quarta-feira, 13 de outubro de 2021

As transformações globais e a Defesa(Rubens Barbosa , Estado de S. Paulo, 12 de outubro de 2021 )

 Rubens Barbosa - As transformações globais e a Defesa

terça-feira, 12 de outubro de 2021


 

O Estado de S. Paulo  / Noticias

Rubens Barbosa


As Forças Armadas no A Brasil, para seu fortalecimento, deveriam passar por ajustes e transformações para responder aos desafios das profundas mudanças no cenário internacional. O crescente avanço tecnológico das últimas décadas transformou significativamente os paradigmas dos conflitos e das ameaças, exigindo de todos os países um questionamento permanente de adequação das estruturas de seus instrumentos de defesa e dos conceitos neles vigentes.


O Centro de Estudos da Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) elaborou documento de trabalho sobre a Política e a Estratégia Nacional de Defesa e encaminhou recomendações ao governo e ao Congresso para, num sentido mais amplo, aprimorar as instituições e processos voltados para questões da defesa nacional.


As recomendações abrangem três áreas consideradas relevantes e estratégicas:


- Elevação do nível de tratamento pelo poder público dos temas de defesa, desde sua formulação até a implementação de políticas de defesa;


- Transformação urgente nas instituições de defesa, de forma a adequá-las às necessidades do País diante dos novos paradigmas de conflitos e torná-las ajustadas às boas práticas internacionais;


- Incrementar a participação de profissionais civis nas várias atividades voltadas para o preparo da capacidade militar, tanto as operacionais de combate como as de logística de defesa (industriais e pesquisa e desenvolvimento).


A primeira recomendação do Cedesen para a formulação de uma política nacional de defesa, e não apenas de defesa nacional, seria atribuir ao Conselho de Defesa Nacional (CDN), instituição do mais alto nível no âmbito do Executivo, a responsabilidade pela elaboração de documento abrangendo defesa, segurança e diplomacia e suas interfaces com o desenvolvimento, o que permitiria maior participação dos órgãos diretamente interessados em questões de defesa e segurança. Adicionalmente, para que o Congresso Nacional possa ter melhores condições de acompanhar os principais temas relacionados com a defesa e a segurança nacional, seria essencial a existência de um foro permanente que unisse as duas Casas do Poder Legislativo. Nesse sentido, o Cedesen recomendou o exame da possibilidade de criação de comissão mista de caráter permanente, integrada por deputados e senadores, para tratar de matérias de competência do Congresso Nacional na área de defesa e segurança nacional. Até aqui, cabe ao Ministério da Defesa (MD) a responsabilidade principal de elaboração da Política e da Estratégia Nacionais de Defesa, inclusive do Livro Branco da Defesa Nacional. Na prática, entretanto, ocorre um reduzido envolvimento de outros órgãos, particularmente dos Ministérios das Relações Exteriores, Justiça e Economia, além, em particular, do próprio Congresso Nacional, como representante do povo brasileiro.


No tocante às mudanças institucionais nas estruturas de defesa, todos os países com alguma relevância econômica e/ou militar no cenário internacional se ajustaram à aceleração do desenvolvimento tecnológico, com a consequente e rápida obsolescência dos sistemas de armas e seus componentes críticos, com impacto na eficácia e sua manutenção. Foi levado em conta o aumento contínuo e significativo do custo dos sistemas de armas, particularmente pela necessária incorporação dos avanços tecnológicos, as restrições orçamentárias crescentes para a função defesa em períodos de paz e o interesse em contar com maior profissionalismo para a execução das atividades de logística de defesa, que se encontram entre as mais complexas que existem.


