sábado, 20 de junho de 2020
sexta-feira, 19 de junho de 2020
O que os Democratas precisam fazer (Bradford DeLong, Valor, 19 6 2020)
Por Bradford DeLong
Os Estados Unidos, assim como quase todos os outros países, ficaram mais pobres desde o início da pandemia da covid- 19 porque os americanos não podem mais se envolver em atividades geradoras de valor que exijam contato humano próximo. Milhões de trabalhadores agora precisam encontrar outras atividades produtivas, mas muitas dessas novas tarefas não serão tão valiosas quanto as que substituíram.
Não deveria haver, contudo, motivos econômicos para que a depressão acarretada pela crise da covid-19 tenha que ser particularmente longa ou profunda. Os EUA lideram o mundo em competência organizacional e tecnológica e são lar de uma força de trabalho altamente capacitada. O problema é que essa recuperação não chegará sozinha.
O fato de os EUA terem precisado de dez anos para se recuperarem plenamente da crise financeira de 2008 deveria servir de fonte de informação para os atuais pontos de vista. Na época, antes de a crise das hipotecas subprime irromper, o setor de construção residencial dos EUA já havia encolhido para seu tamanho normal, de forma que não era necessário um ajuste estrutural setorial. O desafio, em vez disso, era identificar e realocar recursos a bens anteriormente não produzidos que se tornariam mais valiosos no futuro.
Além disso, a crise financeira de 2008 e a recessão que se seguiu não tiraram a capacitação profissional dos trabalhadores americanos nem reduziram a eficácia das tecnologias existentes. No curto prazo, destruíram muitas redes profissionais e reduziram a confiança social que sustenta a divisão do trabalho na economia. O único efeito de longo prazo foi a perda da confiança dos investidores na capacidade das instituições financeiras do setor privado de criar ativos financeiros seguros e com classificação de risco adequada.
Mas é por isso que levou uma década para o emprego nos EUA se recuperar da crise das subprime. O mundo sofreu de uma falta de ativos seguros e os governos não conseguiram solucionar esse problema de forma adequada. Os EUA, por sua vez, deveriam ter feito mais para mobilizar uma capacidade adicional de tolerância a risco pelo setor privado, criar ativos públicos seguros e ajudar os trabalhadores, inclusive por meio da impressão de dinheiro e da compra de bens que estimulassem diretamente a demanda e o crescimento do emprego.
Embora agora não exista motivo para que uma volta do emprego aos níveis pré-pandemia também leve dez anos, provavelmente é isso que ocorrerá. As mesmas forças que levaram as autoridades econômicas em 2010 a declarar vitória sobre a crise e a passar a uma abordagem de “austeridade” agora voltaram a entrar em cena. Está claro que o governo federal dos EUA não adotará nos próximos 30 dias nenhuma iniciativa nova para mitigar a depressão ou melhorar a deficiente capacidade de reação do sistema de saúde pública dos EUA.
Também está claro que o Partido Republicano não tem ideias válidas sobre como alcançar uma recuperação rápida em forma de “V”. Cortes adicionais nos impostos dos mais ricos fariam tanto para impulsionar a demanda e o emprego quanto fizeram quando o partido se empenhou em conseguir aprovar a Lei de Empregos e Corte de Impostos no fim de 2017: absolutamente nada. Ninguém com qualquer grau de autoridade na Casa Branca de Donald Trump sabe o que fazer e ninguém seria competente o suficiente para adotar a política certa mesmo se tropeçasse nela por acidente.
Com o Partido Republicano controlando três das quatro possibilidades do governo dos EUA para exercer veto (a Presidência, o Senado e o Supremo Tribunal de Justiça), o país continuará até janeiro de 2021, pelo menos, sem ter medidas coerentes de reação às crises, que vem se multiplicando. Os republicanos já vêm fazendo de tudo para suprimir o comparecimento dos eleitores às urnas nas eleições de novembro. Mas presumindo que esses esforços fracassem e os democratas retomem a Casa Branca e possivelmente até o Senado, o que eles deveriam fazer para salvar os EUA de mais uma década perdida?
Acima de tudo, o Partido Democrata precisa comprometer-se incondicionalmente com o princípio de que todo americano que quiser um emprego deve ter condições de conseguir um. E embora esse emprego não precise ser ótimo, precisa pagar o suficiente para manter a família do trabalhador acima da linha da pobreza. Cada nova medida em estudo deve ser avaliada segundo sua conformidade com esse princípio.
Um comprometimento do governo federal com o pleno emprego não é ideia nova. A Lei do Emprego de 1946 seguiu o princípio, mas desde então ela se diluiu, em razão das reclamações de que o governo não tem como arcar com o apoio ao pleno emprego. A melhor resposta a tais objeções sempre foi a frase satírica de John Maynard Keynes durante um programa de rádio da BBC: “Podemos arcar com qualquer coisa que sejamos capazes de fazer”. O que ele quis dizer é que o sistema financeiro, longe de agir como um limitador independente das atividades econômicas, existe precisamente para respaldar tais atividades.
Encontrar empregos úteis para pessoas dispostas procurando empregos certamente é algo que somos capazes de fazer. Mas ajustar a estrutura financeira e de pagamentos predominante para sustentar o pleno emprego teria consequências, é claro. Por exemplo, poderíamos descobrir que, em condições de pleno emprego, os ricos teriam que tolerar um risco substancial para conseguir um crescimento composto sustentável de sua riqueza. Como argumentou Keynes, o pleno emprego “levaria a uma taxa de juros muito mais baixa” e, portanto, funcionaria como a “eutanásia do rentista”. Que assim seja. Para manter seus estilos de vida reluzentes, os mais ricos teriam que ir consumindo seu capital ou apostá-lo em empreendimentos de risco.
Buscar o pleno emprego também pode acabar exigindo impostos mais altos e mais progressivos e pode levar a níveis de dívida pública que pareceriam inconcebíveis na década de 70. Que assim seja. Se for necessário um endividamento nas alturas para alcançar o pleno emprego no médio prazo, isso estaria mais do que bem justificado. A única forma em que isso poderia se tornar perigoso é se a economia saísse de sua atual estagnação secular, ponto no qual um endividamento altíssimo não seria mais necessário.
