sábado, 7 de novembro de 2020
A dinâmica da retomada(José Márcio Camargo, Estado, 7 11 2020)
JOSÉ MÁRCIO CAMARGO - A dinâmica da retomada
COLUNISTAS
sábado, 7 de novembro de 2020
O Estado de S. Paulo / Economia
Cenário Político-Econômico: Colunistas
JOSÉ MÁRCIO CAMARGO
Após a forte queda no segundo trimestre de 2020, o nível de atividade da economia brasileira entrou em trajetória de alta, ainda que com comportamento desigual entre setores. Em especial, a atividade do setor de serviços continua defasada em relação aos outros setores. Indústria, comércio e construção civil já estão acima do período pré-pandemia.
Ainda que este comportamento seja esperado, na medida em que o setor de serviços (restaurantes, hotelaria, turismo, etc.) depende de convívio social, o que foi praticamente proibido com a adoção do isolamento social entre março e maio, a volta deste setor é fundamental para a retomada do nível de emprego e, portanto, para a sustentabilidade do crescimento da atividade quando o auxílio emergencial e outros programas de incentivo fiscal se esgotarem no início de 2021.
E os dados do setor de serviços começam a dar sinais de reação. Entre agosto e setembro foram gerados, pelos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), mais de 100 mil empregos formais no setor, e o índice PMI, que indica a expectativa das empresas quanto ao comportamento futuro da atividade, ultrapassou a barreira dos 50 pontos, que indica crescimento, atingindo 52,3 pontos, em outubro.
O Caged é uma pesquisa que tem por base informações das empresas quanto ao número de admissões e demissões, além dos salários e outras características destes trabalhadores. São dados administrativos, que não dependem da aplicação presencial de questionários. Entretanto, com o grande número de falências de pequenas e médias empresas em razão da pandemia, o número de empresas que respondem ao questionário caiu significativamente neste ano, o que pode comprometer os resultados.
A outra pesquisa sobre o mercado de trabalho do País, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), é realizada com base numa amostra de domicílios, com aplicação presencial de questionário por pesquisadores do IBGE. Por causa da pandemia, os questionários estão sendo aplicados por telefone, o que levanta questões quanto à confiabilidade das informações. Em outras palavras, ambas as pesquisas podem ter problemas de confiabilidade impossíveis de serem verificados neste momento.
Entretanto, nossa avaliação é de que, o fato de o Caged não depender da presença do entrevistador para obter os resultados, além de estarem mais de acordo com outros dados disponíveis neste momento, como o PMI de serviços e evidências informais como a diminuição do isolamento social, a volta das pessoas à convivência social, a movimentação de pessoas nas ruas voltando à normalidade, os dados do Caged parecem mais de acordo com a realidade.
E como justificar a redução do número de empresas? Nossa hipótese é de que, por causa da redução da demanda decorrente do isolamento social em abril/maio, um grande número de empresas faliu. Desapareceu. Essas empresas pararam de enviar as informações porque não mais existem. Apenas conseguiram sobreviver ao isolamento social as empresas mais produtivas, mais competitivas e com mais reservas disponíveis.
Se essa hipótese é verdadeira, a volta da atividade vai se dar com um setor produtivo dominado por empresas mais competitivas e com mais recursos disponíveis para investir, além de terem implementado inovações tecnológicas importantes ao longo da pandemia. Como muitas empresas desapareceram, à medida que a demanda volta, teremos menos empresas e empresas mais produtivas para ocupar o espaço deixado pelas que faliram. Como são empresas maiores e mais formalizadas, devemos esperar que a demanda por trabalhadores formais deverá aumentar com mais dinamismo que em outras recuperações.
A expectativa é de que a economia vai sair desta recessão com um nível mais elevado de produtividade do que entrou. É, sem dúvida, um cenário otimista, mas está perfeitamente de acordo com a evolução dos dados, como os que vêm sendo apresentados pelo PMI e o Caged.