A recomendação feita pelo Cedesen, semelhante à encontrada nos principais países desenvolvidos, foi no sentido da separação das atividades de operações de combate e afins das de logística de defesa destinadas a aparelhar e apoiar o emprego das unidades combatentes das Forças Armadas. As atividades de aquisição de produtos e sistemas de defesa e de desenvolvimento de atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação específicas para defesa ficariam com um órgão independente das Forças Armadas, mas subordinado diretamente ao MD. Este órgão, que poderia evoluir a partir da Secretaria de Produtos de Defesa (Seprod), seria dotado de um corpo profissional de militares e civis com formação e capacitação adequadas e, no caso dos militares, com carreiras totalmente independentes das carreiras militares. Com relação à participação de profissionais ou especialistas civis, há muito vem sendo apontada a necessidade de sua admissão, no âmbito do Ministério da Defesa e de seus órgãos subordinados. Nesse particular, o Cedesen recomendou que a definição dos cargos e perfis profissionais que mais se adequem a uma ocupação por especialistas civis seja feita no âmbito dos estudos visando à transformação das instituições de defesa.


Na semana passada, o Cedesen realizou encontro (YouTube/cedesen-interesse nacional) para discutir as transformações no MD. As outras duas recomendações serão examinadas publicamente durante o corrente mês. Essas reuniões têm como objetivo ampliar o conhecimento e o envolvimento da sociedade civil no exame de temas de interesse da defesa e da segurança nacional. E o fortalecimento das Forças Armadas.


"É preciso aprimorar as instituições e processos voltados para questões da defesa nacional"


PRESIDENTE DO CEDESEN

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Você está protegido?( Estado de S. Paulo, 9 de outubro de 2021 )

 FERNANDO REINACH - Você está protegido?

sábado, 9 de outubro de 2021 


 

O Estado de S. Paulo  / Metrópole

FERNANDO REINACH


Até agora você podia assumir que estava parcialmente protegido contra as formas sintomáticas da covid-19, caso você tivesse completado sua imunização com duas doses nas últimas duas semanas. Suas chances deter a doença também é mais baixas e você já foi infectado pelo Sars-CoV-2 e apresentado a doença no passado. Mas não existia uma maneira de medir o grau de proteção diretamente no sangue de um indivíduo, ou acompanhar a evolução do seu grau de proteção. A novidade é que agora foi demonstrado que a quantidade de alguns anticorpos no sangue está diretamente correlacionada ao nível de proteção da pessoa.


De maneira simplificada, existem três tipos de exames que medem a quantidade e o tipo de anticorpo presente no sangue. O primeiro mede a quantidade de anticorpos contra a proteína N (núcleo proteína). Esses anticorpos aparecem em todas as pessoas que foram infectadas pelo vírus, mas não nas que foram vacinadas. E a razão principal é que a proteína N não faz parte da composição de grande parte das vacinas e portanto, somente vacinados não apresentam esses anticorpos no sangue. Na cidade de São Paulo, usando esse método foi possível determinar que 42% dos adultos já haviam sido infectados no início de maio de 2021 (https: //www. monitoramentocovid19. org/)


O segundo tipo de exame detecta anticorpos contra a espícula do vírus (os chifrinhos). Esses anticorpos aparecem em pessoas infectadas e nas que foram vacinadas. Isso ocorre porque todas as vacinas têm em sua composição a espícula ou parte dela.


O terceiro tipo de exame detecta os anticorpos neutralizantes que aparecem nas pessoas infectadas e nas vacinadas. Eles impedem que o vírus penetre nas células humanas. Já se imaginava que a quantidade de anticorpos neutralizantes no sangue de uma pessoa deveria estar correlacionada ao nível de proteção, mas isso não havia ainda sido comprovado.


Em um novo estudo, cientistas ingleses identificaram 4.372 pessoas que haviam sido vacinadas com as duas doses da AstraZeneca 28 dias antes do início do estudo e que não haviam sido infectadas pelo coronavírus. Em cada uma delas a quantidade de anticorpos neutralizantes e de anticorpos contra a espícula foi medida no dia inicial do estudo. Essa medida permitiu saber exatamente a quantidade de anticorpos de cada tipo que a pessoa tinha produzido em função de ter sido vacinada. Seguidas durante 88 dias, 1.404 pessoas contraíram o vírus, mas não apresentaram sintomas e 171 contraíram e apresentaram sintomas. Ou seja, só 4% das pessoas vacinadas apresentaram a forma sintomática da doença nesse período, mas quase 36% contraíram o vírus.