Por fim, recuperar e manter o pleno emprego pode exigir que desviemos a demanda do consumo da elite para setores de mão de obra intensiva como a saúde pública. Também pode exigir programas de obras públicas de mão de obra intensiva em grande escala. Que assim seja. É hora de tornar o pleno emprego nossa prioridade. Uma vez que tenhamos feito isso, todo o resto irá se encaixando no devido lugar. (Tradução de Sabino Ahumada)
"Buscar o pleno emprego pode acabar exigindo impostos mais altos e progressivos e pode levar a níveis de dívida pública que seriam inconcebíveis na década de 70. Se for preciso endividamento nas alturas para alcançá-lo no médio prazo, isso estaria mais que justificado"
J. Bradford DeLong foi subsecretário adjunto do Tesouro dos EUA. É professor de economia da University of California. Copyright: Project Syndicate, 2020. www. project-syndicate.org
Não deveria haver, contudo, motivos econômicos para que a depressão acarretada pela crise da covid-19 tenha que ser particularmente longa ou profunda. Os EUA lideram o mundo em competência organizacional e tecnológica e são lar de uma força de trabalho altamente capacitada. O problema é que essa recuperação não chegará sozinha.
O fato de os EUA terem precisado de dez anos para se recuperarem plenamente da crise financeira de 2008 deveria servir de fonte de informação para os atuais pontos de vista. Na época, antes de a crise das hipotecas subprime irromper, o setor de construção residencial dos EUA já havia encolhido para seu tamanho normal, de forma que não era necessário um ajuste estrutural setorial. O desafio, em vez disso, era identificar e realocar recursos a bens anteriormente não produzidos que se tornariam mais valiosos no futuro.
Além disso, a crise financeira de 2008 e a recessão que se seguiu não tiraram a capacitação profissional dos trabalhadores americanos nem reduziram a eficácia das tecnologias existentes. No curto prazo, destruíram muitas redes profissionais e reduziram a confiança social que sustenta a divisão do trabalho na economia. O único efeito de longo prazo foi a perda da confiança dos investidores na capacidade das instituições financeiras do setor privado de criar ativos financeiros seguros e com classificação de risco adequada.
Mas é por isso que levou uma década para o emprego nos EUA se recuperar da crise das subprime. O mundo sofreu de uma falta de ativos seguros e os governos não conseguiram solucionar esse problema de forma adequada. Os EUA, por sua vez, deveriam ter feito mais para mobilizar uma capacidade adicional de tolerância a risco pelo setor privado, criar ativos públicos seguros e ajudar os trabalhadores, inclusive por meio da impressão de dinheiro e da compra de bens que estimulassem diretamente a demanda e o crescimento do emprego.
Embora agora não exista motivo para que uma volta do emprego aos níveis pré-pandemia também leve dez anos, provavelmente é isso que ocorrerá. As mesmas forças que levaram as autoridades econômicas em 2010 a declarar vitória sobre a crise e a passar a uma abordagem de “austeridade” agora voltaram a entrar em cena. Está claro que o governo federal dos EUA não adotará nos próximos 30 dias nenhuma iniciativa nova para mitigar a depressão ou melhorar a deficiente capacidade de reação do sistema de saúde pública dos EUA.
Também está claro que o Partido Republicano não tem ideias válidas sobre como alcançar uma recuperação rápida em forma de “V”. Cortes adicionais nos impostos dos mais ricos fariam tanto para impulsionar a demanda e o emprego quanto fizeram quando o partido se empenhou em conseguir aprovar a Lei de Empregos e Corte de Impostos no fim de 2017: absolutamente nada. Ninguém com qualquer grau de autoridade na Casa Branca de Donald Trump sabe o que fazer e ninguém seria competente o suficiente para adotar a política certa mesmo se tropeçasse nela por acidente.
Com o Partido Republicano controlando três das quatro possibilidades do governo dos EUA para exercer veto (a Presidência, o Senado e o Supremo Tribunal de Justiça), o país continuará até janeiro de 2021, pelo menos, sem ter medidas coerentes de reação às crises, que vem se multiplicando. Os republicanos já vêm fazendo de tudo para suprimir o comparecimento dos eleitores às urnas nas eleições de novembro. Mas presumindo que esses esforços fracassem e os democratas retomem a Casa Branca e possivelmente até o Senado, o que eles deveriam fazer para salvar os EUA de mais uma década perdida?
Acima de tudo, o Partido Democrata precisa comprometer-se incondicionalmente com o princípio de que todo americano que quiser um emprego deve ter condições de conseguir um. E embora esse emprego não precise ser ótimo, precisa pagar o suficiente para manter a família do trabalhador acima da linha da pobreza. Cada nova medida em estudo deve ser avaliada segundo sua conformidade com esse princípio.
Um comprometimento do governo federal com o pleno emprego não é ideia nova. A Lei do Emprego de 1946 seguiu o princípio, mas desde então ela se diluiu, em razão das reclamações de que o governo não tem como arcar com o apoio ao pleno emprego. A melhor resposta a tais objeções sempre foi a frase satírica de John Maynard Keynes durante um programa de rádio da BBC: “Podemos arcar com qualquer coisa que sejamos capazes de fazer”. O que ele quis dizer é que o sistema financeiro, longe de agir como um limitador independente das atividades econômicas, existe precisamente para respaldar tais atividades.
Encontrar empregos úteis para pessoas dispostas procurando empregos certamente é algo que somos capazes de fazer. Mas ajustar a estrutura financeira e de pagamentos predominante para sustentar o pleno emprego teria consequências, é claro. Por exemplo, poderíamos descobrir que, em condições de pleno emprego, os ricos teriam que tolerar um risco substancial para conseguir um crescimento composto sustentável de sua riqueza. Como argumentou Keynes, o pleno emprego “levaria a uma taxa de juros muito mais baixa” e, portanto, funcionaria como a “eutanásia do rentista”. Que assim seja. Para manter seus estilos de vida reluzentes, os mais ricos teriam que ir consumindo seu capital ou apostá-lo em empreendimentos de risco.
Buscar o pleno emprego também pode acabar exigindo impostos mais altos e mais progressivos e pode levar a níveis de dívida pública que pareceriam inconcebíveis na década de 70. Que assim seja. Se for necessário um endividamento nas alturas para alcançar o pleno emprego no médio prazo, isso estaria mais do que bem justificado. A única forma em que isso poderia se tornar perigoso é se a economia saísse de sua atual estagnação secular, ponto no qual um endividamento altíssimo não seria mais necessário.