Expectativa é de que a economia saia da recessão com um nível mais alto de produtividade do que entrou
PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA PUC/RIO, É ECONOMISTACHEFE DA GENIAL INVESTIMENTOS
Vacina obrigatória(Miguel Reale Júnior, Estado, 7 11 2020)
Vacina obrigatória
COLUNISTAS
sábado, 7 de novembro de 2020
O Estado de S. Paulo / Espaço Aberto
Cenário Político-Econômico: Colunistas
Miguel Reale Júnior
O obscurantismo bolsonariano faz-nos retroceder no tempo mais de um século. Em 1900 a cidade do Rio de Janeiro, então capital federal, era conhecida como empesteada, vítima de febre amarela, peste bubônica e cólera. Oswaldo Cruz, diretor de saúde pública no governo Rodrigues Alves, enfrentou as duas primeiras a partir de 1902 e em 1904 deu início ao combate à varíola, cuja imunização poderia dar-se pela aplicação de vacina já conhecida havia décadas.
Depois de muita discussão, foi aprovada no Congresso Nacional a Lei n.° 1.261, de outubro de 1904, que determinava a vacinação compulsória. Houve, então, já naquele tempo, tanto fake news, difundindo ser perniciosa a vacina, como exploração política de positivistas, seguidores de Augusto Comte, e florianistas, adeptos de Floriano Peixoto, que tomaram a questão da vacina como pretexto para tentar derrubar o presidente.
A contestação à obrigatoriedade, liderada por parlamentares, antes oficiais do Exército, ganhou cores gravíssimas, pois entre 10 e 20 de novembro as ruas foram ocupadas por revoltosos, com um saldo terrível de 30 mortos e mais de 900 presos, dos quais 450, por antecedentes criminais, foram enviados para o Acre. Muitos feridos.
Até Rui Barbosa se pôs contra a vacina, ponderando que, "assim como o Direito veda ao poder humano invadir-nos a consciência, assim lhe veda transpor-nos a epiderme". A obrigatoriedade foi revogada. Em 1908 muitos morreram de cólera e a população acorreu, então, para tomar a vacina. Rui alterou sua posição e em 1917 homenageou Oswaldo Cruz, reconhecendo dever-se a ele a vitória sobre o flagelo e a diferença entre o "Brasil pesteado, que encontrou, e o Brasil desinfectado, que nos veio a legar".
Em plena pandemia, antes do meio do mandato, Jair só pensa na reeleição. E por interesse político, como em 1904, lança suspeitas sobre a vacina e nega sua obrigatoriedade para contentar seguidores e atacar governadores, contrariando os valores básicos da Constituição e os termos da legislação específica por ele mesmo sancionada. E daí?
No campo legal, a Lei n.° 6.259/75 e o Decreto n.° 78.231/76 impõem a obrigatoriedade da vacina a todos os adultos, aos quais incumbe submeter à vacinação os menores sob sua guarda.
A prevenção da contaminação da covid-19 é, especificamente, disciplinada pela Lei n.° 13.979/20. No artigo 3.° da lei, dispõe-se: "Para enfrentamento da emergência de saúde pública de importância internacional de que trata esta Lei, as autoridades poderão adotar, no âmbito de suas competências, entre outras, as seguintes medidas: ( ... ) III - determinação compulsória de ( ... ) d) vacinação". Essa conduta pode ser adotada, segundo o parágrafo 7.° desse artigo 3.°, pelos gestores locais de saúde, ou seja, pelos governadores, desde que cientificamente recomendada a providência.
Na Constituição da República consagra-se o valor da solidariedade no artigo 3.°, segundo o qual é objetivo fundamental da República construir uma sociedade livre, justa e solidária. Ser vacinado é ser solidário, pois não apenas se protege a si mesmo, mas todos da comunidade, visando a alcançar a imunização. A solidariedade, na expressão de Dworkin, vem a ser "considerar a vida dos outros como parte de suas próprias vidas" ( Uma Questão de Direito, pág. 297), significando "a pessoa se abrir à outra, pensá-la, sofrer com", no dizer de Arias Bustamante (Alternativa Ideológica: Comunitarismo, pág. 40), unidos todos por grande cordão umbilical.
Pela via da solidariedade social pode-se cimentar, orientar e construir concretamente nossa unidade como povo, surgindo em face desse objetivo da República o dever de solidariedade que a todos vincula (André Corrêa, Solidariedade e Responsabilidade, pág. 313).
Como transmissores, somos todos iguais perante o vírus. Ninguém, por nenhuma razão, pode colocar-se acima dos demais e negar-se a colaborar com a comunidade na precaução contra o malefício da infecção. Rejeitar a vacina, autorizada pela Anvisa, é atuar com desprezo pelo outro, em superioridade antissolidária.
