quarta-feira, 28 de abril de 2021

O genocídio armênio(Estado, 28,4 21)

 O genocídio armênio


quarta-feira, 28 de abril de 2021


 

O Estado de S. Paulo  / Notas e Informações

"Todos os anos, neste dia, nós lembramos as vidas de todos aqueles que morreram no genocídio armênio durante a era otomana e reafirmamos o compromisso de evitar que tal atrocidade jamais ocorra novamente", disse o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, no dia 24 passado.


A declaração é histórica. Foi a primeira vez que um presidente norte-americano chamou pelo nome a brutal política de extermínio dos armênios empreendida pelo então Império Otomano desde antes da 1.a Guerra Mundial. A palavra "genocídio" ainda seria empregada mais uma vez por Biden no discurso em memória das vítimas, quando ele enfatizou que "o povo americano honra todos os armênios que pereceram no genocídio que começou 106 anos atrás".


A bem da verdade, antes de Joe Biden, muitos presidentes americanos criticaram com firmeza o extermínio dos armênios, jamais reconhecido pelos turcos, porém, sem classificá-lo como genocídio; não porque descabido fosse, mas para evitar ferir suscetibilidades da Turquia, país que Washington considera um frágil aliado na delicada geopolítica na região do Oriente Médio.


Por razões diametralmente opostas, o genocídio é uma questão que toca a identidade nacional de turcos e armênios.


A reação de Ancara após a fala de Biden mostra por que presidentes americanos antes dele tanto evitaram falar em genocídio armênio e quão corajosa foi a inflexão do democrata, que, diga-se, cumpriu uma promessa de campanha com o reconhecimento público da tragédia. Em pronunciamento transmitido pela TV, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, afirmou que a declaração de Biden "afunda" as relações entre seus países.


Erdogan, que classificou como "insultuoso" o discurso de Biden, pediu que o presidente americano "corrija a tempo este passo errado" nas relações entre Turquia e Estados Unidos, que, em sua visão, atingiram "um novo ponto negativo". Não haverá recuo por parte de Washington, evidentemente. Primeiro, como já dito, porque Biden cumpriu uma promessa de campanha. Segundo, por questão de coerência. O primeiro passo para "evitar que tal atrocidade jamais ocorra novamente" é tratar as coisas como são, sem subversões da realidade. O que a política pode distorcer, o registro da História aponta como o primeiro caso de genocídio do século 20, décadas antes da tentativa do extermínio dos judeus pelo regime nazista, não por acaso também negado ainda hoje por aqueles que não só se põem a espancar a História, mas também a memória das vítimas da barbárie.


De fato, era inconcebível que o genocídio armênio não fosse tratado como tal, não obstante todas as evidências da deliberada política de matança e deportação em massa implementada pelo Império Otomano, principalmente, a partir de 1915. Então premidos entre os impérios otomano e russo, no Cáucaso, o movimento de identidade nacional dos armênios sofreu toda a sorte de violência, muito antes da eclosão da 1.a Guerra, que, em seu término, levou ao fim do Império Otomano e à fundação da Turquia.


Lamentavelmente, o governo brasileiro ainda não reconhece oficialmente o genocídio armênio. Foi para cá que acorreram muitos armênios da diáspora. Aqui vivem milhares de seus descendentes.


Em 2015, o Senado aprovou requerimento dos senadores Aloysio Nunes Ferreira e José Serra, ambos do PSDB de São Paulo, e emitiu uma moção de solidariedade aos armênios por ocasião do centenário do genocídio. O emprego correto da palavra motivou reação da Turquia, que convocou para consultas o então embaixador em Brasília, Hüseyin Dirioz.


Os armênios estimam em 1,5 milhão os mortos entre 1915 e 1917. Tramita no Senado um projeto do falecido senador Major Olímpio (PSL-SP) para que se institua o dia 24 de abril como o "Dia de Homenagem às Vítimas e de Reconhecimento do Genocídio do Povo Armênio". A rápida tramitação deste projeto de lei seria uma justa homenagem à memória dos armênios que pereceram no massacre.


