sexta-feira, 29 de maio de 2020

Fique em casa (governo da Bahia)


No escuro contra o vírus(Celso Ming, Estado, 29 8 2020)


CELSO MING : No escuro contra o vírus

Sexta-feira, 29 de Maio de 2020 A flexibilização da quarentena em São Paulo, o epicentro da epidemia no Brasil e no auge da crise, pode passar a ideia de que a crise está passando. Mas é falsa.

O governador do Estado de São Paulo, João Doria, apresentou um programa multicolorido que pretende ser uma flexibilização inteligente do isolamento social a partir de 1° de junho, baseada na ponderação de critérios técnicos. Mas a iniciativa é uma demonstração das enormes dificuldades a serem enfrentadas na escolha de políticas públicas no meio da incerteza.

Em princípio, a flexibilização seletiva deveria se basear em levantamentos sobre o comportamento do vírus, sobre o índice de contaminação, de capacidade do atendimento da rede hospitalar e do grau de imunização da população. Foi por isso que a Organização Mundial da Saúde (OMS) vinha recomendando testes, testes e mais testes.

Mas as estatísticas disponíveis no Brasil são de uma precariedade gritante. Apenas uma ínfima parcela da população foi testada e a maioria das informações técnicas em que se basearam as decisões tomadas não passa de conjunto de hipóteses com alguma probabilidade de acontecer. O País não tem nem sequer estatísticas atualizadas sobre a real incidência de mortes causadas pelo coronavírus. Na quarta-feira, passavam de 4,1 mil as vítimas cuja causa mortis ainda aguardava diagnóstico, o que dá 16% sobre o total.

A liberação progressiva das atividades baseada em critérios geográficos é também questionável. O Município de São Paulo, por exemplo, foi enquadrado em zona laranja, que comporta início de flexibilização. No entanto, os municípios do entorno levam tarja vermelha, portanto continuam sujeitos à quarentena rígida. O programa parece não levar em conta que muita gente que trabalha em São Paulo, no comércio e nos serviços que começam a ser liberados mora nos municípios vizinhos. É o vendedor que tem casa em Guarulhos, mas trabalha num shopping de São Paulo; é o pessoal que vive no ABC, em Barueri, em Mairiporã e que tem emprego fixo em São Paulo. Como controlar esses furos?

É preciso ver, também, se o faturamento proporcionado pela abertura parcial do comércio, que exige obediência a restrições não inteiramente claras, compensará o aumento do custo fixo de manter a loja aberta. As autoridades impõem a observância de certo número de exigências prévias que, de antemão sabemos, não serão controladas nem fiscalizadas pelas prefeituras.

Enquanto isso, certos sanitaristas vêm advertindo que esses e outros esquemas de flexibilização da quarentena podem ser prematuros diante do agravamento da doença. Nesse caso, São Paulo e o Brasil acabariam por repetir o caso do Chile, cujas autoridades contavam com a pandemia em retração, reabriram a atividade econômica, mas, em semanas, passaram a enfrentar novo alastramento do coronavírus.

Enfim, as autoridades do Estado e do País estão tomando decisões de enorme gravidade praticamente no escuro. E isso acontece não porque estejam erradas - algo que nenhum avaliador tem condições de concluir com algum grau de certeza -, mas porque a precariedade do conhecimento do comportamento do vírus não clareia a estrada pela frente. Como este é um megaexercício de tentativa e erro, essas políticas podem acabar se tornando sucessão de avanços e recuos. E de muitas mortes.

» Evolução do crédito O gráfico mostra como evoluiu o crédito do sistema financeiro. O dado mais importante é o de que, em 12 meses (até abril), aumentou em 1,2% o crédito para as empresas, mas recuou em 0,9% para pessoas físicas. Com o agravamento da crise esperam-se fortes alterações nessas variações. Alguém pode perguntar por que se mede o crédito do sistema financeiro. Há outro tipo de crédito? Há, sim. Mas o crédito das empresas para outras empresas (crédito comercial) não tem medição confiável no Brasil.