Como os cientistas tinham os dados sobre a quantidade de anticorpos presentes no sangue de cada uma dessas pessoas, foi possível relacionar essa quantidade de anticorpos com a chance de ser infectado e a gravidade da doença. Os resultados são absolutamente claros: quanto maior a quantidade de anticorpos neutralizantes e de anticorpos contra a espícula, menor a chance de a pessoa apresentar sintomas. Por exemplo: pessoas que têm 22 unidades de anticorpos neutralizantes têm uma chance 60% menor de contrair infecções sintomáticas quando comparadas com as que não possuem esses anticorpos. Já as que têm 938 unidades têm uma chance 90% menor.


Essa correlação é valida para todos os anticorpos contra a espícula do vírus ou de parte da espícula e para as infecções sintomáticas. Mas não para as assintomáticas. Estudo da Moderna deu resultados iguais. Esse resultado permite saber se nossa proteção, a cada momento, é alta, baixa, ou está caindo.


Em São Paulo, o grupo de cientistas do qual participo acabou de medir a presença de anticorpos neutralizantes na população de adultos. Com essa medida será possível estimar não somente a fração dos paulistanos já infectados, mas a quantidade dos parcialmente protegidos e seu nível de proteção. Os resultados estão sendo analisados e provavelmente serão divulgados nas próximas semanas. Posso adiantar que são animadores.


MAIS INFORMAÇÕES: CORRELATES OF PROTECTION AGAINST SYMPTOMATIC AND ASYMPTOMATIC SARS-COV-2 INFECTION. NATURE MEDICINE https: //doi. org/10. 1038/s41591-021-01540-1 2021

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

A MENINA FEIA DA PONTE (Marco Vieira)

 A MENINA FEIA DA PONTE


Aninha nasceu no século 19, numa cidadezinha do interior de Goiás, e desde pequena sempre ouvia das outras pessoas que ela era feia, desengonçada, e fraquinha. De tanto ouvir isso, ela mesmo passou a se apresentar assim; “eu sou a menina feia da Ponte da Lapa, eu sou a Aninha”. Anos depois, descrevia sua infância deste jeito; “cresci filha sem pai, secundária na turma das irmãs, eu era triste, nervosa e feia. Amarela, de rosto empalamado, de pernas mole, caindo à toa. Os que assim me viam, na Vila Boa de Goiás, me comparavam com minhas três irmãs, todas filhas de dona Jacinta. Diziam que minhas irmãs casariam fácil, já eu, sei não, moça feia não casa fácil”. 


A menina chorava muito e soluçava. A bisavó dela tentava consolar, dizendo que sim, que a Aninha se casaria, pois menina feia vira moça bonita. Aninha nasceu em 20 de agosto de 1889, na antiga Vila Boa de Goiás, que depois passou a se chamar de Goiás Velho. Sua casa ficava em frente a uma ponte. Ela estudou só até o terceiro ano do antigo curso primário, mas era muito inteligente, lia todos os livros que caiam em suas mãos. E era criticada por isso; “mulher ler tanto, para quê”? Escondida, ela começou a escrever poemas, e sabia que era avançada demais para aquele lugar e aquela época, Com 15 anos, ela decidiu que se chamaria Cora, afinal, já haviam muitas Aninhas na cidade, por causa da padroeira do lugar, Santa Ana.


Ela explicou; “fui crescendo e com o tempo, perdi a aparência bisonha, fiquei corada e até achei quem me quisesse. Diziam que moça que lê romances e escreve poesias, não daria boa dona de casa”. Mas encontrou um rapaz, que gostou dela. Um advogado, separado, com quem ela fugiu montada em um cavalo, em 1911, aos 22 anos de idade. A cidade ficou em polvorosa com isso. O casal foi morar no interior de São Paulo, e tiveram seis filhos. Teve muitas dificuldades para criar os filhos, pois ela ficou viúva cedo. Só voltou à cidade natal em 1956, aos 67 anos. Encontrou a velha casa da ponte, e passou a ser doceira. Misturava doces e versos.