"Reconhecer o genocídio armênio é fundamental para evitar a repetição de atrocidades"




segunda-feira, 26 de abril de 2021

BC vai exigir que bancos monitorem risco climático(Valor, 26 4 21)

 BC vai exigir que bancos monitorem risco climático


O Banco Central (BC) passará a exigir que os bancos incorporem fatores sociais, ambientais e climáticos às suas políticas de gerenciamento de riscos. A medida sinaliza a percepção do regulador de que essas questões podem ter impacto na estabilidade do sistema financeiro em meio à pressão crescente de investidores e da sociedade.
Esses aspectos serão considerados lado a lado com riscos de crédito, liquidez e mercado no cálculo que as instituições financeiras fazem sobre a exposição que aceitam ter para realizar suas operações. Na prática, passarão a ser contemplados na declaração de apetite a risco que os bancos entregam ao regulador e nos testes de estresse a que estão sujeitos. Hoje, fatores socioambientais já são alvo de acompanhamento, mas não de forma integrada com os demais.

A medida faz parte de minuta colocada em consulta pública pelo BC neste mês para substituir a resolução 4.327, aprovada em 2014. A proposta também abrange uma reforma das regras de responsabilidade socioambiental dos bancos — consideradas pioneiras na época, mas vistas como insuficientes atualmente.

A intenção do regulador é que o novo texto seja mais específico e reflita conceitos que ganharam força nos últimos anos. A minuta descreve explicitamente assédio, discriminação racial e de gênero, trabalho infantil, desmatamento ilegal e acidentes ambientais como alguns dos riscos que devem ser observados pelos bancos ao fazer operações com clientes.

O BC pretende tornar o clima um fator específico a ser monitorado diante da possibilidade de perdas para as instituições financeiras na transição para uma economia de baixo carbono e de mudanças nas condições ambientais decorrentes do aquecimento global.

Alterações climáticas e a evolução do debate internacional levaram o regulador a rever a norma, diz Kathleen Krause, chefe adjunta do Departamento de Regulação Prudencial e Cambial do BC. “As instituições podem ter perdas, por exemplo, se financiarem indústrias que deixam de ser competitivas numa economia de baixo carbono, ou se tiverem como garantia um imóvel em área sujeita a intempéries relacionadas à mudança climática”, afirma.

A consulta pública 85 ficará aberta por dois meses e é uma das iniciativas de sustentabilidade da agenda do BC. Outra consulta, sobre critérios socioambientais para o crédito rural, foi encerrada na sexta-feira. Uma terceira está prevista para ser lançada nesta semana, com a incorporação de recomendações de uma força-tarefa internacional (TCFD) para um maior detalhamento, pelos bancos, sobre a sustentabilidade dos projetos que financiam. “Investidores têm dedicado parte significativa de seus portfólios para projetos ESG [sigla em inglês para padrões ambientais, sociais e de governança]”, afirmou o diretor de regulação do BC, Otávio Damaso, em evento da Acrefi na semana passada.

"O setor financeiro tem que olhar esse movimento como oportunidade.” O BC não deve proibir os bancos de fazer nenhuma operação.

A ideia é definir parâmetros e fazer com que as instituições deem mais transparência às suas práticas. “O BC pode agir, mas é a própria sociedade que vai cada vez mais questionar”, afirma David Valente, chefe de divisão do Departamento de Regulação.

O desafio será estipular métricas e limites para balizar a pressão que os bancos poderão fazer sobre seus clientes. Para a advogada Lina Pimentel, sócia do escritório Mattos Filho, a tendência é que os bancos façam exigências nos contratos que, se descumpridas, levem ao vencimento antecipado das operações de crédito, como já se faz hoje.

“É uma norma programática. Não barra as operações, mas [o crédito] vai sair mais caro para quem tiver uma conduta menos desejável.” 

Bancos procurados pelo Valor não quiseram comentar a proposta porque ainda estão avaliando o teor dela. Para um executivo ligado ao setor, o movimento mostra que o BC está preocupado com a saúde das instituições num mundo em transição. No fim do dia, afirma, é bom para elas, que já têm procurado melhorar suas práticas. Mas essa fonte defende que o regulador adote critérios claros para que o controle seja efetivo.