Gol: Não vislumbramos nada pior do que agora(Estado, 29 5 2020)

Não vislumbramos nada que seja pior do que agora


Modelo da Gol, de baixo custo e menor exposição ao mercado internacional, tende a sair fortalecido da crise, diz Kakinoff
Sexta-feira, 29 de Maio de 2020

Luciana Dyneiwicz
ENTREVISTA Paulo Kakinoff, presidente da Gol

Com as finanças menos deterioradas que Azul e Latam, a Gol tem trabalhado internamente para atravessar a crise da covid-19. Enquanto a primeira contratou a consultoria Galeazzi para renegociar dívidas e a segunda pediu recuperação judicial nos EUA, a Gol não sentiu necessidade de medidas mais extremas - ainda que tenha visto a receita cair em 90%. "Não conseguimos vislumbrar nada que seja pior do que agora", diz o presidente da empresa, Paulo Kakinoff.

Diante desse cenário, a Gol cortou a folha de pagamentos pela metade ao reduzir jornadas e criar um programa de licença não remunerada ao qual 38% dos funcionários aderiram. Kakinoff, porém, acredita que o pior momento começa a ficar para trás e espera chegar ao fim do ano com demanda entre 65% e 80% do normal. A seguir, trechos da entrevista.

Qual a situação financeira da Gol? Há possibilidade de seguir os passos da Latam?

Como não estamos dando projeções para 2021, continua válido o que já publicamos: temos caixa para, no mínimo, até dezembro. Enxergando a crise em três fases. A primeira começou no pós-carnaval, com queda na Bolsa e dólar disparando. Essa fase vai até a inflexão das medidas de quarentena e, nela, a perspectiva é que a demanda seja dada por clientes que precisam viajar, como profissionais de saúde. A segunda fase começa com as medidas de relaxamento da quarentena. A gente estima que, nas próximas duas ou três semanas, inicie esse ciclo e que ele vá até o dia em que a sociedade diga que o problema está sob controle. Nessa fase, a demanda deve ser crescente. Estamos falando do mercado doméstico, porque o cenário internacional é pior. Projetamos chegar ao fim do ano com uma demanda entre 65% e 80% do normal, mas tem uma margem de erro importante. A terceira fase tem uma tendência de recuperação relativamente rápida da demanda. Mas aí já estamos falando em 2021.

O pior momento, então, já passou para o setor aéreo?

Não conseguimos vislumbrar nada que seja pior do que agora. A receita caiu para 10% do que era. Neste momento, estamos com 70 voos diários e, para junho, vislumbramos 100. Esses 100 vão representar de 15% a 17% do que era normal. A retomada é gradual e traz um desafio grande para as aéreas. Felizmente, entramos na crise com uma posição robusta.

Nessa fase dois, dadas as medidas de segurança sanitária, as passagens ficarão mais caras e as margens da empresa cairão?

Esses itens podem significar uma pressão adicional de custos, mas tendem a ser em proporção menor que o câmbio e a querosene. Em relação ao vale da crise, o barril de petróleo saiu de US$ 20 para US$ 35 e o câmbio está flutuando entre R$ 5,40 e R$ 5,70. Essa combinação pressiona custos e tende a ter maior impacto na tarifa.

Analistas têm apontado a Gol como a aérea mais forte para se recuperar. A empresa deve sair da pandemia com participação maior de mercado?

O momento é desafiador para todo o setor, inclusive para nós. Em termos relativos, temos uma vantagem comparativa por causa do nosso modelo de negócio: exposição menor ao mercado internacional e um modelo de baixo custo que, em um mercado deprimido, tende a sair fortalecido. Assumindo que haverá a necessidade de uma readequação de frota a um mercado menor, nossos custos para readequação são menores também. Operamos um avião com mais liquidez. Esses itens têm apontado uma posição mais robusta da companhia neste momento e consequentemente uma probabilidade maior de êxito.

No vídeo da reunião interministerial que se tornou público, o ministro Paulo Guedes disse que não haveria ajuda para aéreas. Como viu essa afirmação? O socorro do BNDES é suficiente?

