quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Jornalismo marrom na era digital(Estado, 4 11 2020)

 Jornalismo marrom na era digital Entre o estímulo e o aperto


quarta-feira, 4 de novembro de 2020 


  

O Estado de S. Paulo  / Notas e Informações


O Facebook, ecoando outras mídias sociais, costuma dizer que desde as eleições norteamericanas de 2016 tem aprendido a lidar com a desinformação. Às vésperas de um novo pleito, um levantamento do German Marshall Fund sugere que a lição de casa precisa ser feita com mais empenho. Segundo o instituto, nos EUA as interações com fontes enganosas no Facebook triplicaram desde 2016.


Seja por genuíno interesse em reprimir a desinformação, seja pela aversão à regulamentação, as mídias sociais efetivamente investiram em mecanismos de autocontrole, sobretudo via inteligência artificial. Recentemente, o Facebook reverteu sua posição tradicional, decidindo que declarações manifestamente falsas - como a negação do Holocausto - não seriam mais admitidas. A plataforma - assim como o Twitter e o TikTok - também expurgou centenas de grupos responsáveis por alastrar teorias da conspiração e impôs limites aos anúncios políticos. O Twitter aprimorou mecanismos que advertem os usuários a não replicar conteúdos considerados duvidosos.


Mas o vírus da desinformação se transmuta rapidamente, por exemplo, lançando mão de sites que se mascaram como jornalismo, criando uma multidão de 'cavalos de troia'. São plataformas que tomam a aparência de sites de notícias e 'lavam' a desinformação ao mesmo tempo que se evadem das práticas do jornalismo independente, como checagem de fontes e correção de dados.


Seguindo a metodologia do NewsGuard, um serviço não partidário que avalia a confiabilidade de sites de notícias, o Marshall Fund diferencia dois tipos de sites enganosos: os Falsificadores, que reiteradamente publicam conteúdo manifestamente falso; e os Manipuladores, que falham em publicar responsavelmente informações (apresentando, por exemplo, alegações não apoiadas em evidências) ou que as distorcem acintosamente em prol de algum argumento. Desde 2016, a taxa de interações com os Falsificadores aumentou 102%. Já com os Manipuladores, aumentou 242%.


A maioria das interações vem de um número pequeno de 'contaminadores'. Os dez maiores Manipuladores são responsáveis por 62% das interações. Sites como Daily Wire, Breitbart e, sobretudo, a Fox News são exemplos da zona cinzenta entre o jornalismo independente e a manipulação. A Fox, por exemplo, publicou uma série de alegações enganosas - como a de que a cloroquina protege contra o vírus ou que o distanciamento social é ineficaz -, mas tem uma classificação mais alta porque corrige erros, evita manchetes enganosas e revela suas fontes de financiamento.


O conteúdo produzido pelos Manipuladores é tipicamente projetado para ser impactante e argumentativo, frequentemente em oposição à 'mídia tradicional' e à chamada 'elite', e acaba sendo turbinado pelos algoritmos das mídias sociais, programados não para disseminar fatos, mas para gerar interações.


Mas se o negócio das mídias sociais depende de interações, no longo prazo essas interações dependem de credibilidade. O mero investimento em checagem de fatos por robôs pode ser útil contra os Falsificadores, mas o caso dos Manipuladores revela a indispensabilidade do emprego de peritos humanos. Se quiserem recuperar sua credibilidade, as mídias sociais deveríam investir mais em institutos independentes empenhados no monitoramento das notícias. Outro passo importante seria o investimento em pesquisas sobre como as notícias falsas são geradas e compartilhadas. As plataformas alegam que têm procurado garantir que conteúdos de fontes mais confiáveis alimentem os perfis dos usuários, mas, como mostra o levantamento, esse esforço ainda é insuficiente.


Um terceiro passo é o letramento digital. Se as mídias sociais quiserem mostrar seu compromisso com o interesse público e a saúde da democracia, precisarão coordenar melhores esforços com órgãos de Estado e organismos internacionais (como, por exemplo, a OMS) para promover políticas públicas que formem usuários capazes de questionar seus vieses e suas próprias 'bolhas' políticas e sociais.


"No longo prazo, as interações nas mídias sociais dependem de credibilidade"


segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Chineasy Money


 

Mineração, agricultura e banco vencem pandemia(FSP, 2 11 2020)

 Mineração, agricultura e banco vencem pandemia, aponta estudo da Economia

Análise a partir de notas fiscais e transações de crédito mostra ainda arrefecimento de supermercados

segunda-feira, 2 de novembro de 2020 


  

Folha de S. Paulo  / Mercado


Fábio Pupo


Enquanto a maioria das atividades econômicas no país registra retração de faturamento durante a pandemia do coronavírus, grandes setores têm conseguido não só evitar a crise como registrar crescimento de dois dígitos.


A conclusão é de um estudo do Ministério da Economia, que aponta como vencedores da pandemia os setores de mineração, agricultura, logística e atividades financeiras.