A regra deve gerar custos ainda que defina exigências proporcionais ao porte dos bancos, avalia Pedro Eroles, também sócio do Mattos Filho. “As instituições vão precisar ter estruturas específicas para gerenciar esses riscos”, afirma.

domingo, 25 de abril de 2021

Privatizações: um argumento esquecido(Affonso Celso Pastore, Estado, 25 4 21)

Privatizações: um argumento esquecido


domingo, 25 de abril de 2021 


 

O Estado de S. Paulo  / Economia

AFFONSO CELSO PASTORE -


Por que as privatizações perderam força apesar do sucesso obtido durante o governo FHC? Por que o ministro da Economia de um governo autointitulado liberal abandonou o discurso de que iria privatizar todas as empresas estatais? Apesar dos enormes ganhos de eficiência, fartamente comprovados com a privatização das empresas de telecomunicação, há por parte do governo muito pouco interesse em privatizações. A frustração com o caminho tomado levou-me a resumir alguns dos argumentos que expus na introdução do livro Infraestrutura, Eficiência e Ética, de 2016, do qual fui o coordenador. Para mim, a explicação é muito simples. As empresas estatais são usadas (e abusadas) pelos governos, à esquerda e à direita, como fonte de poder político.


Uma pequena incursão pela história esclarece o argumento. Nas décadas dos anos 1960 e 1970, na grande maioria dos países acreditava-se que através de empresas estatais os governos deveriam ter um papel preponderante na produção. Na introdução do artigo no qual analisa o problema, Schleifer (State versusPrivate Ownership", NBER, 1998) afirma que "consistente com a falta de aversão à propriedade do Estado, no pósguerra os países ao redor do mundo assu- miram um papel enorme na produção, sendo proprietários de tudo, desde a terra e as minas até as fábricas e a indústria de comunicações, bancos, companhias de seguros, hospitais e escolas". Em uma resenha sobre as evidências empíricas nas privatizações, Megginson e Netter ("From State to Market: A Survey of Empirical Studies on Privatization", 2001) relatam que "na Europa Ocidental, os governos nacionais debatiam em qual profundidade deveriam se envolver na regulação da economia e quais seriam os setores industriais que deveriam ser reservados apenas à propriedade do Estado". Embora existissem razões políticas e ideológicas para a "estatização", o motivo predominante era a crença de que as empresas estatais evitariam as "falhas de mercado", que decorrem de externalidades, de monopólios e de custos de informação, entre outros.


As privatizações levadas a cabo por Thatcher, no Reino Unido, representaram a mais marcante mudança nessa orientação. A motivação principal foi a constatação de que, para fugir das "falhas do mercado", as economias ficavam expostas às "falhas do governo", com resultados muito piores. Schleifer mos- trou que essa consequência era perfeitamente evitável porque, "se o governo sabe exatamente o que deseja, pode explicitar seus objetivos em um contrato ou através de uma regulação bem-feita, obrigando a empresa privada a produzir de acordo com as condições a ela impostas". Por exemplo, é a regulação que impede que o concessionário de uma estrada explore o seu poder de monopólio.


O argumento mais forte, contudo, é o relativo à diferença de incentivos dados aos gestores de empresas privadas e públicas, e para expô-lo vou usar da distinção entre o "principal" e o "agente". Em uma empresa privada, o "principal" é o acionista e o "agente" é a sua diretoria, cuja remuneração cresce com o aumento dos lucros. Neste caso, há um completo alinhamento de interesses que estimula a eficiência produtiva. Já em uma empresa estatal o "principal" é o governo e o "agente" é um gestor do qual se espera que atenda aos objetivos políticos dos detentores do poder, e os resultados não são bons. Um exemplo extremo é o do escândalo de corrupção na Petrobrás, no qual o "principal" buscava recursos para "retribuir" o apoio dado pelos partidos aliados (além de objetivos que prefiro omitir), indicando um "agente" apto a cumprir a tarefa. Outro é o da recente demissão dos presidentes do Banco do Brasil e da Petrobrás, que foram penalizados por buscar a redução de custos e o aumento dos lucros, quando o objetivo do "principal" era o de satisfazer os desejos dos grupos políticos que o apoiam.


Além da produção através de empresas estatais ser uma forma ineficiente de evitar as "falhas de mercado", fica exposta às "falhas do governo", uma das quais vem das exigências do "principal" quanto aos objetivos a serem perseguidos pelo "agente". Como foi exposto por Schleifer e Vishny ("Corruption", NBER Working Papers #4372, 1993), "empresas estatais são ineficientes não só porque seus gestores têm incentivos fracos para reduzir os custos, e sim porque a ineficiência é o resultado da política deliberada do governo de transferir benefícios aos que o suportam".