Não tenho conhecimento de nenhum statement (declaração) governamental que seja diferente da estruturação da linha do BNDES. Temos falado com o governo de pautas concretos. A primeira é a possibilidade de venda antecipada de bilhetes para o governo, que não sabemos se será viabilizada. A segunda é a linha do BNDES. Em nenhum momento, colocamos o empréstimo do BNDES como condição de sobrevivência para a companhia. Poderá vir a ser uma necessidade em função de variáveis imprevisíveis neste momento.

Como vê o mercado doméstico pós-pandemia? O governo queria a entrada de novas empresas no País. Há possibilidade de que agora elas entrem por aquisições?

O setor terá um apetite menor para aquisições e investimentos. A aviação mundial foi afetada em liquidez. Deverá haver mudanças importante nos players (empresas) em relação ao pré-covid: empresas falindo, empresas que vão se juntar e empresas que vão recuar no tamanho. Mas não vejo investimentos em novos mercados ou aquisição. Haverá movimentos como esses, mas pontuais.

Pode ter quebra no Brasil?

Dada a imprevisibilidade da crise, sim, pode. Mas não acho que vá acontecer.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Avaliação do custo dos combustíveis (Décio Oddone, 27 5 2020)

27/05/2020 10:58:39 - EMPRESAS E SETORES DECIO ODDONE: A AVALIAÇÃO DO CUSTO DOS COMBUSTÍVEIS NÃO DEVE SE RESUMIR AO PREÇO NAS REFINARIAS Nas economias de mercado, os preços dos derivados do petróleo flutuam. Somente em casos extraordinários viram notícia. No Brasil, entretanto, variações bruscas ainda causam discussões que trazem prejuízos ao setor e ao País. A lei que estabelece a liberdade de preços é recente. Foi adotada em 2002, mas ainda naquele ano houve controle do custo do botijão de gás. Desde então, nem sempre os preços seguiram o mercado internacional. Durante a crise financeira de 2008, os valores da gasolina e do diesel estiveram acima dos praticados em outros mercados. Entre 2011 e 2014, por outro lado, ficaram abaixo, prejudicando a indústria de biocombustíveis. A prática é muito mais recente. Decorre da postura adotada pela Petrobras de atuar com o legítimo objetivo de maximizar o lucro. De 2015 a 2017, os preços permaneceram acima dos praticados nos países da OCDE. Assim, durante as duas últimas recessões, os brasileiros pagaram, pelos derivados de petróleo, valores superiores aos internacionais. Como é preciso que os preços reflitam o mercado e que os investimentos sejam retomados, o reposicionamento da estatal demandou uma mudança na atuação dos órgãos responsáveis pela política energética e pela regulação. A greve dos caminhoneiros acelerou o movimento. A experiência vivida desde 2002 indica que o modelo adotado, em que a Petrobras detém o monopólio de fato no refino e fornece a maior parte dos derivados, não funcionou na plenitude. O Brasil, embora tenha se tornado um exportador relevante de petróleo, continua dependendo da importação de derivados. Como são commodities, a precificação não tem relação com o custo de produção e nenhum país é formador de preços. Para viabilizar a compra no exterior, a paridade de importação se impõe. E qualquer redução só virá por crescimento da oferta e da competição. O desalinhamento dos preços dificulta a programação de investimentos em combustíveis fósseis e renováveis e prejudica a competitividade do setor produtivo, que fica exposto a variações extemporâneas de custos importantes. Em uma época em que a indústria está inserida nas cadeias produtivas globais, o alcance desses impactos merece estudos específicos. Como existe capacidade de refino ociosa no mundo, não será fácil aprovar grandes projetos no País, que só se justificariam se houvesse convicção de que os preços seguirão atrelados ao mercado e se os riscos de intervenções ou de adoção de práticas anticoncorrenciais fossem baixos. A geração de excedentes, no entanto, poderia levar os preços internos a condições próximas da paridade de exportação, com valores equivalentes aos internacionais menos os custos logísticos. Pelos argumentos apresentados, o alinhamento aos preços praticados nos mercados internacionais é fundamental para o sucesso da indústria brasileira de petróleo e biocombustíveis, para a atração de investimentos e para a redução da dependência de importações. Por outro lado, não basta que os preços estejam alinhados aos mercados internacionais. É necessário que sejam estabelecidos em um mercado livre, aberto e competitivo. Também, que haja transparência na divulgação, o que dificulta a prática de valores muito distintos dos vigentes em outros mercados relevantes e, ao permitir que a sociedade entenda como se dá a sua formação, ajuda o consumidor a validar e aceitar melhor as flutuações do mercado e do câmbio. Além disso, a transparência é importante na transição para um mercado concorrencial, pois reforça o ambiente regulatório, promove estruturas de mercado mais eficientes, aumenta a capacidade de resposta dos agentes a deficiências de oferta, reduz as assimetrias de informação, melhora a avaliação das oportunidades de investimento e protege os interesses do consumidor. Assim, é fundamental continuar avançando em busca de um modelo aberto, em que diferentes agentes possam refinar petróleo e continuem a importar derivados, em um ambiente de livre formação de preços e de transparência. O preço dos combustíveis nas refinarias representa cerca de 30 a 50% do valor na bomba, a depender do produto. No entanto, atrai a discussão sobre os custos. Trata-se de um equívoco recorrente, que deve ser evitado. A análise dos preços dos combustíveis deve abranger todos os seus componentes: produtos, incluídos os biocombustíveis utilizados na mistura, margens de distribuição e revenda e tributos. Como visto, para que a indústria de petróleo, etanol e biodiesel seja exitosa, os preços ao produtor devem ser livremente formados. As margens são estabelecidas em ambiente competitivo. Quanto melhor for a logística e maior a competição, mais benefícios para o consumidor. E mais eficiente a transmissão das variações de preço ao longo da cadeia. Por isso, é necessário que os custos logísticos sejam otimizados e que também na distribuição e na revenda o mercado seja dinâmico e competitivo. Tributos são definidos pelos governos. Refletem escolhas. Representam meios para as autoridades implementarem políticas fiscais e energéticas. Não há um nível certo ou errado. Qualquer decisão é legítima. Como há países que tributam menos que o Brasil, existem os que tributam mais. Não se tem notícia, porém, de um que adote um sistema tão complexo. Nos últimos anos, se avançou em direção a uma oferta mais competitiva e transparente. Os preços vêm sendo formados livremente e divulgados com transparência. Foi iniciado um processo de abertura no refino. Estabelecer políticas de preço a nível de produção ou importação, como apontado, não traria benefícios para o setor de combustíveis e para o País. Assim, para aprimorar a formação dos preços dos combustíveis ao consumidor, é preciso continuar trabalhando para aumentar a competição em toda a cadeia e aperfeiçoar a cobrança dos tributos, o que deveria ser acompanhado de medidas para combater as fraudes tributárias, a adulteração, a sonegação e a lavagem de dinheiro no setor. Décio Fabricio Oddone da Costa é engenheiro. Trabalhou na Petrobras e no setor privado. Foi Diretor-Geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Escreve quinzenalmente para o Broadcast Energia. Esse artigo representa exclusivamente a visão do autor.

