sábado, 5 de setembro de 2020

Os alunos pobres e as aulas online(Estado, 5 9 2020)


Os alunos pobres e as aulas online

sábado, 5 de setembro de 2020 

  
O Estado de S. Paulo  / Notas e Informações
Cenário Político-Econômico: Colunistas
Apesar dos esforços das redes públicas de ensino básico para compensar com a expansão do ensino remoto as atividades escolares que foram prejudicadas com o fechamento das escolas, por causa da pandemia, a implementação dessa medida esbarrou num grave problema de caráter social. Dos 44 milhões de crianças e adolescentes que estão nesse ciclo educacional, cerca de 4,8 milhões não conseguiram aproveitar as aulas virtuais por falta de acesso à internet.

Coletados a partir de uma pesquisa realizada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), esses números revelam as dificuldades que os Estados e municípios responsáveis por 80% das matrículas do ensino básico - terão de enfrentar para adotar o modelo híbrido de educação recomendado pelos pedagogos quando a pandemia passar. O ensino híbrido combina aulas presenciais e virtuais.

Além da falta de condição financeira das famílias desses estudantes para assegurar acesso à internet, a pesquisa do Unicef detectou outro problema. Entre as famílias que conseguiram adquirir equipamentos eletrônicos, muitas só puderam comprar os mais baratos. Como eles são de má qualidade, o acesso de baixa precisão às plataformas digitais prejudicou o aproveitamento das aulas virtuais por parte de seus filhos.

Como era inevitável, esses problemas acabaram levando o porcentual de crianças e adolescentes desmotivados a pular de 46%, em maio, para 51%, em julho - um aumento de 5% no período de apenas um mês. A informação é de outro levantamento - este realizado pelo Datafolha por encomenda da Fundação Lemann, do Itaú Social e da Imaginable Futures, uma empresa global de investimentos filantrópicos em aprendizagem. O estudo também mostrou que a falta de motivação levou a taxa de evasão escolar nas redes públicas de ensino médio a passar de 31% para 38%, no mesmo período. Ao deixar a escola, esses estudantes desistiram de prestar vestibular e cursar o ensino superior, motivo pelo qual não terão a formação técnica necessária para disputar empregos de qualidade numa economia cada vez mais condicionada pela chamada Revolução Industrial 4.0.

Isso dá a medida de como as disparidades do sistema educacional, exponenciadas pela pandemia, podem agravar ainda mais as desigualdades sociais do País. Como as famílias de classe média e ricas podem obter acesso de qualidade à internet e pagar escolas particulares, seus filhos contam com uma formação escolar superior à das crianças e adolescentes oriundos de famílias pobres. Por falta de competências básicas e desenvolvimento de habilidades, quem vive em família sob condição de vulnerabilidade econômica está condenado ao mercado de trabalho informal.

Desse modo, em vez de oferecer um preparo igualitário às novas gerações, propiciando a todas as crianças e jovens as mesmas oportunidades de afirmação profissional, o sistema educacional continua fazendo o contrário. Por um lado, não forma o capital humano de que o País necessita para promover o desenvolvimento produtivo e tecnológico e assegurar competitividade internacional. Por outro, ao negar a emancipação cultural de parte das novas gerações, agrava os problemas da pobreza e da desigualdade. E quanto maior for o diferencial de escolaridade média entre adolescentes e jovens de perfis socioeconômicos distintos, mais profunda será a divisão da sociedade e mais tecnologicamente atrasada seguirá a economia brasileira.

Enquanto isso, apesar de o Brasil precisar de educação formal e profissional igualitária e de alta qualidade, uma vez que a prosperidade dos países depende da capacidade de suas novas gerações de desenvolver, gerar, distribuir e usar tecnologias de ponta, o governo Bolsonaro continua perdendo tempo ao vincular religião, negacionismo científico e educação básica. Além de não ter senso de urgência e responsabilidade, é incapaz de entender o papel do ensino e da ciência no avanço do processo civilizatório.