Como fica o dólar?(Celso Ming, Estado, 25 4 21)

Como fica o dólar?

COLUNISTAS

domingo, 25 de abril de 2021


 

O Estado de S. Paulo  / Economia

CELSO MING


As cotações do câmbio deram os primeiros sinais de que começam a levar em conta as excelentes perspectivas das contas externas. Ensaiaram uma baixa.


Este ano será a primeira vez desde 2007 que o resultado em Transações Correntes deverá fechar no azul, conforme projeções do Banco Central. Esta é a conta que registra as entradas e saídas de moeda estrangeira com mercadorias, serviços e transferências. Só fica de fora o fluxo de capitais (investimentos e empréstimos). Ou seja, pelo comportamento das contas externas, a entrada de dólares neste ano tende a ficar mais forte do que a saída.


São duas as principais razões que explicam esse resultado, uma positiva e outra negativa. A explicação positiva é a boa fase das exportações de commodities (soja, milho, carne, petróleo e minérios), que tem a favor, além do aumento da produção, a alta dos seus preços em dólares. A explicação negativa é a ainda baixa atividade econômica, que vem segurando importações e despesas com serviços (turismo, transportes, seguros, etc.). Ou seja, tem a ver com a queda da demanda interna.


No entanto, até agora, o comportamento do câmbio não refletia essa melhora do balanço de pagamentos. Teimava em ficar mais perto dos R$ 5,80 do que dos R$ 5,00, principalmente pela falta de confiança no governo. O risco era o de que as contas públicas se desmantelassem, a dívida saltasse para 100% do PIB, a política de juros perdesse capacidade de torque (por dominância fiscal) e o País ficasse ingovernável.


A novidade é que houve acordo político em torno da aprovação do Orçamento da União, que não tem lá grande qualidade, mas que também não é o desastre tão temido. Foi o suficiente para uma distensão no câmbio (veja o gráfico). O relativo alívio na aprovação do Orçamento agiu também sobre o comportamento do índice de risco Brasil, medido pelo CDS5, que é o quanto os investidores internacionais vêm pedindo de remuneração extra para ficar com títulos do Tesouro do Brasil de 5 anos. (Veja o gráfico.) Dois fatores podem agora trazer ainda mais dólares para o Brasil. O primeiro deles é o aumento da percepção de exuberância das contas externas, especialmente agora que a economia mundial ensaia grande recuperação. E o segundo, a ideia de que as cotações podem cair ainda mais e, por conta disso, exportadores e investidores, que vêm mantendo recursos lá fora, se sintam encorajados a trazê-los mais rapidamente para cá com o objetivo de aproveitar cotações ainda elevadas.


O mercado financeiro auscultado pela Pesquisa Focus, do Banco Central, vinha trabalhando com o dólar ao fim do ano em torno dos R$ 5,30 a R$ 5,40. A partir de agora, poderá baixar alguma coisa nessas estimativas. Se a tendência de baixa do dólar se confirmar, dá para esperar duas consequências para a economia. A primeira é o impacto deflacionário sobre os importados. Derivados de petróleo e alimentos podem ter suas cotações finais barateadas. O mesmo deverá acontecer com insumos, matérias-primas e equipamentos trazidos do exterior. Poderá, também, aliviar o IGP-M cujo avanço tanto vem preocupando os que pagam aluguéis. A outra consequência poderá recair sobre a política monetária. Se a inflação recuar de maneira consistente, o Banco Central não precisará puxar tanto pelos juros.


O problema é que essa recuperação da confiança, que está na base da valorização do real (baixa do dólar), não é fava contada. A covid-19 está desenvolvendo novas cepas e não há segurança de que a imunização da população, que avança lentamente, será capaz de conter novas ondas e, com elas, nova deterioração da atividade econômica e da situação do emprego.


Além disso, há as incertezas inerentes ao jogo político. O governo Bolsonaro depende de apoios fugazes e continua sem rumo. E, quando falta rumo, ele próprio não sabe para onde vai.