O levantamento da pasta surgiu como forma de orientar a concessão de crédito por bancos públicos às atividades mais afetadas, mas também acaba trazendo mais clareza sobre a situação de diferentes setores no país durante a crise.


A pasta baseou sua análise principalmente nos dados de faturamento levantados a partir de notas fiscais eletrônicas nas bases da Receita Federal, além de documentos fiscais de 12 unidades federativas. Também foram usados indicadores adicionais como dados de transação de cartão de crédito.


O ministério usou como referência valores faturados pelas empresas de abril a julho de 2020 e fez dois cálculos a partir disso, para reduzir eventuais efeitos sazonais.


O primeiro comparou os números com igual período do ano passado. E o segundo confrontou os valores com o s registrados no começo deste ano, de janeiro a março (antes da pandemia).


A mineração teve o maior crescimento. O setor registrou de abril a julho de 2020 um faturamento 3 7, 6% maior frente aos mesmos meses de 2019 e de 26,2% frente a janeiro a março de 2020. Isso gerou um avanço médio de 31,9% no faturamento, conforme a metodologia da pasta.


Apesar de integrantes do próprio ministério ressaltarem ao longo dos últimos meses a dificuldade de medir dados em meio às distorções causadas pela pandemia, os resultados têm correspondência com números divulgados mais recentemente por empresas.


A mineradora Vale, por exemplo, apresentou nos últimos dias um lucro líquido de R$ 15 bilhões no terceiro trimestre. O valor representa mais do que o dobro dos R$ 6,5 bilhões registrados um ano antes.


A Vale creditou o aumento ao crescimento da demanda chinesa por minério de ferro. As vendas tiveram um boom influenciadas por uma retomada no país asiático, que são impulsionadas por investimentos significativos em infraestrutura e construção para estimular a economia após o surgimento do coronavírus.


"A participação da venda para a China aumentou muito neste ano. É um efeito Covid" afirmou Marcello Spinelli, diretor-executivo da Vale, na quinta-feira (29).


Para Sérgio Lazzarini, professor do Insper, os dados do ministério coincidem com indicadores observados por economistas. Ele chamou atenção para o fato de o principal vetor no topo da lista ser o comércio internacional.


Está inserida nessa lógica a agricultura, segunda colocada na lista. O preço das commodities no mercado global e o patamar do câmbio têm estimulado as exportações e o setor registra um avanço de 18% no faturamento. A pecuária, um pouco mais abaixo na lista, avança 10%.


Já setores ligados ao cenário doméstico também têm mostrado avanço impulsionados pela concessão do auxílio emergencial, embora em patamares não tão fortes.


Entra nessa análise a atividade de logística, terceira colocada na pesquisa, com crescimento de 15% movido também pela demanda por entregas a domicílio.


"O auxílio emergencial forneceu renda e mudou o padrão de consumo, com as pessoas pedindo mais pela internet também por causa da pandemia", afirmou Lazzarini.


No caso das atividades financeiras, a crise gerou uma necessidade significativa por crédito por parte de empresas e pessoas. Isso alavancou os números em 14%.


"Os bancos vão bem na crise e fora da crise", resumiu o professor. Segundo ele, as instituições conseguem se proteger durante momentos de turbulência e contar com ajuda estatal em momentos como o atual, de necessidade de manutenção de emprego e renda.


Segundo o Banco Central, os bancos lucraram R$ 22,4 bilhões no primeiro trimestre deste ano e R$ 18,4 bilhões no segundo. Apesar de positivo, o lucro total registrado pelas instituições no primeiro semestre foi 31,9% menor que no mesmo período de 2019.


Na outra ponta da lista, os maiores perdedores da crise foram as atividades artísticas, de transporte aéreo e de passageiros por outros modais, hotéis e restaurantes.


As incertezas com o final do ano e o fim auxílio do auxílio emergencial causam ainda mais dúvidas sobre o desempenho das atividades no cenário doméstico.


Os supermercados, por exemplo, têm mostrado dados de arrefecimento nos últimos dias com a diminuição do beneficio do governo e o avanço da inflação.


Mesmo atividades ligadas ao setor externo passam por incertezas. A Vale trabalha com a perspectiva de que a atividade econômica da China tende ase normalizar e retomar um caminho mais distante dos investimentos pesados em infraestrutura e em direção ao consumo.


"O nível de investimento no país ainda está pífio e sem perspectiva de melhorar. Ainda tem o risco de novas ondas do coronavírus e o calendário da vacina. Ainda é muito incerto o que vai acontecer no futuro", afirmou Lazzarini.


A lista vai orientar concessões de crédito como os com recursos do FGI (Fundo Garantidor de Investimentos), administrado pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). O programa tem previsão para usar até R$ 20 bilhões da União em garantias de empréstimos.


Uma portaria assinada pelo secretário especial de Produtividade e Emprego, Carlos da Costa, foi publica da recentemente para servir de referência abanco s público s na concessão de empréstimos.


As instituições não são obrigadas a emprestar para os setores da lista, que serve apenas como orientação.