Cerca de 4,8 milhões de crianças e adolescentes podem ter sua formação escolar comprometida.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Seis lições da ‘abenomics’(Valor, 3 9 2020)



Seis lições da ‘abenomics’

quinta-feira, 3 de setembro de 2020 

  
Valor Econômico  / Opinião
Economias frágeis não conseguem enfrentar elevações de impostos. Por Robin Harding

“Acredite na “abenomics!”, conclamava o premiê do Japão, Shinzo Abe, em 2013. E fizemos isso. No maior triunfo de todos os tempos, Abe convenceu o mundo de que seu conjunto denominado de três setas — de “política monetária arrojada, política fiscal flexível e uma estratégia de crescimento” — transformaria a economia do Japão. Agora que Abe está deixando o cargo após mais de oito anos no poder, chegou a hora de avaliar: a “abenomics” foi bem-sucedida?

A resposta simples é: não. O objetivo central era uma meta de inflação de 2%. Mas, mesmo antes da covid-19, o mais próximo dela que o Japão chegou foi quando contabilizou cerca de 1%. Isso é fracasso.

Mas, a exemplo de um time de futebol que não se sagra campeão no torneio nacional, a derrota não significa necessariamente que o desempenho foi ruim, mas apenas que não foi bom o suficiente. “Abenomics” teve seus momentos de glória. Para um mundo que combate a “japanificação” — uma resvalada na direção da estagnação, da deflação e das taxas de juros ultrabaixas —, a teoria de Abe encerra lições poderosas.

A primeira lição é que a política monetária funciona. A “bazuca” inicial de enormes compras de ativos pelo Banco do Japão em 2013 foi altamente eficaz. Os rendimentos dos bônus caíram; as bolsas de valores dispararam; e, o que é mais importante, o iene recuou para menos de 100 ienes por dólar, uma bênção para a indústria japonesa. O crédito cresceu e o país usufruiu de um nível de emprego recorde durante a era Abe. É quase impossível argumentar que o Japão teria ficado em melhor situação com taxas de juros mais elevadas e com um iene mais forte.

A segunda lição é a de que economias frágeis não conseguem enfrentar elevações de impostos. O dia em que a “abenomics fracassou” foi o dia em que o imposto japonês sobre o consumo subiu de 5% para 8%, no segundo trimestre de 2014. A elevação do imposto tinha sido planejada por um governo anterior, mas Abe e o presidente do Banco do Japão, Haruhiko Kuroda, são responsáveis pela implementação da decisão, que mergulhou o país na recessão. Um novo aumento de impostos para 10% no ano passado teve os mesmos resultados. Se o governo promete incentivo e, na prática, gera contenção, fracassa. Essa, em poucas palavras, é a história da “abenomics”.

A terceira lição, que decorre estreitamente da anterior, é que a credibilidade é tudo. Nos primeiros tempos, Kuroda prometeu 2% de inflação dentro de dois anos. Essa promessa não foi cumprida, e nem poderia ter sido. Após o imposto sobre o consumo ter levado à recessão, a segunda bazuca de Kuroda em 2014 — acelerar o ritmo de compras de ativos para 80 trilhões de ienes ao ano — teve menor efeito. A essa altura, o encanto tinha se quebrado.

Essa também não foi a única maneira pela qual a “abenomics” minou sua própria credibilidade. Por exemplo, o governo nunca elevou os salários do setor público em consonância com a meta de inflação de 2%. Por que, então, o setor privado deveria ter dado atenção à exigência de Abe por aumentos de salário?

A quarta lição é a de que não se pode confiar apenas nas expectativas. Kuroda explicou reiteradamente como sua política funcionaria por meio da elevação das expectativas de inflação futura da população. De fato, há sinais de que isso tenha ocorrido inicialmente, antes de a recessão de 2014 enterrar as esperanças de que a inflação realmente subiria. Um instrumento que depende de expectativas nunca vai se equiparar a um que altera diretamente as taxas de juros.