Aprendeu a datilografar com 70 anos de idade. E já idosa, começou a publicar as poesias que guardava desde a adolescência. O primeiro livro; “Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais”, foi publicado quando ela tinha 75 anos. Foi descoberta pelo poeta Carlos Drummond de Andrade, e foi ele quem apresentou Cora Coralina para o Brasil todo. Mesmo publicando livros, ela nunca deixou de ser doceira, e dizia; “Meus doces podem comprar, os livros podem deixar. Porque os doces se estragam, os livros não”. Ela morreu com 95 anos, e sua casa virou museu, para preservar o lugar onde morou uma das melhores poetisas brasileiras. Ela, que um dia foi Aninha, a menina feia da ponte, mas que nunca desistiu. E ela explicou o motivo assim:


“É que tem mais chão nos meus olhos, do que cansaço nas minhas pernas. Mais esperança nos meus passos, do que tristeza nos meus ombros. Mais estrada no meu coração, do que medo na minha cabeça”.


Marco Vieira

Um pouquinho de Cora Coralina.

domingo, 3 de outubro de 2021

Como o fogo na Amazônia ameaça a biodiversidade (Fernando Reinach, 2 10 21)

 Como o fogo na Amazônia ameaça a biodiversidade

OCTOBER 02, 2021

Que o fogo mata muitos animais e vegetais ninguém duvida. Basta ver as fotos das áreas queimadas com macacos, répteis e árvores carbonizadas. A questão é saber se a extensão das áreas queimadas na Amazônia é suficiente para colocar em risco a existência de muitas espécies, levar à extinção espécies ameaçadas e provocar o colapso do ecossistema.


Algumas pessoas argumentam que as áreas queimadas são pequenas em relação à Amazônia e, portanto, dificilmente afetariam a sua biodiversidade. Outros discordam.

Como medir diretamente a influência do fogo e do desmatamento é muito difícil, ambos os lados da discussão baseavam seus argumentos em levantamentos parciais ou exemplos de espécies extintas. Mas agora a deu um grande passo e quantificou a fração das espécies que podem ser extintas com as queimadas que já ocorreram na Amazônia.


A sobrevivência de uma espécie depende principalmente da preservação dos ambientes em que ela vive. Caso a área que ela ocupa seja muito extensa (como os pernilongos, que ocupam quase todo o continente) a sobrevivência da espécie vai ser pouco afetada se dedetizarmos nossas casas ou se uma grande área de floresta for destruída.


Agora, se uma espécie existir em uma área pequena (como o mico-leão), um pequeno incêndio pode, sim, levá-la à extinção. Assim, para saber qual o risco de queimadas ou desmatamentos provocarem a extinção de seres vivos é necessário saber a distribuição geográfica das espécies (a extensão e a localização da área em que ela vive) e como os incêndios ou desmatamentos afetam essa área.


A novidade é que os cientistas conseguiram medir esses dois parâmetros. Uma colaboração entre centenas de cientistas conseguiu determinar a distribuição geográfica de 11.514 espécies de plantas e 3.079 espécies de animais em todo o bioma Amazônia (incluindo os países vizinhos ao Brasil). Além disso, usando fotos tiradas pelos satélites do sistema Modis durante quase 20 anos de toda a Região Amazônica (entre 2001 e 2019), os cientistas puderam estimar toda a área já queimada na região.


Essas imagens subestimam a área queimada pois a resolução desses satélites é de aproximadamente 400 metros, ou seja, só detectam focos que queimam aproximadamente quatro quarteirões. Quando a área queimada em toda a bacia amazônica foi plotada em um mesmo gráfico com a distribuição geográfica dessas 41 mil espécies foi possível medir a fração de área ocupada por cada espécie que foi destruída durante esse período.