FONTE: BROADCAST

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Dinheiro físico ganha espaço na economia em meio à pandemia(Valor, 23 4 21)

 



O universo financeiro passou por uma verdadeira transformação digital nos últimos anos, com o surgimento de novas tecnologias, como o Pix e o open banking, além da concorrência de fintechs.
Mas, uma forma de pagamento bastante tradicional ganhou espaço em 2020: o dinheiro em papel. Impulsionada pelo pagamento do auxílio emergencial, em meio à pandemia, a quantidade de notas em circulação aumentou fortemente e levou consigo empresas que trabalham com numerário, como operadoras de caixas eletrônicos, transportadoras de valores e mesmo algumas fintechs. 

Hoje, as cédulas e moedas em circulação na economia brasileira somam R$ 340,879 bilhões. Ao fim de fevereiro de 2020, antes da eclosão da pandemia por aqui, esse volume era de R$ 259,340 bilhões, ou seja, em pouco mais de um ano houve um aumento de 31,4%. A demanda por dinheiro em papel foi tanta que o Banco Central foi obrigado a antecipar o lançamento da nota de R$ 200, mas a produção ainda é baixa — há apenas 63,3 mil cédulas do tipo em circulação, o menor número de todas as notas e bem atrás das cédulas de R$ 1, com 148,7 mil unidades.

A expectativa daqui para frente é de que o dinheiro ainda represente uma parcela importante das transações. Antes da pandemia, o Brasil tinha quase 45 milhões de desbancarizados. Mesmo com os indícios de que esse número tenha sofrido uma redução substancial por conta do pagamento do auxílio emergencial por meio do aplicativo Caixa Tem e da popularização de bancos digitais, é grande ainda a parcela da população com nenhum ou pouco acesso a serviços bancários, e que está no mercado informal de trabalho.

Os dados oficiais do BC sobre o uso do dinheiro são de 2018. Naquele ano, uma ampla pesquisa mostrou que 29% recebiam salário em dinheiro vivo e 96% usavam notas para pagar contas ou fazer compras. O dinheiro era a forma de pagamento utilizada com maior frequência para 60% dos entrevistados. No ano seguinte, uma pesquisa feita pelo Instituto Locomotiva mostrou que 71% dos entrevistados usavam dinheiro vivo como principal meio de pagamento do cotidiano.

“Por mais que o brasileiro tenha se bancarizado, ele ainda gosta muito do numerário, a grande maioria sacou o auxílio emergencial”, afirma Alessandro Abrahão, diretor-geral da Prosegur Cash.

Ele conta que metade de todo o volume de auxílio emergencial pago no ano passado passou pela transportadora. O faturamento da unidade cresceu 12% em 2020, para R$ 2,155 bilhões. “O auxílio emergencial deu um impulso de 4% na nossa receita”, diz.

Marcelo Caio D'Arco, CEO da Brinks no Brasil, ressalta que, apesar de todo viés de digitalização, o montante de dinheiro circulando hoje é muito maior do que antes da pandemia, o que também aconteceu em outros países. “O Brasil com suas dimensões continentais e desigualdades não consegue atender 100% do público com soluções exclusivamente digitais. Alguns municípios mal têm energia elétrica, internet”, conta.

O Grupo Protege chegou a prever uma queda de 40% no faturamento em 2020, em função da pandemia, mas a retração acabou sendo bem menor, de 2,5%, sendo que na unidade de transporte de valores houve alta de 3,3%. “O auxílio emergencial criou um potencial a mais que não era esperado nas nossas projeções, mas é momentâneo”, afirma Marcelo Baptista Oliveira, presidente.

Ele destaca, contudo, que o dinheiro físico continuará tendo papel muito importante por mais 10, 20 anos, apesar da digitalização do setor financeiro. “A gente está de olho, tentando entender o mercado, o que está acontecendo com Pix, pagamentos pelo WhatsApp.

As empresas do segmento ainda não estão preparadas para dizer o que mercado vai virar. O Brasil e o mundo não estão preparados para o fim do dinheiro”, diz Oliveira.

Até mesmo as fintechs, que já nasceram num ambiente totalmente digital, começam a trabalhar com dinheiro de papel. A Celcoin, que fornece uma plataforma aberta de serviços financeiros para fintechs e bancos digitais, disponibilizou novas APIs para realização de depósitos em caixas eletrônicos. “Queremos capilaridade sem a necessidade da abertura de postos físicos”, afirma o CEO, Marcelo França.