Por fim, recuperar e manter o pleno emprego pode exigir que desviemos a demanda do consumo da elite para setores de mão de obra intensiva como a saúde pública. Também pode exigir programas de obras públicas de mão de obra intensiva em grande escala. Que assim seja. É hora de tornar o pleno emprego nossa prioridade. Uma vez que tenhamos feito isso, todo o resto irá se encaixando no devido lugar. (Tradução de Sabino Ahumada)
"Buscar o pleno emprego pode acabar exigindo impostos mais altos e progressivos e pode levar a níveis de dívida pública que seriam inconcebíveis na década de 70. Se for preciso endividamento nas alturas para alcançá-lo no médio prazo, isso estaria mais que justificado"
J. Bradford DeLong foi subsecretário adjunto do Tesouro dos EUA. É professor de economia da University of California. Copyright: Project Syndicate, 2020. www. project-syndicate.org
quinta-feira, 18 de junho de 2020
Caoa quer conduzir avanço chinês na AL(Valor, 17 6 2020)
Caoa quer conduzir avanço chinês na AL
Veículos Grupo inicia exportação e planeja ter mais fábricas na região
Quarta-feira, 17 de Junho de 2020
Marli Olmos
A cada dia o empresário brasileiro Carlos Alberto de Oliveira Andrade, proprietário do grupo que leva suas iniciais, Caoa, se aproxima mais dos chineses. Com parcerias com marcas de veículos da China, ele busca ampliar seu império, no Brasil e na América Latina.
Há poucos dias, o grupo iniciou a exportação de carros da Chery para o Paraguai. Caoa diz que esse é só o começo do plano que fará do Brasil uma base de exportação de veículos chineses para a América Latina, inclusive México. Ele também planeja ter até uma fábrica em algum outro país da região.
Isso não quer dizer que desistiu de erguer a terceira fábrica no Brasil, depois da frustrada tentativa de comprar as instalações da Ford em São Bernardo do Campo (SP). O nome do futuro parceiro — chinês — é mantido em sigilo.
O namoro do brasileiro com os chineses assemelha-se ao que ele teve há mais de duas décadas com os franceses da Renault. Aquele casamento, porém, terminou com brigas na Justiça logo depois que a montadora decidiu assumir os negócios no Brasil.
Depois disso, a Caoa aproximou-se dos coreanos da Hyundai, marca que ainda representa. Nesse caso, a relação ficou curiosa desde que a Hyundai decidiu erguer a própria fábrica em Piracicaba (SP) em 2012.
Com fábricas em Anápolis (GO) e Jacareí (SP), o grupo Caoa produz no Brasil praticamente todos os modelos que vende no país. É dono de uma fatia em torno de 5% do mercado brasileiro, somando quase 1% da Chery e cerca da metade das vendas da Hyundai (a outra metade é a da própria empresa coreana).
Em janeiro, a Caoa começará a produzir e vender carros da Exeed, segmento de luxo da Chery. Com eles, o empresário pretende brigar com marcas como Mercedes-Benz e BMW. Mas para alcançar o sonho de protagonismo na expansão chinesa na América Latina, ele sabe que ainda precisa fazer o consumidor brasileiro gostar mais de carros chineses e convencê-lo de que é um produto de boa qualidade. Para isso, continua a recorrer a fortes campanhas publicitárias em todos os veículos de comunicação. É um dos maiores anunciantes do país.
É conhecida, no meio empresarial, a trajetória do Dr. Carlos Alberto, como é chamado na empresa. Começou quando era médico em Campina Grande (PB) e decidiu ficar com a concessionária Ford que foi a falência sem lhe entregar o Landau que ele havia comprado. Com 234 lojas hoje, a Caoa é o maior revendedor de veículos do país.
Seu dono é um empresário singular, reservado. Não costuma dar entrevistas e não revela números da empresa, como faturamento, índice de nacionalização de peças ou gastos em publicidade. Nem tampouco alguns pessoais, como sua idade.
Na presidência do conselho, o empresário começa a preparar o processo sucessório na companhia. Os dois filhos estudam administração nos Estados Unidos. Mas, ao mesmo tempo, ele diz que só pretende parar de trabalhar daqui a pelo menos duas décadas. Acompanhe, abaixo, os principais trechos da entrevista que o dono da Caoa concedeu ao Valor :
Valor: Apesar da crise, o grupo Caoa começou a exportar um pequeno lote do modelo Tiggo 2 para o Paraguai. O que representa essa estreia no mercado externo?
Carlos Alberto de Oliveira Andrade: Isso é bom para o país porque os dólares ficam aqui. Somos a única montadora que não vai mandar dólares para fora.
Valor: O senhor tem planos de ampliar as vendas externas?
Caoa: O Paraguai é só o início de um negócio que vai crescer. Já recebemos autorização da Chery para vender para a Argentina e outros. Temos um contrato para exportar para toda a América Latina, inclusive México.
Valor: Os planos incluem fábrica em algum outro país?
Caoa: Sim. Futuramente teremos fábrica em algum lugar da América Latina. Está no contrato.
Valor: E quanto à terceira fábrica no Brasil em parceria com uma marca chinesa? O senhor desistiu?
Caoa: Está caminhando a passos lentos, mas sólidos. A pandemia atrapalhou. Quem está negociando é o Marcello (Marcello Braga, diretor de marketing da Caoa). Ele fala inglês e me representa. Será um grande negócio.
Valor: Esse plano de produção local tem a ver com a alta do dólar?
Caoa: Perfeito. Não só localizar a produção como exportar.
Valor: O grupo Caoa produz veículos Hyundai e a Hyundai tem a sua própria fábrica em Piracicaba (SP). É possível exportar veículos dessa marca também?
Caoa: Estamos em negociação. Tive reunião na semana passada. Várias coisas podem acontecer. Uma delas é que talvez as duas empresas possam exportar.
Valor: Como tem sido a sua vida profissional durante a pandemia?
Caoa: Esse sistema de reunião virtual tem sido muito bacana, eficiente. A gente fala com tranquilidade porque não se distrai. Recentemente fiz uma reunião com o CEO da Chery. Puxa vida. Como tomamos decisões fortes.
Valor: Apesar da crise, o grupo Caoa continua a investir em campanhas publicitárias de peso. Nada mudou com a pandemia?
Caoa: A propaganda sempre tem retorno. Tanto em jornal, meio digital ou televisão. A publicidade é sempre boa para vendas. Às vezes você faz uma propaganda que toca mais. A da semana passada deu bastante retorno.