A área queimada na bacia amazônica é de aproximadamente 150 mil quilômetros quadrados – que, somados aos desmatamentos por corte, atingem aproximadamente 20% do bioma. O interessante é que a área destruída atinge a distribuição geográfica de 64% das espécies estudadas, ou seja, quase dois terços das espécies tiveram sua distribuição geográfica reduzida, o que facilita sua extinção.


Mas o mais importante é que essa destruição afeta diretamente a área em que vivem 85% de todas as espécies listadas como ameaçadas de extinção.


Além disso, esse estudo mostrou como esse impacto vinha diminuindo até 2019 e agora voltou a subir com as mudanças de política ambiental implementadas pelo governo Bolsonaro.


Esses dados são muito importantes pois demonstram de uma vez por todas que, de fato, a quantidade de queimadas que vêm ocorrendo na bacia amazônica diminui as chances de sobrevivência de 64% das espécies estudadas e de 85% das espécies ameaçadas de extinção.


Portanto, a destruição de uma pequena fração da Floresta Amazônica pode ter um efeito amplificado na redução da biodiversidade da Amazônia. E esse efeito pode levar ao colapso da biodiversidade muito antes que 40% do bioma seja destruído. É um resultado assustador que vai servir como base científica para justificar políticas mais agressivas de proteção desse bioma.


MAIS INFORMAÇÕES EM: HOW DEREGULATION, DROUGHT AND INCREASING FIRE IMPACT AMAZONIAN BIODIVERSITY (2021)

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Leandro Karnal - A biblioteca do fim do mundo?

 Leandro Karnal - A biblioteca do fim do mundo?

domingo, 26 de setembro de 2021 


 

O Estado de S. Paulo  / Na Quarentena

Leandro Karnal


O tema começa comigo. Cheguei a ter mais de dez mil livros. Uma vida comprando, ganhando e escrevendo tomos e mais tomos. Foram guardados com zelo e cresceram como coelhos libidinosos e férteis. Usaram as estantes, invadiram a parte inferior da cama, acumularam-se na escrivaninha. Foram se erguendo em torres. Não importava quão amplo era o espaço para o qual eu me mudava: os livros zombavam da minha ascensão geográfica e superpovoavam o novo território. Houve um dia, há alguns anos, que eu decidi não morar mais em um sebo.


Havia uma novidade além da falta de espaço. Eu contei quantas vezes eu tinha aberto os dicionários físicos nos últimos anos. Escrevo consultando todo tipo de glossário, léxico e referências, pois tenho dúvidas a todo instante. Percebi, porém, que só utilizava versões virtuais. E lá estavam eles, os solenes dicionários da língua portuguesa e de outras línguas, enfileirados, volumosos e com seu poder magnético para poeira. Tomei a decisão e doei 17 deles para


bibliotecas públicas. Mantive os mais antigos, como o Dicionário Analógico do Pe. Carlos Spitzer e os velhos volumes do Caldas Aulete. Reduzi de 27 Bíblias para 6. Doei todos os atlas, inumeráveis. Golpe de misericórdia, esvaziei minha sala da Unicamp e repassei milhares de volumes sobre História da América para pesquisadores da área. Que sigam iluminando outros como a mim foram luz contra minha ignorância. Que sirvam a mais gente. A minha biblioteca foi evaporada pela mudança tecnológica e bibliográfica.


Há três anos eu estava na British Library de Londres. De repente, eu percebi algo naquele novo prédio ao lado da estação Saint Pancras (São Pancrácio). Nos andares que percorri, todos estavam estudando com seus computadores, ninguém com livros. O volume físico existia naquele espaço, todavia todos queriam o Wi-Fi, o aquecimento e, talvez, acesso aos volumes digitalizados de quando em vez.