Já a Sled, criada em novembro, está desenvolvendo uma solução que permite transformar pontos de venda (supermercados, por exemplo) em caixas eletrônicos para os consumidores. Em 2016, Anderson Locatelli, CEO e fundador da empresa, havia criado a Troco Simples, que visava revolucionar o troco em moeda. Ao compreender que o troco é apenas uma parte de um mercado repleto de outras dificuldades, ele resolveu fundar a nova fintech.

Leandro Vilain, diretor de inovação, produtos e serviços da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), diz que ações estruturais para reduzir a circulação do dinheiro em espécie foram feitas nos últimos anos, como não precisar mais sacar dinheiro para pagar boleto vencido de um banco onde a pessoa não tem conta e Pix, sistema de pagamento instantâneo que é gratuito para pessoas físicas. Contudo, diz, uma redução mais drástica do numerário tende a acontecer num horizonte de longo prazo. O próprio Pix terá a possibilidade de saques no varejo.

“Não sou inocente em afirmar que as transações com dinheiro vão zerar. Alguns produtos que envolvem numerário terão espaço por algum tempo, mas miramos sua redução no longo prazo”, diz, ao lembrar que os gastos do setor bancário com logística do numerário chegam a R$ 10 bilhões por ano. Vilain também não acredita que os caixas eletrônicos possam acabar, à medida que crescem os serviços digitais.

Ele crê que possam surgir novas formas de aproveitamento.

Apesar do impulso dado pelo auxílio emergencial no ano passado, a nova rodada, que começou a ser paga este mês, tem um público bem menor, com valores também reduzidos, o que significa que o impacto na circulação de dinheiro este ano será menos significativo. Assim, as empresas que trabalham com dinheiro em papel seguem investindo em fontes para diversificar a receita.

A TecBan, que opera a maior rede independente de caixas eletrônicos do Brasil, investiu R$ 4 bilhões em pesquisa e desenvolvimento nos últimos dez anos e deve aplicar R$ 500 milhões em 2021.

Na semana passada, concluiu a emissão de R$ 320 milhões em debêntures para refinanciar dívidas e auxiliar nesses investimentos.

Em meados de 2019 a TecBan criou o HubDigital, que facilita a entrada de novas instituições na rede Banco24Horas, reduzindo os custos das fintechs e a necessidade de investimentos em desenvolvimento e infraestrutura tecnológica. Hoje são mais de 20 fintechs parceiras e R$ 2 bilhões sacados em 2020. Além disso, em junho anunciou um acordo com a plataforma Ozone, que foi utilizada na implantação do open banking no Reino Unido, para acelerar o desenvolvimento do ecossistema dessa nova tecnologia no Brasil.

A companhia também tem outras iniciativas de diversificação, como o saque no comércio e as publicidades exibidas nos caixas eletrônicos. Com isso, essas outras linhas de receita já representam 20% do seu faturamento. “Ao fim de 2020 estreamos em um novo segmento. Constituímos a TecBan Serviços Integrados, que atuará no mercado promovendo soluções especializadas em logística, armazenagem, operação, manutenção e revitalização de equipamentos”, diz a companhia. A receita bruta cresceu 8,6% no ano passado, com desempenho mais forte do que o esperado da transportadora de valores TBForte, e o lucro saltou 220,3%, a R$ 183,2 milhões.

Já a Brinks tem quase 4 mil “cofres inteligentes” instalados em comércios de todo o país, possui um acordo com a PicPay para que os usuários da fintech possam sacar em lojas cadastradas e criou o serviço Pignus, com vans blindadas para o transporte em pequenas quantidades de itens como joias, celulares e artigos de luxo.

A Prosegur tem duas redes de correspondentes bancários (LogMais e ProPago), com mais de 160 lojas, além de oferecer uma plataforma de conciliação de vendas e gestão para pequenos lojistas. O Grupo Protege já tem uma operação mais diversifica, pois além do transporte de valores possui uma forte atuação em segurança privada e logística. Sua unidade Proair oferece terceirização de serviços para os setores operacionais e de segurança em 42 aeroportos.

