domingo, 29 de agosto de 2021

O impacto das inovações no planejamento de longo prazo(Décio Oddone, Broadcast, 25 8 21)

 BroadcastEnergia

20:15 25/08/2021


Décio Oddone: O impacto das inovações no planejamento de longo prazo


Na semana passada ocorreu a edição de 2021 da Offshore Technology Conference - OTC, a maior feira da indústria do petróleo, realizada em Houston, nos EUA. Após ser cancelado em 2020, por causa da pandemia, o evento foi híbrido, com parte dos participantes entrando de forma virtual.


A realização de um encontro desse porte indica que, apesar das complicações trazidas pelas variantes do coronavírus, com o progresso da vacinação, a normalidade começa a aparecer no horizonte.


Como sempre, os avanços tecnológicos ocuparam boa parte da agenda. Impressionam o desenvolvimento alcançado na produção de petróleo offshore e a redução nos custos. A Petrobras recebeu o prêmio, que seria entregue em 2020, pelas inovações aplicadas ao campo de Búzios. Foi a quarta vez que a empresa foi escolhida para receber o maior reconhecimento da indústria. Já tinha ocorrido em 1992 por Marlim, em 2001 por Roncador e em 2015 pelo conjunto dos projetos no pré-sal da Bacia de Santos.


Os desenvolvimentos tecnológicos permitiram a produção de petróleo no mar e a tornaram cada vez mais competitiva. Há dez anos se calculava que o custo de produção no pré-sal estaria acima de US$ 50 por barril. Com o avanço dos trabalhos, esse valor foi caindo. Na mesma OTC, em 2017, se falava em custos na casa dos US$ 30. Hoje há projetos em que os valores podem ser menores.


Mas a tecnologia e as inovações não reduziram somente os custos da produção offshore. Vêm produzindo uma revolução na indústria como um todo. O gás natural liquefeito (GNL) transformou os mercados de gás. O crescimento da produção no shale (petróleo não convencional) nos Estados Unidos é um exemplo típico da aplicação de tecnologias, algumas delas em uso há anos, de forma inovadora.


Durante décadas os ciclos de preço de petróleo foram longos, favorecendo o planejamento das empresas e a aprovação de projetos de elevado prazo de maturação, como os de produção de petróleo em águas profundas em províncias como o pré-sal das Bacias de Campos e Santos e de exploração em regiões de fronteira, como a margem equatorial brasileira. A partir do surgimento do fenômeno do shale, os ciclos de preço têm ficado mais curtos. A covid-19 e a aceleração da transição energética tendem a reforçar essa tendência, dificultando o planejamento de empresas e governos.


O uso de tecnologias e inovações, das mais complexas às mais simples, dos desenvolvimentos de materiais às práticas de gestão e administração, é a principal razão para a diminuição dos custos de produção. Não só de petróleo e gás natural. É conhecida a redução dos gastos com instalações de painéis fotovoltaicos e aerogeradores, que permitiram um avanço extraordinário na penetração da energia solar e eólica nos últimos anos. Por isso, as inovações e os ganhos de eficiência também acabam afetando o planejamento de companhias e países.


No final dos anos 1980, a perfuração de um poço vertical em águas profundas levava mais de dois meses. O desenvolvimento dos campos demandava poços direcionais, que nunca tinham sido feitos. As estimativas iniciais de duração não se concretizaram. As operações tomaram menos tempo que o programado.


Algo similar, em escala muito maior, vem ocorrendo no pré-sal. A duração e a produtividade dos poços têm sido uma surpresa positiva. Hoje são perfurados e completados em uma fração do tempo originalmente estimado. A produção tem sido muito superior à esperada inicialmente. Como resultado, uma plataforma que poderia operar com 10 ou 15 poços está recebendo três ou quatro. Isso foi excelente para as empresas de petróleo, que investem menos e têm melhor rentabilidade, e para os governos, que arrecadam mais. Mas foi uma má notícia para a cadeia de fornecedores. É necessário um número menor de equipamentos e serviços, como árvores de natal, válvulas, umbilicais, sondas de perfuração e barcos de lançamento de linhas.


Se a Petrobras tivesse contratado mais de 20 sondas para perfurar no pré-sal, como pensou no início da década passada, possivelmente teria equipamentos ociosos agora. Fornecedores que executaram um planejamento estático, sem antecipar potenciais impactos de avanços tecnológicos e ganhos de produtividade, se frustraram.