Por séculos, uma biblioteca foi um coroamento da civilização. Existiam nas sedes do império, como a já citada Britânica, a de Paris ou a do Congresso, em Washington. A destruição de uma grande coleção de livros era chorada por séculos. O Nome da Rosa, de Umberto Eco, ficcionaliza a tragédia de uma imensa torre-biblioteca em chamas. Queimar]livros é o sinônimo máximo da barbárie. O poeta Heinrich Heine profetizou que aqueles que ateassem fogo a obras publicadas acabariam queimando pessoas. Inquisidores haviam feito isso. Nazistas reforçaram a veracidade profética da frase.


O incêndio da biblioteca de Alexandria é um debate. Fogo ateado por Júlio César ao afirmar seu poder no delta do Nilo? Por cristãos? Por islâmicos? Temos relatos tão variados que podemos considerar viável a hipótese de que a acusação do incêndio seja uma peça de propaganda contra algum inimigo. Derek Flower estudou a biblioteca supostamente incendiada, desde seus relatos eruditos da antiguidade (Biblioteca de Alexandria, ed. Nova Alexandria) até hoje, com o novo prédio do governo egípcio. Lilia M. Schwarcz pesquisou outra biblioteca seminal, desta vez no Brasil: em A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis (Companhia das Letras), pode-se descobrir como a Real Coleção de Livros de Portugal atravessou o oceano e gerou a atual Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro.


Devastadas por tragédias como terremotos, destruídas por fanáticos, atacadas nas guerras: as bibliotecas são frágeis. Lembro-me de outro belíssimo espaço de livros no Brasil para indicar mais uma análise: o Real Gabinete Português de Leitura. É um dos lugares mais lindos do mundo para contemplar o amor da civilização aos livros impressos. Prédio lindo por fora e impactante por dentro. Fui muitas vezes. Entram e saem pessoas, fotografam. . . e vão embora. Virou um imenso wall paper ou um fundo de selfie. . . Sim, há leitores, claro, porém em número muito menor. Não queimamos mais bibliotecas, apenas não ligamos muito para elas, ao passo que postamos e postamos e postamos. Curiosamente, nas mãos de todos nós, estão bibliotecas inteiras, as maiores que o mundo já viu. Cada celular acessa edições completas e de domínio público da Divina Comédia ou de qualquer obra de Machado de Assis. Tudo o que já foi escrito e impresso pode ser verificado ao toque de um dedo. À memória de um bom celular e o auxílio da Nuvem, essa entidade nova e onisciente, transformam cada proprietário de um smartphone em um possuidor do saber universal para preencher muitas vidas.


Temos tudo ao alcance do indicador. Como o Deus barbudo do teto da Capela Sistina, estendo meu braço e surge não um novo Adão, todavia toda a humanidade e seu saber. Amparado pelos anjos chamados conexão, serafins de bites e querubins de memória, posso ler ou até ordenar que minha biblioteca manual fale por si, caso meus olhos fiquem exauridos. Nunca conseguimos tanto. Jamais fomos tão longe. Resta uma melancolia como se cumpríssemos o poema de T. S. Eliot de um mundo que expira 'não com uma explosão, mas com um suspiro'. Talvez seja uma notificação de que há mensagem, mais do que um poético suspiro. Querida leitora e estimado leitor: como anda sua biblioteca? PS: Dia 30 de setembro é dia de São Jerônimo, padroeiro de tradutores, secretários e. . . de todas as bibliotecárias e bibliotecários do mundo.


"Cada proprietário de smartphone se torna um possuidor do saber universal"


É HISTORIADOR, ESCRITOR, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, AUTOR DE 'A CORAGEM DA ESPERANÇA, ENTRE OUTROS

domingo, 26 de setembro de 2021

Vacina contra covid: 3ª dose não deve ser para todos, diz criadora do imunizante de Oxford(BBC 10 9 21)

 

Katie Wright

Da BBC News

10 setembro 2021

Professora Sarah Gilbert


A professora Sarah Gilbert diz que doses extras devem ser usadas para aumentar a imunidade em países com baixos índices de vacinação


A cientista que liderou a criação do imunizante de Oxford contra covid disse que vacinar todas as pessoas com terceira dose é desnecessário. Ela também fez um apelo para que as doses sejam enviadas para países necessitados.


