem sido justamente quem fica com as crianças? Os pais, casados ou divorciados - pelo menos dita o bom senso na pandemia -, não podem recorrer a avós e babás. Berçários, creches e escolas estão fechados em função das regras para evitar o contágio da covid-19. Além disso, qualquer regime de guarda prevê o deslocamento das crianças e dos jovens. Esse deslocamento, mesmo se realizado em automóveis particulares, os expõe, sobretudo em grandes centros urbanos.


Mesmo que se queira manter as crianças em casa e os pais se revezem na moradia enquanto perdurar o perigo da pandemia, o risco ainda existe. Aliás, vale lembrar que medidas como o home office foram tomadas justamente para as pessoas permanecerem em casa.


Dito assim, a separação ou o divórcio em meio à pandemia parece um contrassenso. E é justamente isso. Não só pelo risco a que ficam expostos as crianças, os jovens e seus familiares, mas também por causa da imprevisibilidade da economia. Embora seja bastante compreensível que os casais tenham seus problemas ampliados em meio ao convívio intenso dentro de casa, também é fato que essa mesma convivência pode revelar aspectos positivos de ambos e da relação. Se a hipótese mais harmoniosa não se concretiza, é tempo de refletir sobre responsabilidade, resiliência e muita paciência! Separação ou divórcio em meio à pandemia é um contrassenso, pelos riscos envolvidos


ADVOGADA ESPECIALISTA EM DIREITO DE FAMÍLIA E SUCESSÕES, É AUTORA DE 'FAMÍLIA PERGUNTAS E RESPOSTAS', 'HERANÇA PERGUNTAS E RESPOSTAS' E 'DIREITO LGBTI PERGUNTAS E RESPOSTAS' (MESCLA EDITORIAL) E-MAIL: IVONE@ZEGER.COM.BR

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Facebook reinventa o debate público(Pedro Doria,Estado, 8 5 2020)

Facebook reinventa o debate público

Sexta-feira, 8 de Maio de 2020
PEDRO DORIA
Em meio à pandemia, o risco é de que passe batido. Mas a instalação pelo Facebook de um Comitê de Supervisão é a coisa mais importante que ocorre nas redes sociais em muito tempo. O Oversight Board, como é chamado em inglês, terá a missão de avaliar tudo aquilo que de alguma forma é polêmico e é publicado no Facebook ou no Instagram. De certa forma, será um pouco Supremo Tribunal e também constituinte.

É importante porque o jogo mudou. A decisão final sobre o conteúdo que fica e o que sai deixa de ser de uma empresa do Vale do Silício, acostumada a dilemas da tecnologia, e passa às mãos de um time com formação muito mais ampla.

Advogados, ativistas de direitos humanos, jornalistas, professores. Ao todo, são 20 pessoas, gente que entende de abuso, de liberdade de expressão, de direito constitucional, de corrupção, de política, de pobreza. São divididos igualmente entre homens e mulheres e vêm de toda parte do mundo - há, inclusive, um brasileiro. O advogado e professor Ronaldo Lemos. Cada um terá mandato de três anos que poderá ser renovado em até mais duas vezes.

O Comitê é sustentado por um fundo de US$ 130 milhões e, por isso, não pode ser sufocado pela empresa.

O compromisso do Facebook é o de que ninguém lá, nem mesmo Mark Zuckerberg, reverterá uma decisão tomada pelo conjunto. No primeiro momento, pessoas poderão recorrer ao comitê no caso de uma publicação de autoria própria ser apagada. Quando a máquina estiver mais azeitada, será possível também recorrer nos casos de pedir para que algo seja retirado da rede social.

É um trabalho para lá de delicado. Como, evidentemente, haverá uma quantidade muito maior de pedidos do que o time conseguirá dar conta, eles já decidiram estabelecer prioridades. Vão prestar atenção mais em casos com impacto no mundo real. Questões relevantes para o debate público. Ou, então, discussões que ponham dúvidas nas políticas internas do próprio Facebook.

Questões polêmicas não faltarão: qual o limite entre a piada e o discurso de ódio? Quando um político publica informação de alguma maneira distorcida, o que deve ser mantido e o que não? Vídeos chocantes no momento de grandes tragédias devem ser retirados ou mantidos pela relevância jornalística? Estabelecer regras gerais é dificílimo.

A iniciativa é excelente, mas impõe dois debates que, em princípio, o comitê não será capaz de dar conta de resolver. O primeiro é o debate sobre censura. Porque o Facebook impõe uma novidade ao mundo real. Quando Constituições democráticas estabelecem a liberdade de expressão e de imprensa, o que estão dizendo em verdade é que governos não podem sair proibindo as pessoas de publicarem o que pensam.

Isso não vale para uma empresa privada. Um jornal, uma editora de livros ou o dono de um blog não são obrigados a publicar nada que não desejam, e podem apagar o que quiserem no espaço deles. Quem não pode atuar assim é o governo.

O Facebook é uma empresa privada. É só que suas páginas ocupam um espaço imenso no debate público de mais de uma centena de países. Negar espaço a alguém é limitar em muito a capacidade que uma pessoa tem de participar das discussões sobre a sociedade. Trata-se de uma empresa privada mais importante até que muitos países. Seu poder de censura, e agora o do comitê, afeta democracias de uma forma que jamais ocorreu antes.

A segunda questão é a do algoritmo. Quem escreve o código de computador que decide o que muita gente vai ver e o que ninguém verá continua sendo o Facebook. Esta também é uma forma de censura e, nela, o comitê não toca.

"O compromisso é que nem mesmo Zuckerberg reverterá uma decisão do Comitê de Supervisão"