A transição para uma economia de mais baixo carbono, para ser bem sucedida e melhorar o acesso à eletricidade e a qualidade de vida das populações, precisa se dar com maior oferta de energia. O impacto já produzido pelas inovações e pelo aumento da produtividade na indústria do petróleo e gás natural e nas fontes renováveis é um exemplo do que está por vir. As principais contribuições para a redução da presença de CO² na atmosfera devem vir de inovações disruptivas, novas tecnologias e ganhos de escala e eficiência. Países e empresas devem levar isso em conta ao executar seu planejamento de longo prazo.


*Décio Fabrício Oddone da Costa é engenheiro e CEO da Enauta S.A. Escreve mensalmente para o Broadcast Energia.


Broadcast Energia

terça-feira, 24 de agosto de 2021

Quem alimentará a China?(Alysson Paolinelli, Correio Braziliense, 24 8 21)

 ALYSSON PAOLINELLI - Quem alimentará a China?

terça-feira, 24 de agosto de 2021 - 00:00


 

Correio Braziliense  / Opinião

ALYSSON PAOLINELLI ANTONIO LICIO


A pergunta foi levantada pelo economista americano Lester Brown em seu livro, de 1995, Who Will Feed China, e permeou grandes discussões mundiais desde então, prevendo-se fome para esse povo, incapaz,


que seria de se autoabastecer de alimentos. No momento, alguns analistas mais radicais chegam às raias do extremismo lançando preparativos contra uma possível invasão chinesa ao Brasil para garantir seus níveis alimentares que estariam à beira do colapso pela exaustão de seus recursos naturais: terra, água e climas favoráveis. Nada melhor do que o tempo para avaliação de previsões futurísticas. Passados 25 anos, cabe aprofundar sobre o que efetivamente ocorreu com a agricultura chinesa nesse período, sua capacidade futura de autoabastecimento e possíveis desequilíbrios estruturais nos mercados mundiais de alimentos.


De fato, os chineses sofreram crises recorrentes de produção/consumo alimentar devido a secas e enchentes que devastaram sua produção agrícola, sendo a mais notável, entre 1959 e 1961, quando seu líder Mao Tse Tung implementou reformas políticas que desestruturaram a produção e teriam levado à morte 30 milhões de chineses. Todavia, a partir de 1978, Deng Xiaoping, segundo homem na hierarquia política e substituto de Mao, levou a efeito outras reformas. Desta vez, ao contrário de seu antecessor, Xiaoping liberalizou as relações econômicas no sentido da economia de mercado capitalista.


Seus efeitos notáveis se fazem sentir até hoje, mas, de início, se deram exatamente sobre o setor mais prioritário: a produção de alimentos. A China planta atualmente 185 milhões de hectares (ha) de lavouras (Índia, 210 milhões; Estados Unidos, 100 milhões; e Brasil, 80 milhões). Antes das reformas de 1978, os chineses plantavam 145 milhões. Agregou, portanto, 40 milhões e logrou notáveis sucessos em produtividades, tanto no milho quanto no arroz, suas maiores fontes energéticas, principalmente via irrigação (65 milhões de hectares irrigados contra 7 milhões no Brasil). Resultado: sua produção de milho saltou de 50 milhões de toneladas, em 1976, para 260 milhões em 2019 (superada somente pelos Estados Unidos, 360 milhões de toneladas); no arroz, de 130 milhões de toneladas para 220 milhões de toneladas. Portanto, a primeira parte da pergunta original foi respondida: quem alimentou a China até os anos recentes foi a própria China, por meio de reformas estruturais econômicas que propiciaram notável resposta produtiva.


E o porvir ? Lamentavelmente, tudo indica que, a partir de 2015, a China parece ter esgotado sua fronteira agrícola, de acordo com o Economic Research Service/USDA, assim como de expandir sua irrigação. Mas sua renda e Produto Interno Bruto (PIB) continuam a crescer, trazendo consigo maiores demandas por alimentos mais sofisticados, como carnes, leites e ovos (proteínas animais), frutas e hortaliças. Ocorre que não se produz mais proteínas animais sem um grãozinho mágico chamado 'soja', que o metabolismo animal dos bovinos, suínos, aves processam e transformam nas proteínas animais tão demandadas.