Os fortes 100 primeiros dias do governo Biden(Celso Ming, Estado, 23 4 21)

CELSO MING - Os fortes 100 primeiros dias do governo Biden


sexta-feira, 23 de abril de 2021 


 

O Estado de S. Paulo  / Economia



O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, ainda não completou seus 100 primeiros dias de governo (tomou posse dia 20 de janeiro) e, no entanto, já é enorme surpresa. Nenhum analista esperava tanto dinamismo em tantas frentes. Vamos conferir: VACINAS - A meta original nos Estados Unidos de aplicar 100 milhões de doses em 100 dias foi alcançada em 58 dias. Por isso, foi revista. Biden anunciou que já foram aplicados 200 milhões de doses. Nada menos que 80% dos maiores de 65 anos receberam ao menos uma dose. Qualquer pessoa de 16 anos ou mais tem agora acesso à vacina. Dentro de mais algumas semanas, Biden estará em condições de avançar na chamada geopolítica da vacina, destinada a ocupar os espaços que a China e a Rússia vêm ensaiando ocupar.


AVANÇO DO PIB - A imunização da população é requisito para o disparo da atividade econômica, o que está alcançado. Mas Biden avançou mais. Nas primeiras semanas de governo, propôs pacote de ajuda emergencial de Us$ 1,9 trilhão que banca nova rodada de pagamentos para a população carente. E agora, anunciou superprograma de investimentos de US$ 2 trilhões para financiamento de projetos de infraestrutura e de geração de energia limpa. É plano que relança os Estados Unidos como economia líder e deve criar milhões de empregos. É a melhor resposta à política do governo Trump que pretendia garantir os Estados Unidos em primeiro lugar com base em protecionismos, represálias e desmanche de acordos multilaterais. A ideia agora é reforçar investimentos em tecnologia e iniciativas de ponta. O desafio da China passa a ser enfrentado não com antagonismos, mas com fortalecimento da economia e das instituições. Novas projeções do FMI indicam que o PIB dos Estados Unidos saltará 6,4% neste ano.


METAS AMBIENTAIS - A convocação da primeira Cúpula do Clima, realizada ontem e hoje com os principais chefes de Estado e de governo, é, por si só, iniciativa de impacto. Não só reverte a política negacionista do presidente Trump, mas, também, avança nas metas ambientais. Os Estados Unidos se comprometem a reduzir pela metade as emissões de CO até o fim desta déca- 2 da e chegar a emissões zero até 2050. Biden ainda anuncia que pretende ajudar os demais países a cumprir as metas do Acordo de Paris.


REFORMA TRIBUTÁRIA - Há duas semanas, o governo Biden anunciou proposta que altera disposições do sistema tributário que, uma vez aceitas, terão impacto global. A primeira é o aumento do Imposto de Renda das empresas nos Estados Unidos, de 21% para 28%. A segunda, a negociação em âmbito global de um imposto mínimo sobre o lucro das empresas, com o objetivo de acabar com a guerra fiscal entre países destinada a atrair empresas.


POLÍTICA DE IMIGRAÇÃO - Em vez de insistir na construção de muros e na deportação de "não cidadãos" (que substitui a expressão "estrangeiros"), Biden estuda agora formas não truculentas de lidar com o problema migratório.


FIM DA GUERRA - No dia 14 de abril, Biden anunciou a retirada das tropas dos Estados Unidos do Afeganistão até 11 de setembro, data que marca o 20o aniversário do ataque às torres gêmeas. É o fim da guerra mais longa em que se enredaram os Estados Unidos.


ACORDO COM O IRÃ - Trump desmantelou o acordo nuclear com o Irã assinado pelo ex-presidente Obama, situação que abriu espaços para que se fortalecessem entendimentos financeiros e comerciais entre Irã e China. Biden já manifestou interesse para a retomada das negociações. Para isso, terá de enfrentar a oposição de Israel.


São decisões que ainda não garantem que a administração Biden leve a bom termo essas e outras iniciativas, porque os 100 primeiros dias se caracterizam como temporada de tréguas no jogo com a oposição. A partir de agora, os republicanos passarão a ver a administração Biden como sério obstáculo a suas pretensões eleitorais em 2022 e em 2024 e deverão acirrar sua atuação política contra o presidente. No entanto, esse inegável bom começo pode ajudar a reconduzir a vida política no país para o fortalecimento das instituições democráticas e não mais para seu desmonte, como aconteceu ao longo do período Trump.




terça-feira, 20 de abril de 2021

Política climática contra países em desenvolvimento(Bjorn Lomborg, Globo, 20 4 21)

BJORN LOMBORG - Política climática contra países em desenvolvimento


terça-feira, 20 de abril de 2021 


 

O Globo  / Opinião

BJORN LOMBORG


À medida que aumentam os custos da política climática, os países ricos pressionam os mais pobres a pagar essa conta por meio de tarifas de carbono. O Reino Unido tem esse objetivo como prioridade de sua presidência do G7, e a União Europeia avança com seus planos de uma taxa de carbono própria. Já os países em desenvolvimento estão irritados com a ideia.