Como elucida o Supremo Tribunal Federal (Oscar Vilhena, Direitos Fundamentais, pág. 388, reproduzindo votos de Celso de Mello), "a proteção à saúde representa um fator que associado a um imperativo de solidariedade social impõe-se ao Poder Público", em qualquer plano da organização federativa, tomando medidas preventivas e curativas.
Em outro voto, Celso de Mello observa que a negação de qualquer tipo de obrigação a ser cumprida com base nos direitos sociais significa a renúncia a "reconhecê-los como verdadeiros direitos" (pág. 399), em arrepio ao princípio da solidariedade.
Assim, campanha contra futura vacinação, por motivação política, significa não reconhecer a precaução eficaz contra o vírus como um direito da comunidade, a ser explicado e exigido de todos pelo chefe da Nação. Tal conduta infringe o artigo 7.° da Lei n.° 1.079/50, ou seja, pode ser crime de responsabilidade consistente em violar o direito social à saúde, pois incita a impedir a imunização, objetivo solidário de todo o povo. Que flagelo!
"Campanha contra a vacinação por motivos políticos pode ser crime de responsabilidade "
quinta-feira, 5 de novembro de 2020
Trump não perdeu(William Waack, Estado, 5 11 2020)
Autonomia do Banco Central(Celso Ming, Estado, 5 11 2020)
Autonomia do Banco Central
COLUNISTAS
quinta-feira, 5 de novembro de 2020
O Estado de S. Paulo / Economia
CELSO MING
Na última terça-feira, o Senado aprovou projeto de lei que garante a autonomia formal do Banco Central. A matéria vai agora para exame da Câmara dos Deputados.
No Brasil, a independência do Banco Central em relação ao governo foi até aqui objeto de controvérsias. Há sempre aqueles para os quais o Banco Central tem de ficar submetido ao governo, especialmente ao Ministério da Economia, que seria condição para harmonização de políticas econômicas. Outra posição é a de que o guardião da moeda não pode ficar na mão de políticos, que adoram gastar, daí a necessidade da independência funcional. E um terceiro ponto de vista é o de que o Banco Central do Brasil já vem tendo, na prática, alta dose de autonomia, razão pela qual essa independência formal não seria necessária.
Pelas regras em vigor, o presidente do Banco Central e qualquer um dos seus diretores podem ser demitidos ad nutum, ou seja, sempre que entrarem em conflito com o poder Executivo, que o controla.
O Banco Central funciona como agência reguladora, não só do volume de moeda adequado para o momento, mas também do funcionamento e da saúde dos bancos. E, como toda a agência reguladora, não pode estar intimamente atrelado ao governo, sob pena de prejudicar tanto a política monetária (política de juros) como a supervisão das instituições financeiras.
Por isso, no regime de autonomia formal, seus dirigentes operam com mandato fixo em períodos não coincidentes com a troca de governo e só podem ser demitidos em caso de falha grave no exercício de suas funções.
Como a moeda de um país é um dos seus mais importantes patrimônios, uma direção autônoma tem mais condições de tomar a decisão tecnicamente correta, sem estar sempre sujeita a desagradar ao maioral da hora.
Não é verdade que as administrações anteriores do Banco Central do Brasil tenham usufruído de autonomia na prática. Ao longo do governo Dilma, por exemplo, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, não tomava nenhuma decisão sem fazer o jogo da presidente. Entre 2011 e 2013, os juros básicos (Selic) foram derrubados de 12,5% ao ano para 7,25% ao ano, não porque a trajetória da inflação assim o pedia, mas de maneira artificial, apenas porque Dilma e seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, entendiam que só com crédito mais barato e custo mais baixo da dívida pública conseguiriam reativar a economia, então estagnada.
Mesmo quando um banco central goza de autonomia formal, não é totalmente seguro que consiga se livrar da interferência dos políticos. Para não ir muito atrás, nestes últimos quatro anos, foram frequentes as reprimendas públicas que o presidente americano, Trump, dispensou às decisões de política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), com objetivo óbvio de influenciar suas decisões.
Mas é preciso ponderar que a autonomia formal do Banco Central do Brasil não é a solução de todos os problemas. Seu atual presidente, Roberto Campos Neto, vem insistindo que o Copom já fez tudo o que podia fazer e que, para sair da crise, é preciso que o governo faça sua parte no serviço, por meio da política saneadora de gastos públicos: 'Neste momento, o Banco Central é passageiro; o piloto é o (lado) fiscal', disse ele em agosto.