Mas a China falha. Não consegue produzir soja senão nos baixos volumes de 15 milhões de toneladas em 8, 5 milhões de hectares, assim como em todos os demais países, exceto Brasil, Argentina e Estados Unidos, que, juntos, produzem 82% de toda a soja mundial (Brasil na frente com 145 milhões de toneladas). Coube a China: 1) importar carnes prontas do exterior; 2) importar soja e transformá-la internamente em proteínas animais, o que tem prevalecido inclusive na catástrofe recente de peste suína africana, que dizimou boa parte de seu rebanho. De fato, dos 167 milhões de toneladas de soja importadas no mundo, a China responde por 60% e o mundo ainda importa 68 milhões de toneladas de farelo de soja.


Essa fome por proteínas animais tem levado ao que a teoria econômica previra: elevação de preços de todos os tipos de carnes, assim como dos insumos para suas produções: soja e milho. As carnes bovinas tiveram um patamar de preços médios de US$ 5. 000/ton até 2010, quando iniciou a escalada para os atuais US$ 10. 000/ton; as carnes de aves tiveram menores elevações, de US$ 1. 500/ton para pouco mais de US$ 2. 000/ton no mesmo período; o milho teve preços históricos durante décadas ao redor de US$ 100/ton, pulando para US$ 200/ton em 2010 e chegando ao patamar de US$ 250/ton nos últimos meses; a soja teve comportamento semelhante, com US$ 250/ton até 2007, daí para R$ 400/ton até recentemente e explodindo para os níveis atuais ao redor de US$ 600/ton.


Em se tratando de grãos commodities, há que se separar efeitos especulativos das variações de preços reais, quando apostadores de bolsas investem em grãos prevendo ganhos fáceis de curto prazo (efeito cassino). Por outro lado, estudos econométricos feitos por nós em 2013 no âmbito do Fórum do Futuro, com base no ano de 2010 e projeções para 2020, considerando somente variáveis 'reais"' - renda, consumo, elasticidades-renda e demanda - estimaram para 2020 uma demanda adicional de milho de 250 milhões de toneladas sobre um consumo em 2010 de 850 milhões de toneladas, ou seja, para algo em torno de 1, 100 bilhão de toneladas.


Para que os preços se mantivessem no mesmo nível médio de 2010, seria necessário um aumento de produção mundial de 250 milhões de toneladas, e aconteceu: o crescimento foi de 275 milhões de toneladas, o que segurou os preços até fins de 2020, quando estouraram ao nível atual de US$ 260/ton. Como não houve neste curto prazo de 2021 nenhuma alteração de demanda nem frustração de oferta que pudesse justificar tamanho incremento, resta apostar no efeito especulativo, como ocorreu, várias vezes, nos últimos anos, e retorno aos preços de 2010. Raciocínio similar se aplica à soja, com a diferença de que somente três grandes países produzem e dois deles - EUA e Argentina - esgotaram sua fronteira agrícola, ou seja, a resposta a esperar da oferta não se concretizará.


Podemos acalmar os mais exaltados, afirmando que os níveis de consumo calórico da China atingiram padrões nutricionalmente aceitos por meio de sua produção, mas terão que apelar quase integralmente à importação de proteínas para manter suas dietas completas, o que farão facilmente trocando bens não agrícolas por alimentos proteicos do Brasil, como tantos outros o fazem.

domingo, 1 de agosto de 2021

Os 15% que resistem a tomar vacina contra covid(Fernando Reinach, Estado, 31 7 21)

 Como lidar com os 15% que resistem a tomar vacina contra covid?

JULY 31, 2021

Muitos países já vacinaram com duas doses mais de 60% de sua população, o que corresponde, em muitos casos, a 85% dos adultos. Esses países estão iniciando a vacinação de adolescentes e logo mais vão vacinar crianças. Assim é de se esperar que nos próximos meses teremos vários países com aproximadamente 85% da população totalmente vacinada. Os 15% restantes são pessoas que resistem à vacinação. O problema é desenhar e implementar estratégias para vacinar esses 15%. As primeiras propostas já estão sendo postas em prática.