Apesar da retórica verde dos países ricos, eles ainda obtêm 79% de sua energia de combustíveis fósseis. Pôr um fim nisso será difícil e incrivelmente ineficaz.


As promessas do Acordo de Paris significam, na prática, reduzir as emissões mundiais em 7,6% ao ano nesta década. A ONU observa alegremente que isso quase foi alcançado em 2020, com as paralisações devido à Covid-19.


Neste ano, no entanto, precisamos de uma redução duas vezes maior. Ou seja, equivalente a duas paralisações como a de 2020. Em 2022, ela deverá ser três vezes maior, e assim por diante, chegando ao equivalente a 11 paralisações mundiais todo ano a partir de 2030. Os modelos econômicos mostram que isso custará dezenas de trilhões de dólares por ano.


Além disso, os cortes não terão muito impacto sobre o clima. Mesmo que todas as nações da OCDE cortassem por completo suas emissões de CO2, o modelo climático padrão da ONU mostra uma redução nas temperaturas de apenas 0,4°C em 2100.


O motivo? Seis bilhões de pessoas desfavorecidas que também querem ter acesso a energia abundante e barata para sair da fome e da doença. Mas as políticas climáticas prejudicam o mundo em desenvolvimento. Se o objetivo for uma redução de até 2°C na temperatura, um estudo recente revisado por pares indica que haverá 80 milhões a mais de pobres até 2030.


À medida que as políticas climáticas na Europa e nos EUA aumentarem os custos de energia, mais empresas migrarão para regiões menos sobrecarregadas, como a América Latina, a China e a índia. Estabelecer uma tarifa sobre as importações, conforme as emissões subjacentes, reduziria esse movimento.


Porém essas tarifas também tornariam mais difícil para os países em desenvolvimento competir, visto que a maioria dos ricos emite carbono de forma mais moderada. Em nível global, essas tarifas seriam ineficientes e tomariam as políticas climáticas ainda mais caras. Mais importante, no entanto, é que elas serviriam como um protecionismo de retaguarda para os países ricos.


Para que os países ricos cortem 20% de suas emissões, o custo será de US$ 310 bilhões por ano. Usando tarifas de carbono, os países ricos podem terminar com US$ 90 bilhões a mais, atraindo as empresas de volta. Em vez disso, eles impõem mais de meio trilhão em custos extras, todo ano, aos pobres do mundo.


A UE e outras partes acreditam que ameaças tarifárias forçarão países em desenvolvimento a adotar suas próprias políticas climáticas onerosas. Não vão. No caso da China, um estudo recente mostra que, mesmo que as tarifas de carbono dos EUA custem US$ 24 bilhões ao ano, um imposto doméstico para 0 carbono seria quase dez vezes mais caro.


Forçar os países em desenvolvimento a escolher entre perder um bilhão ou dez bilhões não levará a políticas climáticas efetivas. Levará a um profundo ressentimento em relação a países ricos que transferem seus custos climáticos aos pobres do mundo. Brasil, África do Sul, índia e China denunciaram recentemente essas tarifas como "discriminatórias", e as nações africanas acusam-nas de protecionistas.


Aplicar tarifas de carbono pode ser popular entre eleitores de países ricos, mas provavelmente levará a uma guerra tarifária, fazendo países em desenvolvimento criar um regime de livre comércio separado.


A maneira mais eficaz de lidar com o problema gerado pelas mudanças climáticas é aumentar drasticamente o investimento em pesquisa e desenvolvimento de energia renovável. Se fosse possível tornar a energia verde mais barata que a dos combustíveis fósseis, todos fariam essa troca tranquilamente.


O Brasil e seus parceiros precisam voltar a influenciar a política climática e insistir em inovações inteligentes e sustentáveis. Esses países devem deixar claro para um Ocidente arrogante que privar os pobres do mundo dos dois motores do desenvolvimento (energia abundante e livre comércio) é inaceitável.


Bjorn Lomborg é presidente do Consenso de Copenhague