Valor: O que ela tinha?
Caoa: Oferecemos preço da tabela da Fipe na troca do carro usado e mais um desconto. Deu um bom resultado.
Valor: Como está a rotina nas fábricas do grupo em Jacareí (SP) e Anápolis (GO) ?
Caoa: Voltamos precariamente no dia 8. Mas a partir do dia 22 retomaremos a todo vapor.
Valor: Com a crise, há planos de suspender ou adiar lançamentos?
Caoa: Adiamos de julho para agosto o lançamento do modelo Tiggo 8. Só um mês.
Valor: O senhor está, então, otimista?
Caoa: Muito otimista. Por uma razão. Tenho percebido que os carros da China têm muita tecnologia. Quando estive na China em 2017 me levaram ao cento de pesquisa e desenvolvimento da Chery e me impressionei muito. Eles têm uma infraestrutura violenta, um negócio gigantesco.
Valor: O senhor acredita, então, no potencial chinês nesse setor?
Caoa: A tecnologia chinesa vai ficar muito à frente de todas.A Chery tem uma marca de luxo, a Exeed, com a qual pretende brigar com Mercedes-Benz e BMW. E eu vou lançar essa marca no Brasil em janeiro.
Valor: Serão carros importados?
Caoa: Não. Vamos fabricar aqui. Já estamos nos preparando.
Valor: Os planos de crescimento não mudaram, então, apesar da pandemia...
Caoa: Não mudou nada. Pelocontrário. Na última reunião com a direção da Chery me disseram que na América Latina o crescimento da marca será por meio da parceria com a Caoa. Essa animação vem tanto da parte deles quanto minha. Em 2018, percebi que as marcas chinesas iam despontar em qualidade. Agora sei que elas vão ultrapassar o mundo inteiro. Tivemos as ondas dos carros alemães, japoneses e depois coreanos. Chegou a vez da China.
Valor: O senhor tem uma longa experiência em vendas. Como será o comportamento do consumidor com a pandemia?
Caoa: Acho que quem puder trabalhar com automóvel vai passar a ir de automóvel, mesmo aquele que pegava metro ou ônibus. Isso pode elevar a demanda.
Valor: Mas a queda da atividade, o desemprego, a confusão política, com constante troca de ministros... Isso não preocupa um empresário como o senhor?
Caoa: Preocupa muito. Qualquer ruído preocupa. Mas se conseguirmos superar isso o Brasil pode retomar o crescimento porque é competitivo nas exportações de commodities, por exemplo. Em geral, o Brasil vai bem, as instituições funcionam. Veja o caso das prisões dos últimos dias. O presidente Bolsonaro tem um jeitão que às vezes eu penso que é tática dele. Mas não existe corrupção. Os escândalos em compras de materiais hospitalares foram debelados rapidamente. Antigamente isso não existia.
Valor: O que o senhor acha do ministro da Economia, Paulo Guedes? Conversa com ele?
Caoa: Gosto muito. É ponderado, sério. De vez em quando conversamos. Eu confio nesse governo.
Valor: O grupo Caoa surgiu em 1979. Que balanço o senhor faz desses 41 anos e de sua trajetória como empresário?
Caoa: O grupo tornou-se um ícone em matéria de automóveis. E apresenta grande potencial. Eu tenho dois filhos, de 18 e 20 anos, estudando em excelentes universidades nos Estados Unidos. Estudam business. Um em Wharton e o outro em Brown. Faço com que eles participem dos negócios. Agora, com a pandemia, estão comigo no Brasil, acompanhando tudo.
Valor: Mas o senhor já está pensando em parar?
Caoa: De jeito nenhum. Pretendo ficar pelo menos mais 20 anos na luta. Mas esse negócio tem um potencial fantástico para ocupar toda a América Latina. E meus filhos vão continuar com ele.
Em geral, o Brasil vai bem. O presidente Jair Bolsonaro tem um jeitão que às vezes eu penso que é tática dele
Veículos Grupo inicia exportação e planeja ter mais fábricas na região
Quarta-feira, 17 de Junho de 2020
Marli Olmos
A cada dia o empresário brasileiro Carlos Alberto de Oliveira Andrade, proprietário do grupo que leva suas iniciais, Caoa, se aproxima mais dos chineses. Com parcerias com marcas de veículos da China, ele busca ampliar seu império, no Brasil e na América Latina.
Há poucos dias, o grupo iniciou a exportação de carros da Chery para o Paraguai. Caoa diz que esse é só o começo do plano que fará do Brasil uma base de exportação de veículos chineses para a América Latina, inclusive México. Ele também planeja ter até uma fábrica em algum outro país da região.
Isso não quer dizer que desistiu de erguer a terceira fábrica no Brasil, depois da frustrada tentativa de comprar as instalações da Ford em São Bernardo do Campo (SP). O nome do futuro parceiro — chinês — é mantido em sigilo.
O namoro do brasileiro com os chineses assemelha-se ao que ele teve há mais de duas décadas com os franceses da Renault. Aquele casamento, porém, terminou com brigas na Justiça logo depois que a montadora decidiu assumir os negócios no Brasil.
Depois disso, a Caoa aproximou-se dos coreanos da Hyundai, marca que ainda representa. Nesse caso, a relação ficou curiosa desde que a Hyundai decidiu erguer a própria fábrica em Piracicaba (SP) em 2012.
Com fábricas em Anápolis (GO) e Jacareí (SP), o grupo Caoa produz no Brasil praticamente todos os modelos que vende no país. É dono de uma fatia em torno de 5% do mercado brasileiro, somando quase 1% da Chery e cerca da metade das vendas da Hyundai (a outra metade é a da própria empresa coreana).
Em janeiro, a Caoa começará a produzir e vender carros da Exeed, segmento de luxo da Chery. Com eles, o empresário pretende brigar com marcas como Mercedes-Benz e BMW. Mas para alcançar o sonho de protagonismo na expansão chinesa na América Latina, ele sabe que ainda precisa fazer o consumidor brasileiro gostar mais de carros chineses e convencê-lo de que é um produto de boa qualidade. Para isso, continua a recorrer a fortes campanhas publicitárias em todos os veículos de comunicação. É um dos maiores anunciantes do país.