Com novas variantes como a Gama, que se espalha facilmente, a expectativa de controlar totalmente o espalhamento do vírus com 70 a 80% da população imunizada foi por água abaixo. Isso seria possível se as novas variantes se comportassem como a original. Infelizmente as novas têm um R0 bem maior e hoje se acredita que a imunidade coletiva só pode ser atingida com 90 a 95% da população imunizada. E isso, com vacinas com eficácia acima de 90%.



Com as menos eficazes, talvez ela nunca seja atingida. Essa compreensão da realidade tem levado governos a readequar o conjunto de vacinas a utilizar no futuro e a estudarem a possibilidade de aumentar a imunidade geral com doses de reforço. E ainda a iniciarem a vacinação de jovens e crianças. Tudo na esperança de atingir a imunidade coletiva ou chegar próximo dela.


O problema é que na maioria dos países existe uma fração da população que resiste a tomar a vacina. No Reino Unido, nos EUA e em Israel, no grupo de pessoas idosas que correm mais risco de serem internadas e morrer de covid, a porcentagem dos idosos vacinados após meses de insistência continua por volta de 95%. Isso apesar de mais de 90% das internações e mortes nesses países serem de pessoas ainda não vacinadas. Como lidar com essas pessoas?


A primeira medida são as campanhas de esclarecimento sobre a necessidade de se vacinar. Isso lida com os simplesmente desinformados. Essas propagandas incluem depoimentos de pessoas não vacinadas gravados imediatamente antes da intubação (o arrependimento é visível). Essa medida tem sido associada a um aumento na facilidade para que as pessoas se vacinem. Nos EUA, a vacina pode ser obtida nas farmácias: você entra sem marcar hora e sai vacinado em 10 minutos, nenhuma pergunta é feita. Além disso há o problema dos imigrantes ilegais, criminosos e outras pessoas que não querem ser identificadas. Para garantir que eles sejam vacinados foi proibida a presença de agentes governamentais nas imediações dos postos de vacinação. Essas medidas ajudam os relutantes – e muitas vezes são associadas a prêmios em dinheiro para quem se vacinar. Infelizmente essas medidas têm pouca influência nas pessoas que são radicalmente contra vacinas.


Para conseguir vacinar os radicalmente contra, muitos governos estão tomando medidas que tornam a vida dessas pessoas mais difícil. Isso inclui a exigência de atestados de vacina para entrar no trabalho, em restaurantes, ou em ambientes onde existam aglomerações. Como essas medidas são consideradas uma ingerência exagerada do Estado na vida individual, em muitos lugares a pessoa tem uma opção: ou apresenta certificado de vacinação ou um resultado de PCR negativo feito nos dois dias anteriores. O incômodo de repetir o teste a cada dois dias tem levado muitas pessoas a se vacinarem. Nessa linha mais agressiva, estão regras que exigem a vacinação de certos grupos caso desejem continuar no emprego.


O fato é que é impossível para um governo imobilizar um cidadão à força e vaciná-lo. A necessidade de vacinar os últimos 15% da população tem trazido à tona a questão da liberdade individual frente ao bem comum. No Brasil ainda estamos longe desse ponto. A grande maioria da população não vacinada ainda deseja ser vacinada o mais rápido possível, mas é fato que o número de pessoas que não se apresenta para a segunda dose é crescente. À medida que mais doses sejam disponibilizadas nos próximos meses, seria importante o País começar a pensar em como lidar com os últimos 15%. O sucesso de todo o programa pode depender dessas pessoas.


É BIÓLOGO, PHD EM BIOLOGIA CELULAR E MOLECULAR PELA CORNELL UNIVERSITY E AUTOR DE A CHEGADA DO NOVO CORONAVÍRUS NO BRASIL; FOLHA DE LÓTUS; E A LONGA MARCHA DOS GRILOS CANIBAIS.

sexta-feira, 30 de julho de 2021

Variante Delta põe em xeque estratégia de ‘covid zero’ de China e Austrália(Estado, 30 7 21)

Variante Delta põe em xeque estratégia de ‘covid zero’ de China e Austrália

Julho, 30 7 2021

PEQUIM - A disseminação da altamente contagiosa variante Delta desafia até mesmo os países com as medidas anticovid mais duras do planeta. A mutação é vista como uma ameaça para economias que tentam recuperar as perdas dos últimos 17 meses e caminhar rumo à vida pós-pandemia.