A quinta lição é que os estímulos não causam problemas com a dívida pública; ao contrário, os solucionam. Desde 1990, o endividamento público do Japão como percentual do Produto Interno Bruto subiu incessantemente, menos em dois períodos: em 2005-2007, quando a economia estava suficientemente forte para que o BC do país, de forma insensata, elevasse as taxas de juros, e no período 2013- 2019, quando a “abenomics” gerou impulso suficiente para permitir elevações do imposto sobre o consumo. O setor público só consegue poupar mais se o setor privado poupar menos. A força da economia é precondição para o aperto fiscal.

A sexta lição são os limites de uma estratégia de crescimento. Talvez as críticas mais comuns a Abe no Japão sejam o fato de ele nunca ter cumprido as promessas de realizar uma reforma estrutural. É verdade que ele nunca implementou as coisas mais radicais, como descartar as proteções para trabalhadores assalariados. Mas não se pode negar que o que fez efetivamente foi liberalizar o mercado de energia elétrica do Japão, abrir o país a turistas chineses, enfraquecer o lobby da agricultura e assinar dois enormes acordos de comércio exterior.

A maior parte do crescimento da economia, no entanto, provém, em última análise, de uma população maior, do aprimoramento da educação, da acumulação de capital e, o mais decisivo de todos esses quesitos, do desenvolvimento de uma nova tecnologia. Com a queda da população japonesa, a única “reforma” que certamente expandirá a economia é imigração em grande escala, e Abe sentiu, com razão, que essa alternativa vai muito além da simples economia.

Em que situação isso deixa o Japão hoje? Seus desafios são maiores do que nunca. Após o fracasso de um programa de estímulo supostamente completo, a opinião pública poderá não se deixar convencer por mais um. Mas a situação atual, com uma inflação bem abaixo da meta, é sintomática de um déficit crônico de demanda, imperfeitamente preenchido por uma dívida pública que não para de crescer. Uma alternativa é esperar, prosseguir nas compras de ativos pelo BC e torcer pelo melhor — essa é a postura fundamental do Banco do Japão desde 2016. Outra alternativa é coordenar essas compras de ativos ainda mais estreitamente com os gastos do governo. Esse seria mais um passo na direção da política pública nunca antes trilhada e potencialmente perigosa do “helicóptero de dinheiro”. Mas, para sustentar a esperança tão bem inculcada no passado por Abe, o Japão pode ter poucas alternativas. (Tradução de Rachel Warszawski.)

OLHO: A situação atual, com a inflação bem abaixo da meta, é sintomática de um déficit crônico de demanda, preenchido de forma imperfeita por uma dívida pública que não para de crescer. Uma alternativa é continuar comprando ativos e torcer pelo melhor, a posição do BC desde 2016

Mercado e eleição turbulenta nos EUA(FT, Valor, 3 9 2020)


Mercado se prepara para uma eleição turbulenta nos EUA
quinta-feira, 3 de setembro de 2020 

  
Valor Econômico  / Finanças

Robin Wigglesworth Financial Times, de Londres

Operadores estão aumentando as apostas numa eleição presidencial particularmente turbulenta nos Estados Unidosem3 de novembro, e também num período posterior potencialmente complicado. Os contratos futuros do índice de volatilidade VIX – que usa opções para obter uma estimativa da oscilação futura do S&P 500—mostram o que alguns operadores chamam de “kink” (torção, numa tradução livre) por volta de outubro e novembro, uma aceleração que excede a de corridas anteriores à Casa Branca.

Os derivativos indicam que, apesar de o mercado de ações dos EUA ascender a novos patamares depois do maior rali em agosto desde 1986, a retórica cada vez mais beligerante entre Democratas e Republicanos e a possibilidade de instabilidade política estão deixando os investidores nervosos. As apostas compiladas pela Real Clear Politics mostram no último mês uma queda dramática nas expectativas de uma vitória de Joe Biden, o candidato Democrata.

“Há um solavanco perceptível” na volatilidade esperada”, diz Federico Gilly, gestor de fundos da Goldman Sachs Asset Management. Ele estima que as opções estão apontando para uma movimentação de pelo menos 3,5% no dia da eleição. “A volatilidade continuará em alta enquanto não tivermos uma melhor visibilidade sobre o resultado da eleição”, diz.