É conhecida, no meio empresarial, a trajetória do Dr. Carlos Alberto, como é chamado na empresa. Começou quando era médico em Campina Grande (PB) e decidiu ficar com a concessionária Ford que foi a falência sem lhe entregar o Landau que ele havia comprado. Com 234 lojas hoje, a Caoa é o maior revendedor de veículos do país.
Seu dono é um empresário singular, reservado. Não costuma dar entrevistas e não revela números da empresa, como faturamento, índice de nacionalização de peças ou gastos em publicidade. Nem tampouco alguns pessoais, como sua idade.
Na presidência do conselho, o empresário começa a preparar o processo sucessório na companhia. Os dois filhos estudam administração nos Estados Unidos. Mas, ao mesmo tempo, ele diz que só pretende parar de trabalhar daqui a pelo menos duas décadas. Acompanhe, abaixo, os principais trechos da entrevista que o dono da Caoa concedeu ao Valor :
Valor: Apesar da crise, o grupo Caoa começou a exportar um pequeno lote do modelo Tiggo 2 para o Paraguai. O que representa essa estreia no mercado externo?
Carlos Alberto de Oliveira Andrade: Isso é bom para o país porque os dólares ficam aqui. Somos a única montadora que não vai mandar dólares para fora.
Valor: O senhor tem planos de ampliar as vendas externas?
Caoa: O Paraguai é só o início de um negócio que vai crescer. Já recebemos autorização da Chery para vender para a Argentina e outros. Temos um contrato para exportar para toda a América Latina, inclusive México.
Valor: Os planos incluem fábrica em algum outro país?
Caoa: Sim. Futuramente teremos fábrica em algum lugar da América Latina. Está no contrato.
Valor: E quanto à terceira fábrica no Brasil em parceria com uma marca chinesa? O senhor desistiu?
Caoa: Está caminhando a passos lentos, mas sólidos. A pandemia atrapalhou. Quem está negociando é o Marcello (Marcello Braga, diretor de marketing da Caoa). Ele fala inglês e me representa. Será um grande negócio.
Valor: Esse plano de produção local tem a ver com a alta do dólar?
Caoa: Perfeito. Não só localizar a produção como exportar.
Valor: O grupo Caoa produz veículos Hyundai e a Hyundai tem a sua própria fábrica em Piracicaba (SP). É possível exportar veículos dessa marca também?
Caoa: Estamos em negociação. Tive reunião na semana passada. Várias coisas podem acontecer. Uma delas é que talvez as duas empresas possam exportar.
Valor: Como tem sido a sua vida profissional durante a pandemia?
Caoa: Esse sistema de reunião virtual tem sido muito bacana, eficiente. A gente fala com tranquilidade porque não se distrai. Recentemente fiz uma reunião com o CEO da Chery. Puxa vida. Como tomamos decisões fortes.
Valor: Apesar da crise, o grupo Caoa continua a investir em campanhas publicitárias de peso. Nada mudou com a pandemia?
Caoa: A propaganda sempre tem retorno. Tanto em jornal, meio digital ou televisão. A publicidade é sempre boa para vendas. Às vezes você faz uma propaganda que toca mais. A da semana passada deu bastante retorno.
Valor: O que ela tinha?
Caoa: Oferecemos preço da tabela da Fipe na troca do carro usado e mais um desconto. Deu um bom resultado.
Valor: Como está a rotina nas fábricas do grupo em Jacareí (SP) e Anápolis (GO) ?
Caoa: Voltamos precariamente no dia 8. Mas a partir do dia 22 retomaremos a todo vapor.
Valor: Com a crise, há planos de suspender ou adiar lançamentos?
Caoa: Adiamos de julho para agosto o lançamento do modelo Tiggo 8. Só um mês.
Valor: O senhor está, então, otimista?
Caoa: Muito otimista. Por uma razão. Tenho percebido que os carros da China têm muita tecnologia. Quando estive na China em 2017 me levaram ao cento de pesquisa e desenvolvimento da Chery e me impressionei muito. Eles têm uma infraestrutura violenta, um negócio gigantesco.
Valor: O senhor acredita, então, no potencial chinês nesse setor?
Caoa: A tecnologia chinesa vai ficar muito à frente de todas.A Chery tem uma marca de luxo, a Exeed, com a qual pretende brigar com Mercedes-Benz e BMW. E eu vou lançar essa marca no Brasil em janeiro.
Valor: Serão carros importados?
Caoa: Não. Vamos fabricar aqui. Já estamos nos preparando.
Valor: Os planos de crescimento não mudaram, então, apesar da pandemia...
Caoa: Não mudou nada. Pelocontrário. Na última reunião com a direção da Chery me disseram que na América Latina o crescimento da marca será por meio da parceria com a Caoa. Essa animação vem tanto da parte deles quanto minha. Em 2018, percebi que as marcas chinesas iam despontar em qualidade. Agora sei que elas vão ultrapassar o mundo inteiro. Tivemos as ondas dos carros alemães, japoneses e depois coreanos. Chegou a vez da China.
Valor: O senhor tem uma longa experiência em vendas. Como será o comportamento do consumidor com a pandemia?
Caoa: Acho que quem puder trabalhar com automóvel vai passar a ir de automóvel, mesmo aquele que pegava metro ou ônibus. Isso pode elevar a demanda.
Valor: Mas a queda da atividade, o desemprego, a confusão política, com constante troca de ministros... Isso não preocupa um empresário como o senhor?
Caoa: Preocupa muito. Qualquer ruído preocupa. Mas se conseguirmos superar isso o Brasil pode retomar o crescimento porque é competitivo nas exportações de commodities, por exemplo. Em geral, o Brasil vai bem, as instituições funcionam. Veja o caso das prisões dos últimos dias. O presidente Bolsonaro tem um jeitão que às vezes eu penso que é tática dele. Mas não existe corrupção. Os escândalos em compras de materiais hospitalares foram debelados rapidamente. Antigamente isso não existia.
Valor: O que o senhor acha do ministro da Economia, Paulo Guedes? Conversa com ele?
Caoa: Gosto muito. É ponderado, sério. De vez em quando conversamos. Eu confio nesse governo.
Valor: O grupo Caoa surgiu em 1979. Que balanço o senhor faz desses 41 anos e de sua trajetória como empresário?
Caoa: O grupo tornou-se um ícone em matéria de automóveis. E apresenta grande potencial. Eu tenho dois filhos, de 18 e 20 anos, estudando em excelentes universidades nos Estados Unidos. Estudam business. Um em Wharton e o outro em Brown. Faço com que eles participem dos negócios. Agora, com a pandemia, estão comigo no Brasil, acompanhando tudo.