Um surto que teve origem em um aeroporto de Nanjing, cidade no leste da China, está testando as medidas de tolerância zero do país, algumas das mais rigorosas do mundo. Novas infecções estão se multiplicando e causando surtos localizados em outras partes do país, apesar do sistema de testagem em massa e de quarentenas.


A capital, Pequim, registrou ontem sua primeira infecção por transmissão local em seis meses. O caso é associado a um surto na Província de Hunan, no sul do país, entre pessoas que estiveram recentemente em Nanjing.


A variante, detectada inicialmente na Índia, que é cerca de 60% mais contagiosa que outras cepas, desafia algumas das defesas mais incisivas contra o vírus, com lugares “covid zero” – ou seja, países que haviam conseguido expurgar a doença de suas fronteiras – vendo novos surtos. Tudo isso apesar de políticas sanitárias bastante restritivas.


Entre os mais duramente afetados está a Austrália, onde a Delta vem conseguindo escapar do sistema de quarentena obrigatória em hotéis sanitários com muito mais facilidade do que cepas anteriores, aproveitando-se da baixa taxa de vacinação no país.


Um surto causado pela Delta forçou Sydney, apesar da sua eficiente infraestrutura de rastreio de contatos e testagem, a prolongar nesta semana uma quarentena imposta no fim de junho. Desde meados daquele mês, mais de 3 mil casos foram registrados na cidade.


No Reino Unido, apesar de a Delta também ser responsável pela maioria dos casos, o número de infecções vem caindo, atraindo a atenção do mundo. Mais de 70% dos adultos no Reino Unido estão totalmente imunizados e 88% receberam a primeira dose, uma das melhores situações no mundo. Entre os que não foram vacinados, muitos tiveram covid-19 ou foram assintomáticos, contribuindo para a imunidade natural.


Na China, os primeiros diagnósticos foram realizados em nove zeladores do aeroporto de Nanjing. O surto rapidamente se expandiu para seus contatos próximos e, em seguida, para outras regiões do país. Até ontem, as infecções associadas ao aeroporto já eram mais de 200, todas pela variante Delta. Este é um dos maiores surtos na China desde uma onda no início do ano no noroeste do país, quando mais de 2 mil pessoas contraíram a doença.


Muitas das pessoas infectadas na China, incluindo os funcionários do aeroporto de Nanjing, já estavam completamente vacinadas, mas apenas quatro desenvolveram casos graves da doença. Os números indicam que a resposta imunológica gerada pelas vacinas chinesas, eficazes para conter quadros críticos da covid, é menor para prevenir a transmissão da variante.


Nanjing está endurecendo suas medidas anticovid diante do surto, que registrou 18 novos casos ontem. Todos os complexos residenciais foram postos em quarentena e a cidade está começando uma terceira rodada de testes PCR em mais de 9 milhões de pessoas. O aeroporto cancelou a maior parte de seus voos e os funcionários foram postos sob restrições.


Segundo estudos, a eficácia das vacinas chinesas em prevenir casos sintomáticos de covid-19 varia entre 50% e 80%, inferior aos mais de 90% das doses que usam a tecnologia de RNA mensageiro, como a da Pfizer-BioNTech e da Moderna. Ambas são altamente eficazes em conter casos graves, mortes e evitar a sobrecarga de hospitais.


Países como a Tailândia e os Emirados Árabes Unidos, que iniciaram suas campanhas com as vacinas chinesas, decidiram oferecer doses de reforço para algumas pessoas perante a variante Delta. Globalmente, a cepa já forçou os EUA a voltarem a recomendar o uso de máscara em áreas com altas taxas de contágio e atrasou a reabertura em Cingapura.


Israel decidiu começar a oferecer uma terceira dose da vacina da Pfizer para pessoas com mais de 60 anos. No país, 57% da população já foi totalmente imunizada, mas os casos aumentaram da média de 15 por dia no início de junho para mais de 1.600 agora.


Os surtos na China, mesmo que mínimos quando comparados com epidemias vistas nos EUA e no Sudeste Asiático, põem pressão para que as autoridades repensem suas campanhas de vacinação para possivelmente incluir doses de reforço. A vacinação chinesa, a mais rápida do mundo, conseguirá inocular 75% de sua população de 1,4 bilhão de pessoas com duas doses em um mês, caso mantenha seu ritmo atual.