O drama da sustentabilidade(José Eli da Veiga, 28 5 2020)

José Eli da Veiga - O drama da sustentabilidade

COLUNISTAS
Quinta-feira, 28 de Maio de 2020 

José Eli da Veiga
A pandemia talvez comporte algum incentivo a que se evite manter debaixo do tapete a maior das dúvidas do século XXI: se os atuais padrões socioeconômicos poderão continuar a coexistir com a biosfera. Não foi por outra razão que emergiu, há quase trinta anos, o novo valor que é a sustentabilidade.

Todavia, o mais provável é que as instâncias de governança global mais graúdas — como o G-20 ou a Assembleia Geral da ONU— continuem a agir sem realmente levar a sério a grande dúvida do século. Pois os agentes que as influenciam tendem a ser os últimos da fila entre os que chegam a se sensibilizar com este tipo de aflição. Além disto, não há motivo para qualquer otimismo em contexto mundial ultrabipolar, espécie de segunda Guerra Fria, em que os governos dos EUA e da China disputam outro gênero de pioneirismo. Para ambos, a transição energética das fósseis às renováveis é muito menos relevante que a nova corrida para a Lua, por exemplo. Circunstância em que iniciativas nos âmbitos das grandes convenções internacionais dos anos 1990 — principal - mente as do clima e da biodiversidade — têm reles interesse se comparadas aos seus atritos diplomáticos na OMC ou na OMS.