A professora Sarah Gilbert disse ao jornal britânico Daily Telegraph que alguns grupos vulneráveis de pessoas precisam de reforços, mas que na maioria dos casos a imunidade está "durando bastante".


"Precisamos levar vacinas para países onde poucas pessoas foram vacinadas até agora", disse ela.



O órgão consultivo de vacinas do Reino Unido deve dar nos próximos dias um parecer final sobre doses de reforço no país.




O Comitê Conjunto de Vacinação e Imunização (JCVI, na sigla em inglês) já disse que uma terceira dose deverá ser oferecida a pessoas com sistema imunológico enfraquecido, o que corresponde a até meio milhão de pessoas no Reino Unido. Mas o comitê ainda não decidiu se a terceira dose será ampliada para outros grupos.



O secretário de Saúde, Sajid Javid, disse na quinta-feira (09/09) que estava aguardando a "recomendação final" do JCVI, mas estava "confiante" de que um programa de dose de reforço começaria ainda no final de setembro.


A recomendação provisória emitida pelo JCVI em julho sugeriu que mais de 30 milhões de pessoas deveriam receber uma terceira dose, incluindo todos os adultos com mais de 50 anos.


O regulador de medicamentos do Reino Unido (MHRA, na sigla em inglês) aprovou o uso da Pfizer e da AstraZeneca como vacinas de reforço contra covid, abrindo caminho para uma implementação antes do inverno.



Professora Sarah Gilbert diz que a imunidade gerada por duas doses da vacina contra a covid está "durando bastante"


A cientista Sarah Gilbert, que começou a desenvolver a vacina Oxford-AstraZeneca no início de 2020, quando a covid foi identificada pela primeira vez na China, disse que a decisão sobre doses de reforço precisa ser analisada com cuidado.


Ela disse ao Telegraph: "Vamos examinar cada situação; os imunocomprometidos e os idosos receberão reforços. Mas não acho que precisamos dar reforço para todo mundo. A imunidade está durando bastante na maioria das pessoas."


No entanto, ela disse que o Reino Unido precisa ajudar mais países ao redor do mundo com o fornecimento de vacinas. "Temos que fazer melhor a este respeito. A primeira dose tem o maior impacto".


O professor Sir Andrew Pollard, diretor do Oxford Vaccine Group, concordou que há um "incêndio em todo o mundo, com enorme pressão sobre os sistemas de saúde em muitos, muitos países".


Ele disse à BBC que o Reino Unido tem uma "obrigação moral" de ajudar outros países, acrescentando: "Há um risco tão grande, moralmente, de nossa perspectiva — há um risco para o comércio, há um risco para as economias, mas são também nossos amigos e colegas que precisam ser protegidos e estamos os perdendo a cada dia que passa. "


Pollard também disse que o Reino Unido ainda tem altos níveis de proteção contra o vírus, apesar da queda nos níveis de resposta imunológica das pessoas algum tempo após terem recebido a vacina. O JCVI precisa investigar melhor os casos de pessoas que acabam hospitalizadas, acrescentou ele.


Mais de 48,3 milhões de pessoas no Reino Unido (88,8% da população com mais de 16 anos) receberam a primeira dose da vacina e 43,7 milhões receberam as duas doses.


O Reino Unido encomendou mais de 540 milhões de doses de sete das vacinas mais promissoras, incluindo as quatro até agora aprovadas para uso — Pfizer, Oxford-AstraZeneca, Moderna e Janssen.


No entanto, existem grandes diferenças no ritmo do progresso em diferentes partes do mundo e o governo se comprometeu a doar 100 milhões de doses excedentes aos países mais pobres antes de meados de 2022.