A Sinovac, que no Brasil recebeu o nome de CoronaVac, disse na quarta-feira que uma terceira dose de suas vacinas aumenta o nível de anticorpos entre três e cinco vezes. As conclusões sobre o inoculante feito com o vírus inativado, a espinha dorsal da campanha de vacinação chinesa, constroem um argumento mais forte para dar injeções de reforço naqueles com mais risco de contrair o vírus. / W.POST, NYT, AP e REUTERS

sábado, 24 de julho de 2021

Reino Unido decreta o fim da pandemia. Foi a melhor decisão?(Fernando Reinach, Estado, 24 7 21)

 




Reino Unido decreta o fim da pandemia. Foi a melhor decisão?

JULY 24, 2021

No dia 19 de julho o governo inglês revogou todas as medidas de distanciamento social, o uso de máscaras e as restrições ao comércio. A vida voltou ao normal em Londres. Os ingleses festejaram nos pubs e nas boates. A festa do "dia da liberdade" virou a noite. As únicas restrições mantidas se relacionam às viagens internacionais e ao ingresso de turistas.

 

A partir de agora, o controle da covid passa a ser uma responsabilidade individual e não mais do governo. Ou seja, a covid vai ser tratada como mais uma doença infecciosa. Cada um cuida de si e administra os riscos que deseja correr. O governo informa a população, fornece os meios para as pessoas se protegerem (vacinas) e hospitais para se tratarem.

 

 

A lógica por trás dessa decisão é que existem vacinas capazes de evitar novos casos e mortes. Essas vacinas já foram oferecidas a todos os maiores de 18 anos do país: quem quis foi vacinado com as duas doses. Além disso, quem desejar vai receber um reforço nos próximos meses.

 

Os que não se vacinaram foram contatados por telefone e e-mail e a vacina lhes foi oferecida. Com isso mais de 60% da população está vacinada e os 40% restantes são crianças e os adultos que não querem se vacinar. Testes rápidos de antígenos foram distribuídos e qualquer residência pode ter um par deles na gaveta.

 

Tudo isso fez com que o risco da covid para a população tenha se reduzido a níveis aceitáveis. E deve continuar assim pois a doença está controlada e as novas cepas estão sendo constantemente monitoradas, como fazem com a gripe.

 

Nesse contexto, o governo não acredita que seja justo atrapalhar a vida de toda a população por causa de uma minoria que se recusa a ser vacinada. O plano é que a covid seja incorporada à rotina da vida de todos os ingleses, como já acontece com as outras doenças infecciosas: gripe, sarampo, Aids e tantas outras.

 

A aposta da Inglaterra é arriscada. No exato momento em que as medidas foram anunciadas o número de casos da variante delta está subindo (~40 mil por dia) e se acredita que pode chegar a 100 mil por dia. Apesar desse aumento de casos, o número de internações e óbitos continua baixo, como previam os epidemiologistas. Se essa tendência continuar quando os efeitos da abertura total forem sentidos nas próximas semanas, o governo inglês vai poder afirmar que a pandemia realmente terminou. O Sars-CoV-2 passou a ser mais um vírus “normal”, monitorado e combatido com vacinas.

 

Os otimistas acreditam que tudo vai dar certo e que essa onda atual de casos ainda vai aumentar. Acham que ela vai ajudar o país a atingir mais rapidamente a imunidade coletiva. Essa onda está sendo chamada de “onda de saída”, uma consequência da liberação das medidas restritivas. São na maioria casos leves, pois casos graves se concentram em pessoas não vacinadas.

 

Já os pessimistas estão com medo de que o atual crescimento dos casos acabe lotando os hospitais e provocando um aumento de mortes, o que obrigará o governo a voltar atrás. Ou seja, acreditam que a vacinação ainda não desacoplou totalmente o número de casos do número de mortes. Além disso temem que a circulação do vírus possa permitir o surgimento de novas variantes.

 

O fato é que a Inglaterra foi o primeiro país a decretar o fim da pandemia e a volta à normalidade. Uma decisão baseada em análises feitas por cientistas com base na enorme quantidade de dados que a Inglaterra vem coletando. Logo saberemos se essa foi a decisão correta.