Ao mesmo tempo, esta inevitável inércia da desgovernança mundial da sustentabilidade não deve impedir que sociedades civis, em mais de 190 nações, exerçam legítima pressão, especialmente sobre os muitos entes subnacionais, para aumentar as chances de que a sustentabilidade deixe de ser um acessório, quando não mero enfeite. Para tanto, certamente contribui a vigência da Agenda 2030, com seus dezessete ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável). Porém, ela só poderá cumprir o relevante papel institucional de abrir caminhos na direção de tão nobres objetivos, se — além de o mundo evitar acidente nuclear — consiga acelerar o ritmo em que vêm surgindo as mais influentes inovações tecnológicas. A sustentabilidade vai depender essencialmente da velocidade com que surja um próximo padrão energético, capaz de favorecer o retorno de razoável cooperação internacional.

Recorrendo a uma metáfora, é como se Sísifo não estivesse apenas condenado a repetir eternamente a tarefa de empurrar a pedra até o topo da montanha, mas também a executá-la com crescente rapidez. E é a própria história, natural e socioeconômica, que mostra o quanto a humanidade está obrigada a ser cada vez mais ágil em inovar. Sem isso, com certeza já teria sucumbido à profecia malthusiana, não apenas no quesito alimentação, mas também no âmbito energético e nos de muitos outros recursos naturais.

Mas, muita atenção! Não se trata de conjectura, e sim de preciosas medições matemáticas estampadas nas 81 figuras com que o físico teórico Geoffrey West ilustrou suas teses sobre “as leis universais do crescimento, da inovação, da sustentabilidade e do ritmo de vida em organismos, cidades, economias e empresas”. Tal é o extenso subtítulo de seu prodigioso livro Scale, publicado, em 2017, pela Penguin (R$ 30 no kindle). Mostra como foram ficando cada vez mais curtos os intervalos entre as vinte mais importantes inovações surgidas, desde o aparecimento da vida até a invenção do computador pessoal. Das quais, mais da metade precederam o processo civilizador.

Sem uma única equação em 481 páginas, a obra consegue demonstrar a existência de surpreendentes regularidades e similaridades entre inúmeros fenômenos biológicos e socioeconômicos, principalmente referentes às “leis de escala”, a origem, tanto da teoria metabólica da ecologia, quanto da alometria, ramo da biologia. Embora o autor tenha inicialmente trabalhado com física quântica, no célebre laboratório Los Alamos, foi ali pertinho, no Instituto Santa Fé, que, nos anos 1990, se juntou a dois expoentes da macroecologia — James H. Brown e Brian J. Enquist — para desenvolver pesquisas de fronteira sobre sistemas complexos, tanto biológicos quanto socioeconômicos.

Do sistema imune ao mercado global, passando por um cérebro ou por um formigueiro, não faltam exemplos análogos em que amplas redes auto-organizadas fazem emergir — mediante simples esquemas operacionais e sem qualquer controle central — sofisticados comportamentos e tratamento de informações. E a maior parte de tais conjuntos também tem capacidade adaptativa, seja por evolução, como por aprendizado.

Isso tudo só pode parecer muito bizarro à esmagadora maioria dos que lidam com o drama da sustentabilidade, pois todos continuamos vítimas da pesada inércia disciplinar, estejamos refletindo em instituições de pesquisa, ou com a mão na massa em empresas e terceiro setor. Daí a importância de que se tome conhecimento dos resultados obtidos em um quarto de século de esforços transdisciplinares. Geoffrey West também nos lembra de uma entrevista em que perguntaram a seu saudoso colega Stephen Hawking se este não seria o século da biologia, do modo em que o anterior foi o da física. A resposta não poderia ter sido mais direta e concisa: “Será o século da complexidade”.

"Sociedades civis devem pressionar para que a sustentabilidade deixe de ser um acessório, ou um mero enfeite"

José Eli da Veiga, professor sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP, mantém dois sites: www.zeeli.pro.br e www. sustentaculos.pro.br