Valor: Mas o senhor já está pensando em parar?
Caoa: De jeito nenhum. Pretendo ficar pelo menos mais 20 anos na luta. Mas esse negócio tem um potencial fantástico para ocupar toda a América Latina. E meus filhos vão continuar com ele.
Em geral, o Brasil vai bem. O presidente Jair Bolsonaro tem um jeitão que às vezes eu penso que é tática dele
Plataforma Pix atrai interesse de 980 instituições(Valor, 18 6 2020)
Plataforma Pix atrai interesse de 980 instituições
Quinta-feira, 18 de Junho de 2020
Estevão Taiar
O Banco Central (BC) informou ontem que 980 instituições financeiras estão participando do processo de adesão ao Pix, o sistema de pagamentos instantâneos desenvolvido pela autoridade monetária. Desse total, 34 têm participação obrigatória — todas aquelas com mais de 500 mil contas corrente, pré-paga ou poupança. Estão nesse grupo, por exemplo, os cinco grandes bancos do país, além de instituições como C6 e PagSeguro. Já outras 946 têm participação facultativa.
Entre as instituições em processo de adesão, as cooperativas de crédito são as mais numerosas, com 634 inscritas. Na sequência, vêm: instituições de pagamento (252), bancos comerciais ou múltiplos com carteira comercial (61), financeiras (12), sociedade de crédito ao microempreendedor (7), sociedade de crédito direto (6), bancos múltiplos sem carteira comercial (5), sociedade de empréstimo entre pessoas (1), banco de câmbio (1) e associação de poupança e empréstimos (1).
Os números mostram que quase 90% das instituições se inscreveram para ter participação indireta. Participantes indiretos são aqueles que oferecem os serviços normalmente ao cliente final, mas usando um participante direto para liquidar as transações, por meio de um valor negociado entre as duas instituições. Ao todo, 860 (o equivalente a 87,7% do total) pretendem ter participação indireta, enquanto outras 120 pleitearam participação direta.
O Pix está atualmente em fase de testes, com lançamento previsto para novembro. Nesta etapa, a autoridade monetária avalia critérios como o funcionamento da conexão entre os sistemas das instituições financeiras e do próprio BC.
O objetivo do Pix é possibilitar transferências e pagamentos entre pessoas, empresas e governos durante 24 horas por dia e sete dias por semana. As instituições que não entraram no processo terão nova oportunidade a partir de dezembro.
Quinta-feira, 18 de Junho de 2020
Estevão Taiar
O Banco Central (BC) informou ontem que 980 instituições financeiras estão participando do processo de adesão ao Pix, o sistema de pagamentos instantâneos desenvolvido pela autoridade monetária. Desse total, 34 têm participação obrigatória — todas aquelas com mais de 500 mil contas corrente, pré-paga ou poupança. Estão nesse grupo, por exemplo, os cinco grandes bancos do país, além de instituições como C6 e PagSeguro. Já outras 946 têm participação facultativa.
Entre as instituições em processo de adesão, as cooperativas de crédito são as mais numerosas, com 634 inscritas. Na sequência, vêm: instituições de pagamento (252), bancos comerciais ou múltiplos com carteira comercial (61), financeiras (12), sociedade de crédito ao microempreendedor (7), sociedade de crédito direto (6), bancos múltiplos sem carteira comercial (5), sociedade de empréstimo entre pessoas (1), banco de câmbio (1) e associação de poupança e empréstimos (1).
Os números mostram que quase 90% das instituições se inscreveram para ter participação indireta. Participantes indiretos são aqueles que oferecem os serviços normalmente ao cliente final, mas usando um participante direto para liquidar as transações, por meio de um valor negociado entre as duas instituições. Ao todo, 860 (o equivalente a 87,7% do total) pretendem ter participação indireta, enquanto outras 120 pleitearam participação direta.
O Pix está atualmente em fase de testes, com lançamento previsto para novembro. Nesta etapa, a autoridade monetária avalia critérios como o funcionamento da conexão entre os sistemas das instituições financeiras e do próprio BC.
O objetivo do Pix é possibilitar transferências e pagamentos entre pessoas, empresas e governos durante 24 horas por dia e sete dias por semana. As instituições que não entraram no processo terão nova oportunidade a partir de dezembro.
Hyundai: Mensagem no espaço
Um astronauta que está na Estação Espacial Internacional pôde ver uma mensagem de sua filha do espaço, graças a uma ação da Hyundai. A marca escreveu o bilhete na areia de um deserto em Nevada, nos Estados Unidos, usando o rastro deixado pelos pneus de 11 carros Genesis. Com a ação “Uma Mensagem para o Espaço”, a mensagem da menina de 13 anos ganhou a proporção de 5,5 quilômetros quadrados, tendo como pano de fundo o Lago Seco de Delamar. A ação teve como proposta destacar a filosofia da montadora de interagir com os clientes de uma forma emocional e não apenas oferecendo um meio de transporte. O evento também tem relação com atributos do carro: como direção precisa e estabilidade em superfícies irregulares. 👇👇👍👍
terça-feira, 16 de junho de 2020
WhatsApp inicia no Brasil serviço de pagamentos(Valor, 16 6 2020)
WhatsApp inicia no Brasil serviço de pagamentos
Estratégia - Aplicativo dispensa maquininha e mira pequeno comércio
Terça-feira, 16 de Junho de 2020
Maria Luíza Filgueiras De São Paulo
O WhatsApp lançou ontem no país o serviço de pagamento e transferência de dinheiro pelo aplicativo, dispensando a famosa “maquininha” para transações de pequenos comerciantes. É o primeiro mercado em que o aplicativo de mensagens, que pertence ao Facebook, libera esse tipo de transação financeira.
“O Brasil é o primeiro país a receber esse serviço e achamos que vai ajudar as pessoas e os pequenos e médios negócios em um período importante. É mais seguro e mais conveniente que dinheiro”, disse Matt Idema, diretor de operações do WhatsApp, ao Valor .