 

Se tiver sido, a Inglaterra vai mostrar ao mundo como será nosso futuro. Ou então os ingleses terão que meter o rabo entre as pernas e voltar atrás na sua decisão de decretar o fim da pandemia.

sábado, 17 de julho de 2021

Será o final da pandemia?(Fernando Reinach, Estado, 17 07 21)

 

Será o final da pandemia? Não temos dados para saber o que ocorre no 2º semestre


O número de casos e óbitos no Brasil vem caindo de maneira consistente, o que pode indicar o prenúncio do fim da pandemia. Por outro lado, já foram detectados casos da cepa Delta em diversos locais, o que talvez signifique nova onda nas próximas semanas.

 

Além disso existe um número desconhecido de casos de reinfecção em pessoas que já tiveram a doença e que foram vacinados com duas doses. O caso do governador João Doria é um exemplo. O fato é que a baixa qualidade do monitoramento da pandemia no Brasil e os dados incompletos do governo dificultam nossa capacidade de prever o que nos espera nos próximos meses.

 

Em países com altos níveis de vacinação (mais de 60% da população vacinada com duas doses de vacinas de alta eficácia), onde a pandemia já parecia controlada, a variante Delta está provocando um aumento de casos. Aparentemente isso não refletiu no total de internações ou mortes, o que tem sido atribuído ao alto nível de vacinação. Esse fenômeno está em pleno andamento no Reino Unido e está no início nos EUA e em Israel.

 

Nos EUA, o fenômeno já pode ser observado nas estatísticas nacionais e é muito claro em alguns Estados. Esse aumento de casos tem levado esses países a vacinar os mais jovens e a iniciar a aplicação de uma terceira dose da vacina num esforço de controlar de vez o coronavírus. Os fabricantes de vacina já estão testando doses de reforço com a mesma vacina ou com vacinas desenvolvidas para proteger contra as novas variantes. Esse movimento tem recebido críticas uma vez que a maior parte da população mundial ainda não foi vacinada, mas acredito que faz parte do papel dos países mais avançados descobrir e testar soluções que possam depois ser estendidas a todo o planeta.

 

Do lado científico, há dados demonstrando que a quantidade de anticorpos diminui ao longo do tempo em pessoas vacinadas com vacinas de mRNA (Pfizer) e de adenovírus (AstraZeneca). Daí, talvez um reforço seja necessário.

 

Qual a situação no Brasil? Por aqui, os níveis de vacinação com as duas doses ainda são muito baixos (menos de 20%) e foram detectados casos da variante Delta. Como o governo só divulga a presença de um ou outro caso da variante e não complementa essa informação com o número total de amostras analisadas, é impossível sabermos a frequência dessa variante entre os novos casos. Uma possibilidade é que a Delta já seja predominante por aqui e, nesse caso, talvez não ocorra uma onda de novos casos nos próximos meses. Mas pode ser, também, que esses casos sejam os primeiros no Brasil e a Delta esteja iniciando sua expansão. Se esse for o cenário, é muito provável que tenhamos nova onda de casos nos próximos meses. E, se ela vier, é provável que as hospitalizações e mortes aumentem novamente, já que o nível de vacinação com duas doses ainda é baixo e não sabemos como a Coronavac se comporta com a nova variante. Em suma: não temos os dados necessários para saber o que vai ocorrer no Brasil no segundo semestre.

 

Outro problema, por aqui, é que o governo não divulga os números de testes feitos a cada dia, só o de testes positivos. Se o número de testes executados não for muito maior que o de casos positivos, o número de testes positivos não é um indicador do número real de casos. Esse problema existe desde o início da pandemia e é por esse motivo que os indicadores de mortes e de internações em UTIs têm sido os mais confiáveis do progresso da pandemia.

 

Com a vacinação progredindo é provável que haja uma dissociação do número de casos e do número de mortes, como vem ocorrendo no Reino Unido. Além disso é indispensável divulgar as estatísticas do número de pessoas vacinadas com cada uma das vacinas que se contaminam novamente (como Doria), são internadas e vêm a falecer. Sem essa informação será difícil decidir se a população deverá receber um reforço e se ele deve ser feito com a mesma ou com outra vacina. A baixa taxa de vacinação e o esforço de vacinar rapidamente a população não é desculpa para não enfrentarmos essas decisões e iniciarmos o planejamento para o segundo semestre de 2021.

 

*MAIS INFORMAÇÕES: SPIKE-ANTIBODY WANING AFTER SECOND DOSE OF BNT162b2 OR ChADOx1. LANCET https://doi.org/10.1016/ S0140-6736(21)01642-1 2021