Jason Goldberg, gestor de portfólio da Capstone, um grande fundo hedge focado em volatilidade, aponta que o próprio índice VIX vem subindo no último mês, batendo nos 26 pontos nesta semana, pouco acima da média de longo prazo. Isso acontece apesar do forte movimento de alta das ações americanas – o oposto do que se poderia esperar normalmente. “Parece haver uma ansiedade crescente”, afirma.

Os contratos futuros mensais do índice VIX tendem a se inclinar ligeiramente para cima, uma vez que normalmente os investidores precisam pagar mais para se protegerem da volatilidade no longo prazo. Mesmo assim, os contratos com vencimento no fim de outubro e novembro estão extraordinariamente caros, sendo negociados a cerca de 33 e 32 pontos, respectivamente.

Esses ágios são consideravelmente maiores do que os registrados na mesma época da disputa presidencial de 2016 entre Donald Trump e Hillary Clinton.

Quatro anos atrás, o índice VIX no mercado à vista estava pouco abaixo de 14 pontos, enquanto os contratos de outubro-novembro eram negociados a 17 a 18 pontos. Nas eleições de 2012, os contratos eram negociados com um ágio de 5 a 6 pontos, e em 2008 foram negociados com um ágio de apenas 3 pontos, apesar da crise financeira.

“Apesar de as eleições, mesmo para presidente, não serem um catalisador confiável da volatilidade no passado, um grande número de classes de ativos já está incorporando nos preços de opções um ‘evento de risco’ historicamente alto”, disse Joshua Younger, analista do J.P. Morgan, em uma nota emitida a clientes.

Os contratos futuros do VIX com vencimento em dezembro e no começo de 2021 estão sendo negociados a um preço ligeiramente menor que os daqueles que vencem por volta das eleições presidenciais, tornando o baque da volatilidade computado nos preços, antes dessa disputa, particularmente notável.

No entanto, Goldberg diz que a volatilidade implícita para o fim do ano ainda é maior que o normal, indicando que os operadores estão se posicionando para a possibilidade de turbulências após as eleições. “O interessante não é o pico da eleição, e sim o fato de ele não cair rapidamente depois da eleição. O mercado está dizendo que poderemos não ter uma eleição limpa”, afirma ele.

Analistas do Bank of America afirmam que a volatilidade implícita no fim do ano poderá ser ainda maior, dada a possibilidade de contestação dos resultados da eleição. Os mercados globais também parecem injustificadamente complacentes , disseram esses analistas em um relatório divulgado na semana passada.

“Os mercados de opções dos EUA estão precificando uma volatilidade elevada para o que seria normal com um resultado tranquilo das eleições, mas estão menosprezando as chances de as eleições se estenderem para além de novembro”, disseram os analistas do Bank of America. “Além disso, acreditamos que as eleições nos EUA poderão afetar também os mercados globais de ações, especialmente no caso de uma contestação do resultado ou de uma possível crise constitucional.”

Por outro lado, os derivativos indicam que os investidores esperam tranquilidade no mercado de títulos do Tesouro americano no desenrolar das eleições. O índice Move – o equivalente ao VIX para os bônus do governo americano – permanece próximo de patamares recordes de baixa, sedados pelo agressivo programa de estímulo monetário do Federal Reserve (Fed).

Analistas do Goldman Sachs afirmam que os investidores em bônus podem estar tranquilos demais, dadas as chances de Biden derrotar seu adversário. Dados históricos sugerem uma maior volatilidade no mercado de Treasuries quando há uma mudança de controle na Casa Branca.

“O mercado parece de certa forma estar menosprezando o risco de mudança na presidência”, disseram analistas do banco em um relatório. “Em relação ao que está precificado, a história sugere que uma vitória de Biden, e mais especificamente a tomada do controle da Câmara dos Deputados e do Senado pelos Democratas, deverá resultar em um período mais longo no mercado de taxas de volatilidade elevadas.”

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