A companhia fechou parceria com a adquirente Cielo, maior processadora brasileira de pagamentos, negociação antecipada pelo Valor em abril. A princípio, as transações no país poderão ser feitas por quem tiver cartões de débito ou crédito do Banco do Brasil, Nubank e Sicredi com bandeiras Visa e Mastercard. “Para nós é importante ter uma plataforma aberta, então adicionaremos outros bancos e adquirentes ao longo do tempo”, afirmou. O Valor apurou que a bandeira Elo, que pertence aos bancos Bradesco, BB e Caixa, também está em fase final de definição para integrar o sistema de pagamentos via WhatsApp.
A possibilidade de aumento de volume de transações por pessoas físicas e autônomos teve reflexo na bolsa. Enquanto a ação da Cielo chegou a subir quase 35% no pregão brasileiro, entrando em leilão por duas vezes, a da PagSeguro caiu 2,52% e da Stone recuou 0,11% em bolsa americana. As ações do Facebook subiram 4,51%. “Estamos tornando enviar e receber dinheiro tão fácil quanto compartilhar fotos. Também estamos possibilitando que pequenos negócios façam vendas diretamente no WhatsApp”, disse Mark Zuckerberg, presidente do grupo, em sua página na rede social.
O WhatsApp aposta fortemente no uso desse sistema por pessoas físicas e também por pequenos comerciantes no Brasil, não só pelo número extenso desse tipo de estabelecimento mas também pelo momento atual, de isolamento social. “Muitas pequenas empresas no Brasil já utilizam o WhatsApp em seus negócios, para estar em contato com cliente e trocar informações, e agora vão poder efetivamente usar o aplicativo para pagamento”, disse Idema. “Pode ter um impacto grande para pequenos comerciantes, que são a base da economia brasileira, principalmente nesse período de isolamento social. Além disso, vai ajudá-los a entrar no universo da economia digital, incentivando a bancarização.”
A entrada do aplicativo em serviços de pagamento pode ter impacto na concorrência que atua nos segmentos de micro e pequenas empresas. Apesar de não tirar da jogada o adquirente, a transação elimina o uso do chamado POS. A venda e locação do produto têm sido, nos últimos anos, alvo de disputa comercial entre as adquirentes para conquistar a clientela. Esse segmento já usava pagamento digital, por meio de envio de links de pagamento, mas a estratégia do gigante de mensagens poderia potencializar o negócio, na avaliação de especialistas.
“Para a indústria de adquirentes, vemos risco maior de migração do micro comerciante para a plataforma do WhatsApp, dado o tíquete baixo de transações desses estabelecimentos e transações de pessoa para pessoa sem MDR”, dizem os analistas do UBS, Mariana Taddeo e Gustavo Piras, em relatório. A MDR (Merchant Discount Rate) é a taxa cobrada pela adquirente sobre cada transação de cartão. “Além disso, não há a necessidade de comprar ou alugar um equipamento de POS.”
Para o UBS, esse impacto pode ser limitado inicialmente por ser necessário ter conta corrente, o que muito dos microempreendedores e profissionais autônomos não têm. A competição seria mais direta para as carteiras digitais Pago e Ame. Em relação aos bancos, o WhatsApp sai na frente oferecendo o sistema de transações ininterruptas (24/7), uma antecipação do Pix, de pagamento instantâneo, que vem sendo desenvolvido pelo Banco Central com as instituições financeiras, avalia o UBS.
De acordo com Matt Idema, não haverá taxas para o usuário individual. As transferências de pessoa para pessoa terão limite de R$ 1 mil por transações, poderão ser feitas 20 operações por dia, com limite mensal de R$ 5 mil. Já o pagamento para empresas não tem limitações, desde que seja para estabelecimentos no país e em moeda nacional.
Para as empresas, a taxa é de 3,99% sobre transação. “É gratuito para as pessoas enviarem e receberem dinheiro, e para um comerciante é uma taxa típica de transações de pagamentos”, disse. O custo é um meio-termo entre as taxas cobradas pela Cielo para débito e crédito à vista com maquininha comprada — que, segundo o “Blog Cielo”, é de 2,39% e 4,99%, respectivamente.
Há alguns anos especulava-se no mercado financeiro e de tecnologia quando o WhatsApp daria esse passo, tomando como referência o aplicativo chinês de mensagens WeChat — que se tornou uma das maiores plataformas de pagamentos móveis da China. Em 2018, o WhatsApp lançou o sistema de pagamento ainda em teste na Índia, em uma versão beta limitada a um milhão de usuários. Desde então vem fazendo ajustes. Segundo Idema, foram dois anos desenvolvendo o serviço e o modelo lançado no Brasil foi testado, nas últimas semanas, por um grupo de funcionários de empresas do grupo.
O WhatsApp não revela estimativa de volume, usuários e receita para o serviço de pagamento. Conforme Idema, o plano para as primeiras semanas e meses é adequar o serviço à medida que a empresa recebe as percepções dos usuários. “O objetivo não é ser um grande gerador financeiro para o grupo no médio prazo, e sim um serviço. Talvez seja uma linha de receita para nós no futuro”, disse o diretor de operações.
Para referência, o WeChat tem 1,2 bilhão de usuários — 800 milhões usam o serviço WeChat Pay, conforme o balanço do último trimestre da companhia, com média de 1 bilhão de transações por dia. São 50 milhões de comerciantes ativos no serviço de pagamento. Pertencente ao grupo Tencent, o aplicativo foi um dos principais vetores da migração da economia das grandes cidades chinesas para o pagamento móvel, em detrimento do dinheiro em papel ou mesmo do cartão de plástico.
Conforme o diretor de operações do WhatsApp, o sistema de pagamentos do aplicativo é ativado pelo Facebook Pay — sistema de pagamentos que, até agora, só operava nos EUA. Essa vinculação foi feita para que, futuramente, os usuários possam usar os mesmos dados para pagamentos em todos os aplicativos do grupo. Na apresentação de resultados no início do ano, Zuckerberg disse que o sistema de pagamentos pelo WhatsApp deve ser lançado este ano no México, na Indonésia e, desta vez em versão oficial, na Índia.
Estratégia - Aplicativo dispensa maquininha e mira pequeno comércio
Terça-feira, 16 de Junho de 2020
Maria Luíza Filgueiras De São Paulo
O WhatsApp lançou ontem no país o serviço de pagamento e transferência de dinheiro pelo aplicativo, dispensando a famosa “maquininha” para transações de pequenos comerciantes. É o primeiro mercado em que o aplicativo de mensagens, que pertence ao Facebook, libera esse tipo de transação financeira.