O Ministério da Economia afirmou que, caso haja alterações no cenário econômico, há possibilidade de novas portarias para atualizar alista dos setores mais impactados.


Fonte: Ministério da Economia


domingo, 1 de novembro de 2020

Avião elétrico, Israel


 

Ruptura no mercado de petróleo(José Roberto Mendonça de Barros, Estado, 1 11 2020)


JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS - Ruptura no mercado de petróleo


domingo, 1 de novembro de 2020 


  

O Estado de S. Paulo  / Economia

Cenário Político-Econômico: Colunistas

NextEra é hoje a mais valiosa empresa de energia dos Estados Unidos. Seu forte é a geração eólica e a solar, nas quais aposta desde 2005. A companhia tem 15 Gigawatts em construção, mais do que tem hoje em operação. Apenas para comparar, o parque eólico brasileiro (que está se expandindo rapidamente) tem uma capacidade total instalada de 16 GW, oriunda de 637 empreendimentos.


A NextEra tem um valor de mercado de US$ 147 bilhões, maior que o da Exxon, que no começo de outubro valia US$138 bilhões. Aliás, a petroleira, que continua apostando apenas no petróleo, deixou de compor o índice Dow Jones após 92 anos! Nada mais pode ilustrar a aceleração recente do início do fim da dominância do petróleo na matriz energética global. De fato, antes do coronavírus, a Shell e outras petroleiras já haviam projetado que o pico de consumo do petróleo se dará por volta de 2030 e não mais 2040, devido, essencialmente, aos esforços de enfrentar o aquecimento global, estimulando o progresso tecnológico que viabilize a passagem para uma nova matriz energética. A pandemia, que reduziu drasticamente o consumo de petróleo, e os avanços acentuados na digitalização e mudanças tecnológicas certamente irão acelerar o processo.


Esses novos rumos serão os responsáveis pelo menor uso de petróleo. Uma lista incompleta destas novidades incluiria as seguintes: - Novas fontes de energia: eólica, solar, biogás, bioóleo e equipamentos que extraem o carbono diretamente do ar e o transforma em combustível carbono neutro (DACs).


- Veículos elétricos e híbridos. As baterias, que estão próximas de uma revolução, serão também usadas para a otimização do consumo de energia em muitas plantas e empresas.


- Materiais novos derivados do processamento de madeira, cana e outras fontes renováveis.


- Novos equipamentos, como células de combustíveis e bombas de calor.


- Os sistemas de energia estão sendo otimizados, inclusive pela expansão da energia distribuída, a partir de várias dessas fontes, como solar, e de cidades inteligentes. Por exemplo, dependendo da qualidade da insolação, o excedente de energia gerada por um certo número de telhados de residências transforma-se numa pequena usina de eletricidade.


Em resposta a todas essas mudanças, boa parte das petroleiras, especialmente europeias, estão buscando adicionar outras fontes de energia a seu portfólio, especialmente a eólica e a solar, além do reforço da operação de gás natural, a fonte de carbono que terá vida mais longa. Ao mesmo tempo, novos campos com elevado custo de desenvolvimento, óleo pesado tipo venezuelano e países excessivamente dependentes do produto (Oriente Médio, Nigéria, etc.) enfrentam problemas crescentes.


O mundo do óleo entrou numa ebulição que irá transformá-lo em algo velho, símbolo de uma era que está passando.


Mas, e a Petrobrás nisso tudo, como fica?


A meu juízo a companhia está numa estratégia correta. Como sabemos, seu balanço foi totalmente destruído pelo assalto que hoje conhecemos como Petrolão. Fora outros, projetos gigantescos como as refinarias do Recife e o Comperj queimaram algo como US$ 5 bilhões em ativos imprestáveis, resultando na empresa das mais endividadas do mundo.


Daí porque, desde que Pedro Parente assumiu, a prioridade máxima é de vender ativos que não componham o "core" para reduzir a alavancagem e concentrar na aceleração da extração do óleo de seu ativo de classe mundial, o pré-sal. A redução dos custos de exploração e desenvolvimento e a incrível produtividade de vários poços (50-65 mil barris por dia!) e a qualidade do produto vão garantir um fluxo de caixa que permitirá reduzir o endividamento e baixar os seus custos.


Se a transição energética está na porta, a estratégia adequada para o País é de acelerar a extração enquanto a demanda é capaz de absorver a nova produção, exatamente o oposto do que pretendia o governo Dilma.


Esta é uma corrida contra o tempo: a melhora do balanço da Petrobrás tem de ser rápida o suficiente para gerar recursos que possam ser empregados para desenvolver as energias necessárias para garantir algum futuro para a empresa.


Será que vai dar tempo?


Mesmo para o padrão deste governo a semana que se encerrou foi particularmente tumultuada, revelando a gravidade da situação que vivemos. Repito, então, a pergunta de meu último artigo: será que vamos bater no muro?




O mundo do óleo entrou numa ebulição que irá transformá-lo em algo velho