“O Brasil é o primeiro país a receber esse serviço e achamos que vai ajudar as pessoas e os pequenos e médios negócios em um período importante. É mais seguro e mais conveniente que dinheiro”, disse Matt Idema, diretor de operações do WhatsApp, ao Valor .
A companhia fechou parceria com a adquirente Cielo, maior processadora brasileira de pagamentos, negociação antecipada pelo Valor em abril. A princípio, as transações no país poderão ser feitas por quem tiver cartões de débito ou crédito do Banco do Brasil, Nubank e Sicredi com bandeiras Visa e Mastercard. “Para nós é importante ter uma plataforma aberta, então adicionaremos outros bancos e adquirentes ao longo do tempo”, afirmou. O Valor apurou que a bandeira Elo, que pertence aos bancos Bradesco, BB e Caixa, também está em fase final de definição para integrar o sistema de pagamentos via WhatsApp.
A possibilidade de aumento de volume de transações por pessoas físicas e autônomos teve reflexo na bolsa. Enquanto a ação da Cielo chegou a subir quase 35% no pregão brasileiro, entrando em leilão por duas vezes, a da PagSeguro caiu 2,52% e da Stone recuou 0,11% em bolsa americana. As ações do Facebook subiram 4,51%. “Estamos tornando enviar e receber dinheiro tão fácil quanto compartilhar fotos. Também estamos possibilitando que pequenos negócios façam vendas diretamente no WhatsApp”, disse Mark Zuckerberg, presidente do grupo, em sua página na rede social.
O WhatsApp aposta fortemente no uso desse sistema por pessoas físicas e também por pequenos comerciantes no Brasil, não só pelo número extenso desse tipo de estabelecimento mas também pelo momento atual, de isolamento social. “Muitas pequenas empresas no Brasil já utilizam o WhatsApp em seus negócios, para estar em contato com cliente e trocar informações, e agora vão poder efetivamente usar o aplicativo para pagamento”, disse Idema. “Pode ter um impacto grande para pequenos comerciantes, que são a base da economia brasileira, principalmente nesse período de isolamento social. Além disso, vai ajudá-los a entrar no universo da economia digital, incentivando a bancarização.”
A entrada do aplicativo em serviços de pagamento pode ter impacto na concorrência que atua nos segmentos de micro e pequenas empresas. Apesar de não tirar da jogada o adquirente, a transação elimina o uso do chamado POS. A venda e locação do produto têm sido, nos últimos anos, alvo de disputa comercial entre as adquirentes para conquistar a clientela. Esse segmento já usava pagamento digital, por meio de envio de links de pagamento, mas a estratégia do gigante de mensagens poderia potencializar o negócio, na avaliação de especialistas.
“Para a indústria de adquirentes, vemos risco maior de migração do micro comerciante para a plataforma do WhatsApp, dado o tíquete baixo de transações desses estabelecimentos e transações de pessoa para pessoa sem MDR”, dizem os analistas do UBS, Mariana Taddeo e Gustavo Piras, em relatório. A MDR (Merchant Discount Rate) é a taxa cobrada pela adquirente sobre cada transação de cartão. “Além disso, não há a necessidade de comprar ou alugar um equipamento de POS.”
Para o UBS, esse impacto pode ser limitado inicialmente por ser necessário ter conta corrente, o que muito dos microempreendedores e profissionais autônomos não têm. A competição seria mais direta para as carteiras digitais Pago e Ame. Em relação aos bancos, o WhatsApp sai na frente oferecendo o sistema de transações ininterruptas (24/7), uma antecipação do Pix, de pagamento instantâneo, que vem sendo desenvolvido pelo Banco Central com as instituições financeiras, avalia o UBS.
De acordo com Matt Idema, não haverá taxas para o usuário individual. As transferências de pessoa para pessoa terão limite de R$ 1 mil por transações, poderão ser feitas 20 operações por dia, com limite mensal de R$ 5 mil. Já o pagamento para empresas não tem limitações, desde que seja para estabelecimentos no país e em moeda nacional.
Para as empresas, a taxa é de 3,99% sobre transação. “É gratuito para as pessoas enviarem e receberem dinheiro, e para um comerciante é uma taxa típica de transações de pagamentos”, disse. O custo é um meio-termo entre as taxas cobradas pela Cielo para débito e crédito à vista com maquininha comprada — que, segundo o “Blog Cielo”, é de 2,39% e 4,99%, respectivamente.
Há alguns anos especulava-se no mercado financeiro e de tecnologia quando o WhatsApp daria esse passo, tomando como referência o aplicativo chinês de mensagens WeChat — que se tornou uma das maiores plataformas de pagamentos móveis da China. Em 2018, o WhatsApp lançou o sistema de pagamento ainda em teste na Índia, em uma versão beta limitada a um milhão de usuários. Desde então vem fazendo ajustes. Segundo Idema, foram dois anos desenvolvendo o serviço e o modelo lançado no Brasil foi testado, nas últimas semanas, por um grupo de funcionários de empresas do grupo.
O WhatsApp não revela estimativa de volume, usuários e receita para o serviço de pagamento. Conforme Idema, o plano para as primeiras semanas e meses é adequar o serviço à medida que a empresa recebe as percepções dos usuários. “O objetivo não é ser um grande gerador financeiro para o grupo no médio prazo, e sim um serviço. Talvez seja uma linha de receita para nós no futuro”, disse o diretor de operações.
Para referência, o WeChat tem 1,2 bilhão de usuários — 800 milhões usam o serviço WeChat Pay, conforme o balanço do último trimestre da companhia, com média de 1 bilhão de transações por dia. São 50 milhões de comerciantes ativos no serviço de pagamento. Pertencente ao grupo Tencent, o aplicativo foi um dos principais vetores da migração da economia das grandes cidades chinesas para o pagamento móvel, em detrimento do dinheiro em papel ou mesmo do cartão de plástico.
Conforme o diretor de operações do WhatsApp, o sistema de pagamentos do aplicativo é ativado pelo Facebook Pay — sistema de pagamentos que, até agora, só operava nos EUA. Essa vinculação foi feita para que, futuramente, os usuários possam usar os mesmos dados para pagamentos em todos os aplicativos do grupo. Na apresentação de resultados no início do ano, Zuckerberg disse que o sistema de pagamentos pelo WhatsApp deve ser lançado este ano no México, na Indonésia e, desta vez em versão oficial